ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

10.11.12

COPA GRAFFITI



Uma coisa são as pichações, os rabiscos que poluem paredes, muros, monumentos, outra coisa bem distinta são os grafites, uma modalidade nova de arte plástica  em espaços públicos usando como suporte muros, pilares de elevados, etc. Uma tendência atual é usar o grafite para recuperar visualmente áreas com a paisagem desfigurada por obras viárias como elevados (caso da Perimetral e do elevado Paulo de Frontin), pelo processo de favelização ou por outros motivos. 

Exemplo recente foi o evento Adicione Cor, promovido pelos tênis Converse, em que grafiteiros coloriram os pilares cinza do elevado da Perimetral defronte à estação das barcas. O fato de que esse elevado será futuramente demolido confirma a natureza efêmera da arte do grafite. Outro exemplo foi a Copa Graffiti promovida em outubro pelo metrô carioca, revitalizando os muros no entorno das estações da Linha 2. "Com painéis que retratam a história e a cultura dos bairros, a Copa Graffiti promove a valorização das regiões no entorno de 15 estações da linha 2 do metrô". (UOL Notícias

O blog Literatura & Rio de Janeiro desde a sua criação apoia essa modalidade de arte ambiente, como você pode conferir clicando no marcador “arte nas ruas” ao final da postagem. Aqui você tem apenas uma pequena amostra. Para ver mais fotos da Copa Graffiti e de grafites em geral fotografados pelo editor deste blog desde 2005, visite o nosso álbum Grafites Cariocas no Picasa.

RESULTADO DA COPA GRAFFITI:
Campeão na votação popular via Internet: Del Castilho
Terceiro lugar na escolha dos jurados: Irajá
Segundo lugar: Colégio
Campeão na escolha dos jurados: Thomaz Coelho
Mas o grande vencedor dessa copa foi a cidade do Rio que ficou mais bonita. A todas as equipes os parabéns do editor deste blog.


Estação São Cristóvão. O painel pretende "contar parte da história de São Cristóvão, retratando alguns dos lugares clássicos, assim como algumas de suas espetaculares personalidades. Como num conto, é aberta a porta do zoológico da Quinta da Boa Vista e liberta a criatividade dos artistas, que foram desafiados a interpretar cada personagem na visão de um animal." (Facebook do Metrô Rio) . 

Estação Maracanã. "A pintura do painel na Estação Maracanã aborda tanto a identidade da região - através dos papagaios (maraka'nã em tupi) que deram nome ao local e a extinta Favela do Esqueleto - quanto a importância do Estádio Jornalista Mário Filho - carinhosamente apelidado de Maraca - para a história do futebol mundial." (Facebook do Metrô Rio)

Estação Triagem. "O painel conta uma história de superação. Começa no lixo, que passa por uma reciclagem, que passa por uma disciplina militar. Na parte dos vagões e da estação, a locomoção para o trabalho ou lazer..." 

Estação Triagem. "... Segue o carnaval, como tema a Mangueira, que tem forte influencia cultural no bairro, bem como samba, feijoada e pelada (futebol). E por último um menino humilde de classe baixa desenhando essa história." (Facebook do Metrô Rio)

Estação Maria da Graça

Estação Maria da Graça. "Um painel de arte urbana com todas as riquezas de cores e detalhes. Todos os estilos de graffiti em um só painel."

Estação Del Castilho (campeã da Copa Grafitte pelo voto popular via Internet). "A antiga fábrica de tecidos que se tornou o shopping Nova América, foi o ponto de partida desse time para ilustrar o projeto. Os artistas estamparam o muro com texturas, stencils, formas orgânicas e geométricas."

Estação Inhaúma

Estação Inhaúma. "Resgatamos ludicamente no nosso painel os principais pontos do bairro, incorporando desde a época da colônia até os dias de hoje, reproduzindo a Praça 24 de outubro, Paróquia São Tiago, pedreira, Complexo do Alemão com teleférico e o Cemitério."  

Estação Engenho da Rainha. "Carlota Joaquina, dona da fazenda de cana-de-açúcar que dá nome ao bairro e conhecida por adorar festas, decide convidar os moradores ilustres do conjunto dos músicos para um grande samba, cercado pelo verde da Serra da Misericórdia onde habitavam os índios tamoios e pela Estrada de Ferro Rio do Ouro."


