29.10.15

O RIO ANTIGO QUE EU VI, de Waldir Ribeiro do Val

450 Anos da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, primorosa edição comemorativa da Academia Carioca de Letras, organizada por Paulo Roberto Pereira, lançada em 28/10/2015, de onde extraímos o texto de Waldir Ribeiro do Val 

Antes de completar 15 anos de idade, em 1943, vim morar no Rio de Janeiro. Conseguira matrícula no Colégio Pedro II, para cursar o científico, invenção do então ministro Gustavo Capanema. Minha tia Minerva, com boas relações na Igreja Metodista do Catete, conseguiu com uma de suas amigas uma vaga para mim, no apartamento em que a amiga residia, no centro da cidade. Foi assim que fui morar na Rua São Pedro, atrás da Igreja da Candelária, no segundo pavimento de um velho prédio que tinha no andar de baixo uma espécie de centro espírita, ou de macumba, que à noite me assustava com gritos e choros.

A rua mais próxima era a Miguel Couto, antiga dos Ourives, e sendo tempo de guerra por ela passavam grupos de marinheiros norte-americanos, naturalmente de folga no serviço, com seus uniformes característicos. Mas o que me causava mais curiosidade era uma igreja que dava para a rua Miguel Couto, que soube logo chamar-se, resumidamente, de Igreja de São Pedro. Estilo barroco, arredondada, semelhante a algumas igrejas de Ouro Preto.

Estudante no Pedro II à noite, desejava trabalhar. O Jornal do Brasil daquela época tinha a primeira página tomada por pequenos anúncios, com exceção da coluna da esquerda, que resumia as notícias das outras páginas. Consegui, por anuncio no JB, um lugar de auxiliar numa firma de papelaria, com seu comércio no térreo e escritório no primeiro andar. Eu me adaptara bem ao trabalho, fizera camaradagem com funcionários, mais categorizados, mostrava mesmo a eles alguns sonetos que já escrevia. Era um emprego de que muito gostava.

De repente, uma lei desapropriou todos os prédios do local, visando à abertura de uma nova grande avenida, e todo o comércio foi obrigado a fechar as portas. Perdi assim minha morada e meu emprego. Era o segundo bota-abaixo, o primeiro havia sido para a abertura da Avenida Central (renomeada Avenida Rio Branco, com a morte do grande brasileiro), pelo engenheiro Francisco Pereira Passos.

Agora, era o prefeito Henrique Dodsworth que comandava a destruição, com a promessa de uma avenida bem ampla. Todos os prédios entre as ruas São Pedro e General Argolo [na verdade, General Câmara] (antiga do Sabão), iam sumir para dar lugar à avenida cujo nome ainda não fora decidido.

Vi, com tristeza, a demolição da igreja de São Pedro dos Clérigos, e de duas outras igrejas. Vi serem postas abaixo, sem demora, todas as casas entre as duas ruas. A nova avenida também demoliria prédios importantes e ia apropriar-se de uma faixa do Campo de Santana.

Na demolição de uma das igrejas descobriu-se antigo cemitério, que foi revolvido, e jovens do Pedro II levavam crânios para exibir no colégio. Um espetáculo macabro, que se repetia por vários dias.

A Praça Onze, tradicional reduto de sambistas, carnavalescos e músicos, seria encampada pela grande avenida. No carnaval de 1944 o povo cantava: “Vão acabar com a Praça Onze, Não vai haver mais Escola de Samba, não vai!... Portela, Salgueiro, Estação Primeira, guardai os vossos pandeiros, guardai, Porque a Escola de Samba não sai.”

Naquela ocasião, valeu-me novamente minha tia, ao arranjar-me uma vaga na pensão de outra senhora da mesma igreja, dona Francisca, que os hóspedes chamavam de Dona Chiquinha. Ali conheci quatro estudantes que se tornaram meus amigos por toda a vida. Mas a maldição da nova avenida iria de novo atingir-me. Antes da demolição da igreja de São Pedro, surgiu a ideia de transportá-la para outro local, sobre trilhos, com a parte inferior congelada, como ocorrera na Europa com um prédio. E o local escolhido e desapropriado para receber a igreja situava-se na rua Miguel Couto, 52, exatamente o local da pensão onde eu passara a morar. Eu e os quatro estudantes nos mudamos para a Rua da Alfândega, 321, quase perto da Igreja de São Jorge, na pensão de Dona Belmira. Nesse tempo, nos andares dos prédios antigos da rua da Alfândega moravam famíliaç e as lojas, sempre fechadas, serviam apenas de depósito de mercadorias.

