ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

1.8.10

POEMAS DE AMOR AO RIO

VEJA TAMBÉM NESTE BLOG: 33 DECLARAÇÕES DE AMOR AO RIO clicando AQUI.


Três poemas do ROTEIRO SENTIMENTAL DO RIO DE JANEIRO de OSVALDO ORICO, tradução do espanhol para o português de ÉLIO MONNERAT SÓLON DE PONTES (com pequenas modificações pelo editor do blog)



Soneto Introdutório

Depois de ver os mundos que criara,
Cheios de força, cheios de esplendor,
Deus, em certa manhã formosa e clara,
Não bastando ser Deus, fez-se pintor.

Quis dar à vida outro primor,
E com as tintas que o Éden pintara,
Pôs em quadro de cumes e de cor
A curvatura azul da Guanabara.

É assim, oh!, viandante deslumbrado!,
Que vês, de longe, sobre o Corcovado,
O criador em sua pintura estranha;

E miras rutilante de beleza,
Cristo desabrochar da Natureza,
Como um lírio de luz sobre a montanha.


Descobrimento

Sempre que volto a ti de uma jornada,
Compraz-se em seguir, meu pensamento,
O rosário de luz e o movimento
De tua preciosa e límpida enseada.

No esplendor de tal descobrimento,
Não sabe distinguir nossa mirada
Onde fica, afinal, o firmamento:
Se no Alto ou na terra platinada.

Quando te vejo ao despontar do dia,
Sinto um capricho da geografia
Marcar em fímbria azul os horizontes;

A cidade, despindo-se nas raias,
Ao fundo do decote de suas praias,
Mostra os seios de pedra dos seus montes...


O Largo do Boticário

Árvores. Sossego.Tranquilidade.
Aqui não chega o rumor da esquina,
E parece que existe uma cortina,
Separando dois tempos da cidade.

E o silêncio, a alma, a surdina,
O berço pleno de hospitalidade
No qual vem abrigar-se esta cidade,
Recordando seus tempos de menina...

Para o divino alívio dos seus males,
Nada como estes velhos arrabaldes
Que falam de um lirismo feiticeiro,

Em que os dedos de luz de sua mão
Tangiam um piano, com emoção.
Usando um candelabro por luzeiro.

Para adquirir o primoroso livro ROTEIRO SENTIMENTAL DO RIO DE JANEIRO em edição bilíngue espanhol-português visite o blog da Editora Muiraquitã.


RIO DE JANEIRO
Manuel Bandeira

Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Louvado Deus, louvo o santo
De quem este Rio é filho.
Louvo o santo padroeiro
— Bravo São Sebastião —
Que num dia de janeiro
Lhe deu santa defensão.

Louvo a cidade nascida
No morro Cara de Cão,
Logo depois transferida
Para o Castelo, de então
Descendo as faldas do outeiro,
Avultando em arredores,
Subindo a morros maiores,
— Grande Rio de Janeiro!

Rio de Janeiro, agora
De quatrocentos janeiros...
Ó Rio de meus primeiros
Sonhos! (A última hora
De minha vida oxalá
Venha sob teus céus serenos,
Porque assim sentirei menos
O meu despejo de cá!)

Cidade de sol e bruma,
Se não és mais capital
Desta nação, não faz mal:
Jamais capital nenhuma,
Rio, empanará teu brilho,
Igualará teu encanto.
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.


são sebastião
Nel Meirelles

as ruas
me atravessam

as esquinas
guardam meus pedaços

as largas avenidas
amaciam meus passos

o sol do arpoador
me descobre a alma

bangu, campo grande, realengo
são trilhas de longas caminhadas

tijuca, ipanema e são cristóvão
canções de todos os carnavais

e minha mangueira
plantada no alto do morro
é a alma desse rio de janeiro
que vive e revive em mim


cidade da felicidade
CAIRO TRINDADE

cidade da felicidade
a capital do samba & da poesia

Do alto do céu, nas nuvens, vislumbro o Corcovado,
o Pão de Açúcar, a Pedra da Gávea e a Floresta da Tijuca,
– o mistério e a magia da cidade mais bela do mundo.
(Vislumbro e me deslumbro.)
Ao chegar no Galeão, minha alma canta, em tom maior,
e eu vejo o mar, as aves e ilhas – as maravilhas do Rio.
(Todas me arrebatam.)
O ar da terra me invade
– o ar dor da raça, o ar da praia, o ar da graça.
Desço com certa solenidade
como se estivesse chegando no paraíso
– um plano de fantasia e plena liberdade.
Peço licença a São Sebastião, aos deuses do Carnaval
e ao povo carioca – o mais feliz que eu já vi.
Ao pisar o chão do coração do Brasil,
meu peito pulsa e eu sinto, dentro, um frenesi.
Atravesso túneis e sóis, em êxtase e volúpia,
e de repente estou entre os Jardins do Flamengo.
(Dá vontade de viver tanta beleza. E eu quase choro.)
Passeio pela Baía, pela Enseada, pela Lagoa,
até chegar a meu destino – um lugar que não existe!
Copacabana sorri sensual, abre os braços e me envolve.
Avassaladoramente.
Eu me entrego, possuído pela paixão.
(E, enfeitiçado, gozo.)