Estação Thomaz Coelho (primeiro lugar na Copa Graffiti tendo como capitão o consagrado ACME). "Em nosso painel há um suposto maquinista da Maria Fumaça que atravessa o bairro com suas características do ano de 1960, trazendo em sua bagagem Dom Pedro II lendo um livro de Thomaz Coelho [acima]. Cada vagão traz em sua carga um pouco da cultura e da educação do bairro."

Estação Thomaz Coelho: Paz.

Estação Thomaz Coelho

Estação Thomaz Coelho

Estação Vicente de Carvalho. "Carlos Bobi retratou o valor da mulher negra em seu olhar, onde a grandeza de sua importância prevalece em todas circunstâncias."

Estação Irajá (terceiro lugar na Copa Graffiti pela escolha dos jurados). "Em nosso muro usamos como inspiração o significado da palavra Irajá em tupi-guarani, a fonte do mel. Foi o ponto de partida para a ideia da cachoeira que brota em meio a um vale florido e frutado; a região já foi conhecida como produtora de frutas e hortaliças. Neste rio se encontra um barco representando 'deixa a vida me levar' música de Zeca Pagodinho, cantor nascido no bairro e as cores da escola de samba locais, vermelho e branco."

Estação Irajá

Estação Colégio (segundo lugar na Copa Graffiti). "O bairro Colégio tem esse nome por ser um ponto onde as pessoas das áreas vizinhas vinham ter aula com o professor público José Theodoro Burlamaqui no séc XIX." 

Estação Colégio. "O bar 'Boca Cheia' que se tornou o nosso Q.G. tem tudo a ver com o personagem montanha com a boca de túnel que está bem na frente, fomos muito bem tratados no bar, peça uma cerveja litrão para apreciar melhor o muro!!!"


Estação Colégio. "O sambinha e o funk estão ambos presentes na cultura local." 
Estação Coelho Neto: "Coelho Neto está sentado à sua cadeira coordenando uma harmoniosa e pulsante história que, em muitos casos, se confunde com o lugar que também traz um dia-a-dia desconhecido do restante da cidade." 

Estação Coelho Neto.

É! Sim! Aqui em Acari!

Samba, Acari!!! "Em nosso painel a história gira em torno dos personagens da melodia, noite e do dia da favela retratados em estilo Naif como forma de tornar as imagens íntimas do imaginário popular." 


Estação Eng. Rubens Paiva: "Por se tratar de um desaparecido político da ditadura militar, colocamos elementos que falavam de suas paixões, experiências de censura e repressão, e usamos flores como cenário/personagem, para representar os mortos e desaparecidos, também inspirados na música Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores', de Geraldo Vandré." 

Estação Pavuna: "Um mundo lúdico representado através de um sonho; sonho de um senhor que dorme à sombra de uma árvore e visualiza lembranças contadas por seus ancestrais, histórias essas, passadas de pai para filho desde a época dos escravos. "

Estação Pavuna.

1.11.12

OLHO NA BELEZA, IRMÃO! de Artur da Távola

É, meu irmão, nada diga a ninguém, mas novembro começou e, com ele, rigores de verão (deverão?). O ano acaba, sem nos darmos conta da rapidez, não faz mal. Muito está a acontecer nas árvores do Rio. É abrir olhos e coração para muita beleza. Mas precisa reparar.

Novembro traz delícias vegetais. O fícus, aquela árvore caladona, severa, monge vegetal, sem flor, enorme, só folhas e grandes galhos professores de sombras generosas (há muitos no Campo de Santana e na Praia de Botafogo), pois o discreto fícus fabrica suas bolinhas (são figuinhos do tamanho de um botão) agora por novembro. E não há delícia maior que pisá-las no chão. Ajuda a liberar as sementes e é inesquecível forma de prazer infantil.

fícus, aquela árvore caladona...
A reparar, também, que as mangas maduram a partir desta fase, seus pomos inchados de amor, suculentos, amorosos, delícia suprema. Segundo o escritor Rubem Fonseca, só se deveria comer manga nu, sentado dentro da banheira.

