1.6.16

RIO DE JANEIRO EM 1584: CARTA DE FERNÃO CARDIM

Como teria sido a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro duas décadas após sua fundação? O jesuíta português Fernão Cardim, aqui esteve como secretário do visitador da companhia, de 1583 a 1598, retornando como provincial da companhia de 1604 a 1609, como lemos na Wikipedia. Em carta ao padre provincial de Portugal descreveu sua passagem pelo Rio de Janeiro, em dezembro de 1584. A carta encontra-se na obra Tratados da terra e gente do Brasil que pode ser acessada na Brasiliana Eletrônica. Os textos de Cardim fornecem uma visão privilegiada do Rio de Janeiro quinhentista, e os jesuítas se destacaram como protagonistas desse processo inicial de colonização. A seguir trecho da carta de Cardim.

Rio de Janeiro em 9/11/1599 em gravura de autor anônimo ilustrando a obra de Olivier van Noort Descrição da penosa viagem ao redor do mundo por Olivier van Noort). Foi o primeiro holandês a fazer uma viagem ao redor da terra, iniciada em 1598. Dos quatro navios iniciais, apenas um retornou, em 1601. A letra B no mapa mostra a cidade na época circunscrita ao Morro do Castelo e encosta. A letra D deve ser a fortaleza de Nossa Senhora da Guia, atual de Santa Cruz, e C deve ser o Pão de Açúcar, mal desenhado.

Do Espírito Santo partimos para o Rio de Janeiro, que dista ali 80 léguas. Dois ou três dias tivemos bom tempo, e logo nos deu um temporal tão forte, que foi necessário ficarmos árvore seca [mastreação de um navio com todos os panos ferrados] quase dois dias com muito perigo, por estarmos sobre uns baixos dos goitacazes mui perigosos [região de Campos dos Goytacazes], e não muito longe da costa. Ali estivemos a Deus misericórdia, e cada um se encomendava a Nossa Senhora quanto podia por vermos perto a morte. Deste perigo nos livrou Deus por sua bondade, e aos 20 de dezembro de 1584, véspera de São Tomé, arribamos ao Rio. Fomos recebidos do padre Ignacio Tolosa, reitor, e mais padres, e do Sr. Governador [Salvador Corrêa de Sá], que manco de um pé com os principais da terra veio à praia com muita alegria, e os da fortaleza também a mostraram com salva de sua artilharia. Neste colégio tivemos o Natal com um presépio muito devoto, que fazia esquecer os de Portugal; e também cá Nosso Senhor dá as mesmas consolações, e avantajadas. O irmão Barnabé Telo fez a lapa, e às noites nos alegrava com seu berimbau.

