1.4.16

DESMONTE DO MORRO DO CASTELO


Fundada na Urca em 1565, com a derrota dos invasores franceses a cidade se transferiu, em 1567, para a posição elevada do Morro do Castelo, onde foi construída a Fortaleza de São Sebastião, a Igreja de São Sebastião (que viria a ser a primeira catedral da cidade), a igreja e colégio dos jesuítas e vários prédios públicos.

Na década de 1920 o desmonte do Morro do Castelo  (mostrado aqui em fotos de Augusto Malta obtidas na Biblioteca Nacional Digital) — na época visto como um progresso monumental, mas que hoje, do ponto de vista da preservação de nossa memória, se afigura um absurdo — ampliou as fronteiras do Centro, abrindo uma nova área de ocupação (a Esplanada do Castelo) e fornecendo pedras para novos aterramentos do mar.


Não foi a primeira vez em que se arrasou um morro. Na virada do século XIX para o XX, com o desmonte do Morro do Senado, onde hoje fica a Praça Cruz Vermelha, aterrou-se a orla da Saúde, Gamboa e Santo Cristo, para a construção do Cais do Porto, e um trecho da orla da Glória para a abertura da Avenida Beira-Mar. Já o desmonte do Morro do Castelo permitiu aterrar o trecho do mar onde em 1936 surgiu o Aeroporto Santos Dumont e a enseada da Glória, onde em 1926 surgiu a Praça Paris.

A ideia do arrasamento do Morro da Castelo era antiga, justificada pela teoria dos miasmas, segundo a qual as doenças seriam causadas pela pestilência do ar. Dentro dessa linha de pensamento, o Morro do Castelo estaria bloqueando a circulação do ar e, por conseguinte, impedindo a dissipação dos miasmas. De fato, escreve Vivaldo Coaracy nas Memórias da cidade do Rio de Janeiro (no verbete Castelo (Morro) do Rol de Ruas: “O arrasamento do morro vinha sendo preconizado desde o começo do século XIX como necessário ao saneamento da cidade.” Os terríveis desmoronamentos em suas encostas causados pelas chuvas em 1811 reforçaram ainda mais a ideia. Em sua obra de 1862 Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro, escreve Joaquim Manuel de Macedo:

O receio de novos e mais terríveis desmoronamentos, e o empenho de dar mais beleza à cidade e de libertá-la de uma colossal muralha que não a deixa ser francamente banhada pelos ventos do mar têm feito com que por vezes se haja projetado e tratado de organizar empresas destinadas a demolir o morro do Castelo.


Em suas Preleções de Gramática, publicadas na Semana Ilustrada, escreve Machado de Assis (em exemplo do uso do ablativo): “Desde que o Brasil é Brasil fala-se em desmoronar a montanha do Castelo.

Mas o arrasamento do Morro do Castelo não transcorreu sem polêmica. Em O Malho de 14 de agosto de 1920 vemos uma charge intitulada “O Castelo em Perigo”, cuja legenda diz “Contra a força do progresso, não há resistência possível, embora se juntem as ‘mãos negras’ do carrancismo (=reacionarismo)”, bem como uma matéria sobre os partidários e críticos do arrasamento, “Os Idólatras  do Castelo”.






Mas a tendência predominante era a favor do desmonte. Assim, lemos em artigo intitulado “Castelos de Cartas...” em O Malho de 11 de setembro de 1920:

A opinião pública faz tanto caso do morro do Castelo como da primeira camisa que... não vestiu. Os habitantes do Rio de Janeiro não podem deixar de aplaudir uma obra colossal que já era uma aspiração no tempo do império e já fazia parte de um grandioso plano de melhoramentos [...] é uma obra meritória para o interesse geral, nos benefícios que traz à comunidade, pela melhor ventilação da “fornalha” e pela conquista de uma área preciosa, admiravelmente localizada para o desenvolvimento comercial da cidade.



No recém-lançado Rio Belle Époque: Álbum de imagens, Alexei Bueno, que já foi diretor do INEPAC, desfia (na narração dos fatos ocorridos em 1921-25) uma longa diatribe contra o bárbaro arrasamento do Morro do Castelo:


