1.1.16

RIO (e PARIS) QUARENTA GRAUS NO TEMPO DE EÇA DE QUEIROZ

Meu pai contava que “no seu tempo” no bonde de primeira classe só se podia viajar de terno. Eu próprio peguei a época em que no Municipal só se entrava de terno e gravata (na minha insubordinação adolescente cheguei a ser barrado naquele austero teatro por querer burlar o regulamento). E havia um restaurante no Centro, Timpanas, que só aceitava comensais de terno. Até hoje em certos cargos — desembargador, diretor, senador — o traje passeio completo é de lei. Em em pleno Centro do Rio 40 Graus no verão vemos gente empapada de suor padecendo nos seus ternos, embora ultimamente um movimento pela dispensa desse traje no verão e até pelo uso de bermudas tenha se esboçado.

Em suas crônicas jornalísticas postumamente reunidas em Ecos de Paris, o grande escritor português Eça de Queiroz aborda o tema do calor de 40 graus no Rio e em Paris e prevê que no dia em que os trajes se tornarem mais informais “toda a cidade vai sambar” (não foram bem esses termos que ele empregou mas...) E uma consideração final: quem acha que calores de quarenta graus são novidades do aquecimento global tem no texto de Eça o devido desmentido.


"Aí no Rio, segundo me afirmam, mesmo no Verão, se anda de sobrecasaca de pano. É um lamentável excesso de decoro social. Ainda se compreendia no tempo do império, quando a constante sobrecasaca preta do imperador dominava nas instituições, e portanto determinava os costumes. Hoje a república devia apagar esse verdadeiro vestígio do velho regime, e derrubar a tirania do pano e do chapéu alto. Estou convencido mesmo que essa grande reforma influiria vantajosamente no estado dos espíritos. Um povo que com quarenta graus de calor, anda entalado em casimiras sombrias e sobrecarregado com um chapéu alto de cerimônia, é necessariamente um povo constrangido, cheio de vago mal-estar, propenso à melancolia e ao descontentamento político. Que a esse povo seja permitido pôr na cabeça um fresco chapéu de palha, e refrigerar o corpo com cheviotes claros, alegres e leves – e ele respirará consolado, e tudo desde logo lhe parecerá aprazível na vida e no Estado.


Paris fugiu de Paris. Com este calor de fenômeno (quarenta graus à sombra) em que se pode torrar o café dentro das casas, só com estendê-lo simplesmente sobre o chão, a população abandonou a cidade, num verdadeiro êxodo, e maior que o de Moisés, porque esse foi só de quarenta mil hebreus, e daqui, segundo afirmam os jornais, abalaram ontem, em centenas de comboios, cerca de cento e trinta mil pessoas.

Só ficaram os empregados públicos. E ainda assim, havia há dias uma administração de bairro em que todos os empregados, desde o chefe ao contínuo, se achavam no campo ou no mar.

Era um vizinho da repartição, um lojista, que fazia o serviço, por dedicação cívica.

Em todos os Campos Elísios, só raramente se avista alguma carruagem arquejante. Toda a folhagem das árvores secou.

Aqui e além, nas ruas desertas, passa por vezes, fugindo à pressa, um guarda-sol: é um dos derradeiros parisienses que corre do café onde se atestou de cerveja para outro café onde se vai inundar de limonada. Os cavalos das carroças trazem chapéu; e a acreditar os jornais, já se pensa em lhes fazer usar, por causa da grande reverberação da luz, lunetas defumadas.

Todavia Londres está mais ardente. Aí o calor produz quase uma crise nos costumes. Ontem os membros do parlamento celebraram a sessão, na Câmara dos Comuns, em mangas de camisa.

Um comentário:

Salomão Rovedo disse...

Ivo, para saber sobre Eça e o Brasil, veja:
http://www.feq.pt/eca-de-queiroz-e-o-brasil.html