ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
“São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

14.6.15

AZULEJOS DECORATIVOS

Painel de azulejos numa padaria da Rua do Riachuelo

Galeria Scenarium com fachada de azulejos & exposição permanente de azulejos

Azulejos com motivos marinhos em muro de casa na Urca

Uma herança bendita da colonização lusitana é o uso de azulejos como ornamento arquitetônico (que se distingue do seu uso meramente utilitário): na decoração de fachadas, muros e interiores de casas; em naves, sacristias, torres e até cúpulas de igrejas; em painéis artísticos — em projetos modernistas como Pedregulho e o Palácio Gustavo Capanema, na arte ambiente contemporânea (por exemplo, o painel alusivo ao frescobol em Copacabana) ou mesmo em bares, padarias etc. —; no revestimento de fontes, bancos e outros objetos; ou mesmo o uso de um azulejo isolado, comum nas fachadas das construções em estilo Missões (neocolonial hispano-americano) ou nos registros de santos das casinhas de subúrbio.

O emprego dos azulejos (“peças de cerâmica vitrificadas e/ou esmaltadas usadas, sobretudo, no revestimento de parede”) na arquitetura remonta às velhas civilizações orientais (assíria, persa, egípcia, chinesa), tendo sido assimilado pelo mundo árabe que, em sua expansão, trouxe-o à Península Ibérica, encontrando ampla utilização em Portugal com o florescimento do estilo manuelino. (Mais informações na Enciclopédia Cultural Itaú clicando aqui.)

Azulejos art nouveau na Escadaria Selaron (Lapa)

Casa com fachada de azulejos e beiral de telhões de louça no Morro da Conceição

Casa na Rua Sorocaba (Botafogo) com fachada de azulejos esmaltados

Para o apreciador da arte da azulejaria gostaríamos de recomendar estas quatro fontes:

1) Blog Azulejos Antigos do Rio de Janeiro de Fábio Carvalho, pesquisador da história da indústria de louça brasileira e autor do livro Porcelana Brasil - Guia de Marcas.

2) Postagem “Os painéis de azulejos e os mosaicos da cidade do Rio de Janeiro” no blog As histórias dos monumentos do Rio de Janeiro de Vera Dias, Gerente de Monumentos e Chafarizes da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.

3) A exposição permanente Azul Cobalto, Azulejos e Memórias na Galeria Scenarium (Rua do Lavradio, 15 - Centro)

4) As postagens com label "azulejos" do excelente blog A Vida Numa Goa.

Palácio São Clemente (Consulado de Portugal) em Botafogo

Azulejo com motivo religioso (aqui Nossa Senhora de Fátima, mas poderia ser um santo) típico das casinhas de subúrbio

Fonte com revestimento de azulejos na Floresta da Tijuca

A seguir, trecho de Comunicação de Fábio Carvalho apresentada no Segundo Encontro O AZULEJO HOJE, no dia 6/12/2013, no Teatro Aberto, Lisboa, Portugal. Para ler o texto integral clique aqui.

Neste curto espaço de tempo em que me dedico aos azulejos no casario antigo do Rio de Janeiro, talvez o dado mais interessante que pude constatar, naturalmente de forma ainda preliminar, é que apesar de popularmente acreditarmos que todos, ou quase todos, os azulejos antigos no Rio de Janeiro são portugueses (o que é compreensível, dada nossa origem como colônia portuguesa), não está correto. Na verdade, grande parte dos azulejos antigos de fachada no Rio de Janeiro até agora encontrados e registrados são, quantitativamente falando, em primeiro lugar holandeses, em segundo franceses. Há ainda azulejos belgas, ingleses e (talvez) alemães. Os azulejos portugueses encontram-se em quantidade surpreendentemente pequena. Minha pesquisa engloba apenas os azulejos que ainda encontram-se em fachadas, mas mesmo em algumas escavações arqueológicas de sítios do século XIX que pude ter acesso ao material coletado, a maior parte dos azulejos é também proveniente da Holanda. [...]

No levantamento já realizado, podemos perceber alguns padrões decorativos em azulejos holandeses similares aos encontrados em Portugal [...] Além disso, encontramos ainda nas fachadas do casario antigo do Rio de Janeiro azulejos de origem holandesa e francesa que compartilham um mesmo padrão decorativo.

