7.2.17

VIAJANTES ESTRANGEIROS NO RIO DE JANEIRO: RICHARD FLECKNOE


Richard Flecknoe foi um jesuíta homem de letras, sacerdote e aventureiro do Reino Unido nascido no início do século XVII. Seu nome se liga à história do Brasil por ter estado no Rio de Janeiro em 1648 e aqui permanecido vários meses, tendo sido o primeiro viajante de língua inglesa a escrever sobre o Rio de Janeiro e Brasil em um livro, intitulado A Relation of Ten Years Travells in Europe, Asia, Affrique, and America. All by way of Letters occasionally written to divers noble personages, from place to place; and continued to this present year, with divers other historical, moral, and poetical pieces of the same author. (Relação de dez anos de viagens na Europa, Ásia, África e América, tudo por meio de cartas ocasionalmente escritas, de lugar em lugar, a diversas personalidades fidalgas, e continuadas até o ano atual, com diversas outras peças históricas morais e poéticas do mesmo autor.) Morreu em 1678. Mais informações sobre Flecknoe no verbete da Wikipedia criado pelo editor deste blog.

Flecknoe chegou no Rio de Janeiro em 16 de janeiro de 1648, onde permaneceu um semestre, voltando à Europa em agosto daquele ano. De sua estadia brasileira resultaram apenas 24 páginas de seu livro, “contribuição assaz insignificante, mas pitoresca, para a bibliografia brasileira”, segundo Afonso de E. Taunay, que dedica um capítulo de seu livro Visitantes do Brasil colonial, de 1933, a Richard Flecknoe (que ele chama de "Ricardo Fleckno"). “O livrinho de viagens de Fleckno, impresso em 1655, é hoje uma das maiores raridades bibliográficas brasileiras. Em nosso país, ao que parece, dele só existe um exemplar. Pertence à Biblioteca do Itamaraty e fez parte da livraria do Barão do Rio Branco.” Os textos de Flecknoe abaixo, traduzidos por D. Anna Eulália Monteiro de Barros, então “distintíssima funcionária da Biblioteca do Ministério das Relações Exteriores”, foram obtidos na obra de Taunay, bem como diversas informações. Ela pode ser acessada na Brasiliana Eletrônica. A imagem das naus foi obtida na Biblioteca Nacional Digital.

DA NOSSA CHEGADA A SÃO SEBASTIÃO OU RIO DE JANEIRO, NO BRASIL

Uma vez ancorados, os nossos marujos pescaram a anzol uma espécie de peixe semelhante ao nosso peixe-cabra. Faltavam-lhe somente as orelhas. Tem os ventres brancos e xadrezados, inflando como bexigas, cheias de vento, ao serem lançadas ao convés. Asseguraram-nos os portugueses que eram francamente venenosos, estando o mar cheio de outros peixes tão venenosos que se tornam as águas insalubres, como eu próprio verifiquei banhando-me, pois das ondas saí tonto e maldisposto, ao passo que, em outros mares, sentia-me mais forte e vigoroso.

Neste entrementes, havendo o forte dado à cidade o sinal da nossa chegada, e os portugueses tendo-nos por amigos, foram-nos despachadas diversas embarcações e canoas a saudar-nos, com provisões frescas e as frutas do país.

O verão daqui é o nosso inverno de lá.

À tarde chegaram os pilotos a fim de conduzir-nos para dentro da baía; ancoramos então sob a leve brisa que toda a noite sopra do mar e toda a manhã da terra.

Entramos na baía por entre dois rochedos possantes, distantes um do outro de algumas milhas (um, pela sua forma, é denominado o Pão de Açúcar). Ao avançarmos, passando algumas milhas além do forte que defende a barra, deparou-se-nos a mais sedutora paisagem do mundo, o Lago do Rio, de umas vinte e tantas milhas de extensão, todo salpicado de ilhas verdejantes, algumas de uma milha, outras mais, outras menos, e a cidade ereta à esquerda, umas três milhas além do forte, num sítio onde a baía oferece segurança a muitos milhares de naus.

Ao desembarcar, encontrei cômodos para mim arrumados pelos padres da Companhia, com dois molatos (sic) ou mestiços de negros para servir-me, com a minha dieta preparada nas suas próprias cozinhas próximas à minha morada.

Tudo isto não sei se por ordem do Rei ou recomendação do Governador (que viera conosco) ou se graças à caridade dos bons padres; o certo é que fui tão extraordinariamente acomodado, como por dinheiro algum poderia pagá-lo, pois aqui não existem, como em nossa terra, hospedarias ou albergues. Os que frequentam estas paragens são os mercadores, hospedados pelos seus correspondentes ou marinheiros, que permanecem a bordo, homem algum havendo ainda empreendido tal travessia movido pela simples curiosidade.

