ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
“São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

12.4.12

MORROS DA ZONA PORTUÁRIA


A abertura da Av. Presidente Vargas nos anos 40 (seguindo o traçado do antigo Caminho do Aterrado e das tradicionais ruas do Sabão e de São Pedro) dividiu o Centro carioca em dois "pedaços": no "lado de cá" da avenida ficou o centro de negócios da cidade e no "lado de lá" o centro portuário. Com a mecanização da atividade portuária possibilitada pelo advento dos contêineres, a chamada Zona Portuária entrou em processo de decadência, do qual só em anos recentes começou a sair com a construção da Cidade do Samba em plena Gamboa e agora, em vista da Copa e Olimpíadas, o Projeto Porto Maravilha. Como é típico de muitas áreas do Rio, uma série de morros (a maioria pouco conhecida ou desconhecida pelos cariocas) pontilham essa região: Morro de São Bento (1 no mapa acima), Morro da Conceição (2), Morro do Livramento (3), Morro da Providência (4), Morro da Saúde (5), Morro da Gamboa (6), Morro do Pinto (7) e Morro de São Diogo (8). 

Se você olhar um mapa antigo, como o abaixo (escaneado do livro História dos Bairros: Saúde, Gamboa, Santo Cristo, de 1987, da João Fortes Engenharia), que mostra a Zona Portuária no início do séc. XIX, verá que esses morros ficavam perto do mar. O litoral recortado, com enseadas, ilhas, trapiches e ancoradouros, foi empurrado mais à frente e retificado através de aterros para a construção do Porto Moderno na época de Pereira Passos. Destarte, marcos como o Cemitério dos Ingleses, Igreja de São Francisco da Prainha e Igreja de Santo Cristo (por onde você às vezes passa de carro quando pega a via elevada que dá acesso ao Túnel Santa Bárbara), que ficavam à beira-mar, agora nem maresia recebem. As próprias ilhas do Cães e das Moças (ver mapa) foram vítimas da sanha aterradora. Os morros da Zona Portuária, devido ao relativo isolamento em que permaneceram, ainda guardam muito do espírito e aspecto do Rio Antigo. Vamos fazer um passeio por eles?


MORRO DE SÃO BENTO (1 no mapa)

O mosteiro de São Bento em gravura de 1837 de João D. Sturz, escaneada de História dos Bairros: Zona Portuária da João Fortes Engenharia. Observe as pontas das duas torres da igreja atrás do mosteiro, à esquerda. O mosteiro foi durante três séculos um marco na paisagem da cidade. 

O Morro de São Bento é um dos 4 morros (os outros 3 são o Morro da Conceição, o Morro do Castelo demolido nos anos 20 e o Morro de Santo Antônio) que delimitavam a zona urbana do Rio nos tempos coloniais. Já no final do século XVI ali se instalaram os monges beneditinos, que construíram no século XVII seu convento e a Igreja de N. S. de Montserrat, joias da arte barroca. O conjunto foi considerado Monumento Mundial pela UNESCO. O acesso se dá pela Rua Dom Gerardo, 68 (a 200 metros do edifício pós-moderno Rio Branco 1), onde um elevador conduz ao alto do morro — mas um pouco antes existe uma ladeira que você pode subir de carro ou a pé. As missas em canto gregoriano nas manhãs de domingo (e as Vésperas ao cair da tarde) são o que mais se aproxima neste mundo sublunar de uma experiência celestial. Para ler um texto sobre o mosteiro do escritor memorialista Antonio Carlos Villaça, que chegou a se ordenar monge mas depois se arrependeu, clique em Antonio Carlos Villaça no menu à direita .

Igreja de Nossa Senhora de Monstserrat, anexa ao mosteiro. Construção: 1633-1642. Fachada maneirista sóbria, na linha monástica tradicional, contrastando com o interior barroco exuberante em talha dourada. 

Interior da igreja: explosão barroca.

Vista do Morro de São Bento.

MORRO DA CONCEIÇÃO (2)

Contrastes arquitetônicos: Vista da Ladeira do João Homem.


