ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
“São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

15.10.14

NÉLSON CAVAQUINHO: AMARGO LIRISMO, PEQUENAS TRAGÉDIAS COTIDIANAS E EFÊMERO DA VIDA


Se no axé a regra é o alto astral, o "pra cima", já "pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza", como ensinou mestre Vinicus, e ninguém encarna melhor o lado melancólico, soturno do samba que Nelson Cavaquinho, o "Schopenhauer do samba", por assim dizer, com letras angustiadas como "Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor". Texto a seguir de Paulo Sérgio M. Machado e equipe para o fascículo Nélson Cavaquinho da Nova História da Música Popular Brasileira da Abril Cultural de 1978 (2a edição revista e ampliada). Imagens extraídas desse mesmo fascículo.

Filho de Brás Antônio da Silva e Maria Paula da Silva, Nélson Antônio da Silva nasceu no Rio de Janeiro em 29 de outubro de 1911. Entre suas lembranças da infância e da adolescência estão as constantes mudanças de endereço: Rua Mariz e Barros, Rua Silva Manuel (na Lapa), Rua Joaquim Silva (nos Arcos), uma temporada no subúrbio de Ricardo Albuquerque, outra no bairro da Gávea. A família pobre fugia dos aumentos dos aluguéis.

Também devido à pobreza, o menino Nélson abreviou a infância: saiu da escola no terceiro ano primário para ir trabalhar numa fábrica de tecidos e depois como auxiliar de eletricista. Mas sua formação musical iria mais longe. Começou em casa, com o pai, tocador de tuba na Banda da Polícia Militar. (Alias, essa tuba lhe traz triste recordação: para se safarem de uma situação econômica mais crítica que de costume, Nélson mais os cinco irmãos venderam o instrumento de trabalho de Seu Brás para um depósito de ferro velho.) Outro "professor" foi um tio violinista: nas tardes de domingo, o tio tocava, a família cantava e o menino tentava acompanhar num instrumento de fabricação caseira: fios de arame esticados numa caixa de charutos.

A influência mais forte, no entanto, viria dos bailes dos clubes Gravatá, Chuveiro de Ouro e Carioca Musical. Neles Nélson conheceu Edgar Flauta da Gávea, Heitor dos Prazeres, Mazinho do Bandolim e o violonista Juquinha. Este foi seu primeiro professor de fato: lhe deu as noções de como tocar — cavaquinho, principalmente. Nessa fase, Nélson adquiriu um vício que se transformou em estilo: tocar apenas com dois dedos.

Aprendeu como pôde, espiando os veteranos, perguntando a um, conversando com outro. Não tinha dinheiro para comprar o instrumento, mas logo já dava quedas até nos velhos tocadores.

"Dar uma queda" no acompanhante era um dos passatempos prediletos dos velhos chorões, que ficavam horas e horas nos bares executando variações em torno da linha melódica de uma valsa ou de um choro. Esses longos improvisos, onde se conheciam os verdadeiros mestres, lembram malabarismos feitos pelos negros do Sul dos Estados Unidos, na época das origens do jazz.

A queda praticada pelos chorões ocorria quando o tocador modulava a melodia solista de tal maneira que o acompanhante se atrapalhava na procura de nova posição, o que o obrigava aos saltos de tom. Nélson compôs Gargalhada em homenagem ao mestre Juquinha, que ria muito toda vez que lhe dava uma queda. Outro choro, composto nessa época, tinha o significativo nome de Queda.

Foi então que Ventura, um jardineiro português, ficou com pena de ver Nélson tocando tão bem no instrumento dos outros: deu-lhe de presente o primeiro cavaquinho. Muito tempo depois, já violonista, Nélson ganharia dos funcionários do Fórum do Rio mais um cavaquinho. Agradecido, comporia Nair — choro que foi gravado por Altamiro Carrilho e sua banda, e talvez a única composição em que o nome de Nélson aparece sozinho.

Mesmo tocando em instrumentos alheios, Nélson não desistia: tinha o incentivo das cabrochas que suspiravam encantadas pelos músicos.


DEGRAUS DA VIDA


Vídeo: Juízo Final, de Nélson Cavaquinho, com Herança do Samba. Vocalista: Márcio Wanderlei. Gravado na Feira das Yábas no segundo domingo de outubro de 2014. No final, um flash do bolo de aniversário de Marquinhos de Oswaldo Cruz. LETRA: O sol....há de brilhar mais uma vez / A luz....há de chegar aos corações / Do mal....será queimada a semente / O amor...será eterno novamente / É o Juízo Final, a história do bem e do mal / Quero ter olhos pra ver, a maldade desaparecer.

Nélson começava a ser "do Cavaquinho" quando, aos 21 anos, cometeu seu primeiro casamento.

Guindado à categoria de homem sério, com responsabilidades, sua família e a de Alice (a esposa) insistiam para que arranjasse um emprego condizente. Mas até o nascimento do terceiro filho, Nélson continuava passando a maior parte de seu tempo em rodas de samba e nos botecos da Lapa, a léguas do bairro de Brás de Pina, onde morava. Só voltava para casa quando o dinheiro — ou melhor, quando o crédito — acabava. Chegava com o cavaquinho (prova do crime) e uma galinha (tentativa de suborno). Alice jogava longe o instrumento e acendia o fogo para preparar a canja das crianças. Alguns dias depois, Nélson sumia de novo e talvez a cena estivesse se repetindo até hoje se alguns amigos de Seu Brás não tivessem arranjado um emprego de cavalariano da Força Pública para o sambista. O salário certo, reforçado pela comissão que o novo policial cobrava de prostitutas da Lapa, deu certa estabilidade ao lar de Nélson.

Sua função era patrulhar os botecos dos morros, o que ele fazia com inegável constância e eficiência. Para impedir arruaças, nem precisava efetuar prisões: conversava e bebia com o baderneiro até tudo se acalmar. Conta Nélson que seu cavalo conhecia todas as biroscas e parava em todas, pois também apreciava sua cachacinha:

— Ele ficava na porta do boteco, batendo com a pata no chão, até que o dono do bar levasse um pouco de pinga para ele.

A grande amizade que os unia sofreu um estremecimento na noite em que o animal largou Nélson num bar e foi sozinho para o quartel. O boêmio precisou voltar de bonde e entrar disfarçadamente na guarnição. E o cavalo, em sua baia, parecia rir dele...

Nessa época, Nélson foi se entrosando mais com Cartola, Carlos Cachaça e Zé com Fome (o futuro Zé da Zilda). E acabou compondo seu primeiro samba, Entre a cruz e a espada: "Na cruz eu vejo a imagem de Nosso Senhor/ E na espada eu vejo a tua imagem./ Quero disputar o teu amor, / Mas me falta coragem".

Depois de sete anos de casamento, Alice morreu e os filhos do casal foram viver sob tutela da avó materna. Livre de encargos, Nélson desligou-se da força e foi viver de e para a música.


SAMBAS EFÊMEROS OU ETERNOS

Cigano urbano, profundo conhecedor dos mocós do Rio, conhecido nas rodas de samba dos morros, Nélson passou a compor com maior frequência. Inclusive porque essa era a sua moeda: passou a trocar composições por hospedagens em hotelecos, cachaça, comida, uma roupa feita. Não sabia que seus sambas tinham valor muito superior ao que lhe pagavam. Mas às vezes o comprador também era prejudicado. Certa vez um "parceiro" apareceu reclamando:

— A gente tava muito bêbado quando comprei aquele seu samba e agora eu não lembro mais a letra nem a música...
— Azar seu, compadre, eu também esqueci tudo.

E com os 5$000 que lhe rendera a venda, Nélson comeu durante uma semana no Bar do China.

Ele nunca se interessou muito pela industrialização de sua arte. Os sambas eram feitos para se consumirem nas madrugadas, convertidos em alegria e bebida. Gravar pra quê? Mas, ainda no início da década de 30, aconteceu o primeiro disco. Rubens Campo e Henricão, homens de rádio, ouviram Não faça vontade a ela e insistiram até Nélson aceitar a "oportunidade" que eles lhe ofereciam (em troca de parceria). A música foi gravada, mas em edição particular.

Seria um início de carreira de compositor profissional, mas o notívago não tinha tempo nem disposição para andar atrás de gravadoras e cantores. Vários sambas que se tornariam clássicos·da MPB ficaram guardados durante anos na memória do menestrel, esperando a hora da gravação. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Rugas (gravado em 1946, por Ciro Monteiro) e Degraus da vida (em 1961, por Roberto Silva). Nélson vivia de biscates e da venda de sambas. Mílton Amaral, também boêmio e compositor, conta que, certa madrugada, fizeram um samba em parceria. Alguns dias depois, quando foi à editora para assinar o contrato, já era o 16o coautor: Nelson havia vendido catorze parcerias da mesma música.

Na década de 40, o nome de Nélson Cavaquinho — alias, N. Silva, como ele então se assinava — começa a aparecer em etiquetas de discos da RCA Victor. Ciro Monteiro gravou, em 1943, Apresenta-me aquela mulher (de N. Silva, Augusto Garcez e G. Oliveira); ainda no mesmo ano, Não te dói a consciência (Augusto Garcez, N. Silva e Ary Monteiro); e, em 1945, Aquele bilhetinho.

Foi por essa época que Nélson conheceu Guilherme de Brito, que viria a ser seu maior e mais constante parceiro. Juntos fariam sambas antológicos, do porte de Pecado, Palavras malditas, Cinzas, Depois da vida, Pranto do poeta e Degraus da vida.

"TIRE O SEU SORRISO DO CAMINHO, QUE EU QUERO PASSAR COM A MINHA DOR"


Guilherme de Brito Bolhorst nasceu no Rio em 3 de janeiro de 1922. Perdeu o pai muito cedo e logo precisou trabalhar para ajudar em casa. Tinha catorze anos quando foi contratado pela Casa Édison. A situação econômica do país estava difícil, os empregos eram raros e Guilherme não podia perder aquele. E o pior é que precisava trabalhar na loja, trajando-se com relativa elegância — justo ele, que não tinha nem um terno. Um amigo da família arranjou um paletó, outro, a calça, e assim por diante.

— Mas como eu era garoto ainda pequeno, minha mãe teve de adaptar as roupas, e não ficaram "sob medida". Daí me deram o apelido de Calça balão. Me senti humilhado e fiz meu primeiro samba, Calça balão, do qual, aliás, nem me lembro mais.

Guilherme superou a brincadeira de mau gosto e ficou na Casa Édison durante trinta anos, passando de office-boy a chefe dos mecânicos de máquinas de calcular, cargo no qual se aposentou em 1966. A ligação de Guilherme com a música começou cedo: o pai e uma das irmãs eram violonistas e logo o menino se viu com um cavaquinho nas mãos. Além disso, ele nasceu em Vila Isabel, um dos principais núcleos de sambistas.

O que retardou a divulgação de seu trabalho como compositor foi o serviço na Casa Édison, que lhe deixava sem tempo para a boêmia e o relacionamento no meio artístico. Pouco divulgadas, suas músicas não conseguiam gravação. Ademilde Fonseca e Roberto Silva cantavam algumas delas nos programas de auditório, mas não as levaram ao disco.

— Acho que não gravavam — conjetura Guilherme de Brito —, porque não existia a parte promocional das gravadoras. Quem fazia a promoção era o próprio compositor, que saía pelas rádios fazendo caitituagem. E eu não tinha tempo nem conhecimento pra fazer isso. Nessa época já tinha muita gente desconhecida doida pra aparecer. E os caras famosos, que podiam dar uma força, humilhavam a gente. Mandavam esperar um pouco e iam embora, marcavam encontro e não apareciam...

Assim, a primeira gravação só aconteceu em 1954. Um concunhado de Guilherme, que acompanhava Augusto Calheiros, conseguiu uma apresentação. E Augusto acabou registrando num 78 da Todamérica Meu dilema e Audiência divina, ambas de Guilherme de Brito.

— Quer dizer, demorei pra começar mas comecei bonito.

Depois disso, as coisas se tornaram um pouco mais fáceis, e Guilherme conseguiu gravar com outros nomes conhecidos, como Pedro Caetano, Orlando Silva, Trio Irakitan e Vocalistas Tropicais. Mas não foram grandes sucessos comerciais, pela falta de divulgação.

Então Guilherme passou a procurar um parceiro que fizesse essa parte. Morava em Ramos, um dos vários locais onde Nélson Cavaquinho fazia ponto, e o encontro entre eles acabou acontecendo. De noite, quando Guilherme voltava da Casa Édison, Nélson estava pelos bares, bebendo e cantando, rodeado de amigos. De manhã, quando ia para o trabalho, Nélson ainda estava lá, acompanhado pelos mais resistentes. Acabaram se conhecendo, tornando-se amigos e parceiros. É verdade que Nélson nunca iria caitituar as músicas da dupla, mas deu-se muito com Guilherme — os dois tinham uma visão de mundo bem semelhante.

Formou-se então uma dupla de compositores de amargo lirismo, voltados para as pequenas tragédias cotidianas e para o efêmero da vida. Poucos poetas tiveram inspiração suficiente para condensar numa frase toda a magoa transmitida por eles nestes dois versos de A flor e o espinho: "Tire o seu sorriso do caminho, / Que eu quero passar com a minha dor".

Mesmo composições feitas para a escola de samba querida de Nélson mantêm a preocupação quase obsessiva com a morte: "Em Mangueira, / Quando morre um poeta, todos choram./ Vivo tranquilo em Mangueira, / Porque sei que alguém há de chorar / Quando eu morrer. / Em Mangueira o pranto é tão diferente, / É um pranto sem lenço, que alegra a gente. / Hei de ter um alguém pra chorar por mim / Através de um pandeiro e de um tamborim" (Pranto de poeta, de Nélson e Guilherme).

Na década de 50, as músicas da dupla começaram a ser gravadas com mais frequência. Mas ainda não era o sucesso: nomes de "comprositores" continuavam a constar ao lado dos de Nélson e Guilherme. E não adiantava muito este pressionar o companheiro contra tais "parcerias", pois se ele não divulgava as composições, Nélson muito menos. O ex-cavalariano estava inteiramente voltado para a sua arte e para a boêmia. Não via por que não ceder coautoria a um novo amigo de balcão ou a alguém que fizesse a composição render algum dinheiro para novas farras.

Por outro lado, entre Guilherme e Nélson existe o pacto de só fazerem música junto e sempre a dois mesmo:

— Eu não me sentiria bem se meu nome entrasse sem eu ter feito nada — garante Guilherme e concorda Nélson, emborcando um cálice de conhaque. Por isso, mesmo que dê pra um terminar a música sozinho, ele sempre deixa um pedaço pro outro fazer.

MINHA FESTA


Em 1961, Nélson começou a frequentar regularmente a casa de Cartola e sua mulher, Dona Zica. Estimulados por cervejas e saborosos petiscos, passavam as madrugadas em memoráveis rodas de samba compositores de real valor, como Zé Kéti, Paulinho da Viola, Jair do Cavaquinho, Anescar Bigode, Élton Medeiros e muitos outros.

A casa da Rua dos Andradas foi ficando famosa — e pequena. Então surgiu a ideia de se abrir um restaurante: Zica entrava com a comida e Cartola com o violão. Logo o Zicartola tornou-se reduto de toda a boa música popular, independentemente de linhas ou temáticas. E, com a revalorização das raízes musicais, provocada pelo Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes e assimilada pela bossa nova, velhos sambistas foram descobertos ou redescobertos.

Nélson foi um deles. Em 1965, Nara Leão gravou com algum sucesso Pranto de poeta; os convites para que ele tocasse em shows se multiplicaram; e sua fama ultrapassou as fronteiras da boêmia carioca.

Agora o desligamento de Nélson ganhava notoriedade, tornava-se folclórico. Conta-se que certa noite ele tocou com Jobim até amanhecer, chegando a combinar um show conjunto. O produtor Jorge Coutinho, ao saber da história, correu à procura de Nélson para acertar os detalhes do tal espetáculo. Ao que Nelson reagiu espantadíssimo:

— Tom?! Que tom? Dó maior?

Noutra ocasião, Paulinho da Viola organizou um show que teria, entre os artistas, Nélson Cavaquinho. Paulinho lembrou-o varias vezes do compromisso, mas no dia Nélson simplesmente desapareceu. Paulinho quase não recebeu, por quebra de contrato. Depois, ao encontrar o velho boêmio, tomou fôlego para a maior esculhambação, mas Nélson o interrompeu na primeira frase:

— Você não avisa nada e ainda vem dando bronca no Nélson! Assim não é possível!

(Outra mania do sambista é referir-se a si mesmo na terceira pessoa.)

Na esteira dessa revalorização, em 1970 gravou seu primeiro LP exclusivo como cantor, na etiqueta Castelinho (disco depois comprado pela Continental).

Durante toda a década de 70 ele foi muito requisitado, e teve inúmeras músicas gravadas por intérpretes de sucesso: Paulinho da Viola (Duas horas da manhã), Chico Buarque de Holanda (Cuidado com a outra, de Nélson e Augusto Tomás Jr.), Clara Nunes (Minha festa, de Nélson e Guilherme e Palhaço, de Nélson, Washington e Osvaldo Martins), Beth Carvalho (Quero alegria, de Nélson e Guilherme), além de Elizeth Cardoso, o saxofonista Paulo Moura e outros.

Com Guilherme de Brito ele gravaria um LP em 1977: Quatro grandes do samba (os outros dois grandes eram Candeia e Élton Medeiros). Guilherme estreou como cantor, registrando duas de suas composições de maior sucesso —A flor e o espinho e Quando eu me chamar saudade — e duas outras menos conhecidas — A vida e Gota de luar (também de Nélson e Guilherme).

MEU CORAÇÃO AMIGO

Um dia apareceu na vida do compositor a moça Durvalina, trinta anos mais nova que ele. E não passou, como tantas outras. Ficou: de dia empregada doméstica na mansão de um banqueiro, à noite cuidando de sua casinha no Jardim América. E de Nélson Cavaquinho.

Um Nélson Cavaquinho que ainda precisa que o parceiro e amigo de várias décadas o acompanhe quando há algum dinheiro a ser recebido, para que o pagamento não seja todo consumido em noites de farra. Separada uma importância que Guilherme levará para Durvalina pagar as contas, Nélson passeia sua liberdade pelo Rio de Janeiro. Num balcão qualquer da noite carioca, ele pedirá a primeira. Dedilhará o violão, provavelmente cantara Caridade:

"Não sei negar esmola a quem implora caridade. / Me compadeço sempre de quem tem necessidade. / Embora algum dia eu receba ingratidão, / Não deixarei de socorrer a quem me pedir um pão. / Eu nunca soube evitar de praticar o bem, / Porque posso precisar também. / Sei que a maior herança que eu tenho na vida / É meu coração amigo dos aflitos. / Sei que não perco nada em pensar assim / Porque amanhã não sei o que será de mim".

— Esse samba sou eu mesmo.

Vai beber o resto do cachê, conversar, cantar, beber, ter novas ideias que depois mostrará ao parceiro. E talvez amanhã nasça mais um clássico da música popular brasileira. (Texto de 1978. Nélson Cavaquinho viria a falecer em 1986.)

12.9.14

ART RUA 2014

"Muito mais do que uma exposição, o ART RUA é um movimento de revitalização urbana através da arte." Criado em 2011 pelo Instituto R.U.A. em parceria com a produtora Visionart'z, a edição de 2014 realizou-se no Centro Cultural Ação Cidadania, Zona Portuária, de 11-14 de setembro. Uma das atrações foram sete murais gigantes sob o tema Daydreaming, cinco dos quais você vê nas fotos a seguir. 

Ramon Martins, "37 semanas"

Rodrigo Branco, "Acaso"

Bicicleta sem Freio, "Noite Escura"

Ana Marietta, Los "Pescados"

Seth the Globe Painter, "Do Outro Lado"

5.9.14

STEFAN ZWEIG NO RIO DE JANEIRO - PARTE 1: CHEGADA DE NAVIO


Antes de emigrar definitivamente para o Brasil fugindo da barbárie nazista, Stefan Zweig já fizera uma viagem pelo país, descrita no ensaio PEQUENA VIAGEM AO BRASIL, escrito no outono de 1936 e incluído no livro ENCONTROS COM HOMENS, LIVROS E PAÍSES, publicado pela Editora Guanabara em 1939 em tradução de Milton Araujo e gentilmente cedido a este blog por Salomão Rovedo. Fotos do Rio antigo extraídas de PPS que circularam pela Internet. O texto aqui reproduzido é um raro relato da entrada de navio na Baía da Guanabara que tanto impressionava os visitantes da Cidade Maravilhosa — incluindo minha mãe como você pode ler em seu diário clicando em Diário de minha mãe no menu à direita — antes do advento da aviação intercontinental. 


De manhã cedo, já todos os passageiros esperam com impaciência e curiosidade, a bordo, munidos de binóculos e câmaras; ninguém quer perder a ocasião de ver a entrada famosa do Rio de Janeiro, mesmo aqueles que já a conhecem de muitas viagens. Ainda o mar brilha azul e metálico como há dias e dias, numa monotonia acalmante e ao mesmo tempo fatigante, e, não obstante, sente-se a proximidade da terra; respira-se a terra antes de vê-la, pois o ar torna-se de repente úmido, doce e mais suave, uma exalação pesada vem voando imperceptivelmente, conglomerada, nas profundidades dos bosques imensas, do hálito das plantas e da umidade dos cálices, aquela exalação das regiões tropicais, indescritível, quente, mormacenta, como o vinho em fermentação, que de maneira ensurdecedora, nos torna ébrios e cansados ao mesmo tempo. Agora, finalmente, muito ao longe, avista-se um contorno: uma cadeia de montanhas destaca-se com alguma incerteza ainda, nebulosa, no horizonte, e, à medida que o navio sulca seu caminho pelas águas, vai sendo avistado mais perceptivelmente; é uma série de montanhas que com braços estendidos protege uma das maiores baías do mundo, a bela baía de Guanabara. Todos os navios de todas as nações caberiam aí ao mesmo tempo, tão vasta e grandiosa ela é, abaulando-se com suas múltiplas enseadas e promontórios. Dentro dessa concha gigantesca arrombada estão espalhadas, como pérolas, inúmeras ilhas, cada uma diferente em forma e cor. Algumas mal aparecem, uniformes e acinzentadas, de dentro do mar ametístico; podia-se tomá-las, à distância, por baleias, tão nuas e peladas são suas costas. Outras são oblongas e pedregosas, estriadas como crocodilos; outras povoadas de casas; algumas são fortalezas, outras assemelham-se a jardins flutuantes com palmeiras e flores; e, enquanto se admira curiosamente essa variedade inesperada das formas, com o auxilio do binóculo, vêm-se destacar ao mesmo tempo, bem ao fundo, plasticamente, as montanhas, também cada uma delas diferente, cheia ·de caprichos. Uma é nua, a outra coberta de um vestido de palmas verdes, esta com penhascos, aquela cingida por um cinto resplandecente de casas e jardins; parece que a natureza, como escultora atrevida, experimentou colocar todas as formas terrestres uma ao lado da outra; e por isso, a fantasia do povo deu nomes terrestres a cada uma dessas figuras de pedra: Morro da Viúva, Corcovado, Cão, Dedo de Deus, e, à mais visível de todas, o nome de Pão de Açúcar. Esta montanha, subindo diante da cidade, com seu declive abrupto, acha-se na entrada do Rio de Janeiro como a estátua da Liberdade diante de New York, ambas como o símbolo antiquíssimo e imóvel destas cidades. Por cima de todos esses monólitos e montanhas vê-se, como capital dessa geração de gigantes, o Corcovado, onde se eleva a imagem de Jesus, de braços abertos (à noite toda iluminada), abençoando o Rio de Janeiro como um padre ao levantar o hostiário sobre os crentes ajoelhados.


