ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

16.2.06

POEMAS DE AMOR AO RIO

amado
líria porto




rio rio rio rio

quedo-me em teu leito
sem saber direito
onde vou parar
caio nos teus braços
abraços e beijos
levas-me contigo
deságuas-me ao mar

rio rio rio rio

em tua correnteza
roço-te as margens
afundo-me ao meio
mergulho-me em ti
rolo feito seixo
pelas tuas praias
estamos amarrados
atados por um fio

rio rio rio rio

finjo-me sereia
n’areia me deitas
cobres-me o corpo
o céu diz amém
sou tua a amante
assim por inteiro
és meu rio amado
rio de janeiro

rio rio rio rio

são sebastião
Nel Meirelles




as ruas
me atravessam

as esquinas
guardam meus pedaços

as largas avenidas
amaciam meus passos

o sol do arpoador
me descobre a alma

bangu, campo grande, realengo
são trilhas de longas caminhadas

tijuca, ipanema e são cristóvão
canções de todos os carnavais

e minha mangueira
plantada no alto do morro
é a alma desse rio de janeiro
que vive e revive em mim

Nel Meirelles edita o blog Fala Poética

Centro da cidade do Rio de Janeiro
Marilena Frade




Centro de alamedas, becos e cortiços,
Que se perdem num Rio antigo e moderno!
E mesmo assim continua aconchegante e belo!
Num vai-e-vem alucinante,
Praças, vilas, bares,
Suas igrejas, lindos altares! Burburinho constante!
Teatros, Carlos Gomes, João Caetano
E outras dezenas de nomes.
Importantes, heróis! Tiradentes!
Com Riachuelo, sua História,
Seus cinemas e recantos!
Central, sempre Brasil,
Lembrando a República, na praça, tão perto!
Seus bichos, árvores antigas,
Lembranças doces, decerto! Sempre nossas amigas.
Centro, bairro, centro de vida!

Do livro Do amor (Editora Litteris)

13.2.06

DOMINGO CHUVOSO II

Domingo de sol a gente sabe o que faz aqui no Rio: vai à praia, vai passear. Mas e quando chove? Chuva não tem a cara do Rio. Existe uma palavra inglesa, serendipity — criada por Horace Walpole no século XVIII em alusão ao reino de Serendip, o Ceilão — que é a capacidade de "esbarrar" com coisas boas e inesperadas, por acaso (existe um correspondente português, "serendipidade", mas soa artificial). Eu que tenho alma de andarilho e acredito em serendipity mais do que no horóscopo, saí à rua com chuva e tudo — verdade que ela acabou dando uma boa trégua. Vejam por onde andei:

Calçadão de Copacabana

Centro Cultural Oi Futuro

Castelinho da Praia do Flamengo

Vista do Castelinho



Túnel Novo



Baile de Carnaval na Praça do Lido, em Copacabana

Desfile da Beija Flor (sem os carros alegóricos) na Avenida Atlântica, em Copacabana

Fotos de Ivo & Mi. O Centro Cultural Oi Futuro (ex-Telemar) fica na Rua Dois de Dezembro, 63 - Catete - pertinho do Largo do Machado. Ocupa o prédio da antiga Companhia Telefônica Brasileira, que também já abrigou o Museu do Telefone. O Castelinho do Flamengo, construído entre 1916-1918 para residência do proprietário da Construtora Silva Cardoso, é um exemplo típico do ecletismo em arquitetura, mesclando elementos art-nouveau, neo-renascentistas italianos, neogregos e neogóticos franceses, formando uma "colcha de retalhos". Desde 1992 abriga o Centro Cultural Oduvaldo Vianna Filho, uma videoteca municipal, mas só a arquitetura do prédio já vale uma visita - e é grátis. Situa-se na Praia do Flamento, 158 - esquina com a Dois de Dezembro.

8.2.06

PEDRA DO SAL




Nós - E a Pedra do Sal?