Novembro traz ainda florais encantamentos para o nosso Estado do Rio: alguns flamboyants abusados começam a florir, embora dezembro seja o seu mês; as acácias amarelas, pendões de ouro, começam o apogeu floral. Aleluia: ainda há casas e espaços onde poetas e sábios plantam acácias! Os hibiscos explodem flores deslumbrantes e exibicionistas, genitália à mostra e com razão, pois cada flor de hibisco só vive 24 horas.

alguns flamboyants abusados começam a florir...
as acácias amarelas, pendões de ouro...
Os hibiscos explodem flores deslumbrantes...
Os ipês calaram-se. Recolheram as flores. É época, porém, do jasmim. Tirante o de nuca de mulher depois de banho bom, não há cheiro mais delicioso que o do jasmim-do-cabo, aquele grande. Perfume de jasmim é o barato dos deuses. E há, ainda, os pequenos, a "dama da noite", por exemplo, jasmim minúsculo. E florem também neste novembro, fronteira assustadora do verão tropical, as árvores de jasmim-manga, de várias tonalidades, tesão das abelhas.

Perfume de jasmim é o barato dos deuses...
E para terminar, alerta, irmãos: as jaqueiras estão grávidas. Lindas. Reparem só. Pois assim é novembro, mês modesto e sem alardes, mas tinhoso como ele só.

Crônica publicada originalmente em O Dia de 3 de novembro de 1992.

12.10.12

MEIER: O MELHOR LUGAR DO MUNDO É AQUI

Sorria, você está no Meier!

Coreto no Jardim do Meier.

Um cruzamento movimentado.

O melhor lugar do mundo é aqui. Tem raiz e tradição.

Pode ser que existam outros lugares com maiores belezas naturais, atrações, porém, nada é mais importante para quem tem um bairro como sua casa.

O que é o Meier senão o nome de uma família; e como tal tem sua historia, e cada morador do local faz parte desta. Os mais antigos componentes deste clã contam que antigamente os jovens se reuniam no Cinema Imperator. Que o primeiro shopping center do Brasil foi inaugurado no Meier; narram sobre as matinês do Clube Mackenzie, a formação da Banda do Meier e as histórias do Bloco Chave de Ouro, que só saía na Quarta-Feira de Cinzas para apanhar da polícia, porque não se podia brincar carnaval naquele dia. Relatam até hoje a importância do trem para o bairro, e que este traz todos os dias aqueles que trabalham, provenientes da zona oeste ou da baixada fluminense. Registram, para manter na memória, o som dos trens passando na estação, os sinos das igrejas ou das propagandas veiculadas por carros que transitam no bairro. Atualmente os jovens se reúnem na pracinha do Meier, a Praça Agripino Grieco, e nos bares e restaurantes do Baixo Meier. O Jardim do Meier, as praças Amambaí e Rio Grande do Norte têm espaço para grupos da terceira idade fazerem ginástica, caminhadas e jogarem “buraco” ou “suecas”. Todos conhecem os caminhos para se chegar ao Norte Shopping ou ao Nova América e a facilidade de ir à Barra da Tijuca pela Linha Amarela. As novas obras criam expectativas, como a construção do Centro Esportivo na antiga área das Oficinas da Rede Ferroviária, no Engenho de Dentro, e a futura ampliação do viaduto que liga os dois lados do Meier.

O coreto do Jardim do Meier é o símbolo do bairro, que preserva o convívio tradicional dos subúrbios, mesmo sem as cadeiras colocadas nas calçadas, como se fazia nos velhos tempos. Todos conversam nas filas dos bancos, nos caixas das lojas, nas esquinas, nas saídas das escolas, trocam receitas de bolos e doces, comentam quando ocorre um acidente grave, como se estivessem num encontro familiar. Os sentidos são aguçados principalmente pelos churrascos de fim de semana nas casas dos vizinhos, pelo feijão queimando na casa de alguém, pelo som do liquidificador preparando vitaminas, pelos gritos das crianças nas piscinas e soltando pipas, pelas preferências musicais, até mesmo pelas orações dos diferentes cultos. Observa-se quando chega algum novo morador nas redondezas, quando uma loja ou casa entra em reforma ou quando vão construir um novo prédio. Sabe-se identificar os locais perigosos, as horas em que as ruas são frequentadas pelos idosos, pelos jovens e também pelos marginais. Têm-se as facilidades de viver perto de um comércio variado, de academias, livrarias, escolas, clínicas, consultórios e escritórios de profissionais liberais, tudo com referências dadas por algum morador do bairro.
Até o comercio informal nas ruas é exercido por conhecidos!

Os moradores se unem para vencer a insegurança, porém sem badalações ou divulgação. Reconhece-se que um vizinho pode ser mais íntimo do que um parente, porque é a família Meier que gera cada dia “o melhor lugar do mundo”.