CANTO DO RIO EM SOL (parte II)
Carlos Drummond de Andrade

Rio, nome sussurrante,
Rio que te vais passando
a mar de estórias e sonhos
e em teu constante janeiro
corres pela nossa vida
como sangue, como seiva
— não são imagens exangues
como perfume na fronha
... como a pupila do gato
risca o topázio no escuro.
Rio-tato-
-vista-gosto-risco-vertigem
Rio-antúrio.

Rio das quatro lagoas
de quatro túneis irmãos
Rio em ã
Maracanã
Sacopenapã
Rio em ol em amba em umba sobretudo em inho
de amorzinho
benzinho
dá-se um jeitinho
do saxofone de Pixinguinha chamando pela Velha Guarda
como quem do alto do Morro Cara de Cão
chama pelos tamoios errantes em suas pirogas
Rio, milhão de coisas
luminosardentissuavimariposas:
como te explicar à luz da Constituição?


NOITE CARIOCA
Murilo Mendes

Noite carioca

Noite da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro
tão gostosa
que os estadistas europeus lamentam ter conhecido tão tarde.
Casais grudados nos portões de jasmineiros...
A baía de Guanabara, diferente das outras baías, é camarada,
recebe na sala de visita todos os navios do mundo
e não fecha a cara.
Tudo perde o equilíbrio nesta noite,
as estrelas não são mais constelações célebres,
são lamparinas com ares domingueiros,
as sonatas de Beethoven realejadas nos pianos dos bairros distintos
não são mais obras importantes do gênio imortal,
são valsas arrebentadas...
Perfume vira cheiro,
as mulatas de brutas ancas dançam nos criouléus suarentos.

O Pão de Açúcar é um cão de fila todo especial
que nunca se lembra de latir pros inimigos que transpõem a barra
e às 10 horas apaga os olhos pra dormir.


Dois poemas iniciais do ROTEIRO LÍRICO DO RIO DE JANEIRO de GEIR CAMPOS

O AMADOR

Acordo com
                teu nome

na boca
                é doce

nos ouvidos
                é música

nos olhos
                madrugada

no rosto
                é brisa

nas mãos
                é guia

nos pés
                a estrada
                sonhadora

E A COISA AMADA

cidade minha

quasedigo
                    e pauso
                                  e penso

em verdade
                    sou eu
                                que
                                        a ti
                                              pertenço


Dois poemas (em francês) do livro LA VILLE MERVEILLEUSE (A Cidade Maravilhosa) de JANE CATULLE MENDÈS, que visitou o Rio em novembro de 1911 e se encantou com a cidade.

PREMIERS JOURS (início e final)
Tout est couleur de ciel, de soleil, de trésor.
Je ne vous croyais pas si belle, ô Ville d’or,
Majesté souriante et clarté vapoureuse,
Je ne vous croyais pas, avec vos arbres fiers,
Avec vos sommets bleus, avec vos gouffres verts,
          Si touchante et si généreuse.

[...]

O terre triomphale, ardente, révélée,
Que mon instinct d’aimer a choisi pour séjour,
C’est la première fois que mon âme est comblée.
Rio, votre beauté est égale à l’amour,
On n’est pas seule alors que l’on est avec elle
Et chacun de vos jours vous consacre immortelle.
Il est tant de jeunesse et tant de volupté
Dans vos arbres, vos fleurs, vos parfums, votre été,
          Votre grâce chaude et profonde,
Votre luxe fougueux, votre férocité,
Qu’on ne peut convevoir ici la fin du monde.
Vout êtes une reine au front doux et vermeil
Et la sauvage enfant qu’adore le soleil,
          Suave, accomplie, indocile,
Vous êtes fabuleuse encore et puérile.
J’arrive, et ne sais rien de vous que votre nom
Et que votre beauté. Je ne sais rien, sinon
Que je me sens joyeuse en vous, que je vous aime ;
Vous contentez le rêve au-delà de lui-même,
On apprend près de vous le bonheur d’ignorer,
Chaque fois qu’on se penche ou qu’on lève la tête,
On est heureux de vivre, heureux d’être poète
Et d’avoir un cœur prêt toujours à délirer ;
Et je veux, ô Rio splendide et caressante,
                    Charme, émerveillement,
Grandir votre beauté d’une voix qui la chante
                    Mélodieusement.

ADIEU
          
Quelques jours s’éteindront, et puis je partirai.
Je ne serai plus là, tendre et contemplative,
Avec mon cœur docile à ce qui le captive,
Rio douce et fougueuse au visage doré,

J’aurai chanté ta force et ton charme admiré,
Le secret enflammé de ta foi primitive,
Ton angoisse de toute haute tentative,
Et prédit l’avenir qui vient selon ton gré.