Nós mesmos - A Pedra do Sal é um lugar místico para a cultura negra e para os amantes do samba e do choro. Ela pode ser considerada como o núcleo simbólico da chamada "Pequena África" de que falamos acima. A região em torno da Pedra do Sal era repleta de zungus, casas coletivas ocupadas por negros escravos e forros. Ali se reuniam Donga, João da Baiana, Pixinguinha e Heitor dos Prazeres - precisa dizer mais? Fica a 100 metros do Largo de S. Francisco da Prainha, onde tocamos, virando ali na esquina do bar do sr. Adão. Na base, há um botequim, no Largo de João da Baiana. É uma pedra, com degraus escavados, por onde se pode subir para o Morro da Conceição, que é um passeio imperdível para qualquer carioca que se preze.


Trecho de "Tudo que você queria saber sobre os Escravos da Mauá (e suas fabulosas rodas de samba mensais) e nunca teve coragem de perguntar..." Leia a auto-entrevista integral em Circuitos do Rio.


A PEDRA DO SAL é um monumento religioso do povo carioca.

Na virada do século, a Saúde, como o velho centro do Rio, enxameava de templos afro-brasileiros; ialorixás, cambonos e alufás em cada quarteirão. Os templos católicos foram tombados e preservados. Nenhum afro-brasileiro o foi.

Na PEDRA DO SAL se faziam despachos e oferendas (a Obaluaie, Xangô, Ogum, Exu, Iansã e outros Orixás), se despejavam trabalhos. Era e é, local consagrado. À sua volta, convergindo nela, ficavam diversas “roças”, hoje desaparecidas, reduzidas ou transferidas para o subúrbio e Grande Rio.


Remanescendo como espaço ritual, a PEDRA DO SAL é um dos poucos testemunhos físicos daquele passado de densa religiosidade carioca.

A PEDRA DO SAL é, em suma, mais que um bem cultural negro-brasileiro. É um monumento histórico e religioso da cidade do Rio de Janeiro.


Parte do texto do historiador Joel Rufino dos Santos que deu origem ao processo de tombamento da Pedra do Sal, ocorrido em 20/11/1984. Extraído da Wikipédia.



Desde o século XIX, a Pedra serviu como ponto de encontro de imigrantes e de desembarque de negros africanos. Foram os escravos, que garimpavam o sal da Prainha, aliás, os arquitetos da escadaria que, hoje, permeia o bairro como uma simples alameda.

Pedra fundamental da Pequena África do início do século XX; espaço sagrado; lugar de oferendas, festas e batuques; posto de observação; “local de ensaio e ponto de encontro, de pastoris, que viraram ranchos, que viraram escolas de samba”; essas e outras qualificações indicam e registram o caráter agregador da Pedra. Em torno dela a comunidade do Morro da Conceição se reúne, se envolve e se identifica.

Trecho do artigo do museólogo Mário Chagas "Memória Rupestre ou do Caminho no Meio da Pedra" publicado na Revista Museu. Leia a íntegra do artigo clicando no nome da revista.





Dia do Samba na Pedra do Sal (2009). Fotos do editor do blog..

25.1.06

GAMBOA & MACHADO DE ASSIS

A Gamboa é como o caviar da canção do Zeca Pagodinho: a maioria de nós nunca viu, só ouviu falar. Foi onde nasceu Machado de Assis. Aliás, sua obra é plena de referências a ela. Por exemplo, no “Conto de Escola”, lemos: “Não fui à escola, acompanhei os fuzileiros, e depois enfiei pela Saúde, e acabei a manhã na praia da Gamboa.” Em Quincas Borba, Rubião passeia calmamente por lá: “Mas Rubião não distinguia nada; via tudo confusamente. Foi ainda a pé durante largo tempo; passou o Saco do Alferes, passou a Gamboa, parou diante do cemitério dos ingleses, com os seus velhos sepulcros trepados pelo morro, e afinal chegou à Saúde. Viu ruas esguias, outras em ladeira, casas apinhadas ao longe e no alto dos morros, becos, muita casa antiga, algumas do tempo do reis comidas, gretadas, estripadas, o cais encardido e a vida lá dentro. E tudo isso lhe dava uma sensação de nostalgia...”

As fotos a seguir são minhas. Os textos (com pequenas modificações) foram extraídos do livro de Alexei Bueno, Gamboa (Relume Dumará, 2002) . No final você tem um vídeo onde falo sobre minha velha paixão por Machado de Assis.



