15.9.16

A PAIXÃO RENASCE, de Flávia Oliveira

"O Rio é amor bandido"

CRÔNICA PUBLICADA ORIGINALMENTE NO JORNAL O GLOBO DE 4/8/2016, UM DIA ANTES DA ABERTURA DOS JOGOS OLÍMPICOS

O meu lugar, peço licença ao mestre Arlindo Cruz, é repleto de seres de luz — e de espíritos das trevas, especialmente entre os que o governam. É acolhedor, mas sabe ser brutal. É brutal, mas acolhedor como poucas metrópoles do mundo. Eu nasci, cresci e escolhi viver no Rio de Janeiro. Daqui não saio. Nem se o prefeito Eduardo Paes perder a paciência numa rede social e me mandar embora. Nem se os inomináveis — sim, há mais de um candidato abaixo da crítica — assumirem o Piranhão em 2017. (Aos não iniciados em carioquice, é esse o apelido da sede da prefeitura, erguida numa velha área de prostituição.)

O Rio nos maltratou às vésperas dos primeiros Jogos Olímpicos na América do Sul, que começam oficialmente amanhã. A violência urbana fugiu do controle. O aparato de repressão asfixiou comunidades populares em atitude tão inaceitável quanto habitual. No segundo trimestre, a polícia matou 124 pessoas na cidade; só em junho, foram 49 homicídios, o dobro do registrado no mesmo mês de 2015. Ainda ontem de manhã, o Complexo do Alemão padecia com mais um confronto entre policiais e traficantes.

Não foi à toa que a Anistia Internacional Brasil lançou a campanha “A violência não faz parte desse jogo”, para denunciar violações de direitos humanos na cidade olímpica. Um documento cobrando treinamento e abordagens adequados pelas forças de segurança, respeito à liberdade de manifestação pacífica, investigações imparciais e independentes e assistência a vítimas foi assinado por 120 mil pessoas e entregue ao Comitê Rio 2016. No mês passado, estreou o aplicativo Fogo Cruzado, um mapa colaborativo sobre ocorrência de tiroteios e confrontos. Em um mês, houve mais de 600 relatos.

Em sete anos de preparação para os Jogos, o Rio tampouco foi capaz de avançar na agenda ambiental, que prometia despoluir a Baía de Guanabara e as lagoas de Jacarepaguá. As competições de vela vão ocorrer num cenário livre apenas do lixo aparente, recolhido por balsas. E só Deus sabe o que pode acontecer se chover.

Os investimentos em mobilidade urbana não livraram a cidade de megaengarrafamentos na semana derradeira. Foram 120 quilômetros de puro estresse na última segunda-feira e 200, na terça. A circulação inviável levou à decretação do quarto feriado municipal durante a jornada olímpica, para desespero do empresariado ante ao efeito do expediente interrompido na atividade econômica. Todos esses passivos são conhecidos, merecem críticas e exigem mobilização permanente da sociedade carioca. A cidadania participativa do novo século não aceita o estelionato eleitoral nem se contenta com as realizações possíveis. O anseio é pela cidade ótima; e as autoridades têm de aprender a lidar com isso.

Mas a festa está na rua e o meu lugar, engalanado, é bonito como nenhum outro. Quando o clima de celebração se instala, a paixão renasce. As fotos lindas de todos os cantos da cidade que pipocam nas redes sociais são a prova. Difícil imaginar cenário mais bonito para uma competição esportiva, do Leme ao Pontal, da Lagoa ao Maracanã, do Centro a Deodoro.

As delegações estrangeiras, que desembarcam aos milhares com uniformes coloridos e smartphones em punho, estão a nos escancarar o significado dos Jogos. Os suíços tomaram a Lagoa; os franceses, a Hípica. A Dinamarca ocupou Ipanema; a Itália, a Barra. O CCBB abriu espaço para a magnífica exposição de obras dos museus D’Orsay e L’Orangerie, de Paris. Os mexicanos montaram uma mostra arqueológica e uma exposição audiovisual sobre Frida Kahlo no Museu Histórico Nacional. O “Abaporu”, obra-prima brasileira hoje no acervo do Malba argentino, migrou para o MAR. Virou capital do mundo o meu lugar.

O jamaicano Usain Bolt, multicampeão olímpico e mundial do atletismo, está treinando em instalações da Marinha, na Avenida Brasil. O igualmente laureado Michael Phelps, americano da natação, está na área. Simone Biles, fenômeno da ginástica artística dos EUA, e nosso Arthur Zanetti, o homem das argolas, também. A seleção bicampeã do vôlei feminino, orgulho nacional, vai brigar pelo tri. E vai que a seleção de futebol desencanta...

O povo do samba foi escalado e entrará em campo (viva!) na cerimônia de abertura e em programação intensa na região portuária revitalizada. Anteontem, os boêmios do Sat’s festejavam a vitoriosa campanha #agnaldoolimpico, que conseguiu fazer do garçom e churrasqueiro do bar de Copacabana um dos condutores da tocha. O Comitê Rio 2016 formalizou o convite após saber do flashmob etílico, que percorreu com um arremedo de chama olímpica 13 botequins do bairro. Mais carioca, impossível.

O Rio maltrata, mas é lindo. É lindo, mas maltrata. O Rio é cigarra; a gente intui o inverno de escassez, mas não resiste à cantoria do fim das tardes de verão. O Rio é amor bandido, é filho pródigo. A gente puxa a orelha e belisca; se emociona e acolhe. Me abraça, meu Rio.

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Um comentário:

Salomão Rovedo disse...

Flávia Oliveira, parabéns pelo texto que só li agora, graças ao Ivo Korytowsky. Tenho três filhos cariocas como você que também amam, curtem e vivem esta cidade. E aumentaram com mais dois netos a cariocada dos Rovedo... O Rio de Janeiro reproduz o que todas as cidades mais queridas do mundo inventaram. Quem disse que no Paraíso é tudo paz e amor? Quem disse que um casal feliz não tem seus dias de guerra? Saber viver, desfrutar os lugares, caminhar sem medos - esses e mais mil outros serão os grandes desafios que o Rio de Janeiro propõe aos cariocas, nativos e perfilhados, vencer. Sem medo de ser feliz. Exemplo cabal é este Ivo Korytowsky que se dedica de corpo e alma a espelhar e espalhar o Rio de Janeiro mundo afora. Mas tudo isso só ocorre depois de se fazer o imprescindível juramento de amor e fidelidade, que nem mesmo a morte há de separar. Abração!