   Trouxemos no navio uma relíquia do glorioso Sebastião engastada em um braço de prata. Esta ficou no navio para a festejarem os moradores e estudantes como desejavam, por ser esta cidade do seu nome, e ser ele o padroeiro e protetor. Uma das oitavas à tarde se fez uma célebre festa. O Sr. governador com os mais portugueses fizeram em lustroso alardo de arcabuzaria, e assim juntos com seus tambores, pífaros e bandeiras foram à praia. O padre visitador com o mesmo governador e os principais da terra e alguns padres nos embarcamos numa grande barca bem embandeirada e enramada: nela se armou um altar e alcatifou a tolda com um pálio por cima; acudiram algumas vinte canoas bem esquipadas, algumas delas pintadas, outras empenadas, e os remos de várias cores. Entre elas vinha Martim Affonso [Arariboia], comendador de Cristo, índio antigo abaetê [homem bom e de palavra] e moçacára [amigo], sc. grande cavaleiro e valente, que ajudou muito os portugueses na tomada deste Rio. Houve no mar grande festa de escaramuça naval, tambores, pífaros e flautas, com grande grita e festa dos índios; e os portugueses da terra com sua arcabuzaria e também os da fortaleza dispararam algumas peças de artilharia grossa e com esta festa andamos barlaventeando um pouco à vela, e a santa relíquia ia no altar dentro de uma rica carola com grande aparato de velas acesas e música de canto de órgão, etc. Desembarcando viemos em procissão até a Misericórdia, que está junto da praia, com a relíquia debaixo do pálio; as varas levaram os da câmara, cidadãos principais, antigos e conquistadores daquela terra. Estava um teatro à porta da Misericórdia com uma tolda de uma vela, e a santa relíquia se pôs sobre um rico altar em quanto se representou um devoto diálogo do martírio do santo, com choros e várias figuras muito ricamente vestidas; foi asseteado [martirizado] um moço atado a um pau: causou este espetáculo muitas lágrimas de devoção e alegria a toda a cidade por representar ao vivo o martírio do santo, nem faltou mulher que não viesse à festa; por onde acabado o diálogo, por a nossa igreja ser pequena lhes preguei no mesmo teatro dos milagres e mercês, que tinham recebido deste glorioso mártir na tomada deste rio, a qual acabada deu o padre visitador beijar a relíquia a todo o povo e depois continuamos com a procissão e danças até nossa igreja: era para ver uma dança de meninos índios, o mais velho seria de oito anos, todos nuzinhos, pintados de certas cores aprazíveis, com seus cascavéis [guizos] nos pés, e braços, pernas, cinta, e cabeças com várias invenções de diademas de penas, colares e braceletes. Parece-me que se os viram nesse reino, que andaram todo o dia atrás deles; foi a mais aprazível dança que destes meninos cá vi. Chegados à igreja foi a santa relíquia colocada no sacrário para consolação dos moradores, que assim o pediram.

   Têm os padres duas aldeias de índios, uma delas de São Lourenço [na atual Niterói], um légua da cidade por mar; e a outra de São Barnabé [nas vizinhanças do rio Macacu], sete léguas também por mar, terão ambas três mil índios cristãos. Foi o padre visitador à de São Lourenço, aonde residem os padres, e dia dos Reis lhes disse missa cantada oficiada pelos índios com canto de órgão com suas flautas; casou alguns em lei de graça, e deu a comunhão a outros poucos. Eu batizei dois adultos somente, por os mais serem todos cristãos.

Esta capitania do Rio dista da Equinocial 23 graus para o Sul, e da Bahia 130 léguas. É muito sadia, de muitos bons ares e águas. No verão tem boas calmas [calores] algumas vezes, e no inverno mui bons frios; mas em geral é temperada. O inverno se parece com a primavera de Portugal: tem uns dias formosíssimos tão aprazíveis e salutíferos [salutares] que parece estão os corpos bebendo vida. E' terra mui fragosa [em que há muitas fragas, rochas escarpadas] e muito mais que a serra da Estrela; tudo são serrarias e rochedos espantosos, e tem alguns penedos tão altos que com três tiros de flecha não chega um homem ao chão e ficam todas as flechas pregadas na pedra por causa da grande altura; destas serras descem muitos rios caudais que de quatro e sete léguas se veem alvejar por entre matos que se vão às nuvens, e do pé de algumas destas serras até riba há uma grande jornada; são todas estas serras cheias de muitas e grandes madeiras de cedros, de que se fazem canoas tão largas de um só pau, que cabe uma pipa atravessada; e de comprimento que levam dez, doze remeiros por banda e carregam cem quintais de qualquer cousa, e outras muito mais. Há muitos paus de sândalos brancos, aquilo e noz-moscada e outros paus reais muito para ver. Agora se descobriu um pau que tinge de amarelo [tatajuba, árvore da família das urticáceas], como o brasil [pau-brasil] vermelho; é pau de preço; é abundante de gados, porcos e outras criações; dão-se nela marmelos, figos, romeiras, e também trigo se o semeiam; a um grão respondem 800 e mais e cada grão dá 50 e 60 espigas, das quais umas estão maduras, outras verdes, outras nascem; também se dão rosas, cravos vermelhos, cebolas-cecéns, árvores de espinho, todo gênero de hortaliça de Portugal; as canas também se dão bem, e tem três engenhos de açúcar, enfim é terra mui farta.