Foi em homenagem ao aviador precocemente morto que a antiga praia do Valongo, passou, naquele já distante ano de 1922, a se chamar rua Sacadura Cabral.

Entre muitas construções notáveis, como os sobrados que fazem esquina com a ladeira do Livramento, um dos trechos mais fiéis à ambiência de um Rio colonial, destaca-se a antiga estrebaria (hoje uma garagem).

Da fisionomia desse trecho urbano restou, em estado lamentável, o conjunto arquitetônico e paisagístico do jardim e morro do Valongo, tombado pelo Iphan em 1938. [PS. O Jardim Suspenso do Valongo foi revitalizado em 2013 no contexto do projeto Porto Maravilha.]

Foi no morro do Livramento, como todos sabem, que, em 21 de junho de 1839, na chácara da viúva do senador Bento Barroso Pereira, nasceu Joaquim Maria Machado de Assis, no exato local onde hoje se ergue uma antena de telecomunicações.

Mais adiante alcançaremos a antiga praça da Harmonia, atual Coronel Assunção, onde sobrevive um belo conjunto de casas ecléticas, o prédio do Quinto Batalhão da Polícia Militar e...

...o complexo de construções do Moinho Fluminense, talvez o mais impressionante e monumental conjunto de arquitetura industrial do Rio de Janeiro.

Monumental edifício educacional do Império é a antiga Escola Municipal José Bonifácio, atualmente um centro cultural, na rua Pedro Ernesto, 80.


Na Sacadura Cabral, 357, temos o Bar Sulista, voltado para a velha praça da Harmonia e decorado com os famosos painéis de Nilton Bravo, o Miguel Ângelo dos botequins.


19.1.06

TUDO NA VIDA É PASSAGEIRO

Paulo da Mata-Machado Jr.


De todos os feitios, tamanhos e cores. Quando comecei a dar conta do mundo, enfiado em um imenso quintal suburbano do Rio de Janeiro, os velhos daqueles tempos deixavam bem claro que já não havia mais salvação. Bom tinha sido no tempo deles, eu jamais poderia ser feliz, pois os bondes não eram mais o que tinham sido, as diferentes versões para cada ocasião específica tinham sido substituídas pela sem-graça da oferta única do coletivo de dois carros, bancos de madeira e um ou dois estribos.

Eu não tinha coragem de discordar abertamente, mas na certeza decorrente das minhas ponderações e profundas reflexões durante aqueles primeiros três ou quatro anos da minha existência, sabia que não podia ser tão ruim assim. Afinal, velhos tendiam naturalmente ao pessimismo: má-digestão, intestino preso, rugas...

Em todo o caso as histórias me fascinavam. Diziam que bondes os havia para diversas ocasiões e propósitos da vida urbana: engalanavam-se para casamentos, esfumavam-se funéreos para enterros, transportavam mudanças, móveis, objetos e animais domésticos, eram utilizados como ambulâncias do sistema de saúde pública ou em campanhas de vacinação. Sem falar, é claro, do ilustre passageiro que ia, todo pimpão, lindeiro ao belo tipo faceiro...


E apesar da apregoada decadência e do pessimismo dos antigos, ainda passamos bons anos juntos, eu e eles. Foram mais de dez anos, do bondinho vagaroso e amável da Ilha do Governador aos elegantes e algo empelicados "semoventes" (como os imaginava o poeta) das linhas da cidade, que iam das Barcas ou do Tabuleiro da Baiana para a Tijuca, Camerino, Penha, Bonsucesso, São Cristóvão, Méier, Engenho de Dentro, Copacabana, Urca, Ipanema, Leblon, Gávea, Jardim Botânico... tantos locais, uma lógica urbana perfeita e absolutamente funcional.

Mais tarde, já adolescente, passei a considerar Belo Horizonte uma das mais civilizadas cidades do Mundo: os bondes eram vagões fechados, com portas de entrada e saída, corredor central, bancos laterais e cada um com sua janela fechada com vidros!

