ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

30.3.10

TRÊS CRAQUES DA CRÔNICA ESPORTIVA:

Nelson Rodrigues, João Saldanha e Armando Nogueira

Texto de Cyro de Mattos. Fotos do Maracanã do editor do blog. O estádio fechará para obras em julho e será reaberto no final de 2012. Para ler matéria da Veja-Rio sobre a reforma do Maracanã clique aqui.


Estátua de Bellini: a pátria em chuteiras

O futebol pentacampeão mundial, tão na pele do brasileiro, serve de motivo aos poetas Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Vinicius de Moraes. Carlos Drummond de Andrade dedicou versos a Pelé e à nossa conquista da Copa do Mundo nos gramados do México, em 70. Nos versos triviais do poeta mineiro de Itabira, Pelé é “o sempre rei republicano/ o povo feito atleta na poesia/ do jogo mágico.” O pernambucano João Cabral de Melo Neto fez o elogio do goleador Ademir Menezes, traçou o trajeto hábil da bola feita vida com o pé, indo até o gol na surpresa de ser. Teceu o perfil macio de Ademir da Guia e informou em versos concisos sobre a falta de hábito do América do Rio sagrar-se campeão. Vinicius de Moraes deslumbrou num soneto belíssimo o sempre alegre Mané Garrincha, com as incríveis pernas tortas fazendo jogadas geniais em versos medidos e rimas espontâneas.

É na crônica esportiva, com a sua marca de prosa coloquial, que o futebol vai encontrar espaço no início como tema a influenciar a imaginação e a sensibilidade do escritor brasileiro. Natural que isso acontecesse com a crônica, de tal modo é o gênero intermediário entre o literário e o registro objetivo do fato. Presta-se bem na imprensa esportiva para flagrar com digressões uma partida de futebol. Logra extrair em torno do jogo a simbiose perfeita decorrente da literatura, que fantasia a vida, e a notícia do cotidiano, que deve ser objetiva, comprometida com a verdade. A crônica faz com que o autor assuma o papel de contador de histórias, no caso uma partida de futebol, sem com isso o fato que está sendo focado perca a credibilidade na informação.


És, enfim, a vitória e a derrota,
caprichosa imitação da minha vida.
E porque és uma parte da minha memória,
seguirei cantando, comigo, a melodia de teu doce nome.
Maracanã, Maracanã

(Trecho do poema Maracanã de Armando Nogueira)

O mundo apaixonante do futebol inspirou textos admiráveis aos cronistas Nelson Rodrigues, João Saldanha e Armando Nogueira. Os três papas da crônica esportiva trouxeram para o campo de nossa literatura o drama, o humor, o feitiço e o vocabulário, que o futebol manifesta com sua linguagem específica em torno da bola que rola no quadrado mágico do tapete verde.

Reconhecido dramaturgo, Nelson Rodrigues na carreira de cronista esportivo resgata com forte apelo popular o orgulho de ser brasileiro. A descoberta do Brasil por Nelson Rodrigues tem na Taça Jules Rimet papel de fundamental importância. Sua conquista afasta do homem brasileiro o complexo de vira-latas. Ele mostra como o nosso planeta fica pasmado em cada conquista da Taça Jules Rimet pela Seleção Brasileira, em 1958, 1962 e 1970. O autor de “A Dama do Lotação” criou expressões interessantes, o óbvio ululante, a pátria em chuteiras, e o personagem Sobrenatural do Almeida, para explicar a derrota de um time grande por um pequeno. Afirmava que o vídeo tape era burro, criticava a frieza da televisão como a dos idiotas da objetividade.

De jeito simples, João Saldanha coloca nas crônicas e comentários informações importantes sobre o mundo da bola. Enfoca os “subterrâneos do futebol” com o seu calendário desordenado, denuncia o marketing excessivo, as partidas milionárias e as jogadas dos cartolas em prejuízo dos clubes. Escreve, fala e brada como um torcedor qualquer. Cria também expressões que acompanham o ritmo espontâneo de sua fala como num bate-papo enriquecedor. “A vaca vai pro brejo”, “mostrar o mapa da mina”, “entregar o ouro aos bandidos”, “estar no bagaço”, “zona do agrião”, “ir para o vinagre”, “coelhinho de desenho animado” e tantas outras que entraram em definitivo para o vocabulário do nosso futebol.

