ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
“São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

1.2.13

CAJU: NOSSO PRIMEIRO BALNEÁRIO

Desta janela de um velho casarão neoclássico de 1876 via-se outrora o mar.

O velho Caju já foi um balneário. Lá D. João VI tomava seus banhos medicinais. “Certa vez D. João teve uma das pernas picadas por um carrapato, quando dormia à sombra de copadas árvores. O insignificante ferimento, aparentemente sem importância, provocou-lhe depois uma incômoda inchação, e o remédio que lhe indicaram seus médicos foi banho periódico de água salgada. Estes, ele os tomava na praia da Ponta do Caju, numa quinta adquirida de José Gouveia Freire [foto abaixo], que mandou dotar de um cais e uma capela. E os tomava, por precaução, numa espécie de banheira perfurada, que os seus fâmulos metiam n'água e tiravam graças a um complicado mecanismo. Estava, assim lançada na cidade oitocentista a moda dos banhos de mar e convertido o Caju no primeiro dos nossos balneários, frequentado por todos os Bragança, desde o filho de D. Maria, a Louca, até Dom Pedro II.” (Brasil Gerson, História das ruas do Rio, p. 158) 



A Casa de Banho D. João VI (que você vê na foto acima tirada por Rejane Minato em 2007) foi objeto de uma postagem neste blog em 2010 que você pode ver aqui. Três praias banhavam o Caju: 




1) a de São Cristóvão, que começava no bairro do mesmo nome e avançava até o Cemitério S. Francisco Xavier (naquele tempo não existia uma Avenida Brasil separando os dois bairros)

2) a Praia do Caju, onde ficava a Ponta do Caju (o local da Casa de Banhos de D. João VI), e

3) a Praia do Retiro Saudoso, atrás dos cemitérios.

Da Praia de São Cristóvão não resta sequer o nome: corresponde à atual Rua Monsenhor Manuel Gomes. A Praia do Caju sobrevive ao menos como nome de rua, conforme você vê na placa da foto abaixo (à direita). 


"Praia do Caju"

Casinhas de madeira na antiga Praia do Caju.

Velhas casas na antiga Praia do Caju, a da direita um belo casarão neoclássico de 1876 com fachada de azulejos. Sem nenhuma proteção legal, corre o risco de ser um dia derrubado.

Da Praia do Retiro Saudoso os únicos remanescentes são a "pitoresca" colônia de pescadores no píer em frente à Praça do Mar — conhecida também como “Varal” devido às redes penduradas — e uma rua com menos de 300 metros, Rua do Retiro Saudoso, atrás do Cemitério de São Francisco Xavier.


Barco no píer em frente da Praça do Mar em foto de  2007  de Rejane Minato.

"Saco do Raposo, Retiro Saudoso", onde hoje fica a Praça do Mar, pintado por Gustavo Dall'Ara em 1911 (foto garimpada por Raul Félix na Internet).

Em suas recordações da Praça Onze, conta Samuel Malamud: “Nos meses de verão, quando o calor era demasiado, grande parte da população judaica da Praça Onze se dava ao luxo de tomar banho de mar, seguindo o exemplo de seus vizinhos não judeus. Nas madrugadas, principalmente aos sábados e domingos, famílias inteiras enchiam os bondes que levavam às margens da Baía da Guanabara, nas imediações da parte do porto denominada Ponta do Caju. [...] O movimento dos banhistas era grande e tinha-se a impressão de que se tratava de uma excursão coletiva de lazer. A algazarra era imensa. [...] Quando me lembro das águas na praia do Caju, gordurosas do óleo e sujas dos despejos dos navios cargueiros que por lá ficavam ancorados. [...] não consigo compreender como se entrava naquelas águas.” (Samuel Malamud, Recordando a Praça Onze, pág. 34) 


"Alugo pra pescaria".

O píer, os barcos e a comunidade Quinta do Caju atrás.

A garça sobre a rede de pesca e o estaleiro atrás.