Outro dado interessante do uso de azulejos no Rio de Janeiro é a mistura dos padrões, bem como a combinação de azulejos de mais de uma nacionalidade, em um mesmo imóvel. Não é incomum ver num imóvel um padrão sendo usado por toda a fachada, mas com um friso ou faixa formada por outro padrão. Mas há casos onde usou-se um padrão para as áreas principais da fachada, outro padrão para o friso abaixo da platibanda, um terceiro padrão para áreas verticais destacadas da fachada, como se fossem colunas, ainda um quarto padrão para a platibanda... E muitas vezes, cada padrão é acompanhado por uma cercadura diferente do outro.

Outro fato notável é a quantidade de imóveis com telhões de faiança pintada ainda existentes no Rio de Janeiro. Já foram registrados 20 imóveis com beirais em telhão de faiança pintada na cidade. Encontram-se também outros elementos decorativos em faiança, como urnas, pinhas e estátuas. Aí sim, nos telhões e ornamentos de faiança, há a soberania portuguesa.

Mesmo que se confirme a tendência apresentada neste levantamento inicial, de que a maior parte dos azulejos antigos de fachada no Rio de Janeiro seriam holandeses e em segundo lugar franceses, ainda assim, a sua forma de uso e aplicação é tipicamente luso-brasileira, ou seja, fachadas frontais de imóveis revestidas de azulejos, quase sempre associados com trabalho em cantaria. E ainda por cima, os azulejos antigos no Rio de Janeiro encontram-se em fachadas com arquitetura similar àquela do norte de Portugal do mesmo período (meados do século XIX até os primeiros anos do século XX). Talvez daí também se pensar apressadamente que os azulejos antigos no Rio de Janeiro sejam portugueses.

Por fim, acho interessante apontar para um outro uso característico para os azulejos no Rio de Janeiro (mas que também acontece em algumas outras cidades brasileiras): cúpulas de igreja azulejadas. Algumas vezes os azulejos são aplicados de forma homogênea, em outras, são cortados de forma a compor desenhos em mosaico. E o efeito do brilho e colorido dos azulejos em contraste com a cantaria é algo de grande beleza, emprestando às cúpulas uma sensação de leveza.

Azulejos da Igreja de N.S. da Saúde. A história de José no Egito representada nos azulejos é uma alusão à atividade de armazenamento do Porto do Rio.

Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Lapa do Desterro (conhecida como Igreja da Lapa) e casa conventual

Painel de azulejos homenageando o bloco Simpatia É Quase Amor na estação de metrô General Osório

Painel de azulejos homenageando o frescobol, “Único esporte com espírito esportivo, sem disputa formal, vencidos ou vencedor” segundo Millôr

Casa no Grajaú em estilo Missões (neocolonial hispano-americano, diferente do neocolonial luso-brasileiro). Uma das características desse estilo são azulejos formando painéis ou isolados. Estas e fotos adicionais podem ser vistas no álbum Azulejos.

6.6.15

SOCIEDADE BRASILEIRA DE BELAS ARTES, ANTIGO SOLAR DO MARQUÊS DE LAVRADIO

O solar, prédio do século XVIII posteriormente neoclassicizado e ecleticizado

Localizado na Rua do Lavradio, 84, o Solar do Marquês do Lavradio foi construído em 1777, a mando do 3º Vice-Rei do Brasil Colônia, segundo Marquês do Lavradio, durante a transferência da Capital de Salvador para o Rio de Janeiro. O prédio abrigou diversos órgãos como o Tribunal da Relação, em 1808, o Tribunal do Desembargo, em 1812, o Tribunal da Relação e Senado Federal, em 1831, o Tribunal de Justiça, em 1833. Em 1838, o bem passou a ser um próprio Nacional. Mais tarde foi ocupado por outros órgãos estaduais como o Instituto Felix Pacheco e o Departamento de Ordem Política e Social da Polícia Estadual. Originalmente uma construção em estilo colonial, o solar adquiriu sua atual composição eclética, segundo o Arquivo Geral do Município do Rio de Janeiro, em reforma efetuada em 1894 por autor não identificado. Em 1967 o prédio foi cedido à Sociedade Brasileira de Belas Artes. (Informações transcritas do site do INEPAC)


