13.5.15

ORATÓRIO DO MORRO DA PROVIDÊNCIA

O então conhecido como "Santuário do Cristo Redentor" em fotografia do início do século XX de Augusto Malta. Foto obtida na Biblioteca Nacional Digital

Quando fotografado por Augusto Malta no início do século XX, o “Oratório do Morro da Providência” — situado na ponta noroeste do morro, tombado pela Prefeitura em 1986 e também conhecido por “Capela das Almas”  denominava-se Santuário do Cristo Redentor e em seu frontispício lia-se A JESUS CHRISTO (a inscrição e a cruz superior se perderam). Depois da construção da estátua do Cristo no alto do Corvovado, o santuário ao pé da estátua recebeu esse mesmo nome. Uma placa no interior do oratório sugere que tenha sido construído em 1900-1901 (ver foto). O Oratório teria sido supostamente erigido pelos soldados sobreviventes de Canudos em homenagem aos colegas tombados. Mas recentemente o leitor deste blog Anderson Santos me chamou a atenção para uma foto da Estação Marítima da Gamboa, que consta de um livro de 1881, onde já aparece o Oratório (ver adiante). A foto derruba a lenda urbana da construção do oratório pelos soldados de Canudos. 

Pergunta Anderson: "Diferentemente do que narra a historiografia oficial, não seria o oratório uma construção anterior à chegada dos ex-combatentes de Canudos? Será que a versão sobre ser um monumento às vítimas da guerra não foi construída a partir de uma homenagem que possam ter feito utilizando um monumento já existente?" Outra lenda urbana, de que o morro foi inicialmente ocupado por esses soldados, também cai por terra quando vemos em jornais anteriores a Canudos (ver adiante) menções a moradores do Morro da Providência (que os soldados depois denominariam Morro da Favela em alusão a um morro existente em Canudos, como vemos em Os Sertões, e que mais adiante retomaria o nome original).

O agora conhecido como "Oratório do Morro da Providência" com barracos em torno.

O Oratório de perto

Altar dentro do Oratório

"Ao regressarem das expedições contra Antônio Conselheiro, no fim do século passado [XIX], receberam os soldados do Coronel Moreira Cesar e do General Artur Oscar, alguns recursos para instalar-se em casa própria no Rio, e foi ali, nas abas da Providência, que eles o fizeram, e logo disseram que ela era a sua “favela” carioca, numa alusão ao morro do sertão baiano de onde a artilharia legalista bombardeava o reduto daqueles jagunços místicos... E o nome, popularizando-se, ficou sendo também dos nossos demais conglomerados humanos semelhantes para, afinal, figurar depois no dicionário como um novo brasileirismo, bem típico dos tempos modernos, nas nossas atravancadas metrópoles." (Brasil Gerson, História das ruas do Rio, quinta edição remodelada e definitiva, p. 183)

Placa no interior sugere que o Oratório tenha sido construído em 1900-01, mas uma foto de 1888 parece desmentir essa crença

A porta

Dona Chiquinha (Francisca), a guardiã do Oratório (ver vídeo ao final

"Todas traçam, afinal, elíptica curva fechada ao sul por um morro, o da Favela, em torno de larga planura ondeante onde se erigia o arraial de Canudos[.]"

"Galgava o topo da Favela. Volvia em volta o olhar, para abranger de um lance o conjunto da terra."

"Do topo da Favela, se a prumo dardejava o Sol e a atmosfera estagnada imobilizava a natureza em torno, atentando-se para os descampados, ao longe, não se distinguia o solo."

"As favelas, anônimas ainda na ciência — ignoradas dos sábios, conhecidas demais pelos tabaréus — talvez um futuro gênero cauterium das leguminosas, têm, nas folhas de células alongadas em vilosidades, notáveis aprestos de condensação, absorção e defesa."

Euclides da Cunha, Os Sertões, Editora Nova Cultural, págs. 23-4, 31, 37

Frente do Oratório. A inscrição "A JESUS CHRISTO" e a cruz no topo se perderam. 

"BAILE A’ NAVALHA

Francisco Miguel do Nascimento dansava hontem alegremente num baile, no morro da Providencia.

Como nessas occasiões o sangue se esquenta e “o sangue é que faz mal ao corpo” o cunhado de Nascimento, de nome Josué José Gomes agrediu-o, dando-lhe tres navalhadas.

E o pobre homem passou do baile para a Misericordia."

Notícia publicada na primeira página do Jornal do Brasil de terça-feira, 5 de setembro de 1873 e transcrita na ortografia da época. O jornal foi acessado na Hemeroteca Digital. Esta e outras notícias da imprensa da mesma época mostram que o morro já era habitado (ao menos esparsamente) antes da vinda dos soldados de Canudos.