DO BRASIL EM GERAL

O Brasil, confinado pelo oceano de um lado, e os rios das Amazonas e de Plato [da Prata] do outro, é um vasto continente, muito maior do que a Europa. Tem clima quente e úmido, devido às chuvas abundantes e contínuas; no entanto, à exceção dos dois rios que o limitam, não existem outros caudais no país que possam produzir umidade por evaporação. Apenas quatro ou cinco portos, entre os quais aquele em que fundeamos, lhe dão acesso. O resto do litoral torna-se impraticável pelos rochedos e a floresta densa que se prolonga por centenas de milhas. Parece esta terra muito mais destinada à habitação futura do homem do que já ter sido habitada anteriormente.

DA CIDADE

Está a cidade de São Sebastião situada numa planície de algumas milhas de comprimento, limitada nas duas extremidades por montanhas; na parte interna fronteira ao lago, habitam e dominam os frades beneditinos, e na parte externa, junto ao mar, os padres da Companhia.

A cidade antiga erguia-se sobre o morro (como testemunham as ruínas das casas e a igreja grande), até que para a comodidade do tráfico e o transporte das mercadorias foi aos poucos baixando para a planície, são os edifícios pouco elevados e as ruas (três ou quatro apenas) todas orientadas para o mar. A umas duas milhas da cidade, estende-se grande planície, cuja vegetação ora é rasteira, ora florestal e ora ainda campestre. Passada tal planura descobre-se uma região tão absolutamente diversa das nossas que nem uma só árvore, ou planta, pássaro ou qualquer outro animal apresenta semelhança com os da Europa. Por este motivo falarei um pouco de cada uma destas particularidades.

DA TERRA

A terra quase toda coberta de matas e com o solo virgem desde a criação do mundo produz, sem cultura, árvores entre as quais algumas há tão grandes que apresentam sete ou oito braças de diâmetro e mais de setenta ou oitenta de altura. Com elas fazem os brasileiros canoas e barcos, de duas ou três toneladas, escavados num só tronco.

Quanto ao pau-brasil, a madeira por excelência, do qual a terra houve o nome, é ele um arbusto em comparação a outras árvores. Muito se assemelha ao nosso pilriteiro maior. É o país naturalmente quente e úmido, devido à frequência das chuvas, razão pela qual em lugares onde a água fica depositada se formam brejos, alguns de mais de vinte ou trinta milhas, espaços estes que parecem abandonados pelas árvores, por não oferecerem bastante resistência ao peso das suas estruturas possantes.

DOS SELVAGENS OU INDÍGENAS DO BRASIL

Quais os direitos dos indígenas ou habitantes? Serão, como quer João Baptista de Porta: a saber que cada nação tem os traços característicos de certo animal?

Assim, estes brasileiros são certamente como os asnos, dolentes e fleumáticos (in servitutem nati), e só aproveitáveis para o labor e para a escravidão, razão pela qual a Natureza não dotou este país de nenhum outro animal de carga senão eles.

São, todavia, mais corpulentos do que robustos, gente de tronco grosso, pernas curtas, olhos pequenos, pele morena e doentia, feições irregulares, cabelos negros e oleosos, muito lisos e caindo sem graça pelas orelhas abaixo.
Homens e mulheres andam geralmente nus, usando apenas um trapo que lhes esconde as partes genitais, que ninguém desejaria ver, aliás, pois é o resto bastante repugnante.

São todos cristãos, e vem-me então à mente a frase Homines et jumenta salvabis Domine, que o Senhor salve a todos, homens e animais, pois é sem dúvida aplicada a estes que não possuem inteligência bastante para cultivar vícios engenhosos nem temperança bastante para evitar os mais brutais.

Diz isto respeito aos que vivem entre os portugueses; quanto aos demais, imagino que seja a diferença a mesma do que entre os animais selvagens e os domésticos.

Em relação à sua ferocidade não acredito tudo o que dizem, mas sim o que é alegado da sua selvageria, como o de se devorarem uns aos outros ou não possuírem em seu vocabulário palavra alguma que traduza a Deus, Rei e Lei.

Se fossem tão ferozes quanto contam, não teriam cedido tão mansamente sua terra a Portugal, nem permitido que este a desfrute tão tranquilamente. Mas, voltando aos meus selvagens domesticados, aluguei quatro deles para uma viagem ao interior.