Depois percebi que nem todos eram assim, veros bondes europeus: a maioria, para dizer a verdade, estava mais para o heróico e ronceiro bondinho da Ilha que para os orgulhosos “ingleses de polainas” do Rio.

Até em São Luís do Maranhão andei de bonde. Em ruas silenciosas, calçadas com paralelepípedos e ladeadas de casinhas amáveis, onde ecoavam as músicas de
Vicente Celestino, cantadas do estribo por um menino, tipo popular da cidade, pouco maior que os meus seis anos daqueles tempos e que dessa maneira ia amealhando alguns tostões.

Soube depois, embora não chegasse a tempo para ser transportado por eles, que existiam bondes em Juiz de Fora, Belém, Campinas, Curitiba, Porto Alegre... e mais um punhado de cidadezinhas amáveis e acolhedoras pelo Brasil afora, daqueles modorrentos anos cinqüenta.

Anos de transição, percebemos quando chegou a década seguinte. Como transitórios todos somos: eu, o cantorzinho, meu pai, os velhos da remota infância. À exceção, claro, da felicidade daqueles tempos, do condutor e do motorneiro...

Fotos de bondes antigos obtidas na Internet. Saiba tudo sobre os bondes visitando o site do Novo Milênio. E pra quem gosta de bondes, uma sugestão: visitar o Museu do Bonde em Santa Teresa (Rua Carlos Brant, 14 - Tel: 2220-1003). Outra dica: o documentário de Jean Manzon sobre os bondes cariocas no YouTube.

11.1.06

O MAR AZUL

Rogel Samuel



Volto de Copacabana, onde o vi. O mar, aquele mar azul.
"Vontade de cantar, mas tão absoluta, que me calo, repleto", escreveu Drummond ao vê-lo. Ao vê-lo belo. E azul. Tão azul.
O problema do mar, de sua beleza, é que sua beleza é infinita, é azul, azul profundo.

Oh, sim, estamos, entramos no Verão. Voltemos ao Verão. Que venha o verão. Como no início dos Cantos, Ezra Pound diz:

E pois com a nau no mar,
Assestamos a quilha contra as vagas
E frente ao mar divino içamos vela
No mastro sobre aquela nave escura,
Levamos as ovelhas a bordo e
Nossos corpos também no pranto aflito,
E ventos vindos pela popa nos
Impeliam adiante, velas cheias,
Por artifício de Circe,
A deusa benecomata.




Que mar é esse? Este é o mesmo mar de Ulisses, o mesmo mar de Pessoa, de Camões, que canta:

Já no largo Oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que do gado de Próteo são cortadas


Desconhecido embora, um poeta amazonense, Sebastião Norões, escreveu, há décadas, em 1956, um soneto perfeito, exemplar, único, sobre o mar. Seu título, "Mar da memória":

Eu quero é o meu mar, o mar azul.
Essa incógnita de anil que se destrança
em ânsias de infinito e me circunda
em grave tom de inquietude langue.

O mar de quando eu era, não agora.
Quando as retinas fixavam tredas
a incompreensível mole líquida e convulsa.
E o pensamento convidava longes,

delimitava imprevisíveis rumos
viagens de herói e de mancebo guapo.
Quando as distâncias fomentavam sonhos.

Rebenta em mim essa aspersão tamanha
que a imagem imatura concebeu
de quando o mar era meu, o mar azul.


No verão, o brilho intenso, os ares claros, as nuvens brancas. O calor é pegajoso, pecaminoso.
Quando jovem, morava perto do Arpoador. Domingos de sol, festivos, de verão extremo.
O sol ficando forte, vem a vida, as canções. O metalizado brilho do passado estandartiza, nos ares, as claras visões dos cânticos do sol. É o verão do mar, que para o amor se vai abrir. Quando amar se espera. E o mar, o mar azul, "essa incógnita de anil que se destrança / em ânsias de infinito e me circunda / em grave tom de inquietude langue".

