17.6.16

MORRO DO PINTO no SANTO CRISTO II

O MORRO DA JULES RIMET, CRÔNICA DE JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS PUBLICADA ORIGINALMENTE EM O GLOBO DE 30/6/2014. FOTOS DO MORRO DO PINTO TIRADAS EM 16 DE JUNHO DE 2016 PELO EDITOR DO BLOG.

Dizem — pode ser lenda urbana, pode ser a força de imaginação carioca —, dizem, na esquina das ruas Farnese e Mont’Alverne, que o morro é urbanizado assim porque Getúlio Vargas tinha uma amante na Rua Deolinda.

Torre da antiga fábrica Bhering aos pés do Morro do Pinto

A confirmar.

O Morro do Pinto é o da música do Geraldo Pereira, aquele em que o Escurinho — depois de ir ao Morro da Formiga procurar intriga, ir ao Morro do Macaco pra bater num bamba —, no final de seu périplo sincopado pelos morros do Rio, o Escurinho malemolente vai ao Morro do Pinto acabar com o samba.

Do Morro do Pinto dá para ver o Maracanã ao longe (centro esquerda, abaixo das bases dos morros). E os arranha-céus novos que  vão surgindo no Porto Maravilha

Pois eu, que não sou esse escurinho todo e quero mais que o samba peça passagem e vá em frente — eu tenho ido ao Morro do Pinto, no Cais do Porto, no intervalo de um jogo e outro da Copa. Vagueio sem rumo, na esperança de relaxar a hemoglobina e apascentar as hemácias, essas senhoras sanguíneas que me têm sido tão cruéis. Flano ao léu, zero o QI, os olhos cheios de uma cidade que poucos conhecem.

Travessa Sousa

Há quem enfrente a fila do bondinho do Corcovado para lá de cima observar a Zona Sul. Nada contra, mas quem ainda não colocou o cenário como pano de fundo num selfie do Instagram?

Eu tenho preferido entrar pela Rodoviária, pegar o Santo Cristo, subir a Rua Sara, atravessar a esquina com a Orestes, galgar a escadaria da Carlos Gomes, dobrar à direita na Rua do Pinto, entrar no Parque Machado de Assis e ficar lá de cima, embasbacado com o que vai embaixo — o avesso de um cartão postal que o mundo inteiro vem ver e a própria cidade desconhece. No canto esquerdo do olho, o prédio da Central; no direito, as antenas do Sumaré; no meio, 450 anos de história.

Coreto

O Morro do Pinto é um daqueles paraísos que o carioca desperdiça diariamente, preguiçoso de sair do seu quarteirão e descobrir que a cidade é maravilhosa não só por causa das curvas do Aterro, das curvas das garotas e das curvas das pedrinhas no calçadão. O Rio não entende o Rio, acha que isso aqui é só sal, sol e sul. Faz a curva no fim do calçadão do Leblon e volta para casa, crente que viu tudo o que interessa.

Igrejinha de Nossa Senhora de Montserrat, que os cariocas costumam ver de longe, da Av. Presidente Vargas, mas poucos sobem o morro para ver de perto

Eu lamento a falta de curiosidade do carioca ixperto, sempre nos mesmos engarrafamentos humanos e águas de coco, mas não perco tempo com isso. Sigo no caminho que mestre Jaguar ensinou, o de ir na contramão do turismo e das multidões, rumo ao âmago do lepo lepo, ao fundo do BIP-BIP, a Busca Insaciável do Prazer.

Troto ladeira acima do Morro do Pinto, vizinho do Morro da Conceição e da Providência, feliz como cabrito que foge do zoo congestionado das calçadas da Zona Sul. Passo pela esquina do bloco Pinto Sarado, cruzo com a arquiteta Bel Lobo, que tem um ateliê na fábrica da Bhering, e paro no hambúrguer do Omar, o Troisgros local.

Tranquilidade

Da varanda, cercado pelo canto dos galos, eu agora escorrego a vista por uma outra região da cidade, e varro as chaminés de São Cristóvão, os guindastes do cais do porto, as torres da Igreja da Penha e, nos dias mais claros, a unha rochosa do Dedo de Deus. Alguém na mesa ao lado conta a incrível história do bandido Zé Piroca, morador da Rua Sara, o soldado maluquete que um dia subiu o morro pilotando um tanque roubado do quartel da Quinta da Boa Vista.

Vista para a via férrea com a sombra do fotógrafo abaixo

Pode ser lenda urbana, mais uma conversa de bar, mas é disso também, de adoráveis assombrações, que se faz uma cidade. Fato indiscutível é que foi derrubada a casa do Seu Normando, na Rua Deolinda, onde, nos anos 70, Zeca Pagodinho e Beth Carvalho abriam a roda.

Velho bar

Os mais viajados vão achar que estão subindo as ladeiras da Alfama, o bairro de Lisboa — e há bandeiras de Portugal nas janelas, memória evidente de que antes de Getúlio, antes do Escurinho, o Morro do Pinto foi ocupado pelos portugueses no século XVIII. Eu, com menos milhagens, acho que estou de volta ao subúrbio, a uma foto do Malta ou a um maxixe do Sinhô. “Isso aqui é o melhor lugar do Rio para se criar marreco” — diz um morador, numa tradução ao carioquês de que ali há paz.

Chalé
Eu respondo com um “amém”, passo pelo coreto da Igreja de N.S. de Montserrat, peço contrito que tudo fique como está e mais adiante, ainda na Rua Mont’Alverne, dou um tempo no Bar do Carlinhos para ouvir o compositor local Carlos Gomes de Oliveira. Ele canta, de sua autoria, conforme atesta documento lavrado em cartório, o samba “Para pegar o caranguejo é preciso molhar a mão na lama”. Ao fundo, na gaiola, um papagaio parece gritar disparates contra a especulação imobiliária que, alimentada pelas obras do Porto Maravilha, começa a subir o Pinto.

O gato na moto

Para não dizer que fui ao morro e perdi a Copa, de um dos mirantes vê-se o Maracanã. E ainda conto mais sobre o grande torneio internacional que nos acomete: nos anos 1980, em uma das fundições da Rua Capiberibe, outro maluco do bairro, o Peralta, derreteu a Taça Jules Rimet, roubada com dois comparsas.

Casas com fachadas de azulejos tombadas pela Prefeitura na Rua Farnese

Não é uma história muito edificante em meio a tantas ladeiras gloriosas — mas este é o Morro do Pinto. A Taça do Mundo acaba aqui.

Sacada

Clique no label "Morro do Pinto" abaixo para ver outras postagens neste blog sobre esse aprazível morro da Zona Portuária carioca.

Um comentário:

Valter Santos disse...

É uma pena que a fiação nos postes prejudique a beleza da arquitetura dos antigos prédios.