17.4.17

IGREJA DE NOSSA SENHORA DA SAÚDE, na MORRO DA SAÚDE, bairro GAMBOA

Igreja de N.S. da Saúde antes da restauração ("mudo martírio dos monumentos desprezados pela urbe"), em foto publicada no Jornal do Brasil de 30 de maio de 2001. Segundo a reportagem, "em estado precário, sujeita a goteiras e desabamentos, a igreja teve o que restou de suas imagens e outros objetos de valor retirados pela Cúria Metropolitana para evitar a continuação dos saques de que tem sido vítima desde a sua deterioração". 

Texto de Alexei Bueno obtido no livro Gamboa publicado em 2002 na coleção Cantos do Rio. Quando o livro foi escrito estava começando um trabalho de restauração dessa joia da arquitetura religiosa, após décadas de abandono e depredações.

A pequena Igreja de Nossa Senhora da Saúde foi construída por Manuel da Costa Negreiro, a partir de 1742, em um montículo à beira do mar. Hoje a sua entrada é por um portão na Rua Silvino Montenegro, belo portão neoclássico, em granito, ao lado de um simpático botequim. Com frontão e sineira barrocos, fachada algo alterada por uma janela oitocentista em arco pleno sobre o portal de granito, possui nave única e um interior de grande elegância. Em um corpo ao lado fica a sacristia, com um notável lavabo de embrechados [=incrustações] de louça das Índias, e, no fundo, restos de um antigo cemitério. À volta de toda a nave, uma série de painéis de azulejos portugueses narra a história de José no Egito.

Igreja de Nossa Senhora da Saúde no Morro da Saúde, bairro da Gamboa, "em um montículo [agora não mais] à beira do mar". Mas com a derrubada da Perimetral a igreja ganhou uma nova visibilidade.

"a sua entrada é por um portão na Rua Silvino Montenegro, belo portão neoclássico, em granito"

Degraus de acesso com calçamento de pé-de-moleque. À direita, rampa de cimento acrescentada na última restauração.

"Com frontão e sineira barrocos, fachada algo alterada por uma janela oitocentista em arco pleno sobre o portal de granito..."

Uma das coisas extraordinárias nessa igreja, para além de sua arquitetura, é o seu lento martírio, ou mudo martírio dos monumentos desprezados pela urbe. Com os aterros, perdeu o mar, a vista, e ficou cercada de armazéns imundos e nuvens de monóxido de carbono. Com a construção de uma nova matriz, perdeu os fiéis. Tombada pelo Iphan em 1938, foi restaurada pelo mesmo órgão nos anos 1960, e novamente no fim da década seguinte. Nos anos 1980, o vigia que nela morava, bêbado, louco ou os dois, matou toda a família em crime de pouca repercussão, como todas as tragédias populares. Abandonada, foi sendo pilhada paulatinamente, desde alfaias e pedaços de talha até que, horror dos horrores, fato inacreditável, surrupiaram-lhe dois dos painéis de azulejo, peça a peça, em trabalho cirúrgico e demorado, deixando incompleta, provavelmente para sempre, a linda bande dessiné azul que contava a história do sábio José e de seus desalmados irmãos  Para cúmulo de tudo, exatamente embaixo da sua fachada ergueu a Casa da Moeda uma monstruosa almanjarra metálica, crematório de células velhas imprestáveis, sonhos desfeitos de fortuna que vão poluir impiedosamente a igreja secular em cima .

Pedra comemorativa da fundação da Irmandade de N.S. da Saúde em 1898. 1742 seria a suposta data de construção da igreja, mas existe pouca documentação a respeito.

"um interior de grande elegância"

Pintura do teto da nave em estilo neorrococó executada sob encomenda em 1906. Removida na segunda metade do séc. XX, a pintura foi restaurada e recolocada em seu lugar.

Afresco sobre argamassa de cal substituindo um dos antigos painéis de azulejos roubados. "José descobre o sonho a seus irmãos."

No presente momento, com verba do BNDES, começam outra vez a restaurar a igrejinha. No morro a seus fundos, antes deserto, a Prefeitura construiu um interessante conjunto de casas populares . A cúria promete um pároco para que o templo funcione. Esperemos que tudo corra bem, que a Casa da Moeda desative o seu forno abominável, e que mais nenhuma peça da igreja engrosse o rol sem fundo das coisas roubadas nesta cidade, do Manequinho até quilômetros de fios de cobre, da taça Jules Rimet até as tampas de bueiros de ferro, do busto de Villa-Lobos na frente do Assírio até a cartela de mestre Valentim na Fonte dos Amores: “Sou útil inda brincando”, das flechas de São Sebastião até os baixos-relevos do monumento do Almirante Barroso, tudo, tudo, tudo, enfim, que pode ser derretido, do ouro ao chumbo, nesse circo de misérias em que vamos caindo.