O Morro da Conceição, um oásis de tranquilidade em meio à agitação do Centro da Cidade, guarda tesouros do Rio Antigo como a Fortaleza da Conceição, concluída em 1718 para defender melhor a cidade depois que os fortes na entrada da baía se mostraram insuficientes para defender a cidade (vítima de dois ataques franceses sucessivos, em 1710 e 1711), e o antigo Palácio Episcopal (ou seja, do bispo) do início do século XVIII, onde hoje funciona o Serviço Geográfico do Exército. Pouca gente sabe, mas lá fica também o Observatório do Valongo. O morro abriga ainda uma série de ateliês, que no fim de semana de dezembro mais perto do dia de Nossa Senhora da Conceição (8 de dezembro), abrem as portas ao público no Projeto Mauá.  Uma oportunidade de ouro de conhecer esse simpático recanto carioca. Ao pé do morro ficam a Igreja de São Francisco da Prainha e a Pedra do Sal, um dos berços do samba. Para ver as várias postagens deste blog sobre o Morro da Conceição (além desta) clique em Morro da Conceição no menu da barra direita do blog.

Janela.

Escadinhas.

Villa Guilhermina: Ateliê do artista Claudio Aun.

Sacolé: observe os belos azulejos esmaltados policromos em dois padrões.

Coqueiro sobre o casarão.

Pedra do Sal.

Obras do Porto Maravilha: Mirante. 

MORRO DO LIVRAMENTO (3)


Igreja de Nossa Senhora do Livramento.


No Morro do Livramento nasceu Machado de Assis. Sua mãe era agregada na chácara da viúva do senador Bento Barroso Pereira, que ocupava boa parte do morro. Mas durante as comemorações do centenário da morte de nosso maior escritor, o morro ficou em brancas nuvens, ninguém (a não ser este blogueiro) se lembrou de subir lá em sua homenagem. Ainda se veem no alto do morro, pertinho da torre da Embratel, ruínas de um casarão que devia fazer parte da sede da Chácara do Barroso (ver foto na postagem Morro do Livramento deste blog). Somente no final do século XIX as chácaras começaram a ser desmembradas e loteadas, dando início à ocupação mais densa do morro. Quem aprecia casas do início do século XX encontrará no morro um excelente local de garimpo. A escadaria que dá acesso ao morro a partir da Rua Alexandre Mackenzie (antiga Rua do Costa, onde decorre o Conto de Escola de Machado) é tombada pela Prefeitura (foto abaixo). Para ver também a outra postagem deste blog sobre o morro clique em Morro do Livramento no menu da direita.

Escadaria tombada pela Prefeitura.

Menino no Morro do Livramento. Também Machado foi menino ali.

Vista do Centro.

Singela casinha.

Antigo cortiço do final do século XIX, uma "avenida" como se dizia na época.

Beco com calçamento de pé-de-moleque.

Chalezinho de curva.

Sombras nos degraus.

Panorama da Praça Américo Brum, ao pé do Morro da Providência.

MORRO DA PROVIDÊNCIA (4)


Morro da Providência com o Oratório no alto.




Se você olhar no Google Earth verá que o Morro da Providência é uma parte mais alta (chegando a uns 90 metros) na extremidade oeste do Morro do Livramento (ou seja, não é um morro separado). Suas duas grandes antigas pedreiras, cujas bases servem de garagem de ônibus, são claramente visíveis na imagem abaixo do Google Earth.




No Morro da Providência encontra-se a mais antiga favela do Rio, criada por soldados retornados de Canudos, que ali construíram moradias precárias enquanto aguardavam que o Ministério da Guerra, ali perto, fornecesse alojamentos apropriados, o que nunca aconteceu. Favela ou faveleiro é o nome de um arbusto grande da família das euforbiáceas. Um dos morros da região de Canudos, com grande quantidade dessa planta, chamava-se Morro da Favela, nome pelo qual foi chamado o Providência por algum tempo. A designação “favela” depois se estendeu a outras comunidades. No alto do morro ergue-se o Oratório do Morro da Providência, tombado em 1986 pelo Município, construído em 1901 pelas mulheres dos soldados. Ali entronizaram a imagem do Cristo, de devoção de Antônio Conselheiro, trazida do interior da Bahia.


