19.2.16

BONDES DE BURRO

Bondinho de bitola estreita da Cia. Carris Urbanos no começo do século. Os cocheiros usavam roupa comum, chapéu de feltro e um apito para chamar a atenção dos "burros sem rabo". Os condutores e fiscais também andavam à paisana. A iluminação dos carros à noite era feita por candeeiro a querosene. Foto de autor desconhecido de 1901 obtida na Biblioteca Nacional Digital.

No capítulo IV de seu primeiro livro de memórias, Baú de Ossos, onde recorda sua infância vivida no Rio Comprido, Rio de Janeiro, no início dos anos 1910,  o autor aborda o Carnaval, as reuniões da família, os vendedores de rua com seus pregões característicos, o cinematógrafo iluminado com lâmpadas vermelhas porque "não ficaria bem uma sala de breu, com damas e cavalheiros", a Avenida Central em construção, passeios por diversos bairros, como Santa Teresa, Botafogo, Flamengo e Copacabana, e os bondes puxados por burros. Transcrevemos aqui a pitoresca descrição desses veículos de tração animal que antecederam os bondes elétricos.

Isso vem a propósito de minhas lembranças dos bondes de burro. Neles andei, talvez numa de nossas viagens ao Rio ou, mas certamente, depois de nossa vinda definitiva de Juiz de Fora. Quando? não o posso dizer com exatidão, pois minhas recordações desse Aristides Lobo da infância surgem empilhadas e a fotografia positiva que delas obtenho resulta da revelação de vários negativos superpostos, cuja transparência permite que as imagens de uns se misture com as luzes dos outros. O essencial é que me lembro dos bondes de burro com seus poucos bancos, com o condutor e o cobrador, os dois sem farda, de terno velho, colarinho duro, chapéu de lebre, ou chile, ou bilontra — e a bigodeira solta ao vento carioca. O primeiro governava os burros a chicotadas mais simbólicas que propriamente para valer e, principalmente, com a série de ruídos que tirava dos beiços, da língua, das bochechas, das goelas, e que eram muxoxos e chupões, assovios e estalos, brados monossilábicos e gritos churriados — a que as adestradas alimárias respondiam com o passo, a marcha, o trote, a andadura e a parada. De distância em distância as parelhas cansadas eram trocadas por outras mais frescas, nas mudas dispostas ao longo dos itinerários. Uma destas perpetuou-se no nome que se estendeu ao bairro todo — o da Muda da Tijuca. Lembro-me bem da que ficava à esquina de Marquês de Sapucaí e Salvador de Sá, onde foi depois uma estação de elétricos — estação não no sentido de paragem, mas do local onde se recolhiam os bondes. Quem vinha de Aristides Lobo, era ali que trocava os burros. Eles eram soltos ao mesmo tempo que as correntes que os prendiam à trave que era desengatada, conjuntamente, do veículo. Quando eles se sentiam livres, empinavam as cabeças, zurravam e corriam, sem necessidade de serem conduzidos, para dentro da muda, para suas águas e seu capim. Iam rebolando as ancas, repiqueteando os cascos ferrados, num tilintar de cadeias arrastadas. [...] Os bondinhos de tração animal seriam substituídos pelos elétricos, na zona norte, aí por volta de 1909. Estes eram veículos mais solenes e cada vez que paravam faziam um ruído especial, parece que vindo de acumuladores colocados por baixo e que lembravam, em mais grosso, o golu-golu de um peru fazendo roda. Essa batida, entre líquida e metálica, entre pingo e gongo, subia do chão do bonde, ganhava os bancos, vibrava na carne dos passageiros, crescia dentro de mim numa bola de baba e naquela ânsia de vômito que me afogavam sempre à altura de Salvador de Sá.

Um comentário:

Nireu Cavalcanti disse...

Sua crônica “Bondes de burro” usando o memorialista Pedro Nava (Baú de Ossos) ficou muito bom. A foto é preciosa! Parabéns. (enviado por e-mail e inserido aqui pelo editor do blog)