Je t’aurai fait le bien que l’on fait quand on aime,
Je te dirai merci de ta beauté suprême,
Et puis, me détournant une dernière fois,

Je partirai. — Puisses-tu, Ville éblouissante,
Garder un peu de temps l’ombre de la passante
Et l’écho recueilli de sa légère voix.


CARTÃO POSTAL
Amélia Alves

Aos pés do Redentor, o tiro no Santa Marta
espalha castelos de cartas no asfalto da zona sul.

Rio que te quero ver,
do alto do Corcovado escorres desejos de ser
somente sol, serra, mar, batuque e carnaval!

Rio que te quero mal,
no espelho da Lagoa,
expias culpas dessa vida boa:
— Copacabana, princesinha do mar,
onde te encontro presente
percebo teu passado
e pressinto o futuro!

Rio que te quero pão, açúcar e verde,
da janela vislumbro cristos e fomes.
E mato e morro.

Do livro Atrás das borboletas azuis (Oficina do Livro, 2005)




MODINHA
Vinicius de Moraes

[...]

Quero brincar com a minha cidade.
Quero dizer bobagens e falar coisas de amor à minha cidade.
Dentro em breve ficarei sério e digno. Provisoriamente
Quero dizer à minha cidade que ela leva grande vantagem sobre todas as
                                                                                          outras namoradas que tive
Não só em km2 como no que diz respeito a acidentes de terreno entre os
                        quais o número de buracos não constitui fator desprezível.
Em vista do que pegarei meu violão e, para provar essa vantagem, sairei
                                                                                             pelas ruas e lhe cantarei
                                                                                                    a seguinte modinha:

MODINHA

Existe o mundo
E no mundo uma cidade
Na cidade existe um bairro
Que se chama Botafogo
No bairro existe
Uma casa e dentro dela
Já morou certa donzela
Que quase me bota fogo.

Por causa dela
Que morava numa casa
Que existia na cidade
Cidade do meu amor
Eu fui perjuro
Fui traidor da humanidade
Pois entre ela e a cidade
Achei que ela era a maior!

Loucura minha
Cegueira, irrealidade
Pois realmente a cidade
Tinha, como é de supor
Alguns milhares de km2
E ela apenas, bem contados
Metro e meio, por favor.


amado
líria porto

rio rio rio rio

quedo-me em teu leito
sem saber direito
onde vou parar
caio nos teus braços
abraços e beijos
levas-me contigo
deságuas-me ao mar

rio rio rio rio

em tua correnteza
roço-te as margens
afundo-me ao meio
mergulho-me em ti
rolo feito seixo
pelas tuas praias
estamos amarrados
atados por um fio

rio rio rio rio

finjo-me sereia
n’areia me deitas
cobres-me o corpo
o céu diz amém
sou tua a amante
assim por inteiro
és meu rio amado
rio de janeiro

rio rio rio rio


UM BAIANO NO RIO
Moraes Moreira

Quatrocentos e cinquenta janeiros
Tem este Rio
Nas águas do desafio
Esta cidade se aguenta
Resiste e se reinventa
Complexa geografia
Revela a fotografia
Na hora que o sol desmaia,
Nas curvas de Niemeyer
Toda beleza irradia

Provoca tanta cobiça
Esta cidade mulher
Nenhuma outra qualquer
Encanta e nos enfeitiça
A sua gente mestiça
Sabe viver nesta terra
Enxerga em meio a esta guerra
O horizonte da paz
Grande é o milagre que faz
Imenso o amor que se encerra

Cidade dos brasileiros
João Gilberto dizia
Na Glória e seus Outeiros
Nas águas dessa Baía
Recebe com simpatia
E uma alegria invulgar
Gente de todo lugar
Seja operário ou artista
O visitante, o turista
E quem vier para ficar

O jeito do carioca
É muito peculiar
Aqui a gente se toca
E sempre quer abraçar
O modo de se falar
É de um sotaque gostoso
Naturalmente charmoso
Baiano aqui não se cala,
Eu sou um deles, que fala:
O Rio é maravilhoso!

Publicado no Caderno Especial de O Globo, de 1/3/2015, dedicado ao aniversário da cidade


CIDADE MARAVILHOSA
Olegário Mariano

Cidade maravilhosa!
Na luz do luar, fluídica e fina,
Lembra excêntrica bailarina,
Corpo de náiade ou sereia,
Desfolhando-se em pétalas de rosa,
Com os pés nus sobre a areia.

Cidade do gozo e do vício!
Flor de vinte anos, rosa do desejo!
Corpo vibrando para o sacrifício,
Seios à espera do primeiro beijo.

Cidade do Amor e da Loucura,
Das estrelas errantes... Para vê-las,
Vibra no olhar de cada criatura
Uma ânsia indefinida
Pelo brilho longínquo das estrelas
Que é, como tudo, efêmero na vida.

Cidade do Êxtase e da Melancolia,
De dias tristes e de noites quietas;
Sombra desencantada da alegria
Dos que vivem de lágrimas, os poetas.