O morro recentemente foi pacificado e já se pode subir lá com certa segurança (entrando no Conjunto Habitacional dos Marítimos, na Rua da América, e seguindo “sempre em frente”, você acaba atingindo uma escadaria que dá acesso direto ao oratório — dá para ver no Google Maps). Grandes obras no contexto do Projeto Porto Maravilha, como o teleférico e plano inclinado, poderão transformar o morro em uma atração turística.

"Ai, barracão, pendurado no morro, e pedindo socorro à cidade aos seus pés."

Oratório do início do século XX.

Oratório num desenho de 1938 de J. Sarmento para a Revista da Semana. Imagem escaneada da História dos Bairros: Saúde, Gamboa, Santo Cristo, da João Fortes Engenharia.

Igreja de Nossa Senhora da Penha.

Central do Brasil, Pão de Açúcar e prédios do Centro vistos do alto do Morro da Providência.

Escadaria entre a Providência e o Livramento.

Arte popular.

MORRO DA SAÚDE (5)


Morro da Saúde. Ao centro a Igreja de N. S. da Saúde e à esquerda um dos prédios de um condomínio que existe no alto da Ladeira da Saúde.


O Morro da Saúde é um morrote pouco conhecido perto do Moinho Fluminense e da antiga Praça da Harmonia (atual Praça Cel. Assunção) mas que guarda uma relíquia: a Igreja de Nossa Senhora da Saúde. Outrora à beira-mar, agora entre o monte e o Cais do Porto interpõe-se o mostrengo Perimetral. “Com os aterros, perdeu o mar, a vista, e ficou cercada de armazéns imundos e nuvens de monóxido de carbono.” (Alexei Bueno, Gamboa). A singela igrejinha já chegou a estar em petição de miséria, mas depois de um primoroso trabalho de restauração recuperou seu encanto. Construída em estilo barroco jesuítico em meados do século XVIII, sofreu uma reforma em 1898. Diz Alexei: “Com frontão e sineira barrocos, fachada algo alterada por uma janela oitocentista em arco pleno sobre o portal de granito, possui nave única e um interior de grande elegância.” A entrada se dá pela Rua Silvino Montenegro.

Entrada para a igreja na Rua Silvino Montenegro.

Igreja de Nossa Senhora da Saúde.

Interior da igreja.

Azulejos portugueses.

Torre vista por detrás.

Vista do adro da igreja.

Ladeira da Saúde. Observe um pedacinho da Povidência no centro-esquerda.


MORRO DA GAMBOA (6)


Morro da Gamboa visto da Rua da Gamboa, ao lado da Cidade do Samba.


O Morro da Gamboa fica juntinho da Cidade do Samba, à esquerda (oeste), sendo visível de lá. Depois que o herdeiro da chácara do Comendador Machado Coelho lá existente a alugou para uma das primeiras casas de saúde do Rio, em 1841, o morro nunca mais deixou de abrigar instituições de saúde. Ali a Santa Casa instalou em 1853 uma enfermaria para portadores de doenças infecciosas, entre elas febre amarela e cólera, e desde 1871 lá funciona o Hospital de Nossa Senhora da Saúde, popularmente conhecido como Hospital da Gamboa. O hospital e sua capela, de Nossa Senhora das Graças, do final do século XIX, em estilo neogótico inglês, são tombados pelo Município.


Antigo portão.
Acesso ao hospital.

N. S. da Saúde e atrás, sucessivamente: Perimetral, Cais do Porto, Ponte Rio-Niteroi.

Capela de Santo Cristo dos Milagres de 1890 em estilo neogótico.

MORRO DO PINTO (7)


Igreja de Nossa Senhora de Montserrat no Morro do Pinto.