Águas poluídas.

Em seu Balão Cativo, escreveu Pedro Nava: “"Do outro lado, junto ao preto poste cintado de branco, esperávamos o bonde Caju-Retiro, seguíamos por ruas coloridas, cheias de gradis prateados e beirais de louça: a de São Cristóvão, a Figueira de Melo, a Rua Bela, a Conde de Leopoldina, a praia... Nesse tempo, praia mesmo. Não tinham ainda empurrado o mar para tão longe e ainda não tinham mudado seu lindo nome para Rua Monsenhor Manuel Gomes. [...] O velho mar das velhas praias de São Cristóvão e Ponta do Caju, onde se banhavam Dom João e os nosso dois Pedros. Agora, cheio de saveiros de velas multicores." (Pedro Nava, Balão Cativo, pág. 40 na edição da José Olympio) 


Capela de São Pedro na Praça do Mar.

Praça do Mar. Observe o "balanço" improvisado com uma rede de pesca.

De bairro balneário “visceralmente ligado ao desenvolvimento do hábito do banho de mar em nossa cidade” como observa Raul Félix, o Caju tornou-se primeiro um bairro de cemitérios, depois um prolongamento da Zona Portuária e, com a abertura da Avenida Brasil, foi apartado do seu bairro irmão São Cristóvão — e a abertura posterior da Linha Vermelha e do acesso à Ponte Rio-Niterói acabou por ilhar, sitiar, isolar o Caju. 


Caju, bairro sitiado por elevados e vias expressas.

Além disso tudo o bairro foi degradado por um processo de favelização. Minha amiga Rejane, que é artista plástica e que já me havia conduzido por São Cristóvão, levou-me por lá. Eis o resultado. 


Praça principal do Caju.
Igreja Presbiteriana.

Casinhas na Rua Tavares Guerra. Fotos do editor do blog, exceto as duas da Rejane, marcadas.

10.1.13

ESCADARIA SELARÓN



Jorge Selarón, pintor autodidata, nasceu no Chile em 1947. Sempre aventureiro, viajou para vários países. Desde 1983 vive no Brasil. Desde então, dedica-se a decorar com azulejos de todas as procedências os degraus que ligam a Lapa ao bairro de Santa Teresa. O interessante é que esta impressionante obra, que acabou sendo tombada pelo Município, nasceu da ação espontânea de um indivíduo, sem nenhuma ordenação oficial. Já num país dito “organizado” ou “avançado” este tipo de trabalho seria cerceado na raiz por atentar contra as posturas municipais, por assim dizer. Moral da história: essa belíssima escadaria é, em certo sentido, um efeito positivo da desorganização (ou espontaneidade, caso prefiram) brasileira. Aliás, meu pai sempre dizia (vai aqui uma digressão) que a organização extrema tem lá suas desvantagens. A organização alemã, dizia ele, gerou os campos de extermínio em massa e o Muro de Berlim, enquanto a Itália, mais latina, mais “caótica”, embora partícipe do Eixo, não chegou a tais extremos. Fim da digressão. Não deixe de visitar essa escadaria! (Ivo Korytowski, Guia da Cidade Maravilhosa, pp. 304-305)

Em 10/1/13 Selarón foi achado morto, em condições misteriosas, perto de seu ateliê, em meio a denúncias de que vinha sofrendo ameaças de um ex-auxiliar, envolvido com tráfico de drogas. Selarón havia registrado as ameaças na Polícia, mas a cidade à qual o artista dedicou seu talento não soube tomar medidas para protegê-lo. Uma lástima.




