30.9.11

SUBÚRBIOS CARIOCAS

Festa da Penha: Lavagem da escadaria

Feijoada da família portelense

Botequim no Riachuelo

Subúrbio é coisa relativa. O que era subúrbio (ou "arrabalde" na terminologia da época) no tempo do Império com a expansão da cidade deixou de ser. Por exemplo, no Cap. XVIII de Lucíola (1862), de José de Alencar, lemos: “Não saía mais durante o dia; à noite pedia-me que a levasse a algum arrabalde distante da cidade, à Lagoa, ou ao Cosme-Velho.”

Durante grande parte do século XX, chamaram-se subúrbios os bairros de população mais humilde que foram crescendo ao longo da linha férrea. Segundo o historiador Oswaldo Porto Rocha, “do mesmo modo que o bonde efetiva a ocupação de bairros na zona sul e norte, o trem possibilita a ocupação de áreas que hoje são chamadas suburbanas, algumas das quais recebem seus nomes em função da própria construção da ferrovia. Cascadura, por exemplo, é um nome originário da resistência do solo na ocasião da abertura dos leitos naquela área.” (A era das demolições

Assim, havia os subúrbios da Central e os da Leopoldina. Observe-se que o trem suburbano existe desde o tempo de Machado de Assis. Tanto é que seu Dom Casmurro começa pela frase: “Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu.”

Quem melhor captou o espírito suburbano em nossa literatura foi Lima Barreto, de quem reproduzimos trecho do Capitulo 2 da Segunda Parte de Triste Fim de Policarpo Quaresma adiante.

Tecnicamente não existem mais subúrbios, a zona urbana engoliu tudo. O trem suburbano hoje se chama trem urbano (vide site da Supervia), e os antigos subúrbios hoje integram a Zona Norte.


Entrada florida (Riachuelo)

Casinhas de subúrbio (Riachuelo)

Capela de Santo Antônio (Riachuelo)

Coreto do Jardim do Méier

Estação Méier: ônibus versus trem

Trecho do Capitulo 2 da Segunda Parte de Triste Fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto:

Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa coisa em matéria de edificação de cidade. A topografia do local, caprichosamente montuosa, influiu decerto para tal aspecto, mais influíram,porém, os azares das construções.

Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As casas surgiram como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas se fizeram. Há algumas delas que começam largas como boulevards e acabam estreitas que nem vielas; dão voltas, circuitos inúteis e parecem fugir ao alinhamento reto com um ódio tenaz e sagrado.

Às vezes se sucedem na mesma direção com uma frequência irritante, outras se afastam, e deixam de permeio um longo intervalo coeso e fechado de casas. Num trecho, há casas amontoadas umas sobre as outras numa angústia de espaço desoladora, logo adiante um vasto campo abre ao nosso olhar uma ampla perspectiva.

Marcham assim ao acaso as edificações e conseguintemente o arruamento. Há casas de todos os gostos e construídas de todas as formas.

Vai-se por uma rua a ver um correr de chalets, de porta e janela, parede de frontal, humildes e acanhados, de repente se nos depara uma casa burguesa, dessas de compoteiras na cimalha rendilhada, a se erguer sobre um porão alto com mezaninos gradeados. Passada essa surpresa, olha-se acolá e dá-se com uma choupana de pau-a-pique, coberta de zinco ou mesmo palha, em torno da qual formiga uma população; adiante, é uma velha casa de roça, com varanda e colunas de estilo pouco classificável, que parece vexada e querer ocultar-se, diante daquela onda de edifícios disparatados e novos.


Grafite (Méier)

Não há nos nossos subúrbios coisa alguma que nos lembre os famosos das grandes cidades europeias, com as suas vilas de ar repousado e satisfeito, as suas estradas e ruas macadamizadas e cuidadas, nem mesmo se encontram aqueles jardins, cuidadinhos, aparadinhos, penteados, porque os nossos, se os há, são em geral pobres, feios e desleixados.

Os cuidados municipais também são variáveis e caprichosos. Às vezes, nas ruas, há passeios em certas partes e outras não; algumas vias de comunicação são calçadas e outras da mesma importância estão ainda em estado de natureza. Encontra-se aqui um pontilhão bem cuidado sobre um rio seco e passos além temos que atravessar um ribeirão sobre uma pinguela de trilhos mal juntos.