Em Armando Nogueira sabe-se que “ para entender a alma do brasileiro é preciso surpreendê-lo no instante do gol”. Para o cronista poeta, “a bola rola para todos, mas só dá bola para alguns.” Essas referências de toque admirável, como “se Pelé não tivesse nascido gente, teria nascido bola”, ou “jogador comum vê a jogada, o craque antevê”, encontram-se tão simplesmente no autor de A Ginga e o Jogo como belezas e delícias que o futebol inspira. Nele a escrita da crônica esportiva emerge como fatura exemplar do texto permeado com a metáfora. Esplende a estética do belo casado com a palavra, a crônica assim tem várias vezes um sabor de obra-prima. O cronista sabe que as palavras nascem para encantar com um toque refinado, íntimo da bola.

3.3.10

IGREJA DE N. S. DA GLÓRIA DO OUTEIRO

Se hoje o Cristo no alto do Corcovado se identifica com a própria cidade do Rio de Janeiro, no passado esse papel foi desempenhado pela Imperial Igreja da Glória do Outeiro, pois oferecia uma das primeiras imagens da cidade aos navios que entravam na Baía da Guanabara.

Igreja da Glória vista do Largo da Glória.

Igreja da Glória vista do Aterro.

Observe a imagem de N. S. da Glória no nicho aberto no muro.

Nicho com imagem de N. S. da Glória, réplica da imagem original esculpida no Brasil mas que se encontra em Lagos, Portugal.

Durante o século XVII foi construída uma pequena capela dedicada à Nossa Senhora da Glória, no morro hoje conhecido como Outeiro da Glória, que primitivamente beirava o mar e se chamava Uruçumirim. A atual igreja foi edificada em princípios do século XVIII e concluída em 1739, segundo projeto atribuído ao tenente-coronel José Cardoso Ramalho.

A planta da Igreja é constituída por dois prismas octogonais que se entrelaçam, com torre sineira única e centrada à frente, formando, na parte de baixo, uma pequena galilé [=espaço coberto de transição entre a parede do frontispício e as portas de acesso à nave] quadrada e aberta em cada lado por um arco, compondo o pórtico da entrada. As portadas laterais de lioz [=pedra calcária branca e rija] são de estilo rococó, provavelmente da segunda metade do século XVIII. Destaca-se, na fachada, a portada de lioz com medalhão de Nossa Senhora (quarta foto abaixo). É considerada como a primeira obra de arquitetura a introduzir no barroco brasileiro um novo conceito espacial, mais próximo ao barroco italiano, pelos usos das curvas que compõem a planta, presentes também nas igrejas de Nossa Senhora da Lapa e Nossa Senhora Mãe dos Homens. Internamente a nave da Igreja possui pilastras [=pilares semiembutidos nas paredes], cimalhas [=arremates superiores da parede] e arcos duplos em cantaria. Nas paredes da nave, capela-mor, coro e sacristia são notáveis os painéis de azulejos portugueses representando cenas bíblicas, executados entre 1735-1740. São do fim do século XVIII ou do princípio do século XIX os trabalhos de talha realizados no coro, nos púlpitos, no retábulo [=estrutura ornamental engastada na parede atrás do altar] da capela-mor e nos dois altares laterais localizados na nave. A sacristia possui um belo arcaz [=móvel utilizado nas sacristias para a guarda de objetos do culto], pinturas representando os doutores da Igreja e dois chafarizes. O edifício localizado atrás da igreja possui um museu com importantes peças artísticas pertencentes à Irmandade. 


(Texto obtido no site do IPHAN; definições entre chaves extraídas do Guia da arquitetura colonial, neoclássica e romântica no Rio de Janeiro.)






