3.3.10

IGREJA DE N. S. DA GLÓRIA DO OUTEIRO


Se hoje o Cristo no alto do Corcovado se identifica com a própria cidade do Rio de Janeiro, no passado esse papel foi desempenhado pela Imperial Igreja da Glória do Outeiro, pois oferecia uma das primeiras imagens da cidade aos navios que entravam na Baía da Guanabara.


Igreja da Glória vista do Largo da Glória.



Igreja da Glória vista do Aterro.


Observe a imagem de N. S. da Glória no nicho aberto no muro.


Nicho com imagem de N. S. da Glória, réplica da imagem original esculpida no Brasil mas que se encontra em Lagos, Portugal.

Durante o século XVII foi construída uma pequena capela dedicada à Nossa Senhora da Glória, no morro hoje conhecido como Outeiro da Glória, que primitivamente beirava o mar e se chamava Uruçumirim. A atual igreja foi edificada em princípios do século XVIII e concluída em 1739, segundo projeto atribuído ao tenente-coronel José Cardoso Ramalho.

A planta da Igreja é constituída por dois prismas octogonais que se entrelaçam, com torre sineira única e centrada à frente, formando, na parte de baixo, uma pequena galilé [=espaço coberto de transição entre a parede do frontispício e as portas de acesso à nave] quadrada e aberta em cada lado por um arco, compondo o pórtico da entrada. As portadas laterais de lioz [=pedra calcária branca e rija] são de estilo rococó, provavelmente da segunda metade do século XVIII. Destaca-se, na fachada, a portada de lioz com medalhão de Nossa Senhora (quarta foto abaixo). É considerada como a primeira obra de arquitetura a introduzir no barroco brasileiro um novo conceito espacial, mais próximo ao barroco italiano, pelos usos das curvas que compõem a planta, presentes também nas igrejas de Nossa Senhora da Lapa e Nossa Senhora Mãe dos Homens. Internamente a nave da Igreja possui pilastras [=pilares semiembutidos nas paredes], cimalhas [=arremates superiores da parede] e arcos duplos em cantaria. Nas paredes da nave, capela-mor, coro e sacristia são notáveis os painéis de azulejos portugueses representando cenas bíblicas, executados entre 1735-1740. São do fim do século XVIII ou do princípio do século XIX os trabalhos de talha realizados no coro, nos púlpitos, no retábulo [=estrutura ornamental engastada na parede atrás do altar] da capela-mor e nos dois altares laterais localizados na nave. A sacristia possui um belo arcaz [=móvel utilizado nas sacristias para a guarda de objetos do culto], pinturas representando os doutores da Igreja e dois chafarizes. O edifício localizado atrás da igreja possui um museu com importantes peças artísticas pertencentes à Irmandade. 


(Texto obtido no site do IPHAN; definições entre chaves extraídas do Guia da arquitetura colonial, neoclássica e romântica no Rio de Janeiro. Mais informações podem ser obtidas no site da Riotur.)






Famosas ficaram, nas tradições cariocas, as festas que nela se realizavam desde os distantes tempos setecentistas, e que tinham por teatro o Outeiro e a planície embaixo. E entre os viajantes estrangeiros que delas nos deixaram pitoresca descrição se destacou o Cirurgião-mor inglês John White, no Vice-Reinado de Luís de Vasconcelos. Já então costumava-se iluminá-la profusamente e adorná-la de flores. A procissão partia do centro bem cedo, ao meio-dia, e à tarde já era difícil subir a ladeira, que não eram duas, como nos dias de hoje, mas uma só do lado do Catete. Contrito, o povo ajoelhava-se e rezava. Os fidalgos só apareciam, porém, ao cair da tarde. No adro havia um grande coreto, e nele artistas numerosos se exibiam, cantando suas canções ou tocando seus instrumentos. E em torno as quermesses se espalhavam, perambulando em torno os barbeiros negros ambulantes e os escravos vendedores de refrescos e doces, graças aos quais certas famílias da classe média ou abastadas equilibravam suas finanças... Por outro lado era comovedor o espetáculo dos enfermos e aleijados, a subirem o outeiro ajudados por parentes, para pedir à Virgem um alívio para seus males ou agradecer as melhoras recebidas. 

(Brasil Gerson, História das ruas do Rio, p. 245).


Máquina do tempo: um pedacinho do Rio antigo em pleno século XX (ao fundo à esquerda, o museu da irmandade).


Detalhe da lateral. Dá para ver a ponta do Pão de Açúcar ao fundo.


Aterro, Baía da Guanabara e Niterói vistos do adro da igreja.

A primeira vez que vim ao Rio de Janeiro foi em 1855.

Poucos dias depois da minha chegada, um amigo e companheiro de infância, o Dr. Sá, levou-me à festa da Glória; uma das poucas festas populares da corte. Conforme o costume, a grande romaria desfilando pela Rua da Lapa e ao longo do cais, serpejava nas faldas do outeiro e apinhava-se em torno da poética ermida, cujo âmbito regurgitava com a multidão do povo.

Era ave-maria quando chegamos ao adro; perdida a esperança de romper a mole de gente que murava cada uma das portas da igreja, nos resignamos a gozar da fresca viração que vinha do mar, contemplando o delicioso panorama da baía e admirando ou criticando as devotas que também tinham chegado tarde e pareciam satisfeitas com a exibição de seus adornos.

Enquanto Sá era disputado pelos numerosos amigos e conhecidos, gozava eu da minha tranquila e independente obscuridade, sentado comodamente sobre a pequena muralha e resolvido a estabelecer ali o meu observatório. Para um provinciano recém-chegado à corte, que melhor festa do que ver passar-lhe pelos olhos, à doce luz da tarde, uma parte da população desta grande cidade, com os seus vários matizes e infinitas gradações?

Todas as raças, desde o caucasiano sem mescla até o africano puro; todas as posições, desde as ilustrações da política, da fortuna ou do talento, até o proletário humilde e desconhecido; todas as profissões, desde o banqueiro até o mendigo; finalmente, todos os tipos grotescos da sociedade brasileira, desde a arrogante nulidade até a vil lisonja, desfilaram em face de mim, roçando a seda e a casimira pela baeta ou pelo algodão, misturando os perfumes delicados às impuras exalações, o fumo aromático do havana às acres baforadas do cigarro de palha.

— É uma festa filosófica essa festa da Glória! Aprendi mais naquela meia hora de observação do que nos cinco anos que acabava de esperdiçar em Olinda com uma prodigalidade verdadeiramente brasileira. 


(José de Alencar, Lucíola, Cap. II)


Portão de 1841 e igreja.


Centro visto do adro da igreja ao entardecer.


Igreja da Glória vista do Aterro ao anoitecer. Fotos do editor do blog, exceto a antiga, em preto-e-branco.