Pisos de ladrilhos hidráulicos de reformas do início do século XIX e azulejos do começo do século XX

Quadros numa exposição

"A arte é um exercício da alma, onde o que fala mais alto é o coração e a intuição do artista, sendo auxiliada pela técnica. A arte é a minha oração." Gian Paolo Dottes

Ateliê de pintura

Quadros numa exposição II

Matéria de Simone Candida de 30/3/2015 em O Globo aborda a restauração do solar e sua reabertura ao público. A seguir, um trecho. Para ler na íntegra clique aqui.

"A reforma, iniciada em 2010 e orçada em R$ 3 milhões, acabou custando cerca de R$ 6 milhões.

— Apesar de ter passado por intervenções, o prédio tinha uma estrutura interna muito antiga, que estava consumida por cupins. O telhado, os forros e pisos tiveram que ser refeitos. A fachada estava em relativo bom estado — enumera Paulo Vidal, diretor-geral do Inepac, dizendo que algumas áreas, como os banheiros, foram modernizadas. [...] 

A restauração foi custeada pela WTorre RJC Patrimonial Ltda., em contrapartida pela construção de um prédio na região."

27.5.15

GRACILIANO RAMOS NO RIO DE JANEIRO

O texto a seguir, de Selma Caetano, foi extraído do folheto da exposição O Cronista Graciliano no Rio de Janeiro, exibida de 14/2/15 a 31/5/15 (embora o folheto indique 19/4) no Arte Sesc, da qual ela foi curadora e produtora executiva. Ilustrações também extraídas do folheto.



Homem de temperamento reflexivo, o romancista Graciliano Ramos escondia, sob a aparência discreta, uma grande agitação interior. Andarilho obsessivo, em suas lentas caminhadas pelo Rio de Janeiro fisgou a alma da cidade.

Os 450 anos do Rio de Janeiro proporcionam excelente oportunidade para um reencontro com o cronista Graciliano Ramos, que tão bem compreendeu as contradições da cidade, retratando-a para além das aparências e dos clichês.

A vocação de grande observador já se expressa nas cartas que envia para a família em sua primeira passagem pela cidade, nos anos 1914 e 1915. Aos 21 anos de idade, Graciliano decide deixar a pacata Palmeira dos Índios, e embarca no navio Itassucê para uma viagem rumo à então capital do país. Aqui chegando, hospeda-se em uma pensão na Lapa, o tradicional bairro boêmio, e o "medonho barulho da rua" o endoidece. Emprega-se como revisor na imprensa carioca, mas não se adapta à rotina ruidosa dos jornais e à vida literária do Rio de Janeiro da Belle Époque, onde “o pobre diabo que for tímido, que não declarar que é um gênio, é uma criatura morta”. Decepcionado, o rapaz da província retorna a Alagoas no ano seguinte.

A primeira e curta permanência de Graciliano no Rio é decepcionante, mas não sem proveito. É do Rio a inspiração do enredo do romance Angústia, de 1936. Mais tarde, recordou: “A pensão do largo da Lapa está em Angústia. Dagoberto foi meu vizinho de quarto”. A agitação da cidade refina sua alma de cronista e exacerba seu espírito critico.

Vinte e dois anos depois, em 1936, já com dois romances publicados e um terceiro a caminho, Graciliano retorna ao Rio de Janeiro. Viaja, dessa vez, a bordo do navio-prisão Manaus, sem pagar passagem, carregando a acusação de ter participado do levante comunista de 1935. Logo depois do desembarque, é  levado para a Casa de Detenção da rua Frei Caneca, no Catumbi. Se chega contra a vontade, quando em liberdade aqui permanece até a morte.

Escreve Vidas Secas em um quarto de pensão, no Catete. Dois anos depois, muda-se para uma agradável rua do bairro da Lagoa e, logo em seguida, para um modesto apartamento na Tijuca, onde publica Infância.. Mora, ainda, em um edifício de dois andares, em Laranjeiras, onde começa a escrever Memórias do Cárcere, sobre os horrores vividos em 1936 no presídio da Ilha Grande. Muda-se, por fim, para o Leblon. Falece, aos 60 anos de idade, no ano de 1953, numa casa de saúde situada na Praia de Botafogo.