Famosas ficaram, nas tradições cariocas, as festas que nela se realizavam desde os distantes tempos setecentistas, e que tinham por teatro o Outeiro e a planície embaixo. E entre os viajantes estrangeiros que delas nos deixaram pitoresca descrição se destacou o Cirurgião-mor inglês John White, no Vice-Reinado de Luís de Vasconcelos. Já então costumava-se iluminá-la profusamente e adorná-la de flores. A procissão partia do centro bem cedo, ao meio-dia, e à tarde já era difícil subir a ladeira, que não eram duas, como nos dias de hoje, mas uma só do lado do Catete. Contrito, o povo ajoelhava-se e rezava. Os fidalgos só apareciam, porém, ao cair da tarde. No adro havia um grande coreto, e nele artistas numerosos se exibiam, cantando suas canções ou tocando seus instrumentos. E em torno as quermesses se espalhavam, perambulando em torno os barbeiros negros ambulantes e os escravos vendedores de refrescos e doces, graças aos quais certas famílias da classe média ou abastadas equilibravam suas finanças... Por outro lado era comovedor o espetáculo dos enfermos e aleijados, a subirem o outeiro ajudados por parentes, para pedir à Virgem um alívio para seus males ou agradecer as melhoras recebidas. 

(Brasil Gerson, História das ruas do Rio, p. 245).

Máquina do tempo: um pedacinho do Rio antigo em pleno século XX (ao fundo à esquerda, o museu da irmandade).

Detalhe da lateral. Dá para ver a ponta do Pão de Açúcar ao fundo.

Aterro, Baía da Guanabara e Niterói vistos do adro da igreja.

A primeira vez que vim ao Rio de Janeiro foi em 1855.

Poucos dias depois da minha chegada, um amigo e companheiro de infância, o Dr. Sá, levou-me à festa da Glória; uma das poucas festas populares da corte. Conforme o costume, a grande romaria desfilando pela Rua da Lapa e ao longo do cais, serpejava nas faldas do outeiro e apinhava-se em torno da poética ermida, cujo âmbito regurgitava com a multidão do povo.

Era ave-maria quando chegamos ao adro; perdida a esperança de romper a mole de gente que murava cada uma das portas da igreja, nos resignamos a gozar da fresca viração que vinha do mar, contemplando o delicioso panorama da baía e admirando ou criticando as devotas que também tinham chegado tarde e pareciam satisfeitas com a exibição de seus adornos.

Enquanto Sá era disputado pelos numerosos amigos e conhecidos, gozava eu da minha tranquila e independente obscuridade, sentado comodamente sobre a pequena muralha e resolvido a estabelecer ali o meu observatório. Para um provinciano recém-chegado à corte, que melhor festa do que ver passar-lhe pelos olhos, à doce luz da tarde, uma parte da população desta grande cidade, com os seus vários matizes e infinitas gradações?

Todas as raças, desde o caucasiano sem mescla até o africano puro; todas as posições, desde as ilustrações da política, da fortuna ou do talento, até o proletário humilde e desconhecido; todas as profissões, desde o banqueiro até o mendigo; finalmente, todos os tipos grotescos da sociedade brasileira, desde a arrogante nulidade até a vil lisonja, desfilaram em face de mim, roçando a seda e a casimira pela baeta ou pelo algodão, misturando os perfumes delicados às impuras exalações, o fumo aromático do havana às acres baforadas do cigarro de palha.

— É uma festa filosófica essa festa da Glória! Aprendi mais naquela meia hora de observação do que nos cinco anos que acabava de esperdiçar em Olinda com uma prodigalidade verdadeiramente brasileira. 


(José de Alencar, Lucíola, Cap. II)

Portão de 1841 e igreja.

Centro visto do adro da igreja ao entardecer.

Igreja da Glória vista do Aterro ao anoitecer. Fotos do editor do blog, exceto a antiga, em preto e branco.

Há umas festas só populares, outras só elegantes; a da Glória tem o dom de reunir os diversos aspectos; trepam a ladeira, a roçar um por outro, o vestido de seda e o de chita; lá se vê o toucado da moça fashionable, levando atrás de si a trunfa da preta baiana. Uns vão de cupê, outros de bonde, outros a pé; e sobe e desce o rio de gente variegada, salpicada, misturada; pequena imagem do vale de Josafá.