Texto de Vera Dias, arquiteta (chefe da Divisão de Monumentos e Chafarizes da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, editora do blog As histórias dos monumentos do Rio de Janeiro e ex-moradora do Meier)

Hipermercado Extra

Shopping do Meier

Paróquia Sagrado Coração de Jesus

Imperator Centro Cultural João Nogueira

Basílica do Imaculado Coração de Maria inspirada na arquitetura mozárabe, manifestação cristã vigente na Península Ibérica do século XVI ainda muito marcada pela tradição artística islâmica (1929)

Corpo de Bombeiros do Meier em estilo art déco (1942)

Prédio antigo do Corpo de Bombeiros do Meier (1918)

3º Batalhão da PM (1909)

Casarão de 1906 com o térreo descaracterizado

Leão do Lions

22.9.12

CASA DA FAZENDA DO VIEGAS em SENADOR CAMARÁ

Coluna do Ancelmo Gois (O Globo) de 13/9/12


A fazenda e sua capela (face correspondente à seta do mapa)
"Casa rural característica da época colonial, com capela anexa, foi construída em 1725 e teve no seu engenho a exploração da cana-de-açúcar por quase 80 anos. A partir de 1780 passou a atuar na atividade cafeeira, sendo uma das precursoras no Brasil." (Guia do Patrimônio Cultural Carioca)

A casa da fazenda do Viegas e sua capela foram tombadas pelo IPHAN em 1938, pelo Município em 1996, pertencem atualmente à Prefeitura da cidade e estão em mal estado de conservação, aparentemente ocupadas por invasores. O endereço é Rua Marmiari, 221 (Senador Camará). Existe um zelador no portão que abre o cadeado para eventuais intrépidos visitantes.

Segundo um contato da Secretaria de Conservação da Prefeitura, “o seu entorno está num processo de favelização violento e desordenado. As instalações, onde havia equipes da Prefeitura trabalhando, tiveram que ser abandonadas, devido à insegurança. Somente após ação policial haverá possibilidades de se recuperar a fazenda que teve até os anos 2000 uma importante atuação na região.”

Close-up da capela.  "A casa de fazenda apresenta uma solução peculiar para a conjugação da capela ao corpo da casa, aproveitando a topografia do terreno. O coro da capela, que funcionava como tribuna para os proprietários, comunica-se diretamente com o alpendre da casa, enquanto a nave, que se desenvolve num plano inferior, tem acesso externo no nível do terreno." (Guia da Arquitetura Colonial, Neoclássica e Romântica no Rio de Janeiro)
No verbete VIEGAS, Fazenda do do Dicionário da Hinterlândia Carioca, escreve Nei Lopes: "[No século XVIII,] a fazenda, cultivando cana-de-açúcar e produzindo derivados em seu engenho, foi considerada a segunda em importância na freguesia de CAMPO GRANDE. No início do século XIX, com o advento da CAFEICULTURA, a fazenda, com seus campos de cultivo se estendendo até o Lameirão e a Serra do Viegas, destacou-se como uma das maiores e mais produtivas."


Tomada um pouco mais de longe (do local da seta no mapa)

Lateral da fazenda (à direita da seta)

Telhado  bem deteriorado e já não contendo as telhas originais, e sim telhas industriais  visto por detrás (face oposta à da seta)

Vista do terreno da fazenda. A rigor o morrinho onde está a fazenda constitui  o Parque Municipal Fazenda do Viegas, mas a degradação da área impede seu usufruto pela população da região, carente de áreas de lazer. Fotos do editor do blog.

18.9.12

PAULINHO



Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

(Do poema "Se Eu Morresse Amanhã"
de Álvares de Azevedo)




Antes do advento da bendita penicilina, não só os poetas românticos morriam com vinte e poucos anos (Álvares de Azevedo, 20 anos, Casimiro de Abreu, 21, Junqueira Freire,  22, Castro Alves, 24), como muitas crianças não conseguiam chegar à vida adulta, vítimas das mil e uma infecções e gripes que hoje qualquer pediatra cura. Se você percorrer atentamente o Cemitério São João Batista encontrará vários túmulos infantis, como este do Paulinho (18/5/1904—18/9/1912), falecido exatamente cem anos atrás. Pelo capricho com que ergueram seu túmulo dá para imaginar a dor da família. Cem anos depois, exceto este editor do blog, ninguém se lembrou de levar flores. O que confirma o velho adágio de que o tempo é o lenitivo para todos os males. Orai por ele!