A GRANDE LOUCURA
Esta obra de arte começou no ano de 1990 como uma grande homenagem minha ao povo brasileiro, usando as cores da bandeira do Brasil, verde – azul – amarelo.
No ano de 1998, quando esta obra estava quase pronta conheci um lugar onde vendiam azulejos europeus antigos (na Praça XV – aos sábados) para colecionadores e decoradores; fiquei impressionado, eu tinha que comprá-los nem que fosse um a um.
Conforme trazia os novos azulejos importados, já não tinha lugar para mais nada.
Então inventei de trocar sempre os azulejos, uma substituição permanente dos mesmos. Foi um invento inédito, uma obra mutante, uma obra de arte viva...
Uma obra de arte geralmente é trocada ou restaurada em caso de terremoto, incêndio, etc. Neste caso é muito diferente.
As pessoas pensam que comprei cacos de azulejo para economizar dinheiro; no entanto, azulejos com as cores da bandeira não estão disponíveis no mercado, foram encomendados especialmente para esta escadaria. Depois foram quebrados com martelo e logo misturei cacos e azulejos inteiros.
A escadaria se tornou pouco a pouco uma verdadeira coleção de azulejos de todo o mundo com mais de 2000 (dois mil) azulejos diferentes.
Tem azulejos de: Portugal – Espanha – Inglaterra – Escócia – Irlanda – Alemanha – França – Marrocos – Holanda – Bélgica – Checoslováquia – Áustria – Suíça – Polónia – Egipto – Argélia – Turquia – Israel – Grécia – Itália – Síria – Líbano – Iraque – Irão (Pérsia) – Rússia – Índia – Paquistão – China – Japão – Tailândia – Indonésia – Filipinas – Coreia – Paraguai – Uruguai – África do Sul – Nigéria – Argentina – Colômbia – Chile – Peru – Bolívia – Equador – Venezuela – EUA – Canadá – México e Brasil.
No dia 7 de dezembro de 1999 chorei de emoção, consegui um azulejo pintado por mim, dia inesquecível só faltava isso poder pintar a MULHER GRÁVIDA [foto acima] que sempre pinto em todos os meus quadros desde o ano de 1977 por um problema pessoal…
Desde então pinto azulejos em homenagem às pessoas que ajudaram a fazer a história deste grande país: compositores, cantores, escritores, esportistas, jornalistas, apresentadores, profissionais, comerciantes, etc…
Também vários amigos, fregueses e vizinhos, que sempre ajudaram nesta obra de arte, feita com tanto sacrifício, obsessão e carinho.
Você também pode participar. Envie-me um azulejo antigo pelo correio e eu me comprometo a enviar-lhe uma foto dele colado na escadaria, ela tem 215 degraus.
Só acabarei este sonho louco e inédito no último dia de minha vida…
Selarón, Pintor-Chileno”









Fotos do editor do blog.

5.1.13

TELEFÉRICO DO COMPLEXO DO ALEMÃO


A novela Salve Jorge colocou o Complexo do Alemão em evidência, e o teleférico tem tudo para se tornar outra grande atração turística carioca. A vista no percurso e nos pontos de parada é inacreditável: o conjunto de morros, o mar de casas & barracos nos vales e encostas acima, tudo isso emoldurado pelo resto do Rio e além: você vê o Pão de Açúcar, Corcovado e Serra do Mar (ao longe), o Pico da Tijuca e a Igreja da Penha (não tão longe assim), a baía — quem tiver binóculo em casa traga. Como ir? É simples. Você pega o metrô ou ônibus até a Central, lá pega o trem do ramal Saracuruna (o antigo trem da Leopoldina) na Plataforma 12 até Bonsucesso (é perto; o percurso: São Cristóvão, Triagem, Manguinhos, Bonsucesso). O trem (meio velhinho) sai mais ou menos de 15 em 15 minutos, no site da Supervia você encontra informações precisas. Da própria estação Bonsucesso parte o teleférico. Tudo muito organizado, muito primeiro mundo. 