(Machado de Assis, Notas Semanais, revista O Cruzeiro, 18 de agosto de 1878)

17.2.10

CARNAVAL NO RIO 2010

Segundo a atriz Dira Paes, a Norminha da novela Caminho das Índias, o Carnaval do Rio é um dos “espetáculos mais deslumbrantes do mundo”. Nosso Carnaval é democrático: tem diversão para todos os gostos e todos os bolsos, do Baile do Copacabana Palace, cujo ingresso custa entre R$1100 e R$3200, ao Carnaval de rua, onde até humildes catadores de latinhas caem no embalo. E tem mil e um blocos, as rodas de samba do Rio Folia na Lapa, o Terreirão do Samba, o baile da Cinelândia, o desfile do Cacique de Ramos na Avenida Rio Branco, as Escolas de Samba mirins e do Grupo de Acesso. O ponto alto (e aí irei mais longe que Dira Paes e direi que se trata do maior espetáculo da Terra), o desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial. Na TV já é divino-maravilhoso, mas ao vivo... Este ano (pela primeira vez) fui lá. As fotos dão apenas uma imagem pálida da suntuosidade. Vejam o paradoxo: esse espetáculo que é um luxo só tem sua base não em bairros chiques, bairros nobres, e sim em “comunidades” pobres. Suas raízes estão na cultura popular. Esse povo supostamente “ignorante” (ao olhar das elites) consegue produzir (claro que sob a batuta do carnavalesco) um espetáculo de dimensões hollywoodianas. E tudo com organização e segurança de primeiro mundo e pontualidade britânica (porque quem atrasa perde pontos). O recorte da coluna de Ancelmo Gois abaixo enviado pelo amigo Manoel Rodrigues prova que não estou exagerando. Além disso, diz o jornal O Dia de 23/2: "Carnaval trouxe 800 mil turistas à cidade e levou às ruas 3,5 milhões de foliões. Pesquisa feita para a Riotur aponta que mais de 90% dos turistas voltarão para a folia carioca." Após o recorte, as fotos das seis escolas que desfilaram no domingo.

1. União da Ilha - Dom Quixote de La Mancha, o cavaleiro dos sonhos impossíveis.
“A Ilha vem cantar / Mais um sonho impossível… Sonhar! / Quem é que não tem, / uma louca ilusão / E um Quixote no seu coração?” O carro alegórico da primeira foto mostra Dom Quixote.

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2. Imperatriz Leopoldinense – Brasil de todos os Deuses. “O índio dançou em adoração / O branco rezou na cruz do cristão / O negro louvou os seus orixás / A luz de Deus é a chama da paz” Muito bonito o enredo mostrando a convivência de diferentes crenças religiosas no nosso país.

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3. Unidos da Tijuca – É Segredo! “É segredo, não conto a ninguém / Sou Tijuca, vou além / O seu olhar vou iludir / A tentação é descobrir” A primeira foto mostra o Cavalo de Troia, a segunda, os Jardins Suspensos da Babilônia. Os truques de ilusionismo da comissão de frente empolgaram o público, que ao final do desfile bradava: “É campeão!”

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4. Viradouro – México, o Paraíso das Cores, sob o Signo do Sol. “Arriba, Viradouro! / Uma tequila para comemorar / Um lenço vermelho, sombrero na mão / O México em cores vou cantar.” A segunda foto mostra o carro alegórico de Finados.

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5. Salgueiro – Histórias Sem Fim. O refrão conquistou o público: “Uma história de amor / Sem ponto final / Academia do Samba é Salgueiro / No livro do meu Carnaval.” E o enredo, uma declaração de amor aos livros, conquistou este blogueiro: “Páginas descrevendo pensamentos / Clássicos, ideais e sentimentos / Romance e aventura / Quanta riqueza na nossa literatura.”

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6. Beija-Flor – Brilhante ao sol do novo mundo, Brasília do sonho à realidade, a capital da esperança. “Sou candango, calango e Beija-Flor! / Traçando o destino ainda criança / A luz da alvorada anuncia! / Brasília capital da esperança.” Desfile de puro luxo.