Foi extremamente rápida a demolição e construção da grande Avenida. Até pouco antes da inauguração, não estava definido o nome que teria. Mas vigorava ainda a ditadura Vargas: o nome da avenida não poderia ser outro senão Presidente Vargas.

Sua inauguração ocorreu em 7 de setembro de 1944, num palanque junto à Praça da República, tendo do lado oposto o Ministério da Guerra. O Presidente Getúlio, outras autoridades, e engenheiros responsáveis pela construção, estavam presentes. Foi uma grande festa. Do lado de fora, próximas do palanque, aglomeravam-se pessoas do povo, entre as quais o jovem estudante que hoje registra estas lembranças.

Vi também a grande transformação da Avenida Rio Branco. Prédios foram demolidos para se erguerem outros mais modernos. O belo Pálace Hotel, de que vi caírem pedra a pedra, deu lugar a um moderno edifício com a parede exterior fazendo um ângulo, e chamado pelo espírito galhofeiro dos cariocas de "tem nêgo bebo aí". Tinha venezianas (dizia-se brise-soleils), logo depois retiradas.

Também vi a demolição do Hotel Central [na verdade, Hotel Avenida, o Hotel Central ficava na Praia do Flamengo], junto do qual havia o Bar da Brahma, em que faziam ponto escritores e boêmios, os bondes por ali circulavam, antes de construído o "Tabuleiro da Baiana", no Largo da Carioca. No terreno do Hotel Central [Avenida] elevou-se o arranha-céu Avenida Central.

Tantas coisas mais eu vi. Uma das mais tristes foi a demolição do Teatro Fênix, semelhante em formato ao Teatro Municipal, porém bem menor, onde pouco antes eu assistira à estreia, ou quase estreia, de artistas que alcançariam fama, como Sérgio Cardoso (falecido precocemente) e Fernanda Montenegro (ainda hoje muito atuante) na notável interpretação de "Hamlet". Vi ali também a atriz Bibi Ferreira estrear como diretora teatral, apresentada por seu pai, o grande Procópio Ferreira.

Vi mais tarde a movimentação de terras do morro de Santo Antonio para ajudar a aterrar a praia do Flamengo, então uma nesga de areia bem próxima da amurada de pedra, ainda hoje existente, depois transformada no grande parque atual.

Pouco antes do aterro, pude ver, visitando o poeta Manuel Bandeira (que morava num edifício da Avenida Beira-Mar), as pedras que escoravam a pequena muralha daquela avenida. E vi também um desenho, feito pelo poeta, retratando a paisagem próxima que iria desaparecer para sempre — mas não da memória dos que viveram nessa época.



WALDIR RIBEIRO DO VAL, bacharel em Direito, livre-docente pela Escola de Comuunicação da UFRJ, professor-convidado de Literatura na Faculdade de Letras da UFRJ, jornalista e editor de livros, poeta com vários livros publicados, e membro do PEN Clube do Brasil e da União Brasileira de Escritores. Biógrafo do poeta Raimundo Correia, tem a publicar a biografia do poeta Augusto Frederico Schmidt, e também um livro de memórias e outro de contos. Membro da Academia Carioca de Letras — cadeira 29. A inauguração de seu Museu da Literatura em Andrade Costa, ocasião em que foi tirada a foto acima, foi objeto de postagem neste blog, que você pode ler clicando aqui.

Um comentário:

Waldir Do Val disse...

Caríssimo Ivo,
Muito lhe agradeço pela publicação de meu pequeno ensaio sobre o Rio antigo que eu vi, no seu blogue tão especial. Agradeço-lhe também as correções feitas, nos dois enganos que cometi por distração, pois sabia, por ter conhecido tanto, os nomes que distraidamente errei. Grato ainda pela reprodução de minha biografia, e a menção da inauguração do Museu do Val de Literatura, lembrando que esteve presente ao ato. Leio sempre com muito gosto as suas postagens, e acabo de ver a interessante matéria sobre o Morro da Babilônia. Grande abraço do amigo e admirador
Waldir Ribeiro do Val.