Quem passa pela Avenida Presidente Vargas vê, na altura da Cidade Nova (quem sobe para a Praça da Bandeira vê à direita, quem vem de lá vê à esquerda), uma igrejinha numa colina cercada de casinhas: a Igreja de N.S. de Montserrat, no Morro do Pinto. O morro, que já se chamou Morro do Nheco e Morro Paulo Caieiro (ou Cairô como consta de alguns mapas) deve seu nome ao comerciante Antônio Pinto Ferreira Morado, antigo proprietário de terras ali e nas proximidades (segundo Brasil Gerson). Nas ruas de paralelepípedos do morro você respira um ar tranquilo, de cidade do interior (como mostram as fotos). Somente a partir de 1874, com a abertura da Rua do Pinto (primeira foto abaixo) que levava ao alto do morro, começou sua ocupação efetiva. Em 2009 o editor deste blog fez uma visita ao morro acompanhado da poetisa Conceição Albuquerque, que foi criada no morro mas depois de adulta não voltara mais lá. Para ver a postagem resultante (além desta) clique em Morro do Pinto no menu à direita.

Rua do Pinto.

Chalé.

Escadaria (observe as senhoras sentadas à porta de casa como em cidade do interior).

Prédios e casas morro acima.

Vista da antiga fábrica da Bhering (onde está a chaminé).

Travessa Souza.

"Cidadezinha do interior" em pleno Rio.

Morro abaixo.

MORRO DE SÃO DIOGO (8)


Pedreira de São Diogo e Favela Moreira Pinto.


O Morro de São Diogo é uma ponta do Morro do Pinto, do qual é separado pela Rua Moreira Pinto. Abriga a favelinha de mesmo nome (Moreira Pinto) e teve sua ponta corroída pela antiga Pedreira de São Diogo, até hoje visível das Avenidas Francisco Bicalho e Presidente Vargas. Nos tempos de antanho “quebrar pedra em São Diogo” era sinônimo de “dar duro” como mostra velho samba de breque do Moreira da Silva de 1942 que você pode ouvir no YouTube. O nome se deve ao alferes Diogo de Pina que erigiu uma capela em louvou do santo nesse morro. O alferes se celebrizou por enfrentar os invasores franceses comandados por Duguay Trouin e deu nome também aos antigos Mangal de São Diogo e Saco do Alferes. O quinto episódio de Cinco Vezes Favela de 1962, dirigido por Leon Hirszman, chama-se Pedreira de São Diogo, embora fosse filmado na Pedreira da Providência.


A pedreira vista do Morro do Pinto.

A pedreira vista da passarela em frente à Leopoldina.  A chaminé é da antiga fábrica de açúcar que existiu no local. 

1.3.12

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DE AMOR AO RIO de Orlando Machado Sobrinho (Machadão)


Rio
Cidade Maravilhosa
Morada do sol, parque da alegria
Paraíso de tentações e prazeres
Alvas praias, morros verdejantes
Visão que deslumbra os visitantes
Apaixonados pelo teu ser


Rio
Fácil de dizer em todas as línguas
Crepúsculo divinal da Ave Maria


Rio
Cariocas de todas as raças
Paraíso da Paz universal
Rio sonho de ternura
Paixão cristalizada na espuma
Das ondas que noite e dia
Beijam Copacabana


Rio
Cidade em festa Pão de Açúcar
Santuário do Cristo Redentor
Rio alma sentida, dentro do meu coração
Amo quem ama o meu, o teu, o nosso Rio
Rio de Janeiro
Não existe outro igual



21.2.12

QUARTA-FEIRA DE CINZAS, de Antonio Bulhões


Quarta-feira. Cinzas. Os foliões mais fanáticos espicham a madrugada para se recolher, curtindo os derradeiros momentos da pândega em agonia. Caso não consigam álibis para reiniciar somente amanhã a soi disant vida séria, irão de tarde trabalhar, se arrastando nas pernas cansadas. ressacas ambulantes, enxaquecas indomáveis. Senhores graves, infensos à esbórnia generalizada, suspiram aliviados, simplesmente por não apreciarem ou por a condenarem do ponto de vista da moral e dos bons costumes. Em alguns bairros houve o hábito, perdido ao que eu saiba, de, na quarta-feira de cinzas, sair bloco — a exemplo do Chave de Ouro, do Engenho de Dentro — de adeus nostálgico ao Carnaval que estava terminando, simultaneamente propiciatório do próximo. Não eram grande coisa, limitando-se a alguns giros meio melancólicos pela vizinhança, em clima que Vinicius de Moraes e Carlos Lyra, na década de 6o, imortalizaram na Marcha da quarta-feira de cinzas:

Saudades e cinzas foi o que restou
Pelas ruas o que se vê
E uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor
E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade.