Cidade de árvores e sinos.
De crianças e jardins. Flor das Cidades;
Berço de ouro de todos os Destinos,
Fonte eterna de todas as Saudades.


DOIS POEMAS CARIOCAS
Jamil Damous

BOTAFOGO

aqui estou
no centro da linha que liga
o pão de açúcar ao corcovado
no coração de botafogo
entre a clausura e o abraço
o pecado e a redenção
o crepúsculo e a aurora
entre ícones (cartões postais
que a ninguém envio)
faço minha viagem diária
a bordo do sol ardente
e da melancólica lua

MONTANHA PORTÁTIL

Corcovado,
minha montanha portátil.
Aonde quer que eu vá nesta cidade,
ela vai comigo, em meu olhar.
E mesmo quando saio de viagem,
costumo carregá-la,
compacta e leve,
na mala do meu lembrar.



RIO 450 ANOS
Ivo Korytowski 

Nasceste três vezes, ó minha cidade natal:
Primeiro, por obra dos invasores lá da França;
Segundo, à entrada da barra, onde é a Urca atual;
Terceiro: Morro do Castelo pra mais segurança.

Contornando morros, enfrentando brejos, mangais
Foste te espraiando depois que pra várzea desceste,
Pois, ao contrário de outras cidades convencionais,
Em planície à margem de um grande rio não nasceste.

Sob a proteção do santo flechado, Sebastião,
A capital do vice-reino foste alçada em glória,
Recebeste Dom João fugido de Napoleão,
Testemunhaste grandíssimos eventos da História.

De dois imperadores assististe à coroação,
Aqui a Lei Áurea libertou a raça cativa,
Aqui da República deu-se a proclamação,
Foste a capital da nação até surgir Brasília.

Já são 450 anos de existência.
Que contrastes: mar, mata, metrópole — esplendor!
Favela, asfalto, tradições, samba, malemolência...
À cidade querida declaramos nosso amor!


APELO
Alexei Bueno 

Quando, cidade, eu deixar-te,
Em que mundos pulsará
Esta falta que já está
Por aqui, por tanta parte?

Esta saudade sem termo
Para onde irá? Que desgraça
O exílio do que se passa
No teu corpo infante e enfermo.

Nunca mais, manhã bem cedo,
Caminhar na Rua Larga
Entre os caminhões de carga
E o abrir portas, que degredo.

Nunca mais o Bar do Joia,
O Gaúcho, o Paladino.
O que há depois do destino?
Sem mãos, que mão nos apoia?

Nunca mais os sebos reles
Da Feijó, da Tiradentes,
Nem as luzes descendentes
Sobre as mais diversas peles.

Nunca mais o Hotel Planalto,
O Triângulo das Sardinhas,
Velhas pedintes mesquinhas,
A corrida após o assalto.

O ouro vítreo das tulipas,
Os sinos nas rijas torres,
As querelas entre os porres,
O óleo sujo a fritar tripas.

Nem o Campo de Santana
Com estátuas, ébrios, putos,
Nem pombos nos cocurutos
De uns heróis que a brisa abana.

Nem a Rua do Ouvidor,
Rosário, Gonçalves Dias,
Quilométricas de dias,
De longas filas de dor.

Nem o Largo da Carioca
Pleno de povo e de lixo,
Papéis de jogo de bicho
Que um vento cego desloca.

Nem Lapa, nem Cruz Vermelha,
Gamboa, e os burros-sem-rabo
Rinchando, ou pipas num cabo
De luz, nem matos na telha.

Nem descer a Rio Branco,
Cinelândia, Serrador...
É possível tal horror,
Tal golpe à esquerda, no flanco?

Resta-me ser um fantasma,
Acolhe-me, pois, qual sombra,
Cidade que amo e me assombra,
Num tempo que o tempo plasma.

Deixa-me, espectro, cruzar-te,
Eterno, nesses lugares
Que são e foram meu lares,
Eu, teu cerne e tua parte.

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24.7.10

CELEBRAR A VIDA COM AMIZADE E BELEZA BRASIL



VILMA CUNHA DUARTE, a "cronista de Araxá"


Às vezes, se gasta uma vida para perceber o óbvio ululante. O ser humano deixa a desejar na lucidez com “gostares ou não gostares”. Carência pede palavras de amor, ansiedade confunde as coisas,  indiferença ganha imaginação afetiva,  desejos viram o bom-senso de cabeça pra baixo.

Ainda bem que a maturidade chega, espantando bichos de sete cabeças, feras indômitas para a juventude teimosa. E esclarece: quando pessoas gostam de mesmo umas das outras, agem como tal.

Comecei mais um ano de vida com a querida amiga, no Rio de Janeiro deslumbrante. Diacho de maldade essa bocarra da mídia com a “Cidade Maravilhosa”. Fala, escreve e exporta uma imagem devastadora de umas das mais belas cidades do mundo. Um pecado! Problemas existem, mas não precisam ser tratados como obsessão.