Crônicas, compostas nesses dois diferentes momentos, expõem a convivência de Graciliano com o Rio de Janeiro. Ainda que deixando de lado a ficção, ele escreve, com a força de seu estilo, exatamente sobre o que vê. Adota como motivos de reflexão temas do cotidiano, banais porém carregados de história e das contradições humanas — como um passeio de bonde [crônica que você pode ler clicando aqui], um nome de rua, uma música de carnaval [leia aqui]. E ainda a Livraria José Olympio, tradicional ponto de encontro dos intelectuais cariocas entre os anos 1930 e 1940. Por meio das crônicas e também dos discursos políticos, pronunciados em diferentes espaços da capital e publicados na imprensa comunista, desenha um retrato da vida social, a um só tempo curioso e denso.

Em carta que envia à irmã Otacília, na primeira ida ao Rio, em 1915, Graciliano revela sua admiração pela beleza da cidade, num passeio pelo morro do Castelo, que seria destruído em 1921:


São duas horas da madrugada.. Venho de um magnífico passeio ao morro do Castelo, onde estive a admirar lá de cima as belezas do Rio. O panorama era delicioso. A cidade ficava-nos mesmo por baixo dos pés. O Rio, à noite, é sublime. O monte por onde andamos, a galgar muros, a segurar arames, para não cair, fazendo exercício de dançarinos de corda bamba, é o que se pode desejar de pitoresco — ruas velhas, sujas, de calçamento reles; casas caducas, sem platibanda, baixinhas, como as da roça; prédios em ruína, de construção colonial; grupos de mulheres do povo a palrar, gritando, pelas calçadas, os braços arregaçados; cabras e cães soltos pelas ruas. Uma delicia! 


15.5.15

TURISMO CULTURAL NO BAIRRO IMPERIAL DE SÃO CRISTÓVÃO


Uma viagem pela história, ciência e cultura de nossa cidade. Esta é a proposta do Turismo Cultural no Bairro Imperial de São Cristóvão, um evento que faz parte das atividades da Semana Nacional de Museus, promovida pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM).

Realizado anualmente no mês de maio, a Quinta da Boa Vista (Museu Nacional) é o ponto de partida desse roteiro cultural pelo bairro de São Cristóvão. Entre 10h e 16h, em intervalos regulares, ônibus gratuitos saem do Parque com destino às instituições culturais do bairro.

Fazem parte do roteiro o Museu Nacional/UFRJ, Museu Militar Conde de Linhares, Centro Cultural Maçônico/Supremo Conselho do Brasil, Museu de Astronomia e Ciências Afins, Primeiro Batalhão de Guardas e Centro Hípico do Exército, todos com entrada franca e uma série de atividades especiais. O editor do blog gostaria de recomendar especialmente as palestras do historiador Nireu Cavalcanti e do escritor Helio Brasil no Centro Cultural Maçônico às 14 horas do domingo.


A seguir fotos tiradas durante o evento, no sábado:

Quinta da Boa Vista ao entardecer

Cavalo em sua baia no Centro Hípico do Exército

Primeiro Batalhão de Guardas, unidade de elite criada por D. Pedro I, extinta com sua abdicação e recriada por Getúlio Vargas. Atuou na Guerra da Independência, combate à Intentona Comunista e na pacificação de comunidades cariocas.

O soldado e seu fiel amigo no Primeiro Batalhão de Guardas

O editor do blog pilota uma Harley-Davidson (parada) no 1o Batalhão de Guardas

Cup cakes no Circuito Moda Carioca no Museu Militar Conde de Linhares

Museu de Astronomia no antigo Observatório Nacional. "Localizado no alto de um morro, o acesso ao campus se faz por um elevador instalado numa caixa de decoração eclética, anunciando a arquitetura dominante deste interessante conjunto: uma mistura de tecnologia moderna com arquitetura beaux-arts. O prédio principal é um pequeno palácio classicizante com cúpula, bela escadaria cenográfica e um vitral alegórico. Os outros edifícios que abrigam instrumental astronômico também têm interesse." Guia da Arquitetura Eclética no Rio de Janeiro