A antiga terra de ninguém, reduto de traficantes, hoje está pacificada, policiada, livre da ditadura do tráfico. Vá num dia de sol. O teleférico possui cinco estações: Adeus (1), Baiana (2), o famoso Alemão (3), Itararé (4), Palmeiras (5). Uma boa ideia é ir direto até a última, lá saltar e contemplar a vista, e na volta parar em uma ou outra estação (ou em todas) à vontade do freguês. O vídeo inicial mostra a volta da estação Palmeiras até Bonsucesso. O teleférico funciona de segunda a sexta-feira das 6h às 21h, sábados, domingos e feriados das 8h às 20h. Portanto vá cedo. Quando venta ou chove forte a operação é interrompida, por isso vá em dia de sol. Bom passeio!

NOTA: DESDE OUTUBRO DE 2016, O TELEFÉRICO ESTÁ PARALISADO, SEM PREVISÃO DE RETORNO.


Teleférico partindo da Estação Bonsucesso

Estação Adeus

Adeus! Adeus! Adeus! Palavra que faz chorar!

Chegando na Estação Baiana

Painel na Estação Baiana

Vista da Estação Baiana

O famoso "Alemão"

O famoso "Alemão" II

Alemão, lugar de gente feliz!

Estação Alemão: à direita, cenas da comunidade; à esquerda, Igreja da Penha e o "alemão", na verdade um polonês dono original das terras onde depois se formou a comunidade.

Estação Itararé vista do Alemão

Estação Itararé

Entre Palmeiras e Itararé

Chegando na Estação Palmeiras

Arte na Estação Palmeiras

Avenida Martin Luther King vista da Estação Palmeiras. Fotos e vídeo do editor do blog.

15.12.12

FORTALEZA DE SANTA CRUZ

TEXTO EXTRAÍDO DO GUIA MICHELIN DO RIO DE JANEIRO, 1a edição (1990)


Fortaleza de Santa Cruz com o Pão de Açúcar e Corcovado ao fundo

Guarita de acesso à fortaleza

Localizada no bairro de Jurujuba, na boca da barra da Baía de Guanabara, a fortaleza está instalada sobre um promontório, à frente dos Morros do Pico e dos Macacos.

Foi Villegagnon quem primeiro utilizou o local para fins militares, quando, em 1555, improvisou uma fortificação com algumas peças de artilharia que, em 1567, foi ocupada pelos portugueses que, então, a ampliaram, transformando-a no principal ponto de defesa da baía. Nessa ocasião, recebeu o nome de Bateria de Nossa Senhora da Guia.

Seu batismo de fogo ocorreu em 1599, quando impediu que a esquadra flamenga, comandada por Oliver Van Noort, entrasse na baía. Com a ameaça das invasões holandesas no Brasil, no início do século XVII, a bateria foi ampliada, recebendo vinte canhões, passando a chamar-se Fortaleza de Santa Cruz. Em 1710, impediu, juntamente com a Fortaleza de São João, a entrada na barra da esquadra corsária do francês François Duclerc. 


Capela de Santa Bárbara

Nessa mesma época, soube-se que a França organizava uma expedição, ainda mais bem preparada, contra o Rio de Janeiro, sob o comando de René Duguay Trouin, o que levou o rei de Portugal a determinar que uma forte corrente passasse a ligar as Fortalezas de Santa Cruz e de São João. Apesar disso, o governador do Rio de Janeiro relaxou a ordem e ainda determinou o desguarnecimento da fortaleza, que já, então, contava com quarenta e quatro canhões. Assim, não foi difícil a Duguay Trouin, em 1711, tomá-la e invadir o Rio de Janeiro.

De 1730 a 1831, manteve-se a fortaleza completamente armada, com 135 peças de artilharia. Em 1863, iniciou-se a construção da fortaleza como é hoje, em cantaria, com três andares: duas ordens de casamatas, tendo a primeira vinte canhões, a segunda vinte e um e o terceiro andar equipado com canhões de grosso calibre. Localizada em ponto de difícil acesso, a Fortaleza de Santa Cruz sempre serviu de prisão política. Lá estiveram, entre outros, Jose Bonifácio de Andrada e Silva; o caudilho uruguaio, André Artigas; o primeiro presidente do Uruguai, Frutuoso Rivera; o coronel Bento Gonçalves, herói da Guerra dos Farrapos. Na fase revolucionária de 1922 a 1930, foram aprisionados ali o Capitão Eduardo Gomes, Estilac Leal, Alcides Araújo e Juarez Távora. Esses três últimos foram os únicos, até hoje, a conseguir fugir da fortaleza. Este fato valeu ao seu então comandante, Mascarenhas de Moraes, uma transferência punitiva.


