7.2.16

CARNAVAL E CHUVA

Bonita crônica de Isabella Nelson (pseudônimo do jornalista e político Abner Carlos Mourão) publicada no jornal O Paiz de 7 de março de 1916


Suponho que os cariocas, com o seu decidido entusiasmo pelo carnaval, tivessem sentido na manhã de ontem um tristíssimo despertar, sentindo a chuva escorrer lá fora, desabaladamente…

Eu, por mim, amo a chuva. Quando acordo e ela cai, após alguns dias de sol intenso e de desmesurado calor tropical, penso logo no banho reparador que estão tomando as árvores. E precipito-me para a janela, na ânsia de vê-las, lavadas e verdes, com a alegria dos rebentos novos e todas as folhas cantando triunfalmente, sob as bátegas sonoras.

Porque as árvores cantam quando, em pleno verão, descem de muito alto as chuvas musicais… E a sua canção é tão doce, tão lírica, de um tão incomparável esplendor, que um poeta divino, de uma sensibilidade agudíssima — Guy Charles Cros — uma vez definiu o amor assim:

C’est la chanson de l’arbre, en juillet, sous l’averse. [É a canção da árvore, em julho, sob o aguaceiro.]



Bem defronte da minha casa fica um maravilhoso jardim adolescente. E são as suas pequenas árvores redondas, sempre sugando vorazmente a terra, sempre bebendo avidamente a chuva quando ela desce reconfortadora e benéfica, na incessante procura da energia que lhes permita desenvolverem-se e subirem para o sol, são essas pequenas árvores exuberantes, de um tão visível e magnífico ardor para a vida, as que mais amo entre todas as árvores da terra.

Vejo-as palpitar de prazer sob a chuva. E, quando o vento passa, agitam braços verdes e atiram umas nas outras e para o meu rosto milhares de gotas d'água e gritam, excitadas, arrepiadas, nervosas, como um bando de meninas travessas. 

E toda eu vibro, tanto essa agitação gárrula, indominável, bracejante, é comunicativa.

Se o sol tira perfumes rudes das plantas, produz a intensa exalação aromal dos matos aquecidos, a chuva faz a terra cheirar suavemente. E o ar fica tão frio, tão vivo, tão fino, que respirar é uma delícia tonificante.

Por isso, quando chove, eu me alegro e de uma profunda, imensa, seivosa alegria vegetal…

E todos os ritmos da chuva, desde os imprecisos e embaladores, até os mais estrepitosos, sinto-os cantar e correr e envolverem-me prodigiosamente.

Volto para a cama, cerro os olhos, e deixo-me ficar. E os ritmos prodigiosos me vão estesiando e readormecendo e sinto pouco a pouco fundirem-se na melancolia monocroma e monótona, que Guy Charles Cros pôs nestes versos:

Froide, froide comme ton cœur, mon beau serpent,
avec un doux bruit collant
tombe la pluie, tombe la pluie...”
[Fria, fria como teu coração, minha bela serpente,
com um doce ruído colante
cai a chuva, cai a chuva...]

Oh! a voluptuosidade penetrante e tranquila, a felicidade incomparável de uma boa manhã de chuva estival!


Nenhum comentário: