1.3.18

DOCUMENTO HISTÓRICO: CARTA DO PADRE ANCHIETA SOBRE A FUNDAÇÃO DO RIO DE JANEIRO


Esta carta é importante por diversos motivos. Primeiro, trata-se do único documento hoje existente de uma testemunha ocular da fundação do Rio. Segundo, é um dos dois documentos (ambos de Anchieta) que permitiram a Capistrano de Abreu fixar a data de fundação da cidade em 1o de março. Terceiro, nele vemos que a denominação São Sebastião foi adotada desde os primórdios da cidade, e não depois de vencida a batalha contra os franceses no dia de São Sebastião em 1567, como lemos em algumas fontes. Quarto, porque mostra (como também mostram outros documentos e mapas) que, seis décadas após a viagem de exploração de Gaspar de Lemos, em que a baía da Guanabara teria sido confundida com um rio, esta continuava sendo chamada de Rio de Janeiro (ou “boca do Rio de Janeiro” como lemos na carta de Anchieta, ou mesmo Rio da Guanabara como vemos em mapas franceses), ou seja, àquela altura aparentemente ainda se acreditava que fosse a desembocadura de um rio. Finalmente, mostra o incrível heroísmo dos fundadores de nossa cidade, enfrentando o oceano, a fome, a sede e os inimigos franceses e tamoios, sempre confiando na providência divina.

CARTA DO PADRE ANCHIETA AO PADRE DIOGO MIRÃO, DE 9 DE JULHO DE 1565, NARRANDO A FUNDAÇÃO DE SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO (FONTE: CARTAS, INFORMAÇÕES, FRAGMENTOS HISTÓRICOS E SERMÕES do Padre Joseph de Anchieta, S.J. (1554-1594), Editora Civilização Brasileira, 1933)

De São Vicente se escreveu largamente o que aconteceu à armada, que da cidade do Salvador foi povoar o Rio de Janeiro este ano passado de 1564; partiu no fim do ano de 1564 (1), agora darei conta do que mais sucedeu.

Depois de passar muito tempo (2) em se reformar a armada de cordas, amarras e outras cousas necessárias, e esperar pelo gentio dos Tupinanquins, com os quais se fizeram pazes, indo duas vezes em navios às suas povoações a os chamar, para darem ajuda contra os Tamoios do Rio, os quais prometendo de vir, não vieram senão mui tarde e poucos, e tornaram-se logo de São Vicente, sem quererem com os nossos vir ao Rio, a qual foi a principal causa de muita detença que a armada fez em São Vicente; e, finalmente, depois de haver muitas contradições, assim dos povos de São Vicente, como dos capitães e gente da armada, aos quais parecia impossível povoar-se o Rio de Janeiro com tão pouca gente e mantimentos, o capitão-mor Estácio de Sá e o ouvidor geral Braz Fragoso, que sempre resistiram a todos estes encontros e contradições, determinaram de levar ao cabo esta empresa que tinham começado. E confiados na bondade e poder divino assentaram que se ficasse o ouvidor geral em São Vicente, fazendo consertar o galeão e a nau francesa [tomada no Rio de Janeiro], que se achavam comidos de busanos, e não estavam para poder navegar, e depois se viria com socorro ao Rio, e que o capitão-mor se passasse logo em sua nau capitânia e alguns navios pequenos e canoas a começar a povoação.

Mapa da França Antártica mostrando que na década de 1550 ainda se acreditava que a Baía da Guanabara fosse a desembocadura de um rio. A baía é chamada de La Rivière de Ganabara autrement Rio Janeiro, e no fundo da baía desembocam dois rios com as designações "Rivière d'eau douce", rio de água doce (a baía sendo assim o "rio de água salgada"). Fonte: Maurício de Almeida Abreu, Geografia Histórica do Rio de Janeiro.

Partiu o capitão-mor só em sua nau aos 22 de Janeiro de 1565, e no mesmo dia veio ter à ilha de São Sebastião, que está 12 ou 13 léguas de São Vicente, onde esteve esperando pelos navios pequenos que se ficaram aviando, os quais partiram de Bertioga a 27 do mês [20 de janeiro segundo outra fonte], e ao seguinte dia vieram com a capitânia; os navios pequenos eram cinco somente, e os três deles de remos, e com eles vieram oito canoas (3), as quais traziam a seu cargo os Mamalucos de São Vicente, com alguns Índios do Espírito Santo, que o ano passado haviam ido com o capitão-mor, e alguns outros de São Vicente dos nossos discípulos cristãos de Piratininga, de maneira que toda a gente, assim dos navios como das canoas, poderiam chegar até 200 homens, que era bem pouco para se poder povoar o Rio, ao que se ajuntava o pouco mantimento que traziam, que se dizia poder durar 2 ou 3 meses; com tudo isto, como digo, chegamos à Ilha de São Sebastião onde já estava o capitão-mor, e aí dissemos missa, e se confessou e comungou alguma gente; e como comumente vinham com grande alegria e fervor confiados que com aquela pouca força e poder que traziam haviam de povoar, ajudados do braço divino, e que não lhes havia de faltar o mantimento nesta ilha, ordenou o capitão-mor que os navios de remos acompanhassem as canoas que daí por diante entravam já na terra dos Tamoios e era necessário cada dia pousarem em terra em algumas ilhas, e para virem mais seguras mandou meter gente em sua canoa, que vinha por popa de um navio, dando os seus escravos que a remassem com alguns Mamalucos; e deu-lhe Nosso Senhor tão bom tempo, que sempre os navios de remos chegavam a pousar onde elas estavam, até entrar na Ilha Grande (4), onde estiveram muitos dias esperando pela capitânia, a qual teve muitos ventos contra, até não poder aferrar pano como os navios pequenos, e foi forçada a arribar a uma ilha com a verga do traquete [=mastro de vante de navio veleiro] quebrado, e rendido o mastro grande.

Os Mamalucos e Índios enfadados de esperar tanto tempo pela capitânia, e forçados da fome, que quase já não tinham mantimentos, determinaram de o ir buscar a uma aldeia de Tamoios, que estava daí a 2 ou 3 léguas, e ajudou-os Cristo Nosso Senhor, que chegaram à aldeia e queimaram-a, matando um contrário, e tomando um menino vivo, e toda a mais gente se acolheu pelos matos; e com esta vitória alegres se mudaram todos ao outro porto da mesma Ilha Grande, onde tinham muita abundância de peixe e carne; a saber, bugios, cotias, caça do mato, e aí dissemos também muitas vezes missa, e se confessou e comungou muita gente, aparelhando-se para a guerra a que esperavam no Rio de Janeiro; porém ainda que muito trabalhamos nós pela nossa parte, e os capitães dos navios pela sua, não pudemos acabar com os Índios que esperassem pelo capitão-mor, como ele tinha ordenado, antes apartando-se dos navios se vieram para dentro de uma ilha chamada Marambaia, por entre aldeias dos Tamoios, caminho do Rio de Janeiro; e porque eram poucos e vinham em grande perigo, pareceu bem se viessem os Mamalucos após eles, e que todos eles juntos esperassem pelos navios numas ilhas que estão uma légua fora da boca do rio, às quais eles chegaram sem nenhum encontro de Tamoios, ou outro perigo algum (5).

Os navios ficaram esperando pela capitânia cinco ou seis dias, e por derradeiro parecendo-lhes que seria já passada de mar em fora, e temendo o perigo das canoas, partiram-se uma madrugada (6); e saindo pela boca da ilha viram a capitânia que esta noite havia entrado; e assim todos juntos, com muita alegria, começaram com próspero vento a ter vista das ilhas onde as canoas estavam esperando; mas não quis Nosso Senhor que chegassem aquele dia, antes acalmando o vento, e vindo depois outro contrário, junto com as grandes correntes das águas, tomou a capitânia a Ilha Grande, e no caminho esteve em grande perigo de se perder sobre a amarra em uma baixa (7). Os outros navios andaram com muito trabalho, ora a vela, ora a remos, dois ou três dias, para poderem tomar as ilhas (8), e acudir às canoas, que bem adivinhavam seriam tomadas dos contrários, ou tornadas para São Vicente, ou mui perto disso, como em verdade o estavam; porque havendo já seis ou sete dias que estavam esperando, faltando-lhes já o mantimento, comiam somente palmitos e peixes, e bebiam duma pouca água, de que todos estavam debilitados, e alguns doentes de câmaras [=diarreia]; e perdendo já a esperança dos navios chegarem tão cedo, determinaram de partir cada um para sua terra, a saber: os Índios do Espírito Santo com três canoas para a sua, e os Mamalucos com os Tupinanquins para São Vicente. E estando já assentados de efetuar esta sua determinação, viram um dos navios, que a força de braços e remos vinham já perto das ilhas, com cuja vista se alegraram, e esperaram alguns dois dias mais, até que chegaram quatro, que foi aos 27 de Fevereiro; e porque nestas ilhas não havia mais que uma pouca dágua, e a gente era muita; e as secas grandes, acabou-se e não havia mais que para beber um dia. Mas o Senhor, que tomou esta obra a seu cargo, mandou tanta chuva o dia que os navios ali chegaram, que se encheu o poço, e abastou a todos em quanto ali estiveram; e por nos mostrar que um particular cuidado tinha por nós, permitiu que a capitânia com outro navio que haviam arribado não viessem tão cedo, como todos queríamos, donde nasceu tornarem-se a amotinar não somente os Índios e Mamalucos, mas também alguns dos capitães dos navios querendo entrar dentro do rio, contra o regimento que o capitão-mor tinha dado, e tomavam por achaque, principalmente os Índios, não terem que comer, e que dentro do rio, com os combates que esperavam ter dos Tamoios, sofreriam melhor a fome; e começariam a roçar e cercar o lugar onde estava assentado que se havia de fundar a povoação.

Houve muito trabalho em os aquietar (9), porque em verdade o porto em que estávamos era mui perigoso, os navios não tinham breu, e faziam tanta água que era necessário grande parte do dia dar à bomba; os Índios não tinham que comer; os Portugueses não tinham para lho dar; porque havia quase um mês que com os partidos todos andavam fracos, e muitos doentes; finalmente determinaram os Índios de não esperar mais que um dia, e se a capitânia não chegasse, ou se meterem dentro do rio, ou se irem para suas terras, o que fora causa de grande desconsolação. Neste trabalho acudiu a Divina Providência, que logo aquele mesmo dia vimos três navios, que iam de cá da Baía com socorro, de mantimento, que era o de que a armada tinha maior necessidade; e ao seguinte (10), chegou a capitânia e outro navio, e assim todos juntos, em uma mesma maré, com grande alegria entramos pela boca do Rio de Janeiro, começando já os homens de ter maior fé e confiança em Deus, que em tal tempo socorrera as suas necessidades.

Logo ao seguinte dia, que foi o último de Fevereiro, ou primeiro de Março, começaram a roçar em terra com grande fervor e cortar madeira para a cerca (11), sem querer saber dos Tamoios nem dos Franceses, mas como quem entrava em sua terra, se foi logo o capitão-mor a dormir em terra, e dando ânimo aos outros para fazer o mesmo, ocupando-se cada um em fazer o que lhe era ordenado por ele, a saber: cortar madeira, e acarretá-la aos ombros, terra, pedra, e outras cousas necessárias para a cerca, sem haver nenhum que a isso repugnasse; desde o capitão-mor até o mais pequeno todos andavam e se ocupavam em semelhantes trabalhos; e porque naquele lugar não havia mais que uma légua de ruim água, e esta era pouca, o dia que entramos choveu tanto que se encheu, e rebentaram fontes em algumas partes, de que bebeu todo o exercito em abundância, e durou até que se achou água boa num poço, que logo se fez ; e como esta esteve em termos de se poder beber, secou-se de todo a lagoa, e além disto se achou uma fontezinha num penedo d'água muito boa, com que todos se alegraram muito, e se vão firmando mais na vontade que traziam de levar aquela obra ao cabo, vendo-se tão particularmente favorecidos da Divina Providencia.

Os Tamoios começaram logo a fazer ciladas por terra e por mar; mas os nossos não curavam senão de cercar-se e fortalecer-se, parecendo-lhes que não faziam pouco em defender dentro da cerca; mas Nosso Senhor, não querendo que se contentassem com isso, permitiu que aos 6 de Março viessem quatro canoas dos Tamoios, e fazendo uma cilada junto da cerca tomassem um Índio, que se desmandou, e indo já muito longe com sua presa deitaram os nossos as suas canoas ao mar, perseguiram os inimigos, e os fizeram saltar em terra e fugir pelos matos, deixando as canoas, arcos, flechas, espadas, e quanto nelas tinham, e o Índio, que escassamente tiveram tempo para os matar; os nossos os perseguiram pelo mato um bom pedaço, e não os podendo alcançar se tornaram trazendo-lhes as canoas e suas armas, que haviam deixado, e que foi um grande triunfo para os nossos cobrarem ânimo, e os tamoios enfraquecerem e temerem; assim daí por diante não ousavam aparecer senão de longe, e muitas canoas juntas.

Mapa de Luiz Teixeira de cerca de 1574 que permitiu que se determinasse o lugar exato onde a cidade foi fundada, antes objeto de polêmica. Observe que a Cidade Velha situa-se exatamente entre os morros Pao de Sucar e Cara de Cam! Fonte: Maurício de Almeida Abreu, Geografia Histórica do Rio de Janeiro, livro fundamental para quem quer se aprofundar nos estudos cariocas.

A 10 de Março vimos uma nau francesa, que estava légua e meia da povoação dentro do rio; e ao outro dia (12) foi o capitão-mor sobre ela com quatro navios, deixando na cerca a gente que parecia necessária, que ainda não era acabada; e sendo já junto dela, e começando a atirar de sua parte e doutra, os Tamoios, que aquela cilada tinham assim ordenado, saíram detrás de uma ponta em quarenta e oito canoas cheias de gente, e arremeteram com a cerca com tão grande ímpeto, e não havendo nela baluarte nem casa alguma feita em que se pudesse a gente recolher. Ajudou-nos Nosso Senhor, de maneira que andando no meio do terreiro descobertos, e chovendo flechas sobre eles, não os feriram, antes mataram alguns dos inimigos, e feriram muitos; e não contentes com isso arremeteram com eles fora da cerca, e os fizeram fugir e embarcar em suas canoas bem desbaratados. E esta vitória, a que se houve da nau francesa, a qual se entregou sem guerra aos nossos, e foi desta maneira que vendo vir o capitão-mor as quarenta e oito canoas sobre a cerca, meteu-se em um navio de remos por lhes ir acudir, deixando mandado aos outros capitães dos outros navios que ficassem em guarda da nau até pela manhã, que tornasse, ou se lhe mandasse recado; esta noite houveram falas dos Franceses, e falando-lhes um seu parente, que estava num dos navios, e dizendo-lhes que cedessem sem guerra, que o fariam de misericórdia com eles, mostraram folgar muito, e disseram que eram uns pobres mercadores que vinham ganhar sua vida, e que estavam já de caminho, levavam alguns Franceses dos que estavam em terra para França; que deixando-os ir se fiariam deles os outros que ficavam em terra. E porque eles tinham dado uma regueira em terra, e tinham consigo trinta canoas de Tamoios para despejar a nau, se se vissem em pressa, e queimá-la com dois barris de pólvora que tinham desfundados no convés com seus morrões, e eles acolheram-se à terra; porque não fosse o derradeiro erro pior que o primeiro do ano passado, que se fez em tomar outra nau, e deixar mais Franceses em terra; pareceu bem aos capitães, porque havia perigo na tardança de mandar recado ao capitão-mor, dar-lhes segurança, e prometer-lhes que eles alcançariam do capitão-mor que lho confirmasse e houvesse por bem, e com isto se entregaram e se vieram, porém ficando os Tamoios espantados de saber como se fiavam dos Portugueses; mas os Franceses, que estavam já na nau, e se iam para a França com os seus, temendo que lhes não cumprissem o que prometiam, vendo chegar os nossos navios a ela, lançaram-se ao mar, e a nado: fugiram à terra, à vista dos nossos sem se seguir trás deles. O capitão-mor e todos tiveram isto por grande mercê do Senhor, por ser este grande caminho para se desarreigarem do Rio de Janeiro os Luteranos que nele ficam, que serão até trinta homens, repartidos em diversas aldeias, e todos homens baixos, que vivem com os Índios selvagens, e determinou de cumprir o que seus capitães tinham prometido, ainda que teve algumas contradições de homens, que mais olham seu próprio interesse que o bem comum; mas sendo a maior parte de parecer que os devia deixar ir em paz, e que daquela maneira se fazia maior serviço a Deus e a Sua Alteza, e era caminho para mais facilmente se povoar e sustentar o Rio de Janeiro, lhes deu licença que se fossem, tomando-lhes a pólvora e a artilharia que era necessária para a cerca, deixando eles escrito aos seus que se fiassem de nós, e se saíssem dentre os selvagens, e se lançassem conosco, contando-lhes o bom tratamento que dos nossos haviam recebido; estes desta nau eram católicos, segundo as mostras que traziam, a saber: horas de Nossa Senhora, sinais, contas, e cruzes. Pelo que é de crer que lhes fez o Senhor esta misericórdia, porque não ficassem em terra, e se viessem com os outros, e aos nossos dessem grandíssima opressão favorecendo os Tamoios: determinava o capitão-mor à minha partida de lá, que foi o derradeiro de Março, a falar com os Franceses, levando-lhes um seguro real de Sua Alteza, e a carta de seus parentes para poder apartá-los dentre os Tamoios para que esses não sujeitem os Índios e em pouca força na costa do Brasil, se não vem socorro de Sua Altesa, pelo qual todos estão esperando.

Antes que a nau francesa se partisse, fizeram os Tamoios outra cilada de vinte e sete canoas (13), aos quais ela tirou muitos e bons tiros, o que também será a ajuda para eles lhes darem' pouco credito e amor, e facilmente fazerem pazes com os Portugueses, se forem deste Reino favorecidos, e assim ficar são o Rio; e estas traziam nove ou dez e meteram esses nossos mão com tanto pulso que foi flechada a gente de seis aldeias que se fez em terra para os defender, e alguns dos nossos saíram após eles, e houve uma brava peleja, em que foram feridos dez ou doze dos nossos, e alguns de flechadas mui perigosas, as quais pela misericórdia de Deus facilmente sararam; mas dos contrários foram muitos os feridos, os quais os nossos viam levar a rasto pela praia, e meter nas canoas, e assim os foram perseguindo por mar e por terra, quase até meio caminho de suas aldeias, e tomaram-lhes uma canoa, e tornaram-se com grande vitória: gloria seja ao Senhor!

Ao derradeiro dia de Março parti do Rio de Janeiro para esta cidade, por mando da santa obediência (14), com um homem tomado da Capitania de Ilhéus, chamado João D’Andrade, o qual havia sido chamado de São Vicente pelo capitão-mor a buscar mantimentos a estas capitanias, e por sua boa indústria e diligência chegou ele, como acima digo, no mesmo dia e maré que a armada chegou de São Vicente, e de caminho levou cinco homens brancos, que resgatou dentre os Tamoios aquém do Cabo-Frio, os quais se haviam perdido em um navio que antes de João D’Andrade fora mandado a buscar mantimentos; e depois de estar no Rio todo este tempo, e achando-se nos combates que tenho referido, o tornou o capitão-mor, por se fiar de sua diligência, a mandar a negociar mais mantimento, porque a falta dele é que lhes faz uma maior guerra.

Já á minha partida tinham feito muitas roças em derredor da cerca, plantados alguns legumes e inhames, e determinavam de ir a algumas roças dos Tamoios a buscar alguma mandioca para comer, e a rama dela para plantar; tinham já feito um baluarte mui forte de taipa de pilão com muita artilharia dentro, com quatro ou cinco guaritas de madeira e taipa de mão, todas cobertas de telha que trouxe de São Vicente, e faziam-se outras e outros baluartes, e os Índios e Mamalucos faziam já suas casas de madeira e barro, cobertas com umas palmas feitas e cavadas como calhas e telhas, que é grande defensão contra o fogo. Os Tamoios andavam se ajuntando para dar grande combate na cerca (15); já havia dentro do Rio oitenta canoas, e parece-me que se ajuntariam perto de duzentas, porque de toda a terra haviam de concorrer à ilha, e dizia-se que fariam grandes mantas de madeira para se defenderem da artilharia e balroarem [=abalroarem] a cerca; mas os nossos tinham já grande desejo de chegar àquela hora, porque desejavam e esperavam fazer grandes cousas pela honra de Deus e do seu rei, e lançar daquela terra os Calvinos, e abrir alguma porta para a palavra de Deus entrar os Tamoios: todos viviam com muita paz e concórdia; ficava com eles o Padre Gonçalo d'Oliveira, que lhes dizia cada dia missa, e confessava e comungava a muitos para a glória do Senhor.

O maior inconveniente que ali havia, ultra da fome, é que estão lá muitos homens de todas as capitanias, os quais passa de ano que lá andam, e desejam ir-se para suas casas (como é razão): se os não deixam ir perdem-se suas fazendas, e se os deixam ir fica a povoação desamparada, e com grande perigo de serem comidos os que lá ficarem, de maneira que por todas as partes há grandes perigos e trabalhos, e se não fosse o capitão-mor amigo de Deus e afável, que nunca descansa de noite e de dia, acudindo a uns e a outros sendo o primeiro nos trabalhos, e terem todos grande e certa confiança que Sua Alteza proverá, tanto que souber estar já feito pé no Rio de Janeiro, que tão temeroso era, ainda lá nessas partes tão remotas; e que se agora se não leva ao cabo esta obra, e se abre mão dela, tarde ou nunca se tornará a cometer; já creio que houveram rebentados muitos e desamparados quase todos, máxime [=principalmente] tendo novas que deram aqueles homens que saíram do cativeiro dentro os Tamoios, os quais souberam de uma nau francesa, que ali estava, que estava o sobrinho de Villegaignon (16), capitão que foi da antiga fortaleza, para vir ao Rio de Janeiro e São Vicente com uma grossa armada; a cerca que tem feita não é mais que um pé a tomar posse da terra, sem se poder dilatar nem sair dela sem socorro de Sua Alteza, a quem Vossa Reverendíssima deve lembrar e incitar que logo proveja, porque ainda que é cousa pequena a que se tem feito, contudo é maior, e basta-lhe chamar-se cidade de São Sebastião para ser favorecida do Senhor, e merecimentos do glorioso mártir; e acrescentada de Sua Alteza que lhe tem tanta devoção e obrigação (17). Esta é a breve informação do Rio de Janeiro; resta pedir a Vossa Reverendíssima nos encomende e faça encomendar muito a Nosso Senhor, e tenha particular memória dos que residem e ao diante residirão naquela nova povoação, oferecidos a tantos perigos, da qual se espera haver de nascer muito fruto para glória do Senhor e salvação das almas.

Desta cidade do Salvador da Baía de Todos os Santos, aos 9 de Julho de 1565,

Minimus Societatis Jesu.


NOTAS

(1) Deve ser erro de cópia. A armada de Estacio de Sá chegou à barra do Rio de Janeiro em fevereiro de 1564, havendo partido da Baía em princípios desse ano. Como porém aportou no Espírito Santo, onde recebeu numeroso socorro e portanto se demorou, é possível que a partida da Baía se desse em fins de 1563, sendo essa a data escrita por Anchieta. A chegada ao Rio em fevereiro de 1564 é confirmada por B. da Silva Lisboa (Anais, cap. 8), que precisa o dia: 6.
(2) A armada partiu do Rio de Janeiro para São Vicente depois da Páscoa (2 de abril) de 1564.
S. de Vase. (o. c , 1. 3, n. 63-4).
(3) Compunha-se a armada, segundo S. de Vasc., de "seis navios de guerra, alguns barcos ligeiros e nove canoas de mestiços e Índios".
(4) Segundo presume Capistrano, a partida de São Sebastião se deu a 1 de fevereiro e a chegada á Ilha Grande a 4 ou 5.
(5) Segundo Capistrano, a 10 de fevereiro.
(6) A partida da Ilha Grande foi a 15 de fevereiro segundo Capistrano.
(7) Passou-se isso a 16 de fevereiro segundo Capistrano.
(8) Os navios juntaram-se ás canoas nas ilhas fora da baía a 21 de fevereiro, segundo supõe Capistrano.
(9) Foi então que se deu o "caso digno de memória" de que fala S. de Vasconcelos. Para conter os Índios "lhes empenhou Joseph [José de Anchieta] sua palavra", afirmando "que antes que o sol chegasse a tal parte do céu, mostrando-lha, chegariam sem dúvida os mantimentos, e após eles pouco depois a nau capitânia", o que de fato se deu.
(10) A 28 de fevereiro.
(11) Os portugueses se fortificaram "com trincheiras e fossos, no lugar onde depois chamaram Vila Velha, junto a um penedo altíssimo, que pela forma se diz Pão de Açúcar, e outra penedia, que por outro lado cercava, com que ficavam em parte defendidos" (S. de Vasc.). Quase textualmente é também o que diz frei Bernardo da Cruz, na Crônica de D. Sebastião, p. 351, escrita em 1586 mas só publicada em 1837.
(12) A tomada da nau foi a 13 de março, segundo Varnhagen, ou nesse ou no dia anterior, conforme Capistrano.
(13) Foi esta cilada a 10 de março, segundo S. de Vasconcelos, combatendo os portugueses em "dez canoas com duas lanchas de remo".
(14) Anchieta seguiu para a Baía a fim de ser aí ordenado pelo bispo d. Pedro Leitão. Ao passar pelo Espírito Santo, visitou a casa da Companhia e as aldeias indígenas, a mandado de Nobrega. Este partiu logo de São Vicente para o Rio de Janeiro com alguns companheiros. Na Baía Anchieta fez ver a Mem de Sá a necessidade de enviar nova armada ao Rio de Janeiro para consolidar a conquista, armada que partiu da cidade do Salvador em novembro de 1566, nela embarcando o canarino em companhia do governador, provincial Luiz da Grã, visitador Inácio de Azevedo e bispo d. Pedro Leitão. A chegada ao Rio foi a 18 de janeiro de 1567.
(15) O ataque, de que Anchieta só chegou a presenciar os preparativos, se deu nos primeiros dias de junho, feito por 3 naus francesas e 130 canoas tamoias.
(16) Bois-le-Comte se achava na Europa por esse tempo.
(17) D. Sebastião, que reinaria ainda durante treze anos.

3 comentários:

Anônimo disse...

Ivo:
Importantíssimo para os cariocas e os demais que amam (ou deviam amar!) esta terra!
Seu blog fará parte da história, como os conistas d'antanho a quem tanto devemos, pois por ofício ou impulso registravam o que viam e o que os empolgava.
Parabéns,
HELIO BRASIL

joaodoapex disse...

👏👏👏👏👏👏👏

Tenda da Memória Itaboraí disse...

Muito interessante toda essa prospecção documental. Seria um convite à prospecção arqueológica também, uma vez que seria possível constatar a relação do oratório com a atalaia pré-existente. Parabéns pelo excelente trabalho.