Agora percebe-se a cidade após a passagem por um complicado labirinto de ilhas. Não se avista, porém, toda de uma vez. Não é como em Nápoles, na Argélia ou em Marselha, cujas cidades aparecem num panorama de casas, como uma arena aberta com degraus de pedras, logo à primeira vista. Quadro por quadro, parte por parte, plano por plano, desdobra-se a cidade do Rio de Janeiro como um leque, e é por isso que a sua entrada é tão dramática, tão inexpressivelmente admirável e surpreendente. Cada uma dessas baías povoadas, de cuja reunião resulta a sua costa, é separada uma da outra por meio de cadeias de montanhas — são como as varetas do leque, que isolam cada quadro, reunindo-as ao mesmo tempo. Finalmente avistamos a praia arqueada. Aspecto encantador! Um passeio vasto ao longo da praia, continuamente espumada pelas ondas, com casas, praças e jardins; distingue-se claramente o hotel de luxo e, elevando o olhar, os outeiros com as vilas cercadas de árvores — porém, novo engano! É somente a praia de Copacabana, uma das mais belas do mundo, um bairro novo e chic, não a própria cidade. Ainda é preciso passar o Pão de Açúcar, que impede a vista; somente então é que se vê a cidade maciça e branca, olhando para o mar e deslizando nas alturas verdes. Veem-se os jardins públicos das praias, recentemente feitos, e o campo de aviação, que há pouco tempo foi ganho do mar. Já vamos atracar e a impaciência será satisfeita. Mas não! Era novamente um erro. Desta vez é a enseada de Botafogo e a praia do Flamengo; o vapor ainda deve ser pilotado; ainda é preciso abrir-se outra folha desse leque divino, resplandecente, com todas as cores; ainda é necessário passar a ilha da marinha e aquela outra pequena com o palácio gótico, onde o imperador D. Pedro, dois dias antes de sua deposição deu, sem nenhum pressentimento, o último baile. E só agora podemos saudar as casas altas, uma só massa vertical; agora o vapor pode atracar e estamos na América do Sul, no Brasil, estamos na cidade mais maravilhosa do mundo — o Rio de Janeiro.


Essa entrada de uma hora é um acontecimento único no seu gênero e comparável somente à impressão irresistível daquela de New York, porém a saudação de New York é mais dura, mais enérgica, como um golfo setentrional com seus cubos amontoados, brancos como gelo. Manhattam nos oferece uma saudação viril, heroica; é a vontade humana indômita da América, uma irrupção da força acumulada. Rio de Janeiro estende-nos os seus braços meigos de mulher, recebe-nos com carinho, atrai-nos, entrega-se ao espectador, com uma certa voluptuosidade. Tudo aqui é harmonia; a cidade, o mar, o seu verde e as montanhas, tudo desliza como que ao som de uma música; mesmo os arranha-céus, os navios, os reclames luminosos de muitas cores não perturbam; e esta harmonia repete-se em acordes sempre novos. Diferente é a cidade vista do alto dos outeiros e vista do mar; contudo, é sempre harmonia, multiplicidade desprendida num conjunto completo, natureza que ficou cidade, e uma cidade que causa o efeito da natureza. Pela maneira grandiosa e generosa que o Rio nos recebe, já se sabe de antemão que a vista não se cansará de apreciar e a alma não se fartará dessa cidade extraordinária. 



23.7.14

DESPEDIDA DE JOÃO UBALDO RIBEIRO, de Cyro de Mattos


Nascido em 23 de janeiro de 1943, na Ilha de Itaparica, o escritor João Ubaldo Ribeiro faleceu na última sexta-feira (18), no seu apartamento, do bairro Leblon, Rio de Janeiro, vítima de embolia pulmonar. Jornalista, contista, romancista, cronista, tradutor e roteirista de cinema. Laureado com o Prêmio Jabuti duas vezes, Golfinho de Ouro (Rio), Prêmio Camões, para autores brasileiros e portugueses. Esse baiano de Itaparica deixa uma obra de altíssimo nível no corpo das letras brasileiras. Destacam-se na sua vasta produção os livros Sargento Getúlio (1971), Viva o povo brasileiro, (1984) O sorriso do lagarto (1989), romances, e Livro de histórias (1981). Formado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, na turma de 1962, nunca exerceu a advocacia.

Começou a escrever muito cedo, publicando os primeiros contos nas coletâneas Panorama do conto baiano (1959), Reunião (1961) e Histórias da Bahia (1963). O romance Sargento Getúlio, que virou filme e, há pouco tempo, foi adaptado ao teatro, colocou João Ubaldo Ribeiro como um valor excepcional na moderna literatura brasileira. O livro foi traduzido por ele mesmo para o inglês e publicado nos Estados Unidos. Foi editado também na França. Com Livro de histórias (1981), o modo debochado de narrar do autor baiano mais uma vez retorna com incursões nas venturas e desventuras do povo de Itaparica e do sertão da Bahia.

Com Viva o povo brasileiro (1984), magnífico romance, com seu prodígio técnico, conhecimento incomum de linguagem e fala brasileira, vasto cabedal de informações sobre a vida e cultura do povo, João Ubaldo Ribeiro passa a ser reconhecido como um dos escritores mais significativos da América latina, ao lado de Jorge Amado, Gabriel Garcia Márquez, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes e outros.

É triste, muito triste, essa despedida física de João Ubaldo Ribeiro. Ele foi meu amigo, companheiro de geração em Salvador e colega na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, no período compreendido entre 1958 e 1962.

Quando estudante universitário, uma das coisas que eu gostava era de ir à Rua Chile. Quase todos os dias, visitava a Livraria Civilização como uma necessidade que o tempo me impunha, semelhante àquela quando se tem sede ou fome. Era lá que eu me encontrava com os companheiros de geração, à qual alguns deles pertenciam por afinidades eletivas, enquanto outros em razão da idade. Ildásio Tavares, Alberto Silva, Ricardo Cruz, Marcos Santarrita, Orlando Sena, Olnei São Paulo, Adelmo Oliveira, Carlos Nelson Coutinho e, presença indispensável, João Ubaldo Ribeiro. Lá estava o jovem de voz gutural, contador de casos como o primeiro sem segundo, sorriso largo e franco, olhos por trás de óculos com lente forte e armação grossa. De bom humor com tudo que viesse de graça e da graça da boa terra baiana.

E não é que, neste instante, pregando mais uma de suas travessuras e saindo da memória de repente, eis que risonho vejo diante de mim o colega que deu as mãos à criação literária como meio de leitura crítica da vida? João Ubaldo Ribeiro, com o seu jeito brincalhão de circular naquela querida Faculdade de Direito. Ele era encontrado na cantina, às vezes namorando com Belô, a moça mais bonita da faculdade. Comentava-se que feio como ele só mesmo sua inteligência rara poderia levá-lo à conquista do coração daquela moça, que, quando passava, arrancava suspiros dos estudantes universitários, de tão bela. Lá mesmo na cantina contava alguma história de sua gente de Itaparica aos colegas Davi Sales e Ildásio Tavares, o primeiro mostrando que sua vocação era para crítico literário e o segundo para a poesia, e não para a profissão de advogado. 

Uma vez fez uma prova de Direito do Trabalho em versos e ganhou do professor Elson Gottschalk a nota máxima. Outra vez, quando soube que havia passado de ano, subiu numa cadeira da cantina e, em transe, como se algum espírito de luz tivesse se apossado dele, começou a recitar Shakespeare em inglês clássico. Com aquela cabeça grande de baiano em que formigavam histórias, gozações repentinas, que pegavam os colegas sem defesa, só podia João Ubaldo Ribeiro dá no que deu. Em vez de advogado militante, dotado de vasto saber jurídico, fôlego de sete gatos para enfrentar os litígios forenses, tornou-se em pouco tempo o romancista consagrado de Sargento Getúlio e Viva o povo brasileiro, entre outros livros soberbos.

Era membro da Academia Brasileira de Letras. Seus livros foram traduzidos para oito idiomas. 

14.7.14

ADEUS, COPA!


Se perdemos a Copa futebolisticamente falando (e ainda por cima batendo vários recordes negativos, como a pior goleada já sofrida por nossa seleção, a pior goleada numa semifinal etc.), ganhamos a Copa no sentido de que apresentamos ao mundo um espetáculo primoroso & inesquecível. Os aeroportos não entraram em pane, os transportes públicos deram conta das multidões, nosso povo maravilhoso recebeu os turistas de braços abertos, projetamos uma imagem positiva do país ao bilhão de telespectadores da Copa mundo afora, e a aliança do mal dos blac blocks + sindicalistas tresloucados + partidos de ultraesquerda + certos movimentos sociais apequenou-se ante a euforia do povo que torcia pela (até então gloriosa) seleção canarinho. Valeu a pena porque a alma brasileira não é pequena! E agora vamos nos preparar para as Olimpíadas (aqui em nosso Rio) e a Copa seguinte (em mais um BRIC, a Rússia)! Bola pra frente!


28.6.14

TEVE COPA, SIM!

O mascote Fuleco (de futebol + ecologia) no Norte Shopping
A Santa Aliança agressiva e antidemocrática do “Não Vai Ter Copa” de black blocs fascistas, partidos ultraesquerdistas, políticos de passado sombrio, sindicalistas tresloucados e os chatos-de-galocha de plantão fez tanto estardalhaço que abafou algumas verdades óbvias, quais sejam, 1) que somos, sim, o país do futebol, 2) adoramos de coração a nossa gloriosa Seleção canarinho e 3) futebol e política são como água e óleo, não se misturam. Enfim as bandeiras se desfraldaram, os torcedores perderam o medo e estamos curtindo uma das melhores Copas de todos os tempos, tanto no nível técnico das partidas como na empolgação de turistas e brasileiros irmanados numa grande festa. E passada a Copa, nada de descambar novamente no mau humor. Lembremos que em outubro temos uma chance magna de passar o país a limpo: eleições!


Trio de Ouro

Felipão

Fuleco

Bandeiras nas janelas de um prédio do Cachambi, Zona Norte

Bandeiras em Copacabana

Fitas verdes e amarelas (e velhos sobrados) na Glória

Nossos heróis

Templo Positivista na Glória. Os dizeres "Ordem e Progresso" da bandeira foram tirados de um lema positivista.

Camisetas à venda. Fotos do editor do blog.

18.6.14

GRAFITAGEM NA COMUNIDADE TAVARES BASTOS


A Comunidade Tavares Bastos, no alto de um morro entre o Catete e Laranjeiras, tem duas características: lá fica a sede do Batalhão de Operações Policiais Especiais — o famoso BOPE — e escondido em sua viela principal está a pousada The Maze Inn (a palavra inglesa maze significa labirinto), do inglês Bob Nadkarni, ex-cinegrafista da BBC, pintor e músico que chegou à favela Tavares Bastos vinte anos atrás e por lá ficou. Uma vez por mês Bob promove uma noitada de jazz, e a vista da pousada é espetacular (como costumam ser as vistas das comunidades da Zona Sul carioca). No dia 12 de junho rolou uma grafitagem para a Copa do Mundo e pelo fim da violência contra a mulher, promovida pela rede NAMI e Instituto Avon. Aqui estão algumas fotos que tirei.



Amor e perdão começa em casa e revoluciona a nação!

MULHERES LIVRES



Cartão vermelho para a violência doméstica!



Amor na Copa, na cozinha, na sala, no quintal...



Pão de Açúcar visto do alto da comunidade. Fotos do editor do blog.

12.6.14

3 x COPA DO MUNDO



1- COPA DE 1950 (trechos de A HISTÓRIA DA SELEÇÃO BRASILEIRA EM CORDEL do cordelista CLAUDIO ARAGÃO à venda por R$12,00 na LIVRARIA DA TRAVESSA)

Dois de agosto de 1, 9, 4, 8
teve início, afinal, a construção
do maior estádio de futebol
o templo da magia e da paixão
Em um ano e dez meses, tempo recorde
todo o Rio já tinha uma visão
da oitava maravilha do mundo
o mais belo postal desta nação
Em dezesseis de junho, afinal
surge o Maracanã, fenomenal!

Cariocas e paulistas fizeram
a chamada partida inaugural
e o primeiro gol, quem assinalou
foi Didi, numa bomba genial
Os paulistas viraram, três a um
todos acharam muito natural
Os paulistas, por muito tempo, vinham
ao Maraca e faziam carnaval
A Copa, em cinquenta, já estava
contagem regressiva começava

[...]

Nesse tempo, o Brasil de ponta a ponta
não ficava com o radio desligado
Logo após o massacre da Espanha
o povo não fazia de rogado
e o clima "já ganhou" foi se espalhando
Contam que um delegado entusiasmado
deu bandeiras pros presos e os soltou
depois, no xadrez foi trancafiado
Esse era o clima que predominava
a semente do que nos esperava

[...]