Na década de 1920, o epicentro do vandalismo nacional — que por todo esse período nunca deixou de ser exercido na capital paulista — retorna para o Rio de Janeiro. E sob o pretexto dessa exposição comemorativa do Centenário da Independência, em 1922, que finalmente se dá início ao criminoso arrasamento do morro do Castelo, propugnado por modernosos de vário calibre desde havia mais de um século. A administração Passos já arrasara anteriormente o morro do Senado, sem nenhuma importância histórica, onde hoje se situa a praça da Cruz Vermelha, assim como a década de 1950 assistirá ao arrasamento do morro de Santo Antonio, porém poupando a única construção notável nele situada, o convento de Santo Antonio, bem como preservando uma pequena falda do morro onde vinha dar, partindo de Santa Teresa, o Aqueduto da Carioca. O que é notável na destruição do morro do Castelo é o fato de ela, além de incrivelmente tardia, não se limitar a um monumento, mas a um conjunto inapreciável deles, exatamente onde nascera a cidade. Não se trata da destruição do edifício primacial de uma metrópole, como no caso do Colégio de São Paulo, mas do próprio acidente natural onde se dera a verdadeira fundação. Toda uma acrópole quinhentista portuguesa, com duas igrejas e um forte do século XVI — em outras palavras, a Sé velha do Rio de Janeiro, a igreja e o convento dos jesuítas, o “castelo”, ou fortaleza que dera nome ao morro — sem contar as majestosas ruínas da inacabada igreja Nova dos Jesuítas e muito mais coisas, veio abaixo a força de jatos d'água, sem o menor cuidado nem na salvação de algumas cantarias do maior valor, resultando numa das séries de fotografias mais impressionantes do século XX no capítulo da barbárie histórico-arquitetônica. Protagonizado, como já afirmamos, pelo então prefeito da Capital Federal e pelo presidente da República — tudo envolto em imenso gasto de dinheiro publico e suspeitas de corrupção, como sempre —, tal atentado à mais ínfima sensibilidade histórica foi apoiado com denodo por muitos periódicos e mentes “progressistas”, e duramente criticado por indivíduos de bom senso, como Lima Barreto e Monteiro Lobato.
 

Mal comparando, seria como se a municipalidade de Atenas resolvesse arrasar a Acrópole para aumentar a ventilação da cidade e criar um bairro novo. A falta de qualquer preocupação maior no salvamento do que fosse possível transpira das fotografias, em que podemos ver solidíssimos edifícios, como a igreja dos Jesuítas e o antigo convento, com seus poderosos contrafortes, inclinarem-se à beira do abismo, ainda com as bandeiras das janelas, como se fossem casas de bonecas ou brinquedos. Se até hoje o Rio de Janeiro se ressente de não ter nenhum monumento inscrito na conhecida lista de Patrimônios da Humanidade da Unesco — coisa bem diversa é a categoria quase impalpável de paisagem cultural — deve-o a esse fato lamentável, pois, sem qualquer dúvida, lá estaria o conjunto arquitetônico e urbanístico do morro do Castelo, ao lado, por exemplo — sob o aspecto do parentesco histórico, no caso a expansão colonial lusitana — daquele da ilha de Moçambique, que lá se encontra devidamente arrolada.
  
O morro, berço da cidade, foi arrasado como se de um lixo se tratasse. Nem um mínimo levantamento arquitetônico, nem um perfunctório levantamento topográfico, nada foi feito. Elementos perfeitamente passíveis de salvamento e remontagem, como o portão da fortaleza e a portada da igreja dos Jesuítas, foram deixados onde estavam, para descer morro abaixo sob a força dos jatos d'água. Os ossos de todos os fundadores do Rio de Janeiro, heroicos companheiros de Estácio de Sa, e os dos primeiros povoadores, que se encontravam todos, evidentemente, sepultados na Sé Velha ou na igreja dos Jesuítas, desceram junto com a lama, como numa retrete a que se dá descarga, num ato de desrespeito aos antepassados que nenhuma tribo de cultura paleolítica ousaria cometer.
  

Nesse ato, de uma insensibilidade histórica digna do famigerado Estado Islâmico, havia, além dos interesses financeiros inconfessáveis, uma má disfarçada implicância vingativa com o colonizador do país, como se, no ano do Centenário da Independência e de sua respectiva exposição, o arrasamento do primeiro local em que se estabeleceu esse mesmo colonizador servisse como uma espécie de ato propiciatório. Comprova-se isso pelos elogios que sempre teceu à destruição do berço da cidade Orestes Barbosa, desde a sua obra acima citada, de 1925, até a sua morte, coisa bem de acordo com o jacobinismo primário e a grande limitação cultural do notável letrista. 
Para ler um artigo de Alexsandro R. Menez sobre a destruição do Morro do Castelo clique aqui

Um comentário:

Zanon de Paula Barros disse...

É interessante a transcrição do seguinte texto:
"Permitindo El-Rei D. João V no Alvará de 30 de setembro de 1733, que por justos motivos se mudasse a Igreja Catedral da antiga, e decadente casa dedicada a S. Sebastião, ordenou também, que conservando-se o templo, para não se perder com ele a sua memória, se estabelecesse ali uma Capelania perpétua, e se erigisse, finalmente, uma Irmandade do mesmo Santo, para zelar e vigiar sobre o trato da Igreja" (Memória Históricas do Rio de Janeiro - Monsenhor José de Azevedo Pizarro e Araújo, vol. V, fls. 228 (obra escrita entre fins do Século XVIII e início do Século XIX.
Vê-se que o Rei de Portugal, D. João V, preocupou-se com nossa história enquanto que o governo republicano brasileiro, fez questão de jogá-la no mar.
Zanon de Paula Barros