ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

15.6.18

O FUTEBOL NOSSO DE CADA CRONISTA, de CYRO DE MATTOS



Disputado por dois times, o futebol tem como objetivo fazer entrar a bola no gol defendido pelo adversário. Como arte nascida do pé na bola descreve linhas e curvas incríveis no decorrer da partida. Nos dois tempos com intervalo, ora faz parte do jogo a ginga e o toque sutil, ora o passe preciso e o tiro certeiro. As cenas que causam espanto aos que estão no estádio resultam do empenho e suor gasto no esforço de cada lance. A bola rola macia no tapete verde ou salta na grama maltratada do campo de várzea. Uma das proezas do futebol consiste em impulsionar o coração para as zonas em que uma gente apaixonada transpira pulsações alegres e dramáticas.

               Provoca uma febre que lateja em sua brasa verdejante e se expande por toda a extensão dos meses no ano. Como gosta de criar apreensões, ritmos frenéticos quando se trata de uma Copa do Mundo, até mesmo se for uma disputa de dimensão nacional, estadual ou municipal. Tremores, clamores, rancores. Vaias da galera formada de todas as gradações sociais.

Surpreende quando irrompe das gargantas no grito de gol, pura curtição da felicidade. Tamanha é uma flor nesse grito ferindo e atordoando que ela se torna mais bela quanto mais sonora. O grito de gol irrompido com tanta força tremula nas bandeiras com o escudo do clube ou a cara do ídolo. Ele é carregado até as nuvens com gritos e ovações. De repente, lá do alto, derrama uma água que molha de amor o mundo fero e solitário aqui embaixo. Esse mesmo mundo que nós os humanos teimamos em forjar com lances de tristeza, rasteiras e carrinhos impiedosos, todos os dias, no duro embate dos dias. Assim levado pelas nuvens, lá vai o futebol em seu percurso de paixão do qual faz descer uma chuva que alaga de emoção a vida, cheia de explicações duvidosas, mas feita também de poesia, inexplicável, tão dela.

Nos textos de alguns de nossos craques das letras, aqui vestindo as cores de um timaço das letras, vemos como o futebol seduz com suas artimanhas, feitiços e sustos esplêndidos. O quanto é amoroso e imprevisível. Cria situações inusitadas, tornando as coisas relativas, escreve Luís Fernando Veríssimo. Maltrata com a mesma mão que afaga. Renuncia às necessidades materiais do cotidiano. Fica radiante de beleza no lado onde se alojou a vitória, faça sol ou chuva. No lado dos pesares, a turma deixa o estádio inconformada, não querendo acreditar no que viu e sentiu. Nessa romaria de frustrações lá vai o futebol em silêncio, mastigando as amarguras da derrota.

Nesse jogo que tantas vezes imita a vida, cheia de calor e pressentimentos, é que o futebol imprime em todos nós suas marcas de encantamento, entre o alegre e o triste. Assim o vemos agora, de crônica em crônica. Com Armando Nogueira, por exemplo, um pouco da história de nosso futebol sai dos bastidores para que se conheça o heroísmo de Vavá, o Leão da Copa de 58, nos gramados da Suécia. Em Carlos Drummond de Andrade, de repente o ódio faz-se alegria, o futebol afugenta mazelas, não quer saber da morte. O coração do poeta está feliz no México e com o dele o de milhões de brasileiros, que sente do lado de cá como é bom chover papéis picados pelas ruas e explodir fogos de artifício loucos no céu quando se ganha uma copa do mundo. Melhor ainda se o feito é creditado a uma seleção inigualável de craques, comandados por Pelé, o “sempre rei republicano”.

O futebol chega a ter sabor de obra-prima quando é descrito por Fernando Sabino em Iniciada a Peleja. Se impõe nesse momento de reunião importante dos executivos para tratar de assunto sério. Fala mais alto em cada lance vibrante, chegando ao ouvido do torcedor atento e nervoso, através de um pequeno rádio de pilha. Já Carlos Heitor Cony mostra como o futebol é muito perigoso. Tem dessas coisas que ultrapassam o óbvio ululante de qualquer criatura sensata quando se trata de salvar a pele. Abala uma nação inteira que quer ver o diabo em sua frente do que o bandeirinha brasileiro que marcou um impedimento dos mais graves e tirou o título de campeão sul-americano dos nossos “hermanos”, em território argentino, favorecendo os arquirrivais uruguaios, no último minuto.

Na trama que prende do princípio ao fim, aqui está, nestas referências de alguns cronistas bons de bola, nossa maior paixão popular. Esses craques das letras brasileiras mostram, em breves passagens, como o futebol é tão íntimo da vida. Se possui seus imprevistos sob os instantes do sol ou da chuva, depende do carinho para sobreviver naquele espaço verde que encanta. Com frequência está a dizer que vencer torna a vida leve. Quando se perde, meu Deus, como machuca.

De qualquer maneira, com sorte ou azar, seu refrão diz que vale como paixão e diversão.

Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista, ensaísta, romancista, organizador de antologia, autor de livros para crianças e jovens. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.  Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e Dinamarca

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