Mírian e eu desfrutamos seis dias maravilhosos, sem ao menos vislumbrar um ato de violência. Cortamos o Rio dia e noite, de metrô, ônibus, a pé e muito pouco de táxi. O Rio está lindo, bem cuidado, ostensivamente protegido. Já perdi a conta das vezes que estive naquele paraíso paisagístico e cultural. Nada a declarar. Por que tanta gente morre de medo de ir lá? “Fogo amigo” na propaganda desastrosa. A velha mania de enxergar e falar muito mais de mal que de bem do Brasil e de brasileiros.

Custamos a chegar para as encomendas do coração. Amigos e parentes disputavam-nos. Delícia de puro gostar do jeito simples, generoso que prioriza, põe no colo, e abraça.

Escolada em viagens Brasil adentro e afora, sei que cada viagem tem um roteiro. Esta foi do gosto da amiga. Seis dias bonitos. Aproveitamos na boa medida. Descansei da minha rotina ocupada.

Um friozinho mentiroso pra nós, e vestido de casaco, cachecol, gorro e xale pelos cariocas.

Que delícia passar a manhã no paradisíaco Arpoador. Aquarela bem Brasil! Céu azul de doer em poesia, sol amarelo dourado, mar esmeraldino lambendo a areia com ondas branquinhas espumando de rir decerto, dos turistas em traje de banho.

História pedindo vez e ré na visita ao imponente Forte de Copacabana. Cultura rezando nas igrejas da Ressurreição, na esfuziante Catedral de São Sebastião, que abriga 18.000 pessoas. Tradição portuguesa pondo a mesa da alegria e comedoria nas festas dos santos de junho, no Mosteiro de Santo Antônio, justo no dia 13. Noutro na Igreja da Glória no Largo do Machado. Suspiros de encantamento com a majestade do Teatro Municipal ressuscitado na beleza da restauração, tudo misturado na brasilidade de Copa do Mundo, na amizade cantando parabéns, na celebração da vida em ação de graças por começar mais um ano inteira, feliz, rodeada e no Rio de Janeiro.

Rio velho e Rio Novo. Cada qual com seu encanto.

Esculturas e arquiteturas. Nos prédios com cara de Europa, na Lapa caso de amores antigos, de gente comum, artistas renomados, com samba, copos, arte, sensualidade. Escadarias de azulejos coloridos e poliglotas, programas e inocência, no ecletismo singular e fenomenal, que só o Rio sabe bancar. Na areia castelos... sereias...


Abrir os braços de frente para o Cristo Redentor e agradecer. A reinação dele no alto do morro do Corcovado e aquela manhã exuberante de sol. Que o mostrou às claras literalmente maravilhoso, para brasileiros e visitantes dos quatro cantos do mundo.

Andar, correr, brincar a orla inteira de Copacabana, conhecer o conjunto do Fifa Fan Fest com telão pra ninguém botar defeito, cumprimentar o Dorival Caymmi no outro extremo e descansar no quiosque com água de coco, chopinho e batata frita, que ninguém é de ferro não senhor.


Quase matar o Carlos Drummond com tantos abraços naquele banco onde o meu poeta vê o Rio passar, o povo passar, o dia nascer, a noite chegar e decerto, a poesia ficar.

Comer bacalhau do Zé do Pipo, moquecas de camarão peixe e lagosta tudo junto, e outros banquetes de lamber os beiços de satisfação.

Obrigada Rio, obrigada Ivo Korytowski meu amigo escritor,  companheiro, cavalheiro, e cicerone em todas as minhas idas.

Obrigada todo mundo que fez a gente muito feliz por lá. Até... quem não preciso contar. (Fotos fornecidas pela autora da crônica) .

3.7.10

GRAFITES CARIOCAS - GRAFFITI IN RIO



Onipresente nas ruas das grandes cidades, o grafite é uma arte que cresceu à margem da História da Arte oficializada nos museus e centros culturais. O reconhecimento de sua importância para a compreensão da cultura contemporânea, de sua influência para a constituição de uma nova linguagem visual e social, vem aos poucos tomando conta dos debates sobre a diversidade da arte pública urbana.


Grafite de Nazza Stencil no Parque Tom Jobim, Lagoa.

O termo grafite, originário do italiano graffiti (plural da palavra graffito), é atribuído às inscrições, caligrafias ou pinturas impressas sobre um suporte que não foi inicialmente previsto para essa finalidade. Em sua forma política, a pichação atravessou o século XX, registrando nos muros do planeta palavras de ordem contra o poder e a cultura vigentes. Em sua forma artística, surgiu nas ruas de Nova York, na década de 1970 e, ainda, durante as manifestações de maio de 1968, em Paris.


Grafite na Lagoa, perto do Colégio de Aplicação.

O grafite no Rio de Janeiro expressa-se por meio de linguagens e materiais diversos, criando um campo cultural com vocabulário próprio, que precisa ser desvendado.
[...]
Diferente dos monumentos que nasceram com a vocação de celebrar a memória e das obras contemporâneas que afirmam um novo lugar para a arte no espaço urbano, o grafite é uma elegia ao transitório, a rede multicultural que forma a cidade. [...]” (Texto de Mariana Varzea extraído do belo livro Arte Ambiente, mostrando uma perspectiva nova da beleza do Rio de Janeiro, vista a partir de sua coleção de arte pública.)