   A cidade está situada em um monte de boa vista para o mar [Morro do Castelo], e dentro da barra tem uma baía que bem parece que a pintou o supremo pintor e arquiteto do mundo, Deus Nosso Senhor, e assim é cousa formosíssima e a mais aprazível que há em todo o Brasil, nem lhe chega a vista do Mondego e Tejo: é tão capaz que terá 20 léguas em roda cheia pelo meio de muitas ilhas frescas de grandes arvoredos, e não impedem a vista umas às outras, que é o que lhe dá graça. Tem a barra meia légua da cidade, e no meio dela um lagoa de 60 braças em comprido, e bem larga que a divide pelo meio, e por ambas as partes tem canal bastante para naus da Índia; nesta lags [Lagea Rattier, Ilha da Laje] manda el-rei fazer a fortaleza, e ficará cousa inexpugnável, nem se lhe poderá esconder um barco; a cidade tem 150 vizinhos com seu vigário, e muita escravaria da terra.

   Os padres têm aqui o melhor sítio da cidade [o colégio dos jesuítas no morro do Castelo, terceiro colégio do Brasil, fundado pelo padre Manuel da Nobrega em 1567]. Têm grande vista com toda esta enseada defronte das janelas: têm começado o edifício novo, e têm já 13 cubículos de pedra e cal que não dão vantagem aos de Coimbra, antes lha levam na boa vista. São forrados de cedro, a igreja é pequena, de taipa velha. Agora se começa a nova de pedra e cal [Igreja de Santo Inácio], todavia tem bons ornamentos com uma custódia de prata dourada para as endoenças, uma cabeça das Onze Mil Virgens, o braço de São Sebastião com outras relíquias, uma imagem da Senhora de São Lucas. A cerca é cousa formosa; tem muito mais laranjeiras que as duas cercas de Évora, com um tanque e fonte; mas não se bebe dela por a água ser salobra; muitos marmeleiros, romeiras, limeiras, limoeiros e outras frutas da terra. Também tem uma vinha que dá boas uvas, os melões se dão no refeitório quase meio ano, e são finos, nem faltam couves mercianas bem duras, alfaces, rabões e outros gêneros de hortaliça de Portugal em abundância: o refeitório é bem provido do necessário; a vaca na bondade e gordura se parece com a de Entre-Douro e Minho; o pescado é vário e muito, são para ver as pescarias da sexta-feira, e quando se compra vai o arrátel [unidade de medida] a quatro réis, e se é peixe sem escama a real e meio, e com um tostão se farta toda a casa, e residem nela de ordinário 28 padres e irmãos afora a gente, que é muita, e para todos há. Duvidava eu qual era melhor provido, se o refeitório de Coimbra se este, e não me sei determinar: quanto ao espiritual se parece na observância bom concerto e ordem com qualquer dos bem ordenados de Portugal; e estes padres velhos são a mesma edificação e desprezo do mundo, e esta fruta colheram cá por estes matos sem prática nem conferências, e são um espelho de toda virtude, e muito temos os que de lá viemos para andar, se havemos de chegar a tanta perfeição da sólida e verdadeira virtude da Companhia.

   Nas oitavas do Natal ouviu o padre visitador as confissões gerais, e renovaram-se os votos dia de Jesus, e aquele dia preguei em nossa igreja, houve muitas confissões e comunhões por causa da festa e jubileu. 

Um comentário:

MÁRIO SALVADOR FAILLACE CHAGAS disse...

Excelente pesquisa, para que possamos cada vez mais, conhecer melhor a nossa cidade do
Rio de Janeiro.
Muito bom, professor Ivo