Interior da capela


Logo à entrada, na praça fronteira à fortaleza, encontram-se dois modernos canhões de 178 milímetros, instalados em 1942, voltados para o alto-mar. 

Cruzando a guarita de acesso à fortaleza, um pátio, totalmente calçado em pedra de cantaria, conduz à Capela de Santa Bárbara, construída no século XVIII. No interior, a imagem da Padroeira, em tamanho natural (1,43 metros), tem, numa das mãos, um cálice, que representa a virgindade e, em outra, uma espada, o que a torna guerreira, e por isso, a padroeira da Artilharia. Envolvendo a imagem, há uma história, segundo a qual a santa fora trazida para aquele lugar por engano; no entanto, sempre que se tentava removê-la dali, o que, na época, somente poderia ser feito por mar, um fato estranho acontecia: ao colocar a imagem no barco, as águas do mar tornavam-se, subitamente, agitadas, impossibilitando seu transporte. Depois de muitas tentativas, finalmente, a imagem foi deixada na capela, pois era ali, segundo se entendeu, que a santa queria ficar.


Amurada

Seguindo adiante, chega-se ao local chamado “Cova do Onça”, uma sala onde os presos eram torturados, em uma roda de madeira com lâminas cortantes, sendo, então, seus despojos jogados ao mar, através de um poço, localizado no lado oposto à entrada da sala. O nome  “Cova do Onça” provém da explicação da guarnição, ao ser perguntada pelos outros presos sobre a origem dos gritos dos torturados, de que eram os rugidos de uma onça, aprisionada no local.

A fortaleza possui três baterias de artilharia, dispostas em níveis diferentes. A mais moderna é a Bateria de Santa Teresa, ou Bateria do Imperador, composta por quatro peças de fabricação inglesa, sendo duas de 150 milímetros, datadas de 1867, e duas de 120 milímetros, de 1872. São canhões, com a boca em seção hexagonal, onde se colocavam os projéteis, carregados com pólvora na culatra. No local, um mastro de pau-brasil, com cerca de 18 metros de comprimento, serve ao hasteamento da Bandeira Nacional. A segunda bateria a ser construída foi a Dois de Dezembro, no nível inferior, composta de vinte e uma casamatas, dispostas em semicírculo. O comandante dessa bateria colocava-se na décima primeira casamata, de onde tinha uma visão perfeita de todas as outras, que eram equipadas com canhões ingleses de 120 milímetros, fabricados entre 1862 e 1865, e cujos disparos tinham um alcance entre 5 e 8 Km. A terceira bateria, e também a mais antiga, situada no nível mais baixo da fortaleza, é a Vinte e Cinco de Março, composta por vinte casamatas. Os canhões dessas duas últimas baterias eram imóveis, o que fazia com que a mira fosse obtida através de duas pequenas vigias, instaladas uma de cada lado da abertura onde ficava a boca do canhão. Um soldado ficava em cada vigia, e quando o navio inimigo era avistado pelos dois, ao mesmo tempo, o canhão era, então, disparado.


Farolete

Próximo à Bateria Vinte e Cinco de Marco, ficava, no passado, o paredão de fuzilamento: um muro de rocha, junto a uma fonte natural, que era utilizada para limpar o local de execução. Ainda são visíveis as marcas de balas nesse paredão.

Na outra extremidade dessa bateria, encontra-se uma pequena abertura, que serviria de fuga aos oficiais, em caso de perigo para a fortaleza, conduzindo ao mar, através de uma escadaria. Foi por este local que ocorreu a única fuga de presos registrada na história da fortaleza.