Entre esses extremos, os demais habitantes da cidade vão se acomodando, cada qual a seu jeito, reinserindo-se na devolução à normalidade. Como acidente de percurso registre-se, na quarta-feira de cinzas de 1922, a eleição de Artur Bernardes para Presidente da República. Turistas ainda são raros. Até para o ano, amigos! Ou, irmãos de credo e salseiro, até breve, quem sabe. É que o Carnaval, desde séculos e séculos, desde que comemorado a primeira vez (quando?...), sob a bênção e a inspiração de Dioniso, que Zeus o tenha!, termina a cada momento em que a fadiga física ou o tédio de viver o sufoca no coração de um carnavalesco e começa a cada momento em que o coração de outro carnavalesco se incendeia de prazer e riso.

Porque o Carnaval é assim: uma festa extraordinária, rodopiante, de insuperável dinamismo, atingindo todos os segmentos da sensibilidade humana, nenhum lhe escapa, feita de fragmentos de glória, de momentos de esplendor, de instantes de gozo, que duram frações de minutos ou eternidades, como elos de uma corrente mágica, uma corrente permanente, sempiterna, mistério que se deve e se pode viver intensamente, que não se deve e não se pode jamais abranger como um todo, muito menos supor que é possível reduzir a um texto compacto, limitado, enciclopedizado, mistério indecifrável, de tão complexo na dinâmica de sua estrutura, de tão longevo em sua trajetória no tempo. O Carnaval é uma unidade formada da fusão de unidades soltas?... Estará estampado no inconsciente de cada um de nós e de nossas coletividades? Será aquilo que é, como as estrelas, os rios, as tempestades — em concreto, uma força da natureza, que se manifesta através do homem. Desde séculos e séculos. Por séculos e séculos. 

(Do volume 1 de Diário da cidade amada - 1922 de Antonio Bulhões. Nesta obra monumental em três volumes — acondicionados num estojo — premiada pela ABL, Antonio Bulhões vale-se do ano de 1922 como "pretexto" para traçar um painel amplo da cidade amada do Rio de Janeiro em seus mil e um aspectos.)

3.2.12

NOS PROTEJA SÃO SEBASTIÃO: PADROEIRO DA CIDADE DO RIO

Nireu Cavalcanti (arquiteto e historiador – professor da Pós-Graduação da UFF e autor de O Rio de Janeiro Setecentista)




Hoje, 30 de janeiro, voltei ao local da tragédia ocorrida na Rua Treze de Maio para, silenciosamente, abraçar as luzes dos tragados pela incúria humana.
Ao me aproximar do local, pela direção do Largo da Carioca, avistei uma imagem dantesca que me pareceu serem as vítimas penduradas e deixadas como testemunhas da tragédia.


No âmago do sítio, envolvido pelo cenário angustiante, senti a mensagem de vida nas folhas ondulantes da árvore e no majestoso teatro Municipal intacto, com pequenas marcas de estilhaços em algumas vidraças.
Lembrei-me da história de nossa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro e do feito de seu padroeiro em defesa de Estácio de Sá e de seus bravos guerreiros, que caíram numa cilada dos inimigos Tamoios. Era final de tarde de um dia de julho de 1566 e, estando em quatro canoas, os nossos fundadores partiram em perseguição a outras tantas inimigas.
De repente, surgiram por detrás do Morro da Viúva inúmeras canoas repletas de guerreiros Tamoios ― os cronistas da época afirmam ser 180. Nesse momento, surgiu à frente da pequena tropa de Estácio de Sá um jovem guerreiro iluminado e fez explodir a pólvora que uma das canoas inimigas carregava, levando-os ao pavor e à fuga.
Por muitos anos, foi comemorado esse feito milagroso chamado “Guerra das Canoas” no dia 20 de janeiro. Na Baía de Guanabara havia desfile de embarcações e espetáculo de guerra teatral entre algumas escolhidas.
Chamou a minha atenção a proximidade do Teatro Municipal aos prédios que ruíram e se tivessem tombado sobre ele, nada restaria da nossa jóia do Patrimônio carioca.
Pensei ― foi São Sebastião que ficou entre esses prédios e salvou-o!