Vitral de Urânia, Musa da Astronomia, no antigo Observatório Nacional

27.4.15

EVOLUÇÃO URBANA DO RIO DE JANEIRO

Fundada na Urca em 1565, com a derrota dos invasores franceses a cidade se transferiu, em 1567, para a posição elevada do Morro do Castelo, onde foi construída a Fortaleza de São Sebastião, a Igreja de São Sebastião (que viria a ser a primeira catedral da cidade), a igreja e colégio dos jesuítas e vários prédios públicos. Do morro a cidade começou a descer para a Várzea (a parte baixa), na época cheia de alagadiços e charcos. Até meados do século XVIII a malha urbana se restringiu ao quadrilátero delimitado pelos morros do Castelo, de Santo Antônio (onde os frades franciscanos se estabeleceram no início do século XVII), de São Bento (onde os frades beneditinos se estabeleceram no final do século XVI) e da Conceição. O primeiro caminho, ligando o Morro do Castelo ao Morro de São Bento, deu origem às duas ruas mais importantes do Rio Colonial: Rua da Misericórdia e Rua Direita (atual Rua Primeiro de Março, dia do fim da Guerra do Paraguai). Quando o Morro do Castelo foi demolido no século XX, o pedacinho inicial da Ladeira da Misericórdia, que subia ao alto do morro, foi preservado — existe até hoje (foto abaixo).



De início a produção de açúcar foi a principal atividade econômica da cidade, em sesmarias recebidas pelos padres jesuítas: Engenho Velho, Engenho Novo, Engenho de Dentro e Santa Cruz, ao norte, e o Engenho D’El Rei, ao sul, nas margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. (Hoje em dia Engenho Novo, Engenho de Dentro e Santa Cruz são bairros cariocas.) Dois caminhos, abertos para dar acesso aos engenhos, delinearam os eixos do futuro crescimento urbano.

A descoberta de ouro nas Minas Gerais trouxe prosperidade ao Rio, e grandes obras foram realizadas: o Aqueduto da Carioca (os Arcos da Lapa), a obra mais monumental do Rio colonial, concluído em 1750; o aterro da Lagoa do Boqueirão para construção do primeiro parque público carioca, o Passeio Público; o Paço.

A partir do século XIX, quando se tornou a sede do governo português e, depois, do Brasil independente, a cidade transpôs os limites da urbe colonial. Chácaras começaram a ser construídas nos arrabaldes da cidade: Glória, Catete, Laranjeiras, Botafogo, São Cristóvão. Na Cidade Velha casas térreas coloniais deram lugar a sobrados. Com o aterramento do mangal de São Diogo surgiu, na área mais além do Campo de Santana, a Cidade Nova (que hoje é o nome de um bairro). Grandes prédios neoclássicos foram erguidos no século XIX:

  • Academia Militar: Projeto de 1811, no Largo de São Francisco, atual Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ onde estudei nos anos de chumbo.
  •  Casa da Moeda: projeto de 1858, na Praça da República, atual Arquivo Nacional.
  • Sede nova da Santa Casa: projetos de 1840 e 1865 (ampliação), na Rua Santa Luzia, 206 — Centro.
  • Campus hospitalar da Beneficência Portuguesa: projeto de 1840, na Rua Santo Amaro, 80/84 — Glória.
  • Hospício de Alienados (onde Policarpo Quaresma passou uma temporada no famoso romance): projeto de 1842, atual Palácio Universitário da UFRJ, na Av. Pasteur, 250 — Urca.
  • Paço de São Cristóvão: atual Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista (foto abaixo).



Consolidada a República, o presidente Rodrigues Alves (1902-1906) incumbiu o prefeito Pereira Passos de tornar a cidade digna da Capital Federal da República do Brasil, uma espécie de "Paris dos trópicos". Na época, a nossa economia se sustentava na exportação do café. Atacaram-se três frentes: 1) um imenso aterro para a construção de um cais do porto moderno; 2) alargamento e abertura de ruas e avenidas, com destaque para a Av. Central (atual Av. Rio Branco), rasgando o centro da cidade e dando acesso ao porto, e a Avenida Beira-Mar, levando à Zona Sul; e 3) uma campanha de saneamento para erradicação de doenças como febre amarela e malária.