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8.2.10

PÔR-DO-SOL NO ARPOADOR


Com a temperatura beirando os quarenta graus, fazer o que no fim de semana? Trancafiar-se em casa no ar-condicionado? Filar o ar-condicionado do shopping? Entornar umas cervejas e sair nos blocos carnavalescos? Um programa cada vez mais popular é pegar uma praia sem raios ultravioleta no fim da tarde, início da noite. No Arpoador e Ipanema o sol faz o espetáculo, ao mergulhar no horizonte. Com direito a palmas do público. Altas vibes no nosso Rio de Janeiro.


1.2.10

POEMAS DE COPACABANA

PoemasDeCopacabana1

COPACABANA
Geir Campos

dormes
            entre teus sustos
                                        relaxada
imagem do meu tudo
                                    e do meu nada

teu fundo respirar contemplo
                                                 é onde
a vida se pergunta
                              e se responde

enquanto dormes
                             por teu sono vela

trazida de uma ilhota peruana
      e aqui no exílio da sua capela

      nossa senhora de copacabana

PoemasDeCopacabana2

COPACABANA
Vinicius de Moraes

Esta é Copacabana — ampla laguna
Curva e horizonte, arco de amor vibrando
Suas flechas de luz contra o infinito.
Aqui meus olhos desnudaram estrelas
Aqui meus braços discursaram a lua
Desabrochavam feras dos meus passos
Nas florestas de dor que percorriam.
Copacabana, praia de memórias!
Quantos êxtases, quantas madrugadas
Em teu colo marítimo! Esta é a areia
Que tanto enlameei com minhas lágrimas.
Aquele é o bar maldito. Não estás vendo
Aquele escuro ali? É um obelisco
De treva: cone erguido pela noite
Para marcar por toda a eternidade
O lugar onde o poeta foi perjuro.
Ali tombei, ali beijei-te ansiado
Como se a vida fosse terminar
Naquele louco embate. Ali cantei
À lua branca, cheio de bebida
Ali menti, ali me ciliciei
Para gozo da aurora pervertida.

PoemasDeCopacabana3

Sobre o banco de pedra que ali tens
Nasceu uma canção. Ali fui mártir
Fui réprobo, fui bárbaro, fui santo
Aqui encontrarás minhas pegadas
E pedaços de mim por cada canto.
Numa gota de sangue numa pedra
Ali estou eu. Num grito de socorro
Entreouvido na noite, ali estou eu.
No eco longínquo e áspero do morro
Ali estou eu. Tu vês essa estrutura
De apartamentos como uma colmeia
Gigantesca? Em muitos penetrei
Tendo a guiar-me apenas o perfume
De um corpo de mulher a palpitar
Como uma flor carnívora na treva.
Copacabana! ah, cidadela forte
Desta minha paixão! a velha lua
Ficava no seu nicho me assistindo
Beber e eu muita vez a vi luzindo
No meu copo de uísque, branca e pura
A destilar tristeza e poesia...
Copacabana! réstia de edifícios
Cujos nomes dão nome ao sentimento!...
Foi no Leme que vi nascer o vento
Certa manhã, na praia. Uma mulher
Toda de negro no horizonte extremo
Entre muitos fantasmas me esperava
A moça dos antúrios, deslembrada
A senhora dos círios, cuja alcova
O piscar do farol iluminava
Como a marcar o pulso da paixão
Morrendo intermitentemente. E ainda
Um brilhar de punhal, um riso acústico
Que não morreu. Ou certa porta aberta
Para a infelicidade: inesquecível
Frincha de luz a separar-me apenas
Do irremediável. Ou o abismo embaixo
Aberto, elástico, e o meu ser disperso
No espaço em torno, e o vento me chamando
Me convidando a voar... (Ah, muitas mortes
Morri entre essas máquinas erguidas
Contra o tempo!) Ou também o desespero
De andar, como um metrônomo, para lá
E para cá, marcando o passo do impossível
À espera do segredo, do milagre
Da poesia.

PoemasDeCopacabana4

Tu, Copacabana,
Mais que nenhuma outra foste a arena
Onde o poeta lutou contra o invisível
E onde encontrou enfim sua poesia
Talvez pequena, mas suficiente
Para justificar uma existência
Que sem ela seria incompreensível.

PoemasDeCopacabana5

POEMA DE COPACABANA
Nertan Macedo

(Mas há quem vele porque te ama,
Praia de cinza, violentada).
Copacabana de madrugada,
Abandonada a um mar cinzento;
Copacabana de madrugada
Exala um ar de indiferença.
Porque só nós estamos vendo
Copacabana abandonada,
Copacabana de madrugada:
Cinza espalhada num mar de cinza,
Cinza espalhada num mar de bruma,
Cinza cobrindo arranha-céus...
Copacabana está sozinha,
Violentada, prostituída,
Quem nesta hora te conhece
Sem riso, nua como uma noiva,
Lívida, triste, despenteada?
Vingo momentos de vã pureza,
Teu sol dourado, teu corpo branco,
Tuas manhãs mistificadas.
Copacabana de madrugada -
Tristeza, bruma, álgidos ventos... -
(Mas há quem vele porque te ama,
Praia de cinza, violentada).

PoemasDeCopacabana6

COPACABANA
Igor Fagundes

como se caminhasse rumo ao Leme
e viesse o sol pousar ao fim da tarde
na mochila, rumo à sede de entregá-lo
a algum poente que não fosse só miragem

aqui, onde há saudade em cada grão de areia
sobre os pés e a chamam dentro: maresia
de um menino cuja sombra traz o atlântico
de teu corpo – luz maior do que a avenida

aí, onde o verde dos olhos dita o trânsito
e um vento avança pelos lábios, sem buzinas
sem faróis, pois não há noite em céus da boca
e feito asfalto, é nossa pele a travessia

aqui, onde nas mãos terás copacabanas:
um forte ao fundo, a vista curva da varanda
a multidão em nós, teus fogos de artifício
o arpoador além do olhar, tramando abismos

como se nos bastássemos de morros, túneis
da Tonelero ao Rebouças, da Isabel ao Cantagalo
da tua voz ao meu chamado, este destino:
mochila aberta, entrego o sol ao teu caminho

PoemasDeCopacabana7

COPACABANA
Fernando Py

Mineral de tão ausência
paisagem retorno - areia
na palma da mão em concha
de onde escorre toda a infância
presa na praia perene
entre gritos e buzinas
e opressão de edifícios
sumida em crateras de asfalto

          desculpe o transtorno
         
estamos instalando o cérebro eletrônico

arrepio de tão moderno
castelos outrora
deserto de amor em selva maquinária
de onde escorre saliva de betume
cravo em cruz na crosta condenada
entre pés e pés — passeio destroço
no rio preto sempre interrupto e plão

          DESCULPE O TRANSTORNO
          ESTAMOS INSTALANDO
          O CÉREBRO ELETRôNICO

choque de dois habitando o mesmo corpo
épocas longes visitando a memória
mastro emergindo na onda primitiva
avião
brinquedo e criança na praia soterrados

          desculpe o transtorno

gravata e barba inúteis se acrescentam

PoemasDeCopacabana8

ao passado nos olhos
que água veem — colunas desabando
aos pés cuja nudez na areia se agasalha
e espuma nas mãos um pingo lasso
cola-se à pele — comunhão discreta

          estamos instalando o cérebro eletrônico

edifício em ruínas — sempre dois
brigando no corpo
presença do ontem nos gestos e na roupa
ciência maior e menos entregar-se
praia distante embora aqui
edifício em construção

                    crise
do ontem no hoje se expandindo

          desculpe o

as mesmas ondas onde? a pele primavera
onde? riso bebido em laranjada onde?
onde a lembrança mínima da praia?

          transtorno

caramujo inaudível ânfora da tarde
e a noite se avizinha apascentando

          estamos instalando

fios de essência ligam-se à medula
colorindo o princípio do velho
Copacabana pérola
          infinito
matemática

          o cérebro eletrônico

pesquisando a justeza das crateras
onde mais que todos mineral
isento de pureza e acalanto
o maduro obriga a infância a destruir-se.

PoemasDeCopacabana9

LUAR SOBRE COPACABANA
Celso Japiassu

Névoa e gás envolvem a lua,
paredes e muros de Copacabana.
Reflexos imitam a lua, deságuam
nas línguas negras,
são estranhos animais.

Invisível-indivisível, o corpo
anda: corpos velhos sob a lua.
Os velhos passam, não são vistos.
São peixes transparentes contra a água
de outros corpos na rua.

Entre o mar e os edifícios
o areal rompe as ondas,
suja os olhos e a boca,
constrói no ar seu roteiro.
Deixa traços no caminho.

Uma noite sem mistério
ou sonho. Um homem senta-se ao bar,
aspira o hálito do tempo,
bebe ao futuro. As horas,
uma a uma, desperdiçam seus sinais.

O movimento dos vultos,
cães silenciosos, homens apagados
misturados ao trânsito da noite.
O tempo espelha sua lâmina
no refluxo das águas.

O sereno, as sombras e o silêncio
juntam-se nas esquinas das ruas
e avenidas do Leme ao Posto Seis.
Transitam além dos olhos, na alma
que não consegue adormecer.

Há um território do sono
explorado pelo mar e seus ruídos,
habitação do medo, onde fantasmas
balbuciam sortilégios e os mortos
são aves recolhidas pelo vento.

PoemasDeCopacabana10
baconacapa
Cairo de Assis Trindade
(do livro Poezya que porra é essa?)

depois que eu descobri copacabana
esqueci a sonhada ida à grécia
o pôr de sol do sul na primavera
e o meu encanto por viver cigano

depois que eu conheci copacabana
desisti de ir pra lá de bagdah
pra paris ou qualquer outro lugar
mesmo que mais sagrado ou mais sacana

depois que mergulhei em suas águas
e me afoguei em sua noite insana
jamais voltei a ser o mesmo cairo

se me perdi nesta babel humana
quero morrer aqui em minha praia
e ir surfar no céu de copacabana

Fotos da Praia de Copacabana (em diferentes dias e horários) tiradas pelo editor do blog. Mas nem sempre o mar está calminho como nessas fotos; temos dias de mar nervoso também. Para ver nossas outras postagens sobre esse bairro carioca clique no marcador “Copacabana” abaixo.

28.1.10

ESPERANÇA DE PAZ PARA O RIO III

Diagrama obtido em O Dia online. Para ler a matéria completa clique no título da postagem acima. Para ler outras postagens neste blog sobre a violência & pacificação, clique no marcador "violência" abaixo. 


25.1.10

CASA DE BANHO DE D. JOÃO VI NO CAJU

(MUSEU DA LIMPEZA URBANA DA COMLURB)

Cemitério Comunal Israelita
O bairro do Caju está um tanto degradado, imprensado entre a Avenida Brasil (foto abaixo), Linha Vermelha e acesso à Ponte Rio-Niterói. Mas já foi um bairro aprazível. Lá D. João VI tomava seus banhos de mar. Uma boa parte do bairro passou a ser ocupada (a partir de meados do século XIX) por cemitérios. No Caju também fica, desde o início do século XX, o Arsenal de Guerra do Rio (antes situado onde hoje fica o Museu Histórico Nacional). Aproveitei uma visita aos túmulos dos meus pais no Cemitério Comunal Israelita (foto acima) para dar um rolê até a Casa de Banho de D. João VI, atual Museu da Limpeza da Comlurb. Aqui estão as fotos de minha incursão pelo Caju (a da Avenida Brasil e as duas últimas tiradas de dentro do ônibus expresso Estácio-São Cristóvão-Caju, com ponto final na Estação Estácio do metrô).