Também em O Paiz encontramos indícios de ocupação pré-Canudos, por exemplo, na edição de 12 de setembro de 1885, na seção ANNUNCIOS, consta: "ALUGA-SE a casa do Morro da Providencia n. 23: está limpa; para tratar na rua do General Camara n. 365." E na pág. 2 da edição de 22 de novembro de 1885 lemos: "Juvencia Maria Rosa da Conceição, moradora em um casebre no morro da Providencia, estando ante-ontem, ás 5 horas da tarde, junto ao fogão, fazendo o jantar, foi presa pelas chammas, resultando ficar bastante queimada." E na edição de 22 de abril de 1886 de O Paiz, lemos:

"O governo imperial, que tão solicito se tem mostrado em favorecer a construcção de casas e alojamentos para as classes operarias, concedendo ás emprezas que a isso se propõem os favores marcados em lei, não póde deixar de attender á reclamação que lhe fazem por este meio os moradores do morro da Providencia.
Reside neste logar grande numero de operarios e pessoas que trabalham por soldadas, não só pelo menor aluguel que ali pagam, como pela elevação do solo, que lhes dá presumpção de salubridade, mais do que lhes promettem os bairros baixos da cidade. Essas condições, infelizmente, são destruidas pela má distribuição da agua."

Oratório visto da Gamboa

Esta foto da Estação Marítima, de 1881, derruba a lenda urbana de que o Oratório foi construído pelos soldados retornados de Canudos. Encontra-se na pág. 30 de Vistas Photographicas da Estrada de Ferro D. Pedro 2 que você pode consultar clicando aqui

"Minha suspeita é a de que, ao ocuparem o morro na virada dos séculos XIX/XX, as famílias dos ex-combatentes se "apropriaram" do oratório já existente, transformando-o em capelinha  momento em que podem ter acrescido a cruz. O motivo de esta não ser um elemento original da construção pode, inclusive, explicar porque não durou muito, desgrudando-se do topo.

Outro fator que corrobora essa hipótese é considerar que os ocupantes do morro não tinham técnica nem condições financeiras para erigir uma construção bem definida como o oratório, ainda que pequena e simples. O próprio texto do guia oficial que você cita [Guia do Patrimônio Cultural Carioca] diz tratar-se de um monumento em estilo similar às "torres sineiras das edificações religiosas jesuíticas".

Se você comparar a foto que enviei [foto acima] a qualquer outra atual foto anterior à acima], olhando o morro a partir da Gamboa, verá que as duas construções estão no mesmo ponto. Mais: se aproximar a foto de 1881, perceberá que a base daquela construção é a mesma (de pedra) que existe sob o oratório  e que você captou tão bem nas suas fotos (http://www.panoramio.com/photo/69609845).

São esses os pontos que fazem crer que o oratório não foi erguido pelos ocupantes do morro, mas adaptado (e, ao conferirem a ele simbologia religiosa com as lembranças de Canudos, atribuíram-lhe a relevância que passou a ter)."

Anderson Santos em e-mail ao editor deste blog

7 comentários:

Raul Félix de Souza disse...

Excelente artigo. Deixa-nos o desafio de descobrir qual a real história do oratório. Parabéns. (publicado no Facebook e inserido aqui pelo editor do blog)

Teócrito Abritta disse...

Parabéns pela divulgação deste trabalho. Eu tenho também descoberto fatos incríveis através de fotografias históricas. Sempre que viajo pelo interior do Brasil eu levo equipamentos para copiar fotos antigas e mesa de luz pera fotografar velhos negativos. (publicado no Facebook e inserido aqui pelo editor do blog)

Garcia disse...

Excelente observação!!! Como já mencionou no outro comentário o Sr. Raul, deixa-nos com o desafio da pesquisa e da descoberta da verdadeira história. Parabéns!!!
<10/05/2015> Mª da Conceição o. M. Garcia

Charles Lewis Stone disse...

Passo sempre de trem próximo ao Morro da Providência e vejo o oratório lá no alto do morro.

Unknown disse...

À quem diga que antes de ser oratório era o redutos dos escravos. Informação ainda não confirmada, pois também existe argumento de que quando o navio dos holandeses encalhou ou atracou a uma pedra os escravos fugiram e se refugiavam no morro. Obs: história não confirmada.

Rodrigues disse...

À quem diga que antes de ser oratório era o redutos dos escravos. Informação ainda não confirmada, pois também existe argumento de que quando o navio dos holandeses encalhou ou atracou a uma pedra os escravos fugiram e se refugiavam no morro. Obs: história não confirmada.

Antonio Natario disse...

Meus parabéns pelo Blog. Muito bom!
Queria deixar apenas uma observação, já que a qualidade, excelente, do Blog, a merece.
Vendo um documentário " Pequena África" (morro da Favela, hoje Providência), foi mostrada uma gravura retratando a paisagem do local, onde aparecia a igreja de N Sra. da Penha, e não existia ainda o Oratório, datada de 1835. Em seguida foi mostrada uma foto do local, datada de 1855, em que na paisagem, no local mais alto do morro,(não sendo o foco principal da foto), já aparecia o Oratório, definindo a sua construção, entre 1835 e 1855.
-Foi uma honra colaborar!

Antonio Natário Fernandes