É langue todo verão, e assim esqueço, me esqueço, penso que ainda jovem. Me lembro dos dias de verão do Pier. Quem tem sonhos não morre. "O mar de quando eu era, não agora. / Quando as retinas fixavam tredas / a incompreensível mole líquida e convulsa. / E o pensamento convidava longes."
O mar convida longes. Atravessa o longe, a linha, o afastado horizonte. Delimitando 'imprevisíveis rumos / viagens de herói e de mancebo guapo."
Naquele tempo, acampávamos nas praias desertas, e em desertas praias amávamos.
Um dia, em Búzios, um grande e luxuoso barco ancorou na praia onde acampávamos, na noite de Reveillon. De longe podíamos ver mulheres elegantes, os garçons, as champanhas. Fogos de artifícios. Ao nascer do sol, alguns vieram, num bote menor, até a praia. Algumas mulheres, de vestidos longos e brancos, ainda com as jóias, jogaram-se no mar. Outras, completamente nuas. Era a Era de 60, onde tudo se permitia, mesmo o ser feliz, nas « marítimas águas consagradas, / que do gado de Próteo são cortadas." E «nossos corpos também no pranto aflito, / E ventos vindos pela popa nos / Impeliam adiante, velas cheias». Sim, sim. « Por artifício de Circe, / A deusa benecomata."



Norões nasceu no dia 7 de março de 1915, em Humaitá, Rio Madeira, Amazonas. Mas estudou em Fortaleza, daí sua fixação no Mar. Aos 18 anos voltou para Manaus, fez Faculdade de Direito. Foi meu professor no Colégio Estadual. Chefe de Polícia do Estado, onde protegeu o comunista Jorge Amado. Era professor de Geografia.
A geografia do Mar.
Quando éramos jovens, Norões foi nosso professor e Mestre. Posso vê-lo, atrás das baforadas de cigarro. As lentes grossas. Norões impressionava, carismático, culto. Nunca pensei que faria sua "apresentação", anos mais tarde, quando escrevi um prefácio para a segunda edição de seu livro "Poesia Freqüentemente", de 1956. E é uma surpresa sempre que releio seu livro, sua poesia está mais viva ali, sua poesia é azul, lá onde o horizonte mergulha. E desponta.

O mar azul.


Rogel Samuel é autor de O Amante das Amazonas e Novo Manual de Teoria Literária. A crônica "O Mar Azul" foi originalmente publicada no site Blocos. Conheça o blog de Rogel clicando em seu nome.

29.12.05

CIDADE MARAVILHOSA

RIO, MARVELOUS CITY


Quando criança eu pensava: “Sorte ter nascido na cidade mais bonita do mundo”. Depois de adulto, tive curiosidade em conhecer outras cidades mundo afora, mas após tantos périplos (nos anos 80), continuo fiel ao primeiro amor, o Rio.
É só sair pelas ruas para deparar com grandes e pequenas maravilhas. A seguir, algumas fotos desta Cidade Maravilhosa.

As a child, I used to think: "How lucky to be born in the most beautiful city in the world". As I became an adult, I became curious to know other cities around the world, but after so many trips (in the 1980’s), I’m still faithful to my first love: Rio de Janeiro.
You have just to go out to the streets to see great and little marvels. Here are some photos from this Marvelous City.


Praias do Leme e Copacabana /
Leme and Copacabana Beaches


Hotel Copacabana Palace


Praia de Copacabana /
Copacabana Beach


Silhueta do Rio ao anoitecer /
Rio de Janeiro skyline at dusk


Reflexo do Cristo na Lagoa / Christ Statue's reflex on the Lagoon


Praias do Leblon e Ipanema / Leblon and Ipanema Beach


Praia de Ipanema vista do Arpoador /
Ipanema Beach seen from Arpoador

Pão de Açúcar e Praia de Botafogo / Sugarloaf and Botafogo Beach


Jardim Botânico / Rio de Janeiro Botanical Garden


Fotos de Ivo & Mi. Se gostou , deixe seu comentário. / Photos by Ivo & Mi. If you liked them, please leave your comment.

27.12.05

RESOLUÇÕES DRÁSTICAS

Márcia Frazão


No ano que vem fecharei os olhos para o Belo e não mais procurarei estrelas em céu nublado. Queimarei todos os meus livros, principalmente os de filosofia e poesia. Não acreditarei mais nos utópicos e dos poetas manterei distância. Comprarei livros novos, especializados na "difícil" arte de vencer na vida sem fazer esforço ou de enganar os trouxas sem nenhum escrúpulo.

