13.2.18

CARNAVAIS DE OUTRORA, de MANUEL BANDEIRA (1938)

Carnaval de rua no início do séc. XX. Foto obtida na Biblioteca Nacional Digital.

Conheci ainda o carnaval do papel-picado, dos limões-de-cheiro e do Zé-Pereira. O carnaval do Recife, na Rua da União, entre 1892 e 1896. O Zé Pereira 

Bum! Bum! Bum!
Bum! Bum-bum-bum!
Zé-Pereira!

era o baixo-contínuo que alimentava, sustentava toda a dissonante polifonia carnavalesca. Em casa de meu avô, nas casas da vizinhança, muito antes dos dias gordos, compravam-se as grandes folhas de papel de seda, brancas, verdes, azuis, cor-de-rosa, e durante semanas as tesouras trabalhavam picando papel em minúsculos quadradinhos. Eu ainda não tinha dez anos, mas já achava insensato levar horas preparando um punhado de papel picado que se iria embora pelos ares num gesto de mão que durava um segundo. Assisti ao aparecimento dos primeiros confetti, que me deslumbraram, das primeiras bisnagas, que eram como as de pasta dental atuais, das primeiras serpentinas. Das fantasias, a que mais me impressionava eram os dominós negros, as que me pareciam mais estranhas, mais misteriosas, mais poéticas.

Em 96 vim para o Rio e conheci o carnaval carioca, tão diferente do de hoje. Impossível dizer dele o que mestre Machado de Assis disse do Natal. O centro da cidade não era então a avenida Rio Branco; era uma das ruas mais estreitas e mais curtas da cidade, e também a mais elegante – a Rua do Ouvidor. Imagine-se toda a população da cidade querendo brincar na Rua do Ouvidor! O momento capital do desfile das grandes sociedades era na Rua do Ouvidor. As mais belas senhoras da cidade estavam nas sacadas.

Depois adoeci e durante anos, muitos anos, não vi senão os carnavais das cidadezinhas do interior. No Rio abriu-se a Avenida. A Rua do Ouvidor foi perdendo o seu prestígio. Quando voltei a ver o carnaval carioca, já era ele como o descreve Mário de Andrade no seu grande poema, que é de 1923:

... sangue ardendo povo chiba frêmito e clangor
Risadas e danças
Batuques maxixes
Jeitos de micos piricicas
Ditos pesados, graça popular
Coros luzes serpentinas
Coriscos coros caras colos braços serpentinas serpentinas
Sambas bumbos guizos serpentinas serpentinas


Mário esqueceu-se do éter dos lança-perfumes. Cheirava-se éter à vontade. Havia bebedeiras de éter, sobretudo no bar e no hall do Palace Hotel, o que celebrei devidamente no meu “Rondó do Palace Hotel”:

Deus do céu! que alucinação!
Há uma criatura tão bonita,
Que até os olhos parecem nus:
Nossa Senhora da Prostituição!
– “Garçom, cinco Martinis! Os
Adolescentes cheiram éter
No hall do Palace.

Depois... Depois o carnaval carioca passou a ter fama internacional. Criou-se um Departamento de Turismo, que começou a fazer propaganda do nosso carnaval. Instituíram-se prêmios. Não sei por que, se por isto ou por aquilo, ou por coisa nenhuma, a festa entrou a murchar, e o certo é que o carnaval verdadeiro, o carnaval de rua só serve hoje para fazer cinema ou tentar uma Rita Hayworth a dar as caras por estas bandas. O carnaval visto por Mário de Andrade em 1923 não existe mais...

2 comentários:

Nireu Cavalcanti disse...

Oi, Ivo

Muito boa revelação dessa crônica-poema de Manuel Bandeira.

Boa contribuição à história do Carnaval.

Abraço, Nireu. (enviado por e-mail)

Anônimo disse...

Por favor, poderia fazer um post sobre os melhores livros que você já leu sobre a história do Rio? Acho que seria muito interessante