Grafite de Tito em Copacabana

O grafite convida à reflexão. O que é? Qual o significado? Que motivação teve o artista? Há uma ideologia por trás dessa imagem? Aonde quer chegar o realizador dessa arte com a pintura proposta? Por que não utilizar essa arte como mote para o trabalho em sala de aula?

A arte nas paredes é uma das mais antigas formas de expressão do saber humano. As pinturas rupestres encontradas em cavernas por paleontólogos, arqueólogos e historiadores demonstram que a partilha de idéias, sentimentos e histórias de vida através da produção de painéis pintados em paredes é uma efetiva e milenar forma de expressão.


Músico na Rua Prof. Gabizo, bairro Maracanã.

Nas grandes civilizações da Antiguidade, especialmente no Egito, Grécia e Roma, a utilização de variadas técnicas (mosaico, pintura, escultura) auxiliou a perpetuar as paredes como autênticos ateliês demonstrativos da cultura desses povos. O passar do tempo aperfeiçoou ainda mais essa arte/forma de comunicação. Não é possível desprezar, por exemplo, os belíssimos painéis nas paredes de prédios públicos da capital mexicana, que retratam a história daquele país, produzidos por Diego Rivera.

Nos dias de hoje, com a exponenciação técnica e a criatividade humana explorando cada palmo de terreno possível para a produção artística (desde o espaço virtual até a pintura no próprio corpo humano), ocorre o resgate da arte nas paredes, num autêntico "revival" da pintura rupestre, consolidando-se o grafitismo como linguagem artística urbana. (Trecho de “Grafite, uma arte na sala de aula” de João Luís Almeida Machado.)


Grafite de Noel Rosa num bar do Engenho de Dentro.

Detalhe do painel "BAMBAS DA LAPA" de outubro de 2010, uma criação coletiva dos artistas ACME, AFA, AIRÁ, AKUMA, BR, BRAGGA, CH2, CHICO, ECO, GODRI, JOU, MENT, PIA, SWK, TM1 e TOZ

DESDE A SUA CRIAÇÃO EM 2005, O BLOG LITERATURA & RIO DE JANEIRO ACOMPANHA A EVOLUÇÃO DOS GRAFITES NA NOSSA CIDADE. PARA VER A COLEÇÃO COMPLETA DE FOTOS CLIQUE AQUI. VOCÊ TAMBÉM PODE CLICAR NO INDICADOR "Grafites cariocas" ABAIXO.

21.6.10

FORTE DE COPACABANA: Os 18 do Forte


Nessa época crescia a oposição militar ao presidente da República Epitácio Pessoa. A eleição, em março de 1922, de seu sucessor Artur Bernardes foi considerada inaceitável por grande parte da oficialidade. Por outro lado, a interferência do governo federal na eleição para a presidência de Pernambuco em maio de 1922, utilizando tropas do Exército para favorecer o candidato apoiado por familiares de Epitácio Pessoa, provocou um telegrama de protesto da parte do marechal Hermes da Fonseca, então presidente do Clube Militar. A prisão disciplinar do marechal e o fechamento do Clube Militar, decretados no início de julho, aumentaram a agitação nos meios oposicionistas, particularmente entre os militares. A imprensa de oposição, tendo à frente o Correio da Manhã, concitava abertamente à rebelião.

Articulado com a conspiração que se desenvolvia no seio da oficialidade, Eduardo Gomes, então com 26 anos incompletos, deixou sua unidade no dia 4 de julho e colocou-se à disposição do comandante do Forte de Copacabana, o capitão Euclides Hermes da Fonseca, filho do marechal. Nesse mesmo dia entretanto, foi decidida a substituição deste último pelo capitão José da Silva Barbosa. Ao chegar ao forte em companhia do general Bonifácio da Costa para efetuar a troca de comando, o capitão Silva Barbosa foi com ele preso, por ordem do capitão Euclides, que contava com o apoio do tenente Siqueira Campos.


No dia seguinte, 5 de julho [nome de uma rua em Copacabana], eclodiu o levante do forte de Copacabana, movimento que iniciou o ciclo de revoltas tenentistas da década de 1920. Simultaneamente, rebelaram-se a Escola Militar do Realengo, parte da Vila Militar — elementos do 1º Regimento de Infantaria e do 1º Batalhão de Engenharia — e parte da guarnição do forte do Vigia, no bairro do Leme. Os rebeldes bombardearam vários objetivos militares, entre eles o quartel-general e o Arsenal de Marinha, forçando a transferência do comando militar e do Ministério da Guerra. Entretanto, após breves combates, as forças do governo dominaram a sublevação, controlando todos os focos da rebelião, com a exceção do forte de Copacabana. Diante desse quadro, que lhe foi exposto pelo ministro da Guerra João Pandiá Calógeras, o capitão Euclides Hermes da Fonseca franqueou a saída aos combatentes que desejassem abandonar o forte, o que foi feito por cerca de 270 dos trezentos homens que compunham a guarnição.