No ano que vem me filiarei a um partido e me tornarei capacho de algum político. Me especializarei na "nobre" arte da estupidez e engodo. Farei tudo que o mestre mandar e se ele disser que a Terra é quadrada, assinarei embaixo. Me tornarei exímia na "fabulosa" arte de escrever palavras vazias em discursos cheios de más intenções. Anularei de tal forma minha integridade e compostura que no final serei recompensada: virarei presidente de alguma estatal.

No ano que vem babarei o ovo de alguma estrelinha ou de algum galãzinho bonito que de arte só entendem a de revistas versadas em fuxicos e babados. Me esquecerei de Cacilda, Fernanda, Marília, Dina, Isabel, Natália, Ítalo, Walmor, Autran, Borghi, Petrin, Gracindo, Procópio e tantos outros, verdadeiramente abençoados por São Shakespeare. Por falar nele, o descanonizarei e o enviarei para o limbo, junto com o velho Lear.

No ano que vem desafinarei meus ouvidos e vibrarei com o máximo de lixo musical que conseguir ouvir. Quebrarei todos os meus discos de Jobim, João Gilberto, Maria Callas, Nara Leão, Elizeth Cardoso, Maysa, Ellis, Wanda Sá, Edu Lobo, Caetano, Mutantes, Gil, Maysa, Amália Rodrigues, Charlie Parker, Os Cariocas, Tom Waits, Marina Lima, Dorival, Nana, Ray Charles, Bessie Smith, Billie Holliday, Luis Melodia, Etta James, Jacques Brel, Edith Piaf, Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan, Joan Baez, Clementina de Jesus, Cartola, Dr. John, Nina Simone, os Chicos (Buarque e Cesar)... e comprarei todas as éguinhas-pocotó que encontrar pela frente.

No ano que vem me tornarei guru de alguma estrelinha, astro do futebol ou de uma nova emergente e cobrarei fortunas por cada palavra (?) que eu vier a falar. Aliás, não falarei nada. Guru que é bom é aquele que olha, fica calado e mantém um ar distante, acima de qualquer mortal.

No ano que vem farei previsões para o ano seguinte e aparecerei em todos os canais de TV (de preferência com o telefone para consultas devidamente creditado na tela). Vaticinarei acidentes e mortes de celebridades (sem citar nomes, é claro!), seguidas por possíveis triunfos da seleção, casamentos e divórcios de artistas, gangorras financeiras e desilusões políticas (como se isso fosse novidade!).

No ano que vem esquecerei o meu curso de Filosofia e arrumarei um diploma em alguma universidade holística ou de marketing empresarial. Ministrarei palestras e darei workshops caríssimos, voltados para temas ardilosos tipo "Descobrindo o seu Eu Interior", "Os Anjos e os Negócios", "Torne-se Afrodite em Dois Dias" e "Os Deuses Empresariais". Estarei rica em pouco tempo e nunca mais ficarei no vermelho. Platão, Kant, Sartre, Descartes, Hegel, Hume... certamente entenderão minha completa falta de princípios e excesso de fins.

No ano que vem fundarei mais uma igreja evangélica e afirmarei que Jesus cura em suaves prestações e que o Paraíso pode ser financiado pela Caixa Econômica sem assinatura de qualquer avalista. Tirarei encostos, exorcizarei demônios e vícios, muito mais barato que qualquer outro concorrente. E se os meus sermões convencerem, me tornarei dona de uma estação de tevê e de um partido político.

No ano que vem terei me tornado tão medíocre, tão abjeta, que se eu morrer nem o Diabo aceitará minha alma.

Márcia Frazão é autora de Revelações de Uma Bruxa, A Panela de Afrodite, Manual Mágico do Amor e vários outros livros. Clique em seu nome para conhecer seu site.