Na década de 1920 o desmonte do Morro do Castelo ampliou as fronteiras do Centro, abrindo uma nova área de ocupação (a Esplanada do Castelo) e fornecendo pedras para novos aterramentos do mar.

Já com a abertura da Avenida Central, depois Rio Branco, começa a era da densificação da ocupação dos espaços via verticalização (mais detalhes aqui). Em 1929 ergue-se um impressionante arranha-céu, valendo-se da tecnologia do concreto armado: o Edifício A Noite, com 22 andares, na Praça Mauá, 7. 

No início da década de 1940 a abertura da monumental Avenida Getúlio Vargas dividiu o Centro em duas “metades” e acabou resultando no abandono e degradação da Zona Portuária (situação que agora se procura reverter com o Projeto Porto Maravilha).

A abertura da Av. Central, a derrubada do Morro do Castelo e a abertura da Av. Presidente Vargas resultaram na destruição de casas e cortiços — o chamado “bota abaixo” — empurrando as populações de menor renda para os morros, bem como para os subúrbios surgidos com a implantação do trem suburbano já na segunda metade do século XIX (quem leu Dom Casmurro do Machado deve lembrar que a história começa no trem da Central: “Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu.”)

No ano do quarto centenário da cidade (1965) Carlos Lacerda inaugurou a enorme área de parque no Aterro do Flamengo. Nessa época foram realizadas grandes obras viárias ligando as zonas sul e norte da cidade: o Túnel Rebouças e Túnel Santa Bárbara.

Nos anos 70, época do “milagre brasileiro” e do “Ninguém segura este país”, surgiram a auto-estrada Lagoa-Barra, facilitando o acesso à Zona Oeste da cidade, a ponte Rio-Niterói e o metrô. Mas até 1982 para pegar a Lagoa-Barra você tinha que enfrentar o engarrafamento da Rua Marquês de São Vicente.

Nos anos 90 surgiram a Linha Vermelha e a Linha Amarela, grandes vias de circulação previstas no Plano Doxiádis dos anos 60.

Agora que comemora 450 anos e às vésperas das Olimpíadas cariocas, o Rio volta a sofrer grandes intervenções: Porto Maravilha, Parque de Madureira, expansão do metrô até a Barra, VLTs interligando o Centro, BRTs interligando a cidade, reforma do bondinho de Santa Teresa, Museu do Amanhã e da Imagem e do Som, sem falar nas obras especificamente voltadas para as modalidades desportivas como as arenas e centros olímpicos.

HISTÓRIA DOS ATERROS DO RIO

A expansão urbana da cidade do Rio de Janeiro exigiu uma série de intervenções para domar o ambiente hostil. Assim foi que se aterraram mangues, drenaram lagoas e mais tarde se derrubaram morros para com suas pedras avançar mar adentro. (Às vezes me flagro pensando com meus botões que, se a máquina do tempo existisse realmente, no Rio de Janeiro seria perigosa pois, conforme o lugar onde você a utilizasse, poderia ir parar em pleno mar cem, duzentos, trezentos anos atrás!) De igrejinhas antes situadas a beira-mar — como de São Cristóvão, Santo Cristo, São Francisco da Prainha, Santa Luzia e da Glória — hoje a gente nem sente o cheiro da maresia!

O aterro do Flamengo foi o ápice de uma sucessão de aterros marítimos que começou no início do século XX:

  • Com o desmonte do Morro do Senado, onde hoje fica a Praça Cruz Vermelha, na virada do século XIX para o XX, aterrou-se a orla da Saúde, Gamboa e Santo Cristo, para a construção do Cais do Porto, e um trecho da orla da Glória para a abertura da Avenida Beira-Mar.
  • Com o desmonte do Morro do Castelo no início da década de 1920, aterrou-se: (i) o trecho do mar onde em 1936 surgiu o Aeroporto Santos Dumont e (ii) a enseada da Glória, onde em 1926 surgiu a Praça Paris. (Para saber mais clique em "Morro do Castelo" no menu da barra vertical direita.)
Morro de Santo Antônio em foto de Augusto Malta, com o convento e as duas igrejas no único trecho do morro preservado