No dia 6 os combates prosseguiram e, quando Euclides deixou o forte para parlamentar com o ministro Calógeras, foi preso por ordem de Epitácio Pessoa. Prevendo essa possibilidade, Euclides havia instruído seu substituto no comando do forte, o tenente Siqueira Campos, no sentido de que bombardeasse a cidade caso ele não voltasse dentro de duas horas. O próprio Euclides, uma vez preso, fez gestões junto a Siqueira Campos no sentido de que a ameaça não fosse cumprida, mas quando Siqueira foi informado de que Epitácio Pessoa exigia a rendição incondicional, rompeu as negociações. Epitácio ordenou então que o forte fosse cercado por terra, mar e ar.


Contrapondo-se à sugestão de Siqueira Campos de que fosse explodido o paiol de pólvora do forte, Eduardo Gomes propôs a saída dos rebeldes para a rua e o combate corpo a corpo com as forças do governo, o que foi aceito. Siqueira Campos dividiu então em 28 pedaços a bandeira nacional, entregando um a cada revoltoso e guardando consigo o destinado a Euclides. Munidos de fuzis e revólveres, os rebeldes marcharam pela praia de Copacabana, recebendo no caminho a adesão de um civil, Otávio Correia, a quem foi entregue armamento e o pedaço da bandeira separado para Euclides. Liderado pelos tenentes Siqueira Campos, Eduardo Gomes, Mário Carpenter e Newton Prado, o grupo enfrentou as tropas do 2º Batalhão do 3º Regimento de Infantaria durante aproximadamente uma hora e 15 minutos. Desse combate resultaram dois oficiais mortos, Mário Carpenter e Newton Prado, além do civil Otávio Correia. Saíram feridos, entre outros, Siqueira Campos e Eduardo Gomes, este com fratura exposta do fêmur esquerdo.

O episódio, louvado em prosa e verso pelos jornais da época, passaria à história com o nome de “Os 18 do Forte”, título do poema de autor desconhecido publicado no Correio da Manhã em setembro de 1923. Na ocasião, o jornal publicou também uma fotografia do grupo marchando em linha, na qual não aparecia Siqueira Campos, que havia avançado, distanciando-se dos demais. Segundo Eduardo Gomes, Siqueira Campos lhe dissera haver identificado dez combatentes naquela foto. Na verdade, o contingente de 27 homens que havia permanecido no forte não participou da marcha em sua totalidade, pois alguns não chegaram a sair para a rua, enquanto outros abandonaram o grupo durante a caminhada. Assim, participaram dos enfrentamentos finais cerca de 11 combatentes, e não 18 como registra a história. Anos mais tarde, porém, durante uma homenagem aos 18 do Forte, Eduardo Gomes afirmaria haverem sido 13 os combatentes.


Dias depois dos combates, Epitácio Pessoa visitou os feridos no hospital, indagando a Eduardo Gomes, cujo pai era seu conhecido, as razões que o haviam levado a participar da revolta. Na ocasião, o tenente respondeu-lhe que não se arrependia de seus atos. Essa mesma postura foi mantida por Eduardo Gomes no seu julgamento, quando, assistido por Nilo Peçanha, sustentou o depoimento do inquérito policial e assumiu plena responsabilidade pela atitude tomada. 

Em novembro de 1922 Artur Bernardes tomou posse na presidência da República. No ano seguinte, por efeito de um habeas-corpus, Eduardo Gomes esteve algum tempo em liberdade, empenhando-se então na defesa dos cadetes expulsos da Escola Militar. Após quase dez meses de sumário, em dezembro de 1923 os revoltosos foram pronunciados como incursos no artigo 107 do Código Penal, acusados de tentativa de mudança de forma de governo através da violência (mais tarde essa decisão seria reformulada pelo Supremo Tribunal Federal, sendo os indiciados pronunciados no artigo 111 do Código Penal). No Natal de 1923, dois dias antes que sua prisão fosse decretada, Eduardo Gomes fugiu para Mato Grosso. Com o pseudônimo de Eugênio Guimarães refugiou-se na fazenda Taquaraçu, pertencente à família do marechal Bento Ribeiro, no município de Três Lagoas, e aí passou a trabalhar como mestre-escola. 

(Texto extraído da biografia de Eduardo Gomes no site do CDDOC da FGV. Fotos do editor do blog. Para mais informações sobre o Forte, endereço, horário, preço, mapa da área etc. consulte o GUIA DO RIO, seu guia carioca simples, prático e grátis, neste mesmo blog. Basta clicar na guia FORTE DE COPACABANA, lá em cima, no cabeçalho do blog.)