Enquanto dois me carregavam na Hamatta, os outros corriam-me ao lado. A Hamatta é uma espécie de rede de algodão do tamanho de um lençol, franzida nas duas pontas e amarrada por uma corda forte a uma grande vara que os homens levam ao ombro, e na qual podeis sentar-vos ou deitar-vos em qualquer posição com uma almofada ou um travesseiro, mais facilmente do que numa liteira.

Os portugueses fazem-se acompanhar por um negro que leva um guarda-sol aberto para abrigá-los, enquanto as mulheres ficam protegidas dos olhares do vulgo por uma rica colcha que recobre a Hamatta e acompanhadas por duas aias negras, para ajudá-las a subir ou dar- lhes as "chopinas" (sic) quando se apeiam da Hamatta.

Numa dessas fui transportado mais ou menos umas vinte milhas, conforme o permitia o caminho ora plano, ora montanhoso, tendo convencionado com os meus selvagens pequena remuneração, além da comida, que consistia num punhado de farina (sic) de pau (ou pão fabricado com a raiz de certa árvore, como já expliquei), e quanto a mim, não tendo além da farinha outra provisão se não peixe que os homens pescavam lançando os anzóis em cada riacho que atravessamos e trazendo-os em profusão suficiente para vinte homens.

Fazíamos então uma fogueira para cozinhá-los e depois os comíamos com o caldo dos limões agrestes de que o mato está cheio. Isto e água foi toda a nossa alimentação; à noite suspendíamos as nossas Hamattas de duas árvores e dormíamos até ao amanhecer.

Ao longo da costa, nas estradas abertas pelos portugueses para o tráfego do interior, encontram-se pelo menos de dois em dois dias Ross (sic), roças ou propriedades campestres dos portugueses, nas quais, a troco de algum dinheiro, se obtém hospedagem, a que acompanha todo o gênero de frutas e aves.

Um dos prazeres que tive ao atravessar as matas foi o de se me depararem árvores cobertas de macacos e papagaios (como se estes fossem os seus únicos frutos) caçando-se uns aos outros com um alarido ensurdecedor, ao ponto de não ouvirmos as nossas próprias vozes, e cousa digna de verdes eram as macacas com os filhotes dependurados ao pescoço ou montados às costas, modo pelo qual os transportam até se tornarem grandes.

Para apanhá-los os indígenas frechavam os adultos (são os melhores atiradores do mundo, dada a inferioridade dos seus arcos e flechas) e, quando as macacas caíam, os filhotes, pela falta de hábito de usarem as pernas, nem tentavam escapar.

DOS RECURSOS DO PAÍS

Deixando a viagem, voltarei a falar das riquezas do país. A principal é o açúcar e creio mesmo que, este lembrado, acham-se todas as outras mencionadas. Não que lhe faltem outras riquezas, mas esta supre a todas, e um país que possui com abundância um gênero de que todos os outros necessitam de mais nada precisa. Não produz trigo, nem vinho, nem sal, o que atribuo não somente à diferença de clima, mas a medidas políticas, mantendo-o Portugal em sua dependência que assim lhe vende estas mercadorias indispensáveis e impede-lhe a revolta. É o açúcar fabricado do modo seguinte: os canaviais crescem tão alto quanto o trigo, e não exigem, como cultura, senão serem cortados, de dois em dois anos, pela raiz, para que o broto volte com pujança.

A folhagem é de um verde suave e, de longe, lembra a plantação um trigal. A colheita realiza-se em junho, sendo as canas amarradas em molhos, de alguns pés de comprimento, e transportadas para o engenho, tocado por juntas de bois ou por água.

Compõem-se eles de dois cilindros como as nossas mós de moinho, chapeados de ferro, e cujo movimento rotativo, aproximando o mais possível os dois cilindros, esmaga as canas, cuspidas fora como bagaço. A garapa escorre por calhas aos caldeirões onde ferve, conservando sempre a cor de âmbar, até que, transvasada para tinas de esfriar, lhe misturem ingredientes que a tornam branca.

Nestes engenhos, durante a estação da colheita, trabalha-se noite e dia, sendo bastante perigoso o ofício de colocar as canas no moinho; se por negligência um dedo é apanhado pela engrenagem todo o corpo é carregado, razão pela qual os negros usam sempre um machado, prestes a sacrificarem uma mão ou um braço se tal desgraça lhes suceder.

Um comentário:

Robson Vieira disse...

sempre passo por aqui dar uma olhadinha. seu blog foi me muito útil no planejamento da minha mais recente visita ao Rio. Parabéns!