Deixando essas “lendas históricas” com os nossos antepassados, podemos buscar na história carioca as tragédias que abalaram a cidade e as causas possíveis que as provocaram, ou contribuíram para que ocorressem. Para isso, buscarei as crônicas de Vieira Fazenda, escritas em jornais da época (1896-1914), inestimável legado para a história da cidade e da sociedade, em sua obra Antiqualhas e memórias do Rio de Janeiro, editada, em cinco volumes, pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.


        Vejamos dois exemplos de como o Poder público e os usuários da cidade, agindo contra o interesse coletivo e com equivocadas opções urbanísticas, geram problemas como esse do desmoronamento de três prédios, no centro da cidade do Rio de Janeiro.
         A origem de muitos dos problemas atuais de nossa cidade, decorre da incorreta ocupação do seu território pelos primeiros povoadores, e com anuência dos governantes, e continuada ao longo dos anos seguintes.
O centro atual da cidade foi construído numa zona alagadiça, com várias lagoas perenes, imenso manguezal e cortada por vários rios, riachos e córregos que se formavam com as chuvas torrenciais. Além de ser essa área plana, quase ao nível do mar da Baía de Guanabara e situar-se entre os morros isolados do Castelo (demolido em 1922) que abrigava o núcleo histórico da cidade, de São Bento (desbastado), de Santo Antônio (desbastado quase em sua totalidade), de Nossa Senhora da Conceição (desbastado) e do Senado (demolido) e dos morros contínuos da Serra da Carioca (Santa Tereza, Catumbi, Estácio e Rio Comprido), Santo Cristo, Saúde e Gamboa.
A ocupação dessa área deveria ser entre malha de canais a céu aberto, tipo Amsterdã. No entanto, a opção de nossos antepassados governantes e de sua população foi desbastar ou demolir os morros e aterrar as áreas molhadas. Criaram o território ideal para os alagamentos e desabamentos de encostas a cada chuva torrencial.
Vieira Fazenda cita as chuvas ocorridas em 14 de abril de 1756, que alagaram as ruas, transformando-as em rios navegáveis por canoas, sendo a mais violenta delas a ocorrida nos dias 10 a 17 de fevereiro de 1811. Além do alagamento de toda a cidade, parte do Morro do Castelo desabou sobre as casas do Beco do Cotovelo, que ficava em seu sopé, destruindo a maioria delas. Desabou também parte da barreira do Morro de Santo Antônio, na proximidade da atual Rua Treze de Maio. Entre os mortos nessa tragédia estava o famoso bêbado da cidade Bitu, motivo de chacota da garotada moradora nas redondezas do Morro do Castelo.
O autor ainda registra o “dilúvio” que caiu sobre a cidade, como a anunciar o fim do mundo, às 15h30 do dia 10 de outubro de 1864. Caíam pedras de gelo do “tamanho de avelãs” em tanta quantidade que as ruas ficaram cobertas. Destruiu várias edificações e destelhou todo o prédio onde funcionava a Fábrica de Gás, existente na atual Avenida Presidente Vargas. Esse problema se agravou com o adensamento de construções e a falta de educação da população, que joga nos logradouros e cursos de água lixo e outros dejetos.
Muitas edificações também eram destruídas pelo fogo, em função do sistema perigoso de iluminação com velas, pelo uso de combustível à base de óleo de baleia, principalmente, o gás (a partir de 1854) etc. e o uso de muita madeira nas construções. A Câmara de Vereadores chegou a estabelecer a proibição do uso do pinho-de-riga, em estrutura, piso e telhados por considerar essa madeira muito vulnerável ao fogo.
Nas construções recentes, a origem de muitos incêndios está na sobrecarga das instalações elétricas, na impropriedade dessas instalações com o uso de materiais inadequados e misturas de redes que deveriam ser separadas, como eletricidade e gás. Contribui para aumento e propagação desses sinistros a quantidade de objetos, revestimentos decorativos, móveis etc. de material inflamável como plásticos, papel, madeira e outros.

