3.2.16

CARNAVAL CARIOCA DE 1929 SEGUNDO MANUEL BANDEIRA

"O QUE É O CARNAVAL CARIOCA MESMO COM CHUVA", crônica de MANUEL BANDEIRA publicada em A PROVÍNCIA DE 3 de março de 1929. Ilustrações da REVISTA DA SEMANA.


O mau tempo prejudicou muito os festejos do Carnaval carioca, o carnaval popular, o das ruas — porque o dos salões, o da gente rica, esteve mais animado do que nunca. (No Copacabana Palace venderam-se entradas para 3 mil pessoas e setecentas mesas bordavam nos sete salões o retângulo central reservado aos dançarinos. Com a chuva incessante que caía a partir das quatro horas da tarde, não havia outra coisa a fazer senão entrar num teatro ou num hotel para maxixar ou beber. E havia às vezes lá dentro coisas curiosas de ver.

Baile do Copacabana Palace Hotel em foto publicada na Revista da Semana de 8 de março de 1924, segundo ela "a mais brilhante nota do Carnaval deste anno, reunindo em seus vastos e luxuosos salões a grande sociedade brasileira, numa festa admirável de belleza e alegria".

O hall e bar do Palace, por exemplo, é um ponto que intermitentemente assume aspectos divertidos. Ali se juntam os exemplares mais disparatados da sociedade: a menina de olhos ingênuos, prostitutas, artistas, o chefe de polícia, cocainômanos e canalhas, políticos. A alegria é provocada por meia dúzia de rapazes que beberam demais e circulam de copo na mão, cantando, dançando e dizendo à direita e à esquerda bestialidades engraçadas. Cheira-se o éter à vontade. Há quem traga lança-perfume só para o seu lenço. E quem o está gastando nos outros recebe de vez em quando pedidos de prise [=dose de droga na gíria da época] no lenço estendido. Alguns rapazes excedem-se e deitam-se num recanto do bar embriagando-se de éter indiferentes a tudo o mais.

Baile do Copacabana Palace Hotel.

Outro espetáculo curioso é o do Teatro Fênix que se especializou em bailes para homens. Ali as senhoras pagam entrada porque não é possível distingui-las dos tipos que se fantasiam de mulher com uma perfeição em que não entra somente a habilidade e a arte, mas o temperamento também. E há-os de todas as cores, de todas as idades, de todos as classes, nacionais e estrangeiros. O círculo de mirones [=espectadores] toma com eles liberdades cruéis que vão do carinho acanalhado ao pontapé de troça. No meio disso sujeitos maduros, de capote, guarda-chuvas e óculos de tartaruga combinando com seriedade encontros acenando os dedos para ajustar preços. Aqui e ali, nas frisas e camarotes, a timidez de um grupo cuidadosamente mascarado trai a família que veio só para ver. Aquele português porém instalou-se com a sua gente numa mesa da platéia em plena bagunça. A mulher traz ao colo um menino de peito e amamenta-o ali mesmo. De um camarote bisnagam-lhe o seio exposto. O português dana-se, não por causa do seio mas por causa da criança: “Olha a criança, seu estúpido!” Passa lindo rapaz que a assistência aclama de miss Brasil. E João, que está comigo, confessa desesperado que há nos olhos da falsa mulher qualquer coisa que ele nunca encontrou nas mulheres de fato.

Como festa popular a segunda-feira, consagrada aos ranchos, é o dia mais característico. Esses ranchos resultaram da evolução dos antigos cordões, nenhum dos quais substitui na forma e organização primitivas. Eram blocos bem mais reduzidos que os ranchos atuais. Vinha à frente do estandarte um grupo de índios, caprichosamente fantasiados, executando umas danças de guerra que serviam para abrir caminho entre o povo; seguiam-se ao pé do estandarte os “velhos”, de passo grotesco, com as enormes cabeças de papelão oscilando em longos bastões; depois duas alas de sócios vistosamente trajados, tangendo as chulas [=canto seresteiro] no couro teso dos pandeiros; e atrás finalmente a canalha que não teve dinheiro para a fantasia, os amigos do clube ou simples curiosos.


O Ameno Resedá, o Flor de Abacate e outros grupos mais ricos começaram, de uns dez anos para cá, a aumentar e complicar o cortejo. Hoje são sociedades para julgamento de cujos préstitos o Jornal do Brasil, instituidor do Dia dos Ranchos, reúne no júri profissionais de cenografia, dança, música, e até de bordado — porque há um prêmio de estandarte que requer as luzes de um artista bordador. Os outros prêmios são de harmonia e enredo, fora os títulos de campeão e vice-campeão.

Nos ranchos há batedores a cavalo, clarins, comissões de honra precedendo o “enredo”, atrás do qual vem uma verdadeira banda instrumental e coros obrigados a engraçados regentes que andam de um lado para o outro atentos à harmonia do conjunto. A iluminação do cortejo, que a princípio era a querosene ou acetileno, é hoje feita de maneira engenhosa. O rancho inteiro fica envolvido num cordão de fio elétrico ligado a baterias dispostas num caminhão que fecha o préstito. De espaço a espaço saem ramais para as varas dos candelabros de quatro ou cinco lâmpadas elétricas, carregados a mão. Esse cordão ao mesmo tempo isola o rancho da massa popular. O efeito é muito característico.

Rancho carnavalesco Caprichosos da Estopa na noite de segunda-feira na Avenida Rio Branco. Revista da Semana de 25 de fevereiro de 1925.

Para dar uma ideia do que são os “enredos” basta citar dois deste ano. Os Caprichosos da Estopa [foto acima] apresentavam a história de Salomé “baseada na imortal obra do grande escritor inglês Oscar Wilde”. Os Parasitas de Ramos [foto abaixo] buscaram inspiração na história do Brasil revivendo cenas de costumes do nosso passado: os presos carregando água, a sinhá transportada na cadeirinha, o negro apanhando no pelourinho, os anjinhos das procissões… As personagens de todas essas cenas eram criancinhas, o que acrescia ainda mais a deliciosa ingenuidade do cortejo.

"Os ranchos são a nota decorativa da alegria carioca, o carnaval dos pequenos, a kermesse dos humildes." Rancho Parasitas de Ramos na Revista da Semana de 13 de fevereiro de 1932.

É na praça Onze que esses ranchos são mais apreciados. Para lá aflui o povinho miúdo, a mulataria que dá cor e pitoresco ao carnaval famoso da praça. Ali há duas coisas gostosíssimas de ver: os “sambinhas” e as “batucadas”.

Os primeiros são rodas de baianas pegadas de colares de contas doiradas revezando-se em solos de samba. É impressionante espetáculo quando alguma boa velha cai na roda dançando de olhos fechados, religiosamente, como as macumbas.

As “batucadas” improvisam-se e desmancham-se logo porque a polícia dá-lhes caça. Consistem numa dança de capoeiragem ao som do batuque. Formado um largo quadrado ou retângulo o pessoal da rapa [=rasteira] entra a saltar, tentando derrubar uns aos outros ou aos que fecham o quadrado. De vez em quando um tombo de rasteira diverte os espectadores. Mas o prazer é perigoso: toda aquela gente tem cara inquietante e é de fato a pior malandragem da cidade. Volta e meia a brincadeira degenera em conflito e acaba em navalhadas.



Arlequim, ilustração de M. Constantino na Revista da Semana de 9 de fevereiro de 1929

Baile à Fantasia no Tijuca Tênis Clube na Revista da Semana de 9 de fevereiro de 1929

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