24.4.16

JOAQUIM MANUEL DE MACEDO E "A MORENINHA" (COM FOTOS DE PAQUETÁ)

Artigo A MORENINHA, por ESCRAGNOLLE DORIA, publicado na REVISTA DA SEMANA de 9 de junho de 1928, acessada na HEMEROTECA DIGITAL. Fotos de Paquetá do editor do blog.

Chegada em Paquetá

Louras e morenas não se podem fazer amizades. Representam tipos de beleza opostos e gênios insociáveis. Umas e outras, na sua espécie de formosura, no seu gênero de perdição, se julgam supranumeradas [=privilegiadas] no amor.

Louras e morenas são de louvaminhas [=lisonjas] e, para atendê-las no mister, não faltam homens, e ainda menos poetas.

Chalé Rosa, "Casa da Moreninha", 1812

Por eles têm sido louras e morenas decantadas, a par da lua, nem loura nem morena, sempre branca nas diversas e sempiternas fases, revezada em crescente, em redondeza, em fio, em nova.

Não figuram somente poetas nos partidos que tornam altos os méritos de louras e morenas. Neles também se alistam os romancistas quando dão tipos a heroínas.

Praia das Gaivotas

O tipo moreno é o mais frequente na mulher brasileira, que o torna, não raro, admirável e abismal.

A morena encontrou um romancista que não se contentou em descrevê-la, deu-lhe ao nome as honras de título de romance.

Tal romancista foi Joaquim Manoel de Macedo. Adornou o romance de estreia com o título de “A Moreninha”, diminutivo faceiro e caricioso nosso, quase dengue, em louvor da morena, pondo-a entre risos de criança e lágrimas de mulher. Quando diz esta simples palavra brasileira: a moreninha! Quando...

Bicicletas e a barca ao fundo

Macedo escreveu muito, foi um infatigável, guiando talento por diversas sendas de trabalho. Mas a cabo de vida longa, de afanar [=trabalhar ativamente], era para os da sua geração o Macedinho de “A Moreninha”.

Gravou nome na literatura e no teatro e na pedagogia nacional, leu no Colégio de Pedro II, orou na Câmara dos Deputados, não quis ser ministro, quase foi senador do Império pela província natal. Tudo isso não o impedia de ser para muitos, sempre, o Macedinho de “A Moreninha”.

Relógio da Mesbla e a barca ao fundo

Natural de Itaboraí, reclamando-se [=reivindicando-se] do berço, até na face dos livros, Macedo veio estudar medicina no Rio de Janeiro, de Faculdade médica então no antigo Colégio dos Jesuítas no Castelo.

Seguiu curso de estudos com devida regularidade, doutorando em 1844, às voltas com matérias do sexto ano e a elaboração de tese inaugural.

Sustentou-a a 11 de dezembro de 1844, defendendo curiosa dissertação: “Considerações sobre a nostalgia”.

Escola Municipal Pedro Bruno num casarão neoclássico que abrigou a terceira e última sede da Fazenda de São Roque

No trabalho do acadêmico já apontava o literato, de afirmação no mesmo ano de 1844, vigésimo segundo da Independência e do Império, consoante a fórmula oficial dos decretos da época.

A despedir-se da Faculdade de Medicina, posta no sítio onde os jesuítas tinham doutrinado, insignes sabedores de sempre, Macedo ainda estudante mandou sair de prelos primeiro romance, para muitos pedra angular do romance pátrio.

Banho de mar. As principais praias da ilha, como dos Coqueiros, da Moreninha e José Bonifácio (foto), já não estão mais poluídas, como lemos no boletim do INEA.

De tipografia carioca, com mais de duzentas páginas, estampas e a música de uma balada cantada pela heroína do romance, veio a público “A Moreninha” anunciando o escritor estreante que uma corporação docente ia em breve sagrar doutor.

O êxito do livro foi grande no Rio de Janeiro. Lia-o em breve e ainda não deixou de lê-lo o Brasil, apesar da renovação das escolas literárias, algumas das quais presto aparecem e desaparecem. Como os homens, as obras resistentes ao tempo são vítrices [=vencedoras]. Chi dura vince [o que dura vence] — adverte o provérbio italiano.

Casa onde morou José Bonifácio de 1831 a 1838, hoje residência particular

De segunda edição em 1845, de terceira em 1849, de quarta em 1860, de quinta, em Paris, em 1872, através de editado no Porto em 1845, “A Moreninha” continua a ser editada, propagando até hoje o que alguém chamou “a infantil e virginal feição do nosso romance”.

Sobre ele, na “Minerva Brasiliense”, pronunciou-se Dutra e Mello, em longa análise. Adiantou no correr dela que na época o romance nacional começava a despontar sem haver ainda sido manejado por ninguém, que o soubesse o crítico, o romance histórico ou filosófico.

Pedra dos Namorados

Reconheceu Dutra e Mello, no autor de “A Moreninha”, estilo fino, irônico e singelo, com ordem, luz, graça e ligação, além de outros predicados do escritor novel [=jovem].

A análise de Dutra e Mello figura em edições de “A Moreninha”,  mostrando o apreço do autor pelo crítico. Sabia este reparar sem insultar, exprimir sem deprimir. A crítica é gênero literário que requer apurada educação. Um crítico desprimoroso é labrego [=literalmente camponês, mas usado no sentido pejorativo de ignorante, grosseiro] esgueirado na sociedade, cujas origens é às vezes prudente não perscrutar.

Pedras

Macedo autoprefaciou “A Moreninha”. Antepôs ao romance “Duas Palavras” explicando quanto o livro devia existência a dias de desenfado e folga no pátrio Itaboraí, em férias de quintanista.