3.6.10

RIO ENFEITADO PARA A COPA

RUA DOUTOR LEAL, ENGENHO DE DENTRO




“ONDE QUER QUE VOCÊ VÁ ALI [NA ÁFRICA], TODOS ESTÃO JOGANDO FUTEBOL O TEMPO TODO. POR TODA PARTE.
CARLOS BILARDO, EX-TREINADOR DA LÍBIA E ARGENTINA


“2010 ESTÁ NOS LÁBIOS DE TODOS E O POVO DA ÁFRICA DO SUL ESTÁ ANSIOSO PARA DAR AO MUNDO UMA RECEPÇÃO AFRICANA CALOROSA.”
MOLEFI OLIPHANT, PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DE FUTEBOL DA ÁFRICA DO SUL


“QUANDO JOGAMOS, A COSTA DO MARFIM INTEIRA FICA CONTENTE.”
MEIO-CAMPISTA YAYA TOURÉ


O FUTEBOL NÃO É SIMPLESMENTE O ESPORTE MAIS POPULAR EM GANA, É COMO UMA RELIGIÃO.”
OTTO PFISTER, TREINADOR DA SELEÇÃO DE GANA VENCEDORA DA COPA DO MUNDO SUB-17 EM 1991


“GRAÇAS AO FUTEBOL UM PAÍS PEQUENO PÔDE SE TORNAR GRANDE.”
JOGADOR LEGENDÁRIO DE CAMARÕES ROGER MILLA


“SOMOS AINDA A SELEÇÃO DIFÍCIL DE DERROTAR NA ÁFRICA. CADA PARTIDA PARA NÓS É COMO UMA FINAL.”
EX-CAPITÃO DA NIGÉRIA JAY-JAY OKOCHA





Fotos do editor do blog. A Rua Doutor Leal foi a terceira colocada no concurso Esta Rua É Fera promovido pelo G1-RJ. Textos extraídos do livro FUTEBOL 10, escrito por Martin Cloake, Glenn Dakin, Adam Powley, Aidan Radnedge e Catherine Sauders e traduzido por Ivo Korytowski.

22.5.10

COMUNIDADE SANTA MARTA, NO MORRO DONA MARTA (BOTAFOGO)

Comunidade Santa Marta vista da Rua São Clemente. Observe o plano inclinado à direita.
Casas bem no alto, a parte mais pobre, algumas de tábuas.
Parte mais alta da favela e o Cristo ao fundo cercado por andaimes.
Em seus cinco anos de vida, o blog Literatura & Rio de Janeiro tem procurado mostrar um pouquinho de tudo: o Rio "turístico", com suas praias, Cristo e Pão de Açúcar, o Rio Antigo, o Rio Moderno (Barra), a Zona Portuária, a Zona Norte, as ilhas (Paquetá, Governador), parques, templos, etc. Mas ainda não havíamos tido a oportunidade de mostrar uma comunidade, uma favela. Isso porque vivíamos numa (empregando a expressão criada por Zuenir Ventura) “cidade partida”. Sob o jugo de traficantes fortemente armados, as comunidades haviam se tornado território proibido para o morador do asfalto. Escreveu Lilian Fontes em seu livrinho Santa Teresa: “Infelizmente não posso entrar nas favelas de Santa Teresa, conhecer suas entranhas, as casas, conversar com os moradores. O trânsito ali se fechou. Os últimos dez anos do carioca têm sido marcados por esta acirrada questão da guerra entre traficantes, [...] vedando totalmente os seus territórios.” Mas com a implementação gradual das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) começa a cair o Muro que dividia a cidade. A Comunidade Santa Marta, em Botafogo, a primeira a receber uma UPP, também é a primeira a receber a visita de Literatura & Rio de Janeiro, um blog que é de todos os cariocas.

Alto da favela visto da última estação do plano inclinado.
Idem.
A vista lá do alto: Botafogo, o cemitério e ao fundo Copacabana.
Contraste: favela e "asfalto". Observe a Lagoa ao fundo.
Lá vem o "bonde"!
A favela (parte inferior direita) e a cidade aos seus pés.
Praça Cantão.
Recentemente, num projeto de iniciativa de dois artistas holandeses, as casas em torno da Praça Cantão tiveram suas fachadas pintadas em cores vivas.
As casas pintadas em meio à fiação.
Grafite: Dia Internacional da Paz. (Fotos do editor do blog.)
PS em 23/3/2015: 
Outro dia, flanando por Botafogo, decidi dar uma nova espiada na comunidade que, tendo se celebrizado após a memorável visita do rei do pop Michael Jackson (com "permissão" da chefia do tráfico), após a pacificação, e embelezada pelo projeto de pintura das casas iniciado pela dupla de artistas holandeses Haas & Hahn (e depois ampliado), tornou-se atração turística. Desta feita permaneci na parte de baixo, não subi o plano inclinado. Aqui estão as fotos (agora com mais qualidade e colorido, tiradas pela minha nova Canon PowerShot de 16,1 megapixels):

Pelada na Praça Cantão

Grafite

Cores de Santa Marta

Comunidade fashion moda feminina

Bares

Igreja de Santa Marta