Há pelas ruas damas elegantes, com sedas e brocados, evitando a custo que a lama ou o pó lhes empane o brilho do vestido; há operários de tamancos; há peralvilhos à última moda; há mulheres de chita; e assim pela tarde, quando essa gente volta do trabalho ou do passeio, a mescla se faz numa mesma rua, num quarteirão, e quase sempre o mais bem posto não é que entra na melhor casa.

Além disto, os subúrbios têm mais aspectos interessantes, sem falar no namoro epidêmico e no espiritismo endêmico; as casas de cômodos (quem as suporia lá!) constituem um deles bem inédito.Casas que mal dariam para uma pequena família, são divididas, subdivididas, e os minúsculos aposentos assim obtidos, alugados à população miserável da cidade. Aí, nesses caixotins humanos, é que se encontra a fauna menos observada da nossa vida, sobre a qual a miséria paira com um rigor londrino.

Não se podem imaginar profissões mais tristes e mais inopinadas da gente que habita tais caixinhas.Além dos serventes de repartições, contínuos de escritórios, podemos deparar velhas fabricantes de rendas de bilros, compradores de garrafas vazias, castradores de gatos, cães e galos, mandingueiros, catadores de ervas medicinais, enfim, uma variedade de profissões miseráveis que as nossas pequena e grande burguesias não podem adivinhar. Às vezes, num cubículo desses se amontoa uma família, e há ocasiões em que os seus chefes vão a pé para a cidade por falta do níquel do trem.


Festa de São Jorge em Quintino

Casinha de subúrbio (Riachuelo)

Roda de samba (Oswaldo Cruz)

Estação Riachuelo

Casinha de subúrbio (Riachuelo)

Terreno baldio, algo cada vez mais raro na metrópole (Riachuelo)

Ladeira e morros (Cachambi)

Botequim (Oswaldo Cruz)

Estação Oswaldo Cruz

Avenida Dom Hélder Câmara, antiga Avenida Suburbana

Fusca (Jacaré)

Poema suburbano
Luís Peixoto (musicado por Bororó e gravado em 1956 por Orlando Silva — para ouvir clique na caixa MP3 no final)

Subúrbios, subúrbios
das moças prendadas
que fazem bordados
e querem casar,

dos cães vira-lata
que latem à lua,
enquanto as galinhas
se deixam roubar.

Das ruas barrentas,
tão simples e humildes
que até nem o nome
se lê nos jornais,

e sobem ladeiras,
de noite sozinhas,
de cem em cem metros,
um bico de gás.

Subúrbios do tempo
do chá com torradas,
sofá de palhinha,
xadrez e gamão.

Subúrbios teimosos,
dos trens atrasados,
subúrbios pacatos,
do meu coração!

Meu Deus, quem me dera
ir dar um passeio
com as vossas morenas,
cavar um namoro...

ir vê-las, aos pares,
domingo, na praça,
sorrindo pra gente
com um dente de ouro!

Ser noivo no Méier,
ouvindo uma valsa,
o "Sonho de Valsa",
mimoso, sutil...

Ser meio mulato
mulato e foguista
da Estrada de Ferro
Central do Brasil!

5 comentários:

Mariza disse...

Foi bom ver o coreto do Jardim do Meyer, ali meus pais se conheceram e se apaixonaram. Minha mãe morava em São Cristóvão e estava visitando um parente. Amor à primeira vista, ela rompeu um noivado de sete anos e casaram em sete meses. Meu pai adorava contar essa história. (enviado por e-mail)

Vera Dias disse...

Belo passeio pelo suburbio do Rio. A festa da Penha, o casario e os habitos. Parabens!

Rafael Soares disse...

Gostei muito, Ivo.
Muito bom ver um pouco do meu bairro (Riachuelo)por aqui, tem muitos locais gostosos que muitos cariocas sequer imaginam. Não que aqui no subúrbio esteja às mil maravilhas. Tem muita coisa a ser consertada. Mas há que valorizarmos os muros baixos, os jardinzinhos floridas, as casinhas antigas resistentes, o pequeno comércio de bairro (decadente hoje em dia, é verdade).

Um forte abraço!

Wagner disse...

Essa Capela no Riachuelo na realidade é de Santo Antônio. Morei no bairro muitos anos e frequentei essa capela todo domingo.

Ivo Korytowski disse...

Wagner, obrigado pela observação, já corrigi o lapso.