20.12.15

NATAL NOS VELHOS TEMPOS

Igrejinha de Copacabana pelo artista plástico Camões

Como teria sido o Natal brasileiro antes de sua "europeização" e da adoção da árvore de Natal e do Papai Noel? A julgar pelo conto do Machado de Assis, Missa do Galo ("Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite."), por Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro de Joaquim Manuel de Macedo (autor de A Moreninha) e pela crônica Como se Ouve a Missa do Galo de João do Rio, publicada em 1906, a grande atração da véspera do Natal era a missa do galo. As pessoas acorriam à missa em massa como hoje vão à queima de fogos do Réveillon. Mas a missa em si, mero pretexto para brincadeiras, paqueras, bebedeiras. Pelo menos é o que se depreende da crônica saborosa do João.

 
Igrejinha de Copacabana em cartão postal de 1910

COMO SE OUVE A MISSA DO GALO (trechos), de JOÃO DO RIO

Eu estava exatamente defronte da igreja de Santana, dispondo de um automóvel possante. Era a mais que alegre hora da meia-noite que alguns temperamentos românticos ainda julgam sinistra. Aquele trecho da cidade tinha um aspecto festivo, um estranho aspecto de anormalidade. (...)

Grupos de rapazes berravam graças, bondes paravam despejando gente, vendedores ambulantes apregoavam doces e comestíveis; todos os rostos abriam-se em fraterna alegria, e naquela sarabanda humana, naquele vozear estonteante, uma nota predominava – a do namoro. Os rapazes estavam ali para namorar, para aproveitar a ocasião. (...)

Copacabana devia ser divertido. Tomei de novo o automóvel e disse ao chauffeur:

– Para Copacabana.

Naquele delicioso percurso da Avenida Beira-Mar, toda ensopada de luz elétrica, outros automóveis de toldo arriado, outros carros, outras conduções corriam na mesma direção. Homens espapaçados nas almofadas davam vivas, mulheres de grandes chapéus estralejavam risos, era uma estrepitosa e inédita corrida para Cítera [ilha do Egeu famoso pelo templo a Afrodite]

(...) Cerca de três mil pessoas – pessoas de todas as classes, desde a mais alta e a mais rica à mais pobre e à mais baixa, enchia aquele trecho, subia promontório acima [em direção à igrejinha de Copacabana]. E o aspecto era edificante. Grupos de rapazes apostavam em altos berros subir à igreja pela rocha; mulheres em desvario galgavam a correr por outro lado, patinhando a lama viscosa. Todos os trajes, todas as cores se confundiam num amálgama formidável, todos os temperamentos, todas as taras, todos os excessos, todas as perversões se entrelaçavam. (...)

De todos os lados partiam cantos de galo. Os cocoricós clássicos vinham finos, grossos, roufenhos, em falsete: – Cocoricó! Cocoricô!

– Já ouviste cantar o galo?
– Pois hoje não é a missa dele?
Cocoricó! pega ele pra capar!
– Pega!

A igrejinha [de Copacabana] estava toda iluminada exteriormente à luz elétrica. Defronte de sua fachada lateral haviam armado um botequim. A turba arfava aí, presa entre a bodega e o templo...

(Do livro A alma encantadora das ruas, de João do Rio, organizado por Raúl Antelo e publicado pela Companhia das Letras)



Igrejinha de Copacabana em antiga foto de Marc Ferrez

UM PASSEIO PELA CIDADE DO RIO DE JANEIRO (trecho), de JOAQUIM MANUEL DE MACEDO

As festas do Natal estendiam-se, como ainda hoje, do dia 25 de dezembro do ano que acabava até 6 de janeiro do novo que começava. Nelas, porém, predominavam os dias de Natal, de Ano Bom e de Reis. 

O dia de Natal era notável pela missa chamada do galo, pelas ceias alegres que a precediam e que tão famosas eram, e pelos presépios que se abriam ao público, e a que concorriam chusmas de visitadores. 

No fim do século passado, os presépios mais estimados do Rio de Janeiro eram três. O da ladeira de S. António, que os religiosos franciscanos apresentavam anualmente. O do convento da Ajuda [onde hoje fica a Cinelândia], mais pequeno que o precedente talvez, porém mais curioso e atrativo, porque ao mesmo tempo em que se viam as figuras do presépio, se ouviam cantos religiosos e análogos ao assunto, entoados pelas freiras. E incontestavelmente superior a ambos, o presépio do Livramento, na casa que fica ao lado direito da capela de N. S. do Livramento. 