Poder público, construtores e empreendedores de edificações              

Quando os administradores públicos não governam visando os interesses coletivos e a qualidade de vida da população urbana, principalmente no caso de megalópoli como o Rio de Janeiro, o espaço urbano gerado torna-se o lodaçal apropriado à proliferação desses seres desumanos que exploram a cidade.
A legislação urbanística e edilícia da cidade do Rio de Janeiro, em sua essência, é para servir a especulação imobiliária e punir a Classe Média trabalhadora, que tem endereço, que paga IPTU e todas as demais taxas municipais ― incêndio, iluminação dos logradouros etc. Para ela, o rigor da Lei e para os seus extremos ― os pobres que vivem em áreas de risco (por falta de opção) e os ricos ―, a benesse da omissão do poder público.
Vejam os acréscimos nos edifícios da orla da Zona Sul ― quantos andares foram construídos, acima do último pavimento! Depois regularizam esses acréscimos através da “mais-valia”.
É o caso do edifício Liberdade (o mais alto), que era escalonado nos últimos andares e a Prefeitura aprovou acrescê-los até a fachada voltada para a Rua Treze de Maio.
A Legislação municipal (desde o Código de 1937) incentiva a verticalização das edificações, construídas coladas umas às outras, prejudicando a circulação do ar, a insolação dos cômodos e permite o tapamento dos acidentes geográficos (caso do Morro da Viúva) que formam a bela paisagem carioca. Sem falar que, no período de construção desses espigões, os prédios vizinhos são danificados, gerando eternos conflitos de indenizações que se arrastam anos a fio.
Essas barreiras arquitetônicas são focos de propagação de sinistros, como ocorreu no caso dos três prédios. Devemos lembrar que o Teatro Municipal escapou por ter uma rua separando-o dos demais e porque os prédios ruíram sem inclinar em sua direção.
Ou mudamos esse conluio pernicioso entre o poder público e os exploradores da cidade, ou teremos que apelar, como fez Estácio de Sá, para a proteção de São Sebastião.



As duas fotos do meio foram cedidas pelo autor do artigo; a da estátua de São Sebastião na Glória e a última foram tiradas pelo editor do blog.

20.1.12

VIDIGAL

Placas "UPP Vidigal" e "Iluminação": os serviços públicos chegam ao Vidigal. Azulejos do projeto O Caminho dos Direitos Humanos de Françoise Schein (2001). Um conjunto de painéis desse mesmo projeto pode ser visto na entrada da estação de metrô Siqueira Campos.

Com a inauguração da UPP (a 19a da cidade) na última quarta-feira, 18 de janeiro, o Vidigal, livre da ditadura do tráfico, integra-se ao tecido da cidade, podendo agora ser normalmente visitado pelos apreciadores da “arte de flanar”. Aproveitei o feriado municipal de 20 de janeiro, dia de São Sebastião, e fui lá conferir. Aqui está o resultado.
O Vidigal é um bairro sui-generis. Embora à distância pareça uma enorme favela, existe toda uma área não-favelizada a nordeste, e existe uma zona limítrofe onde prédios de classe média e casas, como a da segunda foto a seguir, convivem com a comunidade próxima.