Algumas celas ainda são encontradas. Há uma, totalmente escura, por onde o ar e a c1aridade entram através de uma abertura mínima. É impossível ter ideia da dimensão da cela, mas sabe-se que abrigava dezenas de presos. Outras, denominadas "prisões no passado", tem uma característica curiosa: são cinco celas com alturas diferentes, o que permitia que, em três delas, os presos ficassem em pé; a quarta cela permitia apenas ficar sentado, e a última, somente deitado. Eram fechadas por grades, voltadas para um pequeno pátio, onde havia uma forca. Conta-se que o preso que não pudesse ser colocado nessas celas, devido à superlotação, era, então, enforcado.


Canhão, Pão de Açúcar e Corcovado

Acima da forca, há uma cisterna, construída em 1738, com capacidade para cerca de duzentos mil litros. Como a fortaleza não dispunha de água potável, esta era trazida por navios e transportada em tonéis, pelos presos, ate ali. 

A fortaleza, em seu conjunto, é uma construção sólida, com grossas paredes de cerca de um metro de espessura; possui casamatas, corredores e masmorras em pedra de cantaria, que se constituem em notáveis trabalhos de arquitetura militar. Um dos pontos de interesse da Fortaleza é a belíssima vista que oferece do Rio de Janeiro, especialmente do Pão de Açúcar, cujas vertentes oceânicas dificilmente podem ser apreciadas. Por ser região sob controle militar, o quadro natural está preservado, revelando a mesma beleza que ofereceu aos primeiros navegadores que cruzaram a barra da Baía de Guanabara.


Casamatas

Janela

Descendo às casamatas

Canhão imóvel

"No reinado de D. Pedro II, sendo ministro o Senador do Império J.J. de O. Junqueira, foi feito este quartel sob a direção da Comissão de Melhoramento do Material do Exército. Plano do major B.R. Gamboa. Execução do mestre D.J. Marques."

Cisterna de 1738

Prisão do séc. XVII

Velho canhão. Fotos do editor do blog.

Como chegar vindo do Rio: você pode pegar a barca para Niterói, lá aportando pegar um táxi à fortaleza ou, querendo economizar, o ônibus 33 no terminal ao lado das barcas (que normalmente só vai até Jurujuba, mas em alguns horários estica até a Fortaleza: ver aqui). Depois da visita sugiro caminhar até Jurujuba (30 minutos andando calmamente), lá comer num dos excelentes restaurantes de peixes, camarões e outros frutos do mar, enfim pegar o ônibus 33 no ponto final até as barcas e de lá retornar ao Rio. A ironia disso tudo é que da Fortaleza de Santa Cruz até a de São João na Urca a distância pelo mar é de menos de 2 quilômetros - mas não há como transpô-la, você tem que dar a volta!

3.12.12

TREM DO SAMBA 2012: NOS TRILHOS DA TRADIÇÃO CARIOCA



A 17a edição do Trem do Samba no ano de 2012 homenageou Chico Santana, nobre sambista portelense. Exaltando a cultura carioca, a tradição do trajeto de Paulo da Portela e comemorando o Dia Nacional do Samba, Marquinhos de Oswaldo Cruz e um grupo de sambistas refazem no trem a rota da diáspora dos descendentes de escravos expulsos do centro do Rio, alocados nos subúrbios e nos morros.

O Trem do Samba é uma grata oportunidade de relembrar a história do Rio de Janeiro. A herança de um povo oprimido, que foi capaz de gerar um ritmo identificador da cultura nacional, é celebrada em 3 dias de festas pelos sambistas tradicionais, da atual geração e pelo povo que embarca nesta viagem, que vai da Central do Brasil a Oswaldo Cruz — subúrbio da Cidade Maravilhosa. 

O editor deste blog fez umas filmagens amadoras captando o espírito dessa festa do samba, que podem ser vistas no YouTube clicando aqui.