  • Com o desmonte de parte do Morro de Santo Antônio na década de 1950 aterrou-se a área depois ocupada pelo Museu de Arte Moderna (inaugurado em 1958) e Monumento aos Pracinhas (construído de 1957 a 1960 - foto abaixo). Digamos que essa foi a primeira fase do que denominamos Aterro do Flamengo. Mas desde o final da década de 1940 já se projetava o aterramento ao longo de toda a Praia do Flamengo, dada a necessidade de desafogar o tráfego entre o Centro e a Zona Sul.
  • Somente durante o governo Carlos Lacerda, na década de 1960, criou-se um grupo de trabalho para reavaliar o projeto original do Aterro do Flamengo e dar continuidade às obras. Destacaram-se nesse grupo o arquiteto Affonso Eduardo Reidy, responsável pelos projetos urbanísticos e arquitetônicos, e Roberto Burle Marx, autor do magnífico projeto paisagístico.


Em outubro de 1965, ano do Quarto Centenário do Rio de Janeiro, o Aterro do Flamengo foi entregue à população carioca.

(Textos transcritos do meu livro Guia da Cidade Maravilhosa, com alguns acréscimos.)

VEJA TAMBÉM NESTE BLOG: HISTÓRIA DO RIO DE JANEIRO E MAPAS ANTIGOS DO RIO DE JANEIRO

19.4.15

PALÁCIO GUANABARA: VISITAÇÃO


Palácio Guanabara de Portas Abertas é o projeto de visitas guiadas, realizado com apoio técnico e parceria do Senac Rio. Os visitantes são recepcionados e conduzidos por alunos dos cursos de Turismo e Hospitalidade, que vivenciam na prática o que aprendem em sala de aula. As visitas se dão aos sábados de manhã (9, 10 e 11 horas), de 15 em 15 dias.



O Palácio Guanabara faz parte do patrimônio histórico e cultural do Rio de Janeiro e do Brasil. O imponente prédio foi sede de diferentes governos e hoje se encontra totalmente restaurado.

Construído em 1853, como resistência familiar, foi vendido para a família imperial em 1864. A residência foi reformada para abrigar a Princesa Isabel e o Conde D’Eu, passando a ser conhecida como Paço Isabel. Durante a reforma, o casal plantou inúmeras espécies vegetais exóticas, além de uma fileira dupla de palmeiras imperiais na Rua Paissandu, que marcava o caminho do Paço até a praia do Flamengo.

Em 1890, o Paço Isabel foi incorporado ao Patrimônio da União e rebatizado como Palácio Guanabara. Depois foi repartição militar, morada de Presidentes da República, abrigou o gabinete do Prefeito do Rio e, em 1960, passou a ser sede do Governo do Estado. (Informações transcritas do folheto do projeto)

Escadaria de acesso ao Salão Nobre

 Salão Nobre  em estilo rococó com mobília Luís XV e XVI. "Desde os tempos da Família Imperial, era um dos centros de reunião do Rio de Janeiro. Encontros políticos misturavam-se à música e à poesia. Hoje, também se destina a encontros de autoridades e importantes eventos do Estado." (Informações entre aspas transcritas do folheto do projeto)

Jardim de Inverno com fonte (desligada para economizar água até que se mude o sistema para reaproveitá-la)

Sala "Pé-de-Moleque". Esse calçamento, utilizado nos casarões do período colonial nas áreas destinadas ao uso dos escravos, foi descoberto durante obras de restauração em 2011 e coberto com vidro resistente para melhor preservação.

Ciranda, óleo sobre tela de Djanira exposto (junto com outros quadros brasileiros) na sala Pé-de-Moleque.

Um momento simpático da visita guiada é o pequeno recital do grupo de violoncelistas e contrabaixistas da Ação Social pela Música patrocinada pela Embratel.  

Jardim do palácio projetado pelo paisagista francês Paul Villon no início do séc. XX em estilo geométrico francês. 

