1.3.16

AQUI ESTÁ, de ÁLVARO MOREYRA


A terra carioca tem o tempo de vida contado às avessas. Os anos vão passando, ela vai ficando mais nova. Quem a procura, na lembrança dos dias coloniais, encontra uma velhinha tristonha, de nome cristão e vista fatigada, em frente ao mar... Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Durante a permanência de D. João VI, a velhinha desaparece. E lá está, entre os uivos da rainha doida e os primeiros lampiões urbanos, uma grave matrona, vestida sem gosto nenhum... Com d. Pedro I, ei-la chegada ao outono, já bem-posta, aparecendo nas igrejas, nos salões, no teatro... A Regência deixa-a na mesma idade. Pelo meio do Segundo Império, ela rejuvenesce escandalosamente... Quando se proclamou a República, andava a terra carioca nos seus vinte anos... De então para hoje, ficou assim... Menina e moça, pouco a pouco se desembaraçou, perdeu o ar acanhado, quis viver... O corpo tomou o ritmo das ondas, a graça das árvores esguias. Tem um resto de sonho nos olhos, o voo de um desejo alegre nas mãos... Mulher bem mulher, a mais mulher das mulheres... Conhece o presente. Adivinha coisas deliciosas do futuro. Mas, não lhe falem em datas, épocas, feitos, criaturas do passado... Não lhe falem, que se atrapalha. Em compensação, enumera todos os costureiros e chapeleiros de Paris... diz de cor a biografia de todos os artistas de cinema... entende de sports como ninguém entende... Conversa em francês, inglês, italiano, espanhol... Ama os poetas... Toma chá, com furor... E dança tudo... É linda!

Crônica extraída do livro Álvaro Moreyra A Cidade Mulher publicado em 1923

Um comentário:

Waldir Do Val disse...

Que coisa boa, você reviver o cronista e poeta Álvaro Moreyra. O cronista de "As amargas não", crônicas biográficas de tantas figuras important4s. E o poeta Álvaro Moreira, que pouco conheço, mas vejo citado tantas vezes nas notícias dos recitais de Eugêni Álvares Moreyra, juntamente com outros poetas, como Augusto Frederico Schmidt e tantos mais. O nome de Álvaro Moreyra é meu conhecido desde que tinha uns oito anos, quando uma tia minha me ensinou um poemazinho que declamei para a família (meus avós e tios): Começava assim: Mamãe, escuta uma coisa que eu quero te perguntar: Quando eu crescer é verdade que eu tenho que me casar?" Continue, meu caro Ivo, a nos brindar com seus sites tão intressantes e úteis para a memória da nossa "Sebastianópolis"!!! Abraços, Waldir Ribeiro do Val