Estes presépios conservavam-se abertos e patentes ao público em todas as noites, desde a do Natal até à de Reis.

(Do capítulo "A Capela e o Recolhimento de N. S. do Parto")

Nota: A igrejinha, citada na crônica de João do Rio, situava-se onde hoje se ergue o Forte de Copacabana. Uma dica para cariocas e visitantes: o forte, que abriga o Museu Histórico do Exército, está aberto à visitação. De lá você desfruta vistas magníficas das praias de Copacabana, Arpoador e Ipanema. Saiba mais sobre o forte clicando em FORTE DE COPACABANA no GUIA DO RIO no cabeçalho deste blog. 

11 comentários:

Jôka P. disse...

Mi e IVO,
um Natal super feliz pra vocês, e que tudo seja sempre como quizerem e sonharem !
HO! HO! HO!
E agradeço a revista literária que me enviaram !
Li e gostei muitíssimo !
VALEU !
ABÇS !
:D
JÔKA P.

Erik José Steger disse...

God Jul God nyt Ar
Feliz Natal e Feliz Ano novo sueco
A cada dia que passa, mais e mais eu fico convicto que "o antigamente" era muito melhor !

Abrassos e bjnhs. respeitosos p/Mi

Julia disse...

Adorei a descrição....me senti aí no Rio, nesses tempos idos, que devem ter sido, ao menos, mais alegres que hoje. (enviado por e-mail)

Celso disse...

Eu já havia lido o texto do "João do Rio". Mas o mais interessante, é que em 1984, fui passar o natal na cidade de Paracatu (antiga Paracatu do Príncipe), na casa de uns amigos. Estranhei que não havia árvore de Natal, e que a ceia fosse colocada às 9 horas da noite. Mas qundo deu 11:15, todos saíram para ir à missa do Galo, na Igreja Matriz. Como não ia assisti à missa, saí para andar pelas redondezas e ver o movimento. As igrejas estavam apinhadas e nas ruas víamos milhares indo de um lugar para outro. A missa era demorada ( + de 1 hora). Quando regressaram para casa, foram dormir. Os presentes eram abertos no Domingo de manhã . Ah ! o comércio ficou aberto todo o feriado, inclusive no dia 25, só começando às 12 horas. Hoje não sei como eles ainda celebram, mas vou procurar saber. (enviado por e-mail)

Antonio Naud Júnior disse...

Bacana o seu blog, Ivo. Vou aparecer outras vezes. Abração,

Wilton disse...

Olá!
Meu Caro Ivo, muito bom o seu post, gosto deste tratamento de resgate de autores que pouco circulam pela internet.Um tema atual e que desperta curiosidade.Seu blog está dentro de um recorte que aprecio muito, que é abordagem literária tendo como tema a nossa cidade.Mantenho um interesse especialmente sobre o Rio de Janeiro, de modo que, seu blog faz parte de minha rotina de visitas. Um grande abraço e muito obrigado pela retribuição feita ao meu espaço.

Paulo da Mata-Machado disse...

Continuo apreciando deveras o seu blog. Agora mesmo li o delicioso João do Rio indo farrear no boteco em frente à igrejinha... vontade de ir junto! (enviado por e-mail)

Jane disse...

Parabéns pelo blog! Adorei os trechos selecionados de nosso grandes cronistas.

nandajudoca disse...

Procurei foto antiga do Hotel Glória, e vim parar no seu blog, por causa do Machado de Assis... E acabei de reparar que passei a te seguir no Panoramio, embora já tenha visto fotos suas anteriormente. Bom, olhando seu arquivo por nome, notei que não tem Marechal Hermes. Em Marechal tem muitas casas antigas. Apareça!

VILLAMIL ARQUITECTOS disse...

A través de Nireu Cavalcanti recibí este artículo que es rico en sus descripciones, me hicieron transportarse al Río de la época y compararlo con el de hoy.Saludos

VILLAMIL ARQUITECTOS disse...

A través de Nireu Cavalcanti recibí este artículo que es rico en sus descripciones, me hicieron transportarse al Río de la época y compararlo con el de hoy.Saludos