Longe do bulício [=agitação] do Rio de Janeiro, já de bulício, afastado da então Corte, quase em ócio, assentou o estudante arquitetar um romance.

Escreveu-o, publicou-o, anunciando que conforme o acolhimento da crítica iria criando e educando melhor “os irmãozinhos da Moreninha”, mais tarde com efeito apresentados a patrícios sob a forma de livros.

Triciclo

“Recebe filha com gratidão — aconselhava o autor à heroína — a crítica do homem instruído; não chores se com a unha marcarem o lugar em que tiveres mais notável.”

Escrevendo “A Moreninha” esquecia o doutorando Macedo os livros de medicina, entre eles os de Velpeau, que “só ele faz por sua conta e risco mais citações em cada página do que todos os meirinhos juntos fizeram, fazem e hão de fazer pelo mundo.”

Ilha de Brocoió

Macedo ideou “A Moreninha” em Itaboraí. Aí nascera no dia de S. João, em casa de uma rua do nome do santo. Filho de farmacêutico, boticário dizia-se então, o futuro médico estudara primeiras letras e depois latim, o latim tão assimilável mas tão indigesto para os estudantes de hoje, na vila natal.

Ao que parece, “A Moreninha” brotou de duas fontes eternas: a mocidade e o amor.

Tinha Macedo vinte anos quando compôs o romance. Vinte anos! Idade em que o amor é caminho antes atinado que sabido!

Charrete

Amava, segundo informam, não sem lágrimas, e o chorar é consequência do amar. Desejava casar-se com a amada, mas só realizou o intento anos depois, por oposições e contratempos.

O consórcio foi auspicioso, pois até a morte, não há muito, em Niterói, a esposa de Macedo afirmava a Ernesto Senna, denunciando orgulho por ter sido a inspiradora de “A Moreninha”: “Oh! Ele me queria muito, sinceramente. Raras vezes saía à rua sem ser em minha companhia. Fui feliz, muito feliz.” E algumas lágrimas lentas sagraram a saudade longa.

Igreja de São Roque

A cônjuge de Macedo tinha razão de chorá-lo. Fora-lhe constante e desinteressado. Com efeito, em 1884, o surpreendera em Itaboraí um convite para ministro de Estrangeiros do gabinete Furtado.

Declinou da honra e deu razão da recusa. Era pobre, não podia portanto sustentar a posição... Não comparemos, as reticências já compararam.

Homenagem do Grupo Seresteiro de Paquetá à música "NORMALISTA"

A ação de “A Moreninha” passa-se na ilha de Paquetá, onde em 1844 se ia de batelão. Grande parte do romance vive numa casa paquetaense, no centro da ilha, onde a par dos coqueiros se avistavam belos arvoredos vergando de frutas ou em flores promissoras deles.

Naquela casa, real ou imaginária, porque os episódios mais célebres dos romances são não raro justaposições de saudades, assinalou o autor uma gruta. Era cavada na base de rochedo sobranceiro ao mar, dava-lhe acesso abertura alta e longa. No fundo, numa baciazita de pedra, gota a gota, de cristal e frescura, caía água destilada do alto do rochedo.

Serra do Mar vista da Praia do Catimbau. Dizem que o pôr-do-sol lá é lindo. A conferir.

Fora ele traspassado pelas lágrimas de uma índia, Ahy, ao amar sem correspondência. Aquele que a desprezava, o índio Avitin, vinha descansar na gruta. Adormecia, de volta da caça, e as lágrimas de Ahy, do cimo do rochedo, o banhavam. Caiu-lhe uma delas no coração, abrasando-o de amor partilhado.

Qual Ahy, no romance, a Moreninha de Macedo vinha cantar uma balada:

Pedras

“Eu tenho quinze anos
 E sou morena e linda;
 Mas amo, e não me amam
 E tenho amor ainda.”

Carolina tem o mesmo fado de Ahy. Desposa-a por fim Augusto, o herói do romance, que apostara  escrevê-lo se durante uma quinzena ou mais houvesse amado uma só mulher.

Casa rosa

A memória de Macedo ficou em Paquetá, onde o nome da sua Moreninha ainda tem renovado eco. Bem conhecido é dos moradores e dos visitantes da ilha um rochedo aí tratado por pedra e casa da Moreninha, em lembrança do livro célebre na sua época e do autor célebre depois dela.

Ambos representam um tempo em que a leitura amena, e não raro em voz alta e em comum, deliciava a família.

O velho e o mar

No conceito de Franklin Távora, escritor brasileiro e trabalhador injustamente esquecido, “em A Moreninha o estudante, a donzela, a matrona viram a sua imagem reproduzida no puro aço desse espelho onde há luz sem cintilações estrangeiras”.

Por isso teve a obra de 1844 aclamação unânime. “O Brasil inteiro leu o livro e teve para ele a consagração que merecia tão espontânea revelação do gênio nacional”, assinalou Távora.

À Moreninha disputou popularidade “O Moço Louro”, da mesma pena de Macedo. Triunfou a primeira; e o segundo, como era homem, sorriu à vitória.


Barca que me trouxe de volta para o Rio

2 comentários:

Joaossara disse...

Que bom ler essa matéria e poder ver essas fotos tão lindas de Paquetá. Ainda quero conhecer essa Ilha encantadora!!

Unknown disse...

Obrigado por mais este post, Ivo! Curioso é que, depois de uns bons anos, estive lá faz pouco tempo justamente para rever estas paisagens.