14.12.05

ATENTADO AO ESTADO DE DIREITO

Está no O Globo de hoje:

"Usando fardas da Polícia Militar, traficantes da Favela da Parada de Lucas invadiram na madrugada de ontem casas na comunidade vizinha, Vigário Geral, e seqüestraram sete jovens — com idades entre 15 e 24 anos — enquanto eles dormiam."

Invadir lares na calada da noite e seqüestrar moradores que dormem constitui um atentado ao Estado de Direito. Lembra bem as ações das polícias políticas nos regimes ditatoriais. Aliás, há tempos o Estado de Direito deixou de prevalecer nas áreas periféricas e marginalizadas das metrópoles brasileiras. Onde estão aquelas vozes corajosas que se manifestaram - e se manifestam até hoje — com tanta coragem contra o arbítrio do regime militar? Por que se calam ante o novo arbítrio?

12.12.05

DOMINGO CHUVOSO



Domingo chuvoso no Rio de Janeiro. Fazer o quê? Enfurnar-me em casa e assistir ao Faustão? Aderir à onda consumista pré-natalina nos shoppings? Aproveito uma trégua da chuva pra fazer o que gosto: dar uma de João do Rio e sair por aí. Curtir a alma encantadora das ruas pra ver que surpresas o "destino" me reserva. Desço a Atlântica rumo ao Posto Seis, pego a Francisco Otaviano (a rua que liga a praia de Copacabana à de Ipanema), desço a Vieira Souto, depois a Delfim Moreira, até o final do Leblon. Aí vem a surpresa do dia. Que em 54 anos de Rio, sempre descubro algo de novo. Desta vez, a novidade é o Parque do Penhasco Dois Irmãos: encosta no alto Leblon, há uns dez anos ameaçada de favelização, que a Prefeitura transformou em área de proteção ambiental. Vejam as fotos do passeio!


Santuário na rocha


Hotel Sheraton; ao fundo, favela do Vidigal


Praia do Leblon


Praia do Leblon


Grafite hip-hop


Cena urbana

Mais informações sobre o Parque do Penhasco Dois Irmãos, no Alto Leblon, podem ser obtidas no site da Riotur em http://www.rio.rj.gov.br/riotur/pt/atracao/?CodAtr=1431

2.12.05

TERRORISMO & RIO DE JANEIRO PARTE II

Saiu no jornal Extra de 1 de dezembro de 2005:

"Rosinha se calou, Garotinho nada disse, Conde recorreu ao lugar-comum de crime hediondo, Itagiba prometeu como de hábito 'caçar os facínoras', Álvaro Lins minimizou a infâmia. Nem o falante Cesar Maia abriu o bico dessa vez. Nenhuma autoridade parece ter alcançado a gravidade e a dimensão da ação criminosa de terça-feira. Mas Vitória, Wânia, Érika, Dominique, Igor, Roberta, Aline, Áurea, Rogério, Viviane, Úrsula, Luciana, inocentes passageiros, sentiram na pele, e assistiram com dor e pavor, a um ataque impiedoso do crime organizado do Rio. Ao contrário do que o governo tenta fazer crer, o bárbaro atentado a bomba contra um ônibus não é tão-somente mais uma variante da guerra do tráfico. É terrorismo! É desafio ao poder constituído! É ameaça à democracia! É uma afronta ao elementar direito de ir e vir do cidadão! Cinco vítimas morreram, 13 vítimas ficaram feridas. Pior: amanheceu e 15.383.422 fluminenses continuam vítimas."

Saiu na revista Veja de 7 de dezembro de 2005:

"Na semana passada, traficantes tomaram um ônibus e queimaram vivos os passageiros. Cinco pessoas que voltavam para casa morreram carbonizadas, entre elas uma menina de 2 anos. Doze pessoas ficaram feridas. Foi o 73º ataque de traficantes a ônibus no Rio de Janeiro neste ano. Nada foi feito antes para evitar esses ataques. Previsivelmente, nada será feito agora. Em um país civilizado, manifestações de crueldade e impunidade dessa magnitude derrubariam o prefeito, o governador, o ministro da Justiça e o presidente. No Brasil, vai-se colocar a culpa na desigualdade de renda e tudo continuará na mesma."

Nas próximas eleições, lembrem-se disto.