Os jornais não cansavam de insuflar
com manchetes pra quebrar o moral
do Uruguai e levantar o Brasil
Pelas ruas, alarido geral
"Hoje é dia de sermos campeões!
Uruguai vai brincar o Carnaval!
Salve o Brasil, o campeão do mundo!"
De todo o território nacional
vinha gente com o mesmo sentimento
Me bateu estranho pressentimento

Uruguai que merecia respeito
a Celeste de glórias mundiais
Obdulio Varela, Schiaffino
Julio Perez e Gigghia, geniais
Pra mexer com os brios uruguaios
Obdulio adquiria jornais
e botando no chão, todos pisavam
e o grande capitão pedia mais
que deixassem o sangue no gramado
e só Deus pra dizer o resultado

Enfim, o dia dezesseis de julho
Jogadores em estado de tensão
acordaram irritados de manhã
tinham tudo, menos concentração
Empresários, repórteres, políticos
nesse dia, chamavam a atenção
"Parecia que a Copa já acabara!"
 As palavras do grande capitão
Mestre Ziza, de um lado pro outro andava
temendo pelo que se aproximava

Aos catorze e cinquenta e cinco deu-se
o toque inicial dessa partida
Ademir pra Danilo, e esse a Bauer
Duzentas mil pessoas, a torcida
Dum lado, a habilidade do Brasil
do outro, a garra uruguaia conhecida
Zero a zero o primeiro tempo e agora
essa Copa seria decidida
Logo o segundo tempo começou
e uma grande surpresa preparou

[...]


A coruja agourenta da má sorte
trinta e quatro minutos nos sorriu
Julio Perez dá combate a Danilo
rouba a bola e velozmente partiu
troca passes com Miguez, toca a Gigghia
devolvendo pra Perez que sentiu
grande espaço no nosso lado esquerdo
com talento, lançou, ninguém cobriu
o Brasil se calou, ele avançou
entre a trave e Barbosa colocou

O Maracanã em sua primeira "encarnação"

Essa foi a tragédia do Maraca
no Brasil, dizem que não houve igual
morreu gente no Brasil e no Uruguai
ambulâncias na porta do hospital
jogadores chorando, pesadelo
ambiente de um grande funeral
Duzentas mil estátuas presas ao solo
era um quadro dantesco, infernal
Se queimavam jornais, sonhos, bandeiras
cinzas junto a lágrimas brasileiras

o soluço foi tanto que no Olimpo
os deuses acordaram, foram ver
Um menino pegou o pai chorando
junto a um rádio de pilha e quis saber
Ele disse: "Meu filho, vai andando
É que o Brasil acaba de perder
uma Copa em pleno Maracanã!"
Respondeu: "Papai, pare de sofrer
uma Copa, prometo conquistar!"
E sapatos saiu pra engraxar

O Maracanã em sua primeira "encarnação" (detalhe)

2- A TAÇA DO MUNDO É NOSSA de IVO KORYTOWSKI

Não sou nenhum Pelé ou Ronaldinho, mas as Copas do Mundo fizeram parte também de minha vida.

Por exemplo — acredite se quiser — estive na fatídica final da Copa de 1950, aqui no Maracanã. É bem verdade que, oficialmente, eu sequer havia nascido (nem se trata de regressão a vida passada), mas minha mãe já carregava a sementinha no ventre quando foram, ela e meu pai, assistir à partida. A vitória brasileira, tão certa como o fato de que no dia seguinte o sol se levantaria. Mas o sol não se levantou! Quantas vezes ouvi meu pai narrando o silêncio, a desolação de enterro que se abateu sobre aqueles quase 200 mil espectadores: todos saíram do estádio cabisbaixos, depressão coletiva, ninguém ousando puxar conversa com ninguém. Meu pai me contou.

Da Copa de 58 guardo vagas lembranças: todos ao pé do rádio, vibrando, brado de guerra: “aleguá” (sabe-se lá o que isso significava?). E a canção:

A Taça do Mundo é nossa,
Com brasileiro não há quem possa!

Na Copa de 62 o rei se contundiu logo nos primeiros jogos e a estrela foi “Seu Mané”: assim os locutores esportivos se referiam a Mané Garrincha, a Alegria do Povo. Alegria de pobre dura pouco.

Quatro anos depois, só um cético empedernido duvidaria de que traríamos o tri. O dia em que Brasil perdeu de Portugal, ainda na primeira fase, de grupos, viu-me em São Paulo, em visita à vovó. Aliás, o apartamento de minha avó, na Avenida Angélica, dava para o Pacaembu: a gente conseguia ver os jogos. Pois foi da janela do apartamento de vovó que, certa feita, vi (com auxílio do binóculo de corridas de cavalo do vovô) Pelé jogando pelo Santos. Teria sido contra o Vasco?

A Taça do Mundo é nossa,
Com brasileiro não há quem possa!

1970. Ditadura militar. Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção! Saldanha quis barrar Pelé da Seleção: acabou barrado do cargo de técnico (ao resistir à pressão de Médici pela convocação de Dario). A seleção ia mal das pernas, só mesmo um otimista empedernido acreditava na possibilidade do tri. Foi a primeira Copa televisionada: a imaginação, que antes transformara a descrição radiofônica em imagens do jogo, agora transformaria o preto-e-branco em vistosas cores. A turma se reunia no Castelinho (bar na Vieira Souto em forma de castelo medieval, já demolido), que instalou uma televisão do lado de fora — acho que foi pioneiro nesse hábito hoje generalizado de instalar televisões em locais públicos. Eu andava solitário, sem namorada, na época. Ganhamos o tri!

A Taça do Mundo é nossa,
Com brasileiro não há quem possa!

Levamos longos 24 anos pra repetir a proeza. E muita água rolou sob a ponte: o Brasil se redemocratizou e a Copa de 94 me vê casado, pai de um encantador menino, bem-sucedido tradutor. Meu grande sonho ainda irrealizado: o sucesso como escritor. Sozinho: filho e esposa passam as férias em Minas. Solidão, eterna sina. Meio de porre. O tri de 1970 vem à lembrança: folheio antigos diários em busca de alguma referência à velha Copa. Encontro umas filosofias de botequim que escrevinhei naquela ocasião, embalado pela euforia geral. Euforia que agora se repetia.

A Taça do Mundo é nossa,
Com brasileiro não há quem possa!

E eis que o pentacampeonato, na Copa de 2002, me vê descasado, escritor enfim. E solitário como nas Copas anteriores! Eterna sina?