E não é a Gamboa que iria escapar dele.


Painel de azulejos (linda bande dessiné azul que contava a história do sábio José e de seus desalmados irmãos): "José é metido em uma cisterna pelos irmãos."

Painel de azulejos: "Os filhos de Jacó voltam para o Egito levando consigo Benjamin."

Imagem de N.S. da Saúde no altar-mor, réplica da original que se encontra no Museu da Catedral Metropolitana.

Talha em vermelho, verde e dourado

OBSERVAÇÕES DO EDITOR DO BLOG: Com a revitalização da Zona Portuária e a criação do calçadão, as nuvens de fumaça já não cobrem a igreja. A chacina ocorreu no domingo, 3/6/90, como narra o Jornal do Brasil da terça-feira seguinte, e na verdade não foi cometida pelo vigia. A zeladora da igreja foi uma das três vítimas, entre elas uma criança, de um grupo que pretendia assaltar a igreja. Na recente restauração que durou de 2001 a 2007 os dois painéis de azulejos faltantes foram substituídos por afrescos pintados sobre argamassa de cal, como informa Leonardo Ladeira em A Igreja da Saúde e a Evolução Urbanística da Cidade, que você pode acessar clicando aqui]. Aparentemente o crematório de cédulas” foi removido. Quanto ao conjunto de casas populares, está mais para um condomínio de classe média: Condomínio Residencial Moradas da Saúde. Atualmente a igrejinha encontra-se em perfeito estado de conservação como atestam as fotos recentes (março de 2017) do editor do blog.

ANEXOS:


Jornal do Brasil de 10 de dezembro de 1891, anunciando a benção da Igreja de N.S. da Saúde após a realização de "grandes obras" de conservação.



Notícia da reinauguração da Igreja após a restauração em
O Fluminense de 12 de abril de 2007.

Anúncio da "missa inaugural da nova capela da Igreja de N.S. da Saúde em O Paiz de 10 de julho de 1898, ano da criação da irmandade.

7 comentários:

Salomão Rovedo disse...

MORRO DA SAÚDE, BAIRRO DA SAÚDE...

Ivo Korytowski disse...

Salomão, obrigado por visitar assiduamente o meu blog! No bairro da Saúde fica a Igrejinha de São Francisco da Prainha, a Saúde termina um pouco depois da Pedra do Sal. O Morro da Saúde fica na Gamboa. Dá pra ver no Google Maps. E o Hospital de N.S. da Saúde também fica na Gamboa e é popularmente chamado de Hospital da Gamboa! Saúde, Gamboa, Santo Cristo, velhos bairros da Zona Portuária carioca!

Jorge Gonzaga Filho disse...

BELÍSSIMO texto. É bom ver que,ao final, a igreja de valor histórico e arquitetônico foi restaurada e está a salvo.

Carlos Aguiar disse...

Como faz para visitar? Tem horário de funcionamento?

Ivo Korytowski disse...

Carlos Aguiar, eu visitei a igreja por acaso, estava passeando por lá, vi que tinha movimento, aí aproveitei e entrei. Um grupo estava fazendo um retiro lá. Numa outra ocasião, uns três anos atrás, a igreja estava fechada mas perguntei na vizinhança e alguém chamou uma pessoa que abriu o portão. Agora se tem um horário formal de visita ou de missa não sei, você precisa pesquisar na Internet.

Ivo Korytowski disse...

Carlos Aguiar, ontem, domingo, passei por lá e vi movimento de pessoas no adro. Pode ser que a igreja abra habitualmente aos domingos.

Lucia disse...

VC TEM ALGUMA INFORMÇAÇÃO SOBRE UMA VILA QUE FICA EM FRENTE A ENTRADA DA IGREJA DO OUTRO LADO DA RUA VILA SAÚDE DO OUTRO LADO DA RUA NUMERO 5 PRECISAVA SABER O QUE ERA ALÍ ANTES, ATUALMENTE HÁPESSOAS MORANDO MAIS PODEMOS VER QUE E UMA ANTIGA RUINA... AGRADEÇO