Avenida Brasil
"um bairro aprazível"
CASA DE BANHO D. JOÃO VI
MUSEU DA LIMPEZA URBANA

Casa da família Tavares Guerra, próxima à Quinta do Caju, conhecida como Casa de Banho D. João VI, foi frequentada pelo monarca por volta de 1817, por indicação médica. O prédio (uma casa térrea de arrabalde) é um raro exemplar da arquitetura do final do século XVIII ou início do século XIX. Segundo o Guia da arquitetura colonial, neoclássica e romântica do Rio de Janeiro, "este exemplar de casa de chácara apresenta diversas características do vocabulário formal colonial, como a sua volumetria simples marcada pelo grande telhado de quatro águas e por uma água-furtada à moda trapeira, os vãos de arco abatido e as telhas do tipo capa e canal". Tombada pelo IPHAN em 1938, foi restaurada pela COMLURB em 1996 para abrigar o Museu da Limpeza Urbana. Conta parte da história da cidade, como se desenvolveu e resolveu seus problemas, dando condições de vida a seus habitantes, promove atividades com visitas guiadas e recreação, como também seminários, exposições temporárias e apresentações culturais.

Endereço: Praia do Caju, 385 (pesquise no Google Maps)
Telefone: 3890.6021
Visitação: de terça a sexta, de 10h às 17h;
Sábados e domingos, de 13h às 17h.
PS. Em dezembro de 2012, retornando ao local, constatei que o museu não estava mais aberto à visitação.

Rua Praia do Caju (a praia agora só existe no nome)
Casa de Banho de D. João VI (lateral)
Casa de Banho de D. João VI (entrada)
Busto de D. João VI
Em frente à Casa de Banho. Seria até bucólico, não fosse o elevado de acesso à Ponte Rio-Niterói atrás.
O CAJU
HENRIQUE VELTMAN

[...] Nos anos 1940, como os banhos de mar tinham caráter terapêutico, as pessoas iam para a Praia do Caju ao raiar do dia, às vezes ainda de madrugada. Vestiam geralmente, como trajes de banho, duas peças feitas de um tecido felpudo de lã: calça até os tornozelos, camisa de mangas compridas, franzida e com uma espécie de lapela.

Não me lembro bem dos nossos calções de banho. Mas os maiôs de dona Raquel − e das outras mães − também, eram terríveis.

O Caju se enchia, então, de famílias cobertas de mantas e cobertores discretos, recebendo nas manhãs a ainda mais discreta bênção do iodo, aspirando pelas narinas aquela mistura feita de sargaço, água salgada, areia suja de algas.
[...]

Um pouco de história. O Rio de Janeiro do início do século 19 era uma cidade infestada por carrapatos, mosquitos e outros insetos, que não poupavam nem mesmo os integrantes da família real portuguesa. Dom João VI foi um dos que mais sofreram. Uma ferida na perna, fruto da mordida de um carrapato, infeccionou e ele teve que buscar ajuda.

Para tratar a saúde, foram recomendados a Dom João VI banhos de mar. De São Cristóvão − onde ficava a família real portuguesa − até o Caju, havia um caminho fácil de ser percorrido. Aquele mesmo que nós, crianças judias do século 20, percorríamos em busca do milagroso iodo...

O Caju era um balneário, com muitos terrenos à beira de uma Baía da Guanabara ainda limpa. O mar batia na beira de uma casa construída no começo do século 19 e que até hoje está preservada como um símbolo da história do Rio. É a Casa de Banho de Dom João VI.

Dom João era imperador. Por isso, ele não se trocava na frente de qualquer um. Usava a casa como vestiário. Dizem ainda que, com medo de caranguejos e outros bichos do mar, ele tomava banho dentro de um barril em vez de mergulhar.

Hoje, no Caju, não há sinal de praia. A área foi aterrada para a construção do porto e da Ponte Rio-Niterói. A Casa de Banho é o Museu da Comlurb, com a memória da limpeza urbana do Rio, mas guarda um busto de Dom João VI, para que ninguém esqueça que, além da garotada da Praça Onze, a realeza já frequentou a Praia do Caju. (Crônica publicada originalmente no Boletim ASA de set-out/2007)



Parque São Sebastião
Ao longe o Corcovado (fotos do editor do blog — clique no label "Caju" abaixo para ver nossa outra postagem sobre o bairro )