Detalhe do Chafariz de Netuno: criança montada em delfim

Capela Santa Teresinha, em estilo neocolonial, construída em 1946 a pedido de Carmela Dutra, a esposa do então Presidente

6.4.15

DICA DE LIVRO: CONFEITARIA COLOMBO - SABORES DE UMA CIDADE

de RENATO FREIRE e ANTONIO EDMILSON MARTINS RODRIGUES
A Confeitaria Colombo, com seus espelhos enormes, mesas de tampo de mármore, piso de ladrilho hidráulico, cadeiras de palhinha, é uma atração turística da cidade. O livro traça um paralelo entre a evolução da Colombo e da cidade nos últimos cento e tantos anos, além de ensinar o “caminho das pedras”, as receitas das iguarias. A seguir, transcrevemos um curto capítulo, "O ovo da Colombo", da PARTE I do livro, “Colombo — Uma história bem temperada” de autoria de Antonio Edmilson Martins Rodrigues. A PARTE II, de Renato Freire, intitula-se “A Colombo e Sua Gastronomia”, a PARTE III é das Receitas, e no final temos a “English version” do texto. Bom apetite!


O ovo da Colombo

Desde que a Colombo foi inaugurada, em 1894, o Rio de Janeiro mudou, o Brasil se transformou, o mundo quase virou de cabeça para baixo. Em pouco mais de 100 anos duas guerras mundiais aconteceram, o homem foi à lua, nações inteiras nasceram e, de uma hora para outra, também foram para o beleléu. A confeitaria viu aparecer o rádio, o cinema, a televisão, o avião, a penicilina, o filtro solar, o micro-ondas, a internet, o rock, o ar-condicionado e o chiclete de bola.

No Brasil, a confeitaria acompanhou o sobe e desce na economia do país. Viu nada menos que nove moedas entrarem e saírem de circulação — coincidentemente, o Real era também a moeda da época da inauguração. Durante esse tempo, a Colombo assistiu a pelo menos três golpes de estado e a 33 homens e uma mulher tomarem posse na Presidência da República. Muitos deles — pelo menos uma vez na vida — atravessaram as portas da Gonçalves Dias para tomar um café.

Em todo esse tempo, o Rio de Janeiro - que deixou de ser a capital do país em 1961 — viu morros virem abaixo, ruas serem alargadas, casas demolidas, a orla mudar de lugar, pontes serem erguidas e túneis abertos em todos os cantos. A cidade mudou. Hoje as confeitarias quase não existem mais. O Centro perdeu parte de sua importância, mas o carioca de verdade, quando quer dizer que está indo para lá, ainda diz simplesmente "Vou à cidade".

Com a reestruturação do Rio, o carioca migrou para a Zona Sul e descobriu a praia, o biquíni, o futebol, a minissaia, a bermuda, o chinelo de dedo, o botequim de esquina, o surfe, as chapinhas de cabelo, o samba e as escolas de samba. Muita coisa se modificou, mas, durante esse tempo todo, a Colombo esteve no mesmo lugar: rua Gonçalves Dias, 32.

O interior da casa mudou pouco durante esse século. As cristaleiras, os lustres, a claraboia, o piso e os espelhos belgas permanecem no mesmo lugar. O cardápio — ainda que guarde boa parte dos quitutes que lhe deram fama — soube se renovar para se adequar aos novos tempos. As frutas tropicais se somaram às importadas, a cerveja divide lugar com os uísques, a feijoada tem posição de destaque no buffet. Em 100 anos, a Colombo viu surgir o cajuzinho, o brigadeiro, o bombom de cupuaçu, a caipirinha, o mil-folhas de creme, o suco de acerola e a Coca-Cola. Mas — de um jeito difícil de explicar — parece que nada mudou, que tudo permanece como há 100 anos.

Esse sempre foi o segredo da casa. Desde os tempos de Manuel Lebrão, a Colombo percebeu que devia permanecer em constante mutação para parecer ser sempre a mesma. Um conceito que vale para a arquitetura, para a decoração, para as atitudes dos empregados e para tudo o que consta do cardápio. É o tal truque. Durante esse tempo todo a confeitaria — como o Rio de Janeiro, a cidade que a abrigou — atravessou crises, enfrentou desafios, festejou vitórias e se quebrou muitas vezes para continuar a ser o que sempre foi: Confeitaria Colombo. Quebrada, reformada, renovada, festiva e, misteriosamente, de pé. Mais ou menos como o ovo da história de Colombo.