O Vidigal visto de baixo

Casinha à esquerda e mercado Super Rede à direita

Os agentes de Viana [Paulo Fernandes Viana, intendente geral da polícia de 1808 a 1821] eram implacáveis e truculentos. O mais famoso deles foi o Major Miguel Nunes Vidigal. Segundo-comandante da nova Guarda Real, Vidigal tornou-se o terror da malandragem carioca. Ficava à espreita nas esquinas ou aparecia de repente nas rodas de capoeira ou nos batuques em que os escravos se confraternizavam bebendo cachaça até tarde da noite. Sem se importar com qualquer procedimento legal, mandava que seus soldados prendessem e espancassem qualquer participante desse tipo de atividade — fosse um delinquente ou apenas um cidadão comum que estivesse se divertindo. Em lugar do sabre militar, os soldados de Vidigal usavam um chicote de haste longa e pesada, com tiras de couro cru nas pontas. O major também comandou pessoalmente vários assaltos a quilombos montados por escravos fugitivos nas florestas ao redor do Rio de Janeiro. Em recompensa pelos seus serviços, Vidigal recebeu de presente dos monges beneditinos, em 1820, um terreno ao pé do Morro Dois Irmãos. Invadido por barracos a partir de 1940, o terreno está hoje ocupado pela Favela do Vidigal, de onde se tem uma vista privilegiada das praias de Ipanema e do Leblon.

Trecho de 1808
de Laurentino Gomes (pp. 234-5)



Vista para o mar

Ao looonge (está vendo???) Ipanema e Arpoador

Deve ser difícil viver num lugar com uma das vistas mais bonitas da cidade — o mar à frente e a Mata Atlântica nos fundos —, um comércio abundante e, agora, segurança 24 horas. E é. O Morro do Vidigal pode ser considerado a Zona Sul das favelas cariocas, mas, embora tenha as qualidades acima, está longe de ser um ambiente ordeiro. Com a chegada da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), inaugurada na quarta-feira, a favela agora clama por uma faxina geral, um choque de ordem que ponha as coisas nos seus devidos lugares. (O Globo - Rio - para ler o resto da matéria clique aqui.)

As casas sobem o morro & os fios se entrecruzam

Homem de lata. Fotos do editor do blog.

15.1.12

ESTRADA DE FERRO FAZENDA MATO ALTO


Se eu contar que fiz um passeio de trenzinho maria-fumaça sem sair do Rio de Janeiro vocês acharão que é lorota, mas a foto acima não me deixa mentir. Sábado, 14 de janeiro, participei de um “Passeio Poético”, nos trilhos da Estrada de Ferro Mato Alto, promovido pelo Movimento de Preservação Ferroviária. Trata-se de uma pequena ferrovia, com cerca de 3,5 quilômetros de extensão, que o aficionado por trens Márcio Manela construiu em sua fazenda de gado, em Guaratiba. Ali passeamos em um trenzinho composto de vagões abertos construídos nas oficinas da fazenda, tracionados por uma das velhas locomotivas a vapor que o colecionador adquire e depois restaura nessas mesmas oficinas. “Passeio Poético” porque durante o passeio poetizas do grupo “Poetas do Trem” declamaram poemas sobre as velhas marias-fumaças (entre eles o que você lerá em seguida). Para saber onde se localiza a Fazenda Mato Alto clique aqui. Para ler matéria do Globo Rio sobre a fazenda clique aqui. A Mato Alto é uma das fazendas de Guaratiba onde se realizará uma missa campal por ocasião da visita do Papa. [NOTA POSTERIOR: Devido às chuvas fortes a missa acabou sendo transferida para Copacabana. Para ver a cobertura deste blog da Jornada Mundial da Juventude clique aqui.]




MARIA
Hernani Bottega

Ao raiar do sol, com um apito, ameaça a partida.
À tardinha, volta à romântica praça, início da ida.

Pertence a uma família cheia de graça.
Fama mundial, melhor não há quem faça.

            Chama-se Maria, Maria Fumaça

Gasta madeira, em carvão, na fornalha. Corre veloz,
serpenteia junto ao rio, aposta corrida com o albatroz.

Vence vales, sobe colinas, vara campos, assusta a caça.
Costura cidades, lugares e, por instantes, pela gente passa.

            Chama-se Maria, Maria Fumaça

Desfila imponente. Das outras se distingue bem à beça.
Engole trilhos com muita fome e diligente pressa.

E nesse contínuo vai e vem , o tempo passa.
Já quase, quase ninguém conhece Maria

            Maria Fuuu masss ÇAA