30.1.16

VELHOS FÍCUS COMO EU, de ARTUR DA TÁVOLA

O advogado, jornalista, radialista, escritor, musicólogo (tinha um lindo programa de música clássica na rádio MEC e estava escrevendo um livro sobre Schumann que nunca veio a lume) professor e político (votei nele para senador) ARTUR DA TÁVOLA (Paulo Alberto Artur da Tavola Moretzsohn Monteiro de Barros) escrevia lindas crônicas em O Dia, algumas reunidas em livros, ocasionalmente sobre as árvores cariocas. Morreu prematuramente, em plena atividade, aos 72 anos, em 2008, deixando saudades. Por isso resolvi "desencavar" esta linda crônica sobre os fícus que havia sido publicada nos primórdios deste blog em 2006.


Campo de Santana: "Vetustos sacerdotes!"

Chamo a sua atenção para os fícus [ficus microcarpa] de nosso Rio de Janeiro, árvore recatada, silenciosa, folha pequena, sem o charme da flor, da categoria de seres que prodigalizam amor em sadio anonimato; quanta gente nem sabe que árvore é o fícus!...

Campo de Santana

Mas ele existe, há séculos, e o Rio guarda alguns dentre os belos e vetustos exemplares de fícus. É árvore de vestes monacais. Despiu-se de vaidades mundanas. Existe para pássaros e sombra, produzindo, porém, para apreciadores especiais, a maior das delícias: as suas bolinhas portadoras das sementes (quase sempre caídas sobre o cimento da cidade grande). São pequenos figos, de onde advém o nome latino "fícus". Eles propiciam a deliciosa sensação de ir pisando as bolinhas que estalam ao peso do corpo, saborosa sensação de pisar crocante.

"...ao lado do Hotel Novo Mundo"

Mas se o amigo leitor ou doce leitora gostou do fícus e sua missão de servir e sombrear silente, após vê-los um a um pela Rua São Clemente ou Praia de Botafogo, Avenida Rui Barbosa e Praia do Flamengo, nesta, ao chegar na esquina da Rua Silveira Martins, olhe para o ângulo final do Palácio do Catete e que confina com a citada rua, ao lado do Hotel Novo Mundo. Ali esplende outra junção notável de fícus, responsável por visual denso, forte, generoso, prova da beleza introvertida desta árvore, benfeitoria anônima do Rio.

Jardim do Palácio do Catete

E, se por acaso for tão doido quanto o cronista e capaz de tanto amar o fícus caladão, saia, então, do bairro e vá para o lugar onde, em silêncio, estão os fícus mais severos e belos do mundo: a Praça da República, o Campo de Santana [foto superior]. Lá imperam, republicanos e centenários, fícus sublimes. Vetustos sacerdotes! Repare-lhes o tronco torcido pelas angústias do viver. Medite sobre as copas descomunais, prodigalizando ajuda, a despeito das dores e desilusões da casca de seu tronco. Consulte a si mesmo, sobre o significado daqueles zilhões de minúsculas folhas lustrosas, alheias a espalhafato. Descobrirá, então, a lição de vida desse monge vegetal.

Praça Nossa Senhora da Paz, Ipanema (antes da obra do metrô)

"Existe para pássaros e sombra..."

"...minúsculas folhas lustrosas, alheias a espalhafato"

"...a maior das delícias: as suas bolinhas portadoras das sementes"

Praia de Botafogo

Crônica extraída do livro Rio, um olhar de amor, de Artur da Távola. Fotos de fícus (da espécie ficus microcarpa) tiradas pelo editor do blog em diferentes pontos do Rio de Janeiro. Postagem originalmente publicada em julho de 2006.

6 comentários:

Haroldo disse...

Sua matéria me fez ter saudades dos fícus de minha infância no Colégio Militar do Rio, e dos recreios a espoucar as bolinhas das sementes.
A memória das árvores... São tantas!
Seu blog tem o equilíbrio justo e difícil entre beleza, poesia, informação e concisão. (enviado por e-mail)

Mariza disse...

No Rio, a gente se acostuma com tantas belezas que acaba nem prestando mais atenção. Teu blog, Ivo, recupera o olhar amoroso sobre a cidade.
Valeu!

Ivette disse...

Que delícia foi ler e ver todas estas histórias e fotos desta cidade tão linda que é o Rio de Janeiro! Textos lindos... fotos encantadoras... quem mora no Rio tem toda a beleza de viver nesta natureza apaixonante!...
Olhar o mar... ao amanhecer, ao pôr do sol, a qualquer momento... sensação de liberdade, de não precisar mais nada além de andar e olhar, pisar na areia, o mar... o mar... a água... as ondas do mar.
Amo o Rio. O prazer de andar pela orla e olhar esta paisagem tão linda, é tudo o que qualquer pessoa pode querer estando aí. (enviado por e-mail)

Léa Madureira disse...

Oi, Ivo !

Voltei aos meandros da minha infância, na Pracinha Niterói, Maracanã, onde passeava quase todas as tardes. Depois, o primeiro namorado, as mesmas sementes do lirismo espocando na memória, sacralizando os mais vetustos sacerdotes, em verões de 40º.

Quem nunca pisou sementinhas de ficus, que o faça! Depois vá em busca do filme "Rio 40º" (1955), de Nélson Pereira dos Santos, ou "Copacabana me engana" (1968), de Antônio Carlos Fontoura. Mais Ivo, mais Rio impossível!
Ah, e eu também adorei ouvir a voz de Manuel Bandeira, no blog do Artur da Távola. E tantas outras. Demaissss!

Bjcs, parabéns, pelo bom serviço à alma carioca !

Léa

eduardo disse...

Há lugares que parecem um cantinho do Céu....

Lenir disse...

Amei as fotos, realmente os Ficus são belíssimos. Estive o ano passado em BH e lá também tem exemplares magníficos.
Ainda bem que embora seja exótica essa espécie não é invasora.
Parabéns, o blog é de muita beleza e sensibilidade! (mensagem deixada na comunidade Árvores Urbanas Nativas do Orkut)