Assim terminei esta crônica originalmente escrita em julho de 2002 e que agora retomo. (Da Copa de 2002 lembro ainda que foi disputada do outro lado do mundo, as partidas travadas de madrugada pelo horário daqui, deu pra ver quase nada.)  

Desencalhei, voltei a casar. A Copa de 2006  na Alemanha curti a dois (a Alemanha foi a terra pela qual meus dois avôs, materno e paterno, arriscaram a vida na Grande Guerra para depois serem escorraçados por serem judeus). A Copa de 2010 do outro lado do oceano foi bem animada por aqui, a gente se identificou com os irmãos africanos... Vuvuzela, jabulani...

Em 2014, quando enfim a Copa volta às nossas plagas e temos a chance de nos exibirmos ao mundo e alavancarmos nossa indústria do turismo, nosso velho complexo de vira-lata e uma "Santa Aliança" de black blocs fascistas, ultraesquerda, políticos de passado suspeito, sindicalistas radicais, movimentos sociais de sem isto e sem aquilo afagados pelo desgastado PT e os ranzinzas-chatos-de-galocha-mal-humorados-cricris de sempre tenta gorar tudo, pôr água no nosso chope. Mas quando a bola começar a rolar, a verdadeira natureza lúdica e alegre e descontraída do brasileiro virá à tona, e vai rolar a festa, vai rolar!

Reforma do Maracanã para a Copa de 2014



3- COPA DO MUNDO 50, de CYRO DE MATTOS (texto gentilmente enviado pelo autor para este blog)

Já vão longe aqueles idos. Tento tirar da memória alguns momentos daquele mundo que rolava com a infância na bola. Da fumaça do tempo procuro encontrar o menino que jogava pelada nos campinhos improvisados dos terrenos baldios, espalhados pela cidade pequena, com alguns bairros e poucas ruas calçadas. Às vezes o campinho era improvisado em algum fundo de quintal ou pastagem de uma roça perto do centro da cidade. O jogo era disputado debaixo de chuva ou sol escaldante.

Havia o Campinho do Fole no outro lado do rio. Ali eram jogadas aos domingos, pela manhã, as partidas mais importantes. O time de garotos da rua de cima contra o da rua de baixo. No vaivém do jogo não faltavam empurrões, bate-bocas, xingamentos e algumas brigas intensas. Terminando o jogo, o banho na correnteza de águas límpidas serenava os ânimos. Uma amizade feita de relações naturais logo se refazia com mergulhos e saltos a partir dos barrancos íngremes.

O pai levava-me para ver os jogos dos times amadores da cidade no Campo da Desportiva. No início cercado com folhas de zinco, depois murado, o Campo da Desportiva era uma festa aos domingos. As folhas de zinco que cobriam a arquibancada zuniam forte quando as rajadas de vento penetravam entre suas frestas. Dava arrepios, parecia que algumas folhas de zinco na cobertura da arquibancada podiam se soltar a qualquer momento e causar danos entre os torcedores.

Lá, naquele campo de grama maltratada, o menino viu lances para não esquecer. Os dribles do meia-esquerda Macaquinho faziam os torcedores sorrir, a bola ficava grudada no seu pé, ninguém conseguia tomar dele. Delicado era um maestro, como sabia tocar a bola com sutileza para o companheiro. Carrapeta tinha uma visão de jogo que só o craque possui. Distribuía o jogo com a cabeça erguida, lançava a bola para o atacante fazer o gol, sem maior esforço. Mais adiante, na época da seleção amadora de ouro, conheci o centroavante Zé Reis, um artilheiro que se o marcador desse uma bobeira sabia marcar sua presença. Não era jogador técnico, mas longe de ser cabeça de bagre. Cumpria bem a sua missão de fazer gol. Jogou no Fluminense local, na seleção de Itabuna e no Leônico de Salvador, onde foi artilheiro do campeonato por várias temporadas.


E a pior derrota? Em 1950, Brasil contra Uruguai, final do campeonato mundial, no Rio. O Brasil jogava pelo empate. Um gol fazia balançar o estádio com 200 mil pessoas. Foi de Friaça no início do segundo tempo, lenços acenavam para os valentes atletas uruguaios. “É campeão! É campeão!” Todos os brasileiros cantavam o grito de glória numa só corrente de vasto amor. Veio o gol de empate dos uruguaios, Schiafino o autor da proeza. Um calafrio penetrava ossos e nervos do Maracanã com a lotação máxima. O inexorável iria acontecer aos 34 minutos. O ponteiro Gighia chutava a bola e a grama. Ninguém acreditava no que se estava vendo, a bola entrando entre a trave e o goleiro Barbosa. Lenços já não acenavam. Aquela coisa que só infundia medo, estupidamente sem tamanho, percorria todo o estádio. Dominava o ar de milhões de brasileiro. Ninguém podia reverter o capricho dos deuses. Contava o locutor que, encerrado o jogo, a procissão de mortos saía do Maracanã, o país em chuteiras, que pensava e amava pelos pés naquele dia, em caos desencantava-se.

Na cidade pequena, eu via as ruas desertas, bares fechados, a praça em silêncio. O padre não rezou a missa das oito da noite. Daí para frente o canto amargo da memória iria lamber as chagas daquele menino que ficou frustrado no cais da vida, esquecido de si, preso ao nada.

Ainda tentei reagir àquela frustração sem igual com os amigos de minha rua. Soube na semana que, em cada domingo, o Cine Itabuna iria projetar na tela as partidas do Brasil no Campeonato Mundial de Futebol. Meus olhos ávidos não perderiam um lance em cada partida da nossa seleção. Hipnotizados acompanhariam cada jogada, drible, chute contra a meta adversária. Vibraria com a garotada em cada gol que o Brasil marcasse. Contra a Suécia e a Espanha tinha sido demais.

O plano que armei com os outros meninos para driblar as sombras de um pesadelo que se alojava em meu pequeno coração era simples. Não assistiríamos mesmo, na tela do Cine Itabuna, a derrota do Brasil na final contra o Uruguai. Em algazarra sairíamos pela rua gritando “É campeão! O Brasil é campeão!”, batendo com pau nas latas vazias.

Eu liderava o desfile, ia na frente da turma, segurava o cartaz com o letreiro grande:

BRASIL CAMPEÃO MUNDIAL DE FUTEBOL 1950. 


O novo Maracanã

Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena.

Fotos do editor do blog