19.7.18

TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA (LIMA BARRETO): UMA RESENHA



Se vocês entrarem no verbete da Wikipedia do Triste Fim de Policarpo Quaresma vão ler: O major Policarpo é um anti-herói quixotesco, imbuído de nobres ideais, alguns beirando ao tresloucado (tanto é que passa uma temporada no hospício). Bom coração, idealista, patriota, por causa de suas qualidades acaba sendo castigado e sempre se dá mal. Uma obra clássica da literatura brasileira que ajuda a explicar por que somos como somos. Esta é a minha opinião. Fui eu quem inseriu esse parágrafo lá na Wikipedia.

O livro se divide em três partes, mas na verdade são quatro: a primeira apresenta nosso anti-herói e os demais personagens e culmina com a proposta tresloucada de Policarpo de transformar o tupi-guarani em língua oficial do Brasil. A segunda é o período que Policarpo passa internado no hospício de alienados D. Pedro II, a caminho da Urca, onde hoje fica o Palácio Universitário e outras instalações da UFRJ, em frente ao Iate Clube, antiga Praia da Saudade. A terceira é quando ele resolve virar agricultor no sítio do Sossego, na serra. E a quarta é sua participação, também tresloucada, na Revolta da Armada, que foi uma revolta de marinheiros talvez ainda mais violenta que a guerra do tráfico atual, com bombardeios, balas perdidas, um horror. Tem um conto do Machado de Assis, Pílades e Orestes, onde o personagem morre vítima de uma bala perdida da Revolta.

A Revolta da Armada em foto de 1893 de Juan Gutierrez

Nosso triste anti-herói tem sempre as melhores das intenções mas nunca é compreendido e se mete em trapalhadas. É como o Dom Quixote de Cervantes. Por isso eu disse que ele é um anti-herói quixotesco

Na primeira parte Policarpo envia um requerimento à Câmara propondo que o tupi-guarani torne-se a língua oficial do Brasil. “O tupi – diz o requerimento – língua originalíssima [...] é a única capaz de traduzir as nossas belezas, de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se perfeitamente aos nossos órgãos vocais e cerebrais, por ser criação de povos que aqui viveram e ainda vivem”. A ideia não é tão porra-louca quanto parece. O tupi-guarani é a nossa língua original, nos primórdios da colonização chegou a ser a língua franca do Brasil, e outros países preservam, ao lado da língua do colonizador, as suas línguas originais, por exemplo em Angola o quimbundo, quicongo e umbundo, e na Irlanda o gaélico. ...

Depois Policarpo se mete na agricultura. Ele não entende como no Brasil, um país tão rico em terras, todo mundo quer ter um emprego público em vez de cultivar a terra. Vou citar um trecho: “Como era tão simples viver na nossa terra! Quatro contos de réis por ano, tirado da terra, facilmente, docemente, alegremente! Oh! terra abençoada! Como é que toda a gente queria ser empregado público, apodrecer numa banca, sofrer na sua independência e no seu orgulho? Como é que se preferia viver em casas apertadas, sem ar, sem luz, respirar um ambiente epidêmico, sustentar-se de maus alimentos, quando se podia tão facilmente obter uma vida feliz, farta, livre, alegre e saudável?” Num passeio pela região Policarpo, que imaginava que os nossos camponeses fossem felizes, saudáveis e alegres, se impressiona com a “miséria geral, a falta de cultivo, a pobreza das casas, o ar triste, abatido da gente pobre”. Mas aí, como sempre acontece com Policarpo, apesar de suas melhores intenções, tudo acaba saindo errado: ele enfrenta a praga das saúvas, dos políticos locais, da burocracia que até hoje tolhe os brasileiros que queiram empreender. “Aquela rede de leis, de posturas, de códigos e de preceitos, nas mãos desses regulotes, de tais caciques, se transformava em potro, em polé, em instrumento de suplícios para torturar os inimigos, oprimir as populações, crestar-lhe a iniciativa e a independência, abatendo-as e desmoralizando-as.” Olha que livro genial, mostra cem anos atrás um Brasil que perdura até hoje. Quem quer abrir um negócio neste país conhece as dificuldades, a burocracia, os fiscais querendo propinas, tudo isto que impede que a nossa economia deslanche.

Na última parte Policarpo se apresenta como voluntário ao marechal Floriano para lutar do lado dele na Revolta. Idealista, entrega ao marechal um relatório com sugestões para melhorar a nossa agricultura mas Floriano não está nem aí, acho que o relatório acaba virando papel de rascunho (se não me falha a memória).

A certa altura o autor fala sobre as balas perdidas: “Se uma bala zunia no alto céu azul, luminoso, as moças davam gritinhos de gata, corriam para dentro das lojas, esperavam um pouco e logo voltavam sorridentes, o sangue a subir às faces pouco e pouco, depois da palidez do medo.”


Lima Barreto é o escritor dos subúrbios, dos tipos suburbanos. Tem uma passagem bonita onde ele descreve os subúrbios cariocas, vou transcrever só o comecinho:

“Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa cousa em matéria de edificação de cidade. A topografia do local, caprichosamente montuosa, influiu decerto para tal aspecto, mais influíram, porém, os azares das construções. Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As casas surgiam como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas se fizeram. Há algumas delas que começam largas como boulevards e acabam estreitas que nem vielas; dão voltas, circuitos inúteis e parecem fugir ao alinhamento reto com um ódio tenaz e sagrado. Às vezes se sucedem na mesma direção com uma freqüência irritante, outras se afastam, e deixam de permeio um longo intervalo coeso e fechado de casas. Num trecho, há casas amontoadas umas sobre outras numa angústia de espaço desoladora, logo adiante um vasto campo abre ao nosso olhar uma ampla perspectiva.”

Tudo que eu disse nesta postagem (e um pouco mais) está no vídeo a seguir. Assistam. Se gostarem, inscrevam-se no meu canal do YouTube (aqui) e vejam também meus outros vídeos sobre clássicos da literatura! 

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