MORRO DO LIVRAMENTO



Mais de 160 anos depois - mais precisamente hoje - refiz o caminho do personagem de Machado, descendo a escadaria da Rua Costa Barros. Não achei a escola, mas, apesar da chuva forte, fiquei encantado em ver como o Morro do Livramento conserva muito do Rio antigo.
Tenho batido perna por aquelas bandas, na Zona Portuária da cidade, e me deliciado em encontrar no morro onde nasceu Machado sobrados que parecem saídos do subúrbio. É um Rio formado por igrejinhas, calçamentos pé-de-moleque, granito na soleira das portas, e muitas biroscas. Um Rio pouco conhecido dos cariocas, talvez receosos de subir uma favela.
Se Machado refizesse hoje seus passos pela região da Gamboa, veria que pouco mudou. Talvez estranhasse ver o estado de sua casa - pelo menos a que me dizem ser sua casa. Está caindo aos pedaços, invadida que foi por uma família. Ao lado, uma antena da Embratel desfigura e enfeia aquela paisagem de resto congelada no tempo.
(Texto de Mauro Ventura publicado originalmente em 14/11/2006 no blog NO FRONT DO RIO)





Na época, os morros da parte central da cidade, em situações privilegiadas, eram dominados por estabelecimentos militares, como o da Conceição, ou por ordens religiosas, como o de São Bento, o do Castelo, o de Santo Antônio, o de Santa Teresa e, ainda, pela gente rica, que aí construía suas mansões, no centro de chácaras ou quintas. O morro do Livramento, na época, era o domínio de uma grande família de origem portuguesa, cuja figura central era uma verdadeira matriarca, D. Maria José de Mendonça Barroso Pereira. Ela enviuvara, pela segunda vez, ao falecer, a 8 de fevereiro de 1837, o senador do Império Bento Barroso Pereira [...]
Além dos seus numerosos escravos, os proprietários tinham também agregados, e entre estes, Maria Leopoldina Machado da Câmara [mãe de Machado de Assis], nascida a 7 de março de 1812 em Ponta Delgada, cidade da ilha de São Miguel, no arquipélago dos Açores, e que viera menina para o Brasil, para onde emigraram seus pais. Adulta, servia à família rica, ocupando-se de costuras e bordados, além de outras tarefas ancilares, e sabia ler e escrever. Já com 26 para 27 anos, ela se casaria com o operário Francisco José de Assis [pai de Machado], pardo forro, de 32 anos, que exercia a profissão de pintor de casas e dourador. Este, se não era também um agregado da chácara, teria sido chamado para aí executar seus trabalhos profissionais, conhecendo então a ilhoa branca, mas pobríssima, que com ele se dispôs a casar. [...]
A capela e o palacete onde vivia a numerosa família [proprietária da chácara] eram as edificações dominantes do morro do Livramento. Havia ainda outras, destinadas a escravos e agregados.
Extraído de R. Magalhães Júnior, Vida e obra de Machado de Assis, Volume 1, "Aprendizado"




Marcadores: Machado de Assis, Rio Antigo



9 Comments:
Meu nome nome é Jorge, sou do Rio, mas moro muito tempo fora do Brasil, atualmente na Holanda há 14 anos. Eu estava olhando o seu site e achei uma coisa impressionante, eu sabia que a nossa cidade era linda maravilhosa, mas nem tanto como eu vi no seu site. [....] Você está de parabéns meu amigo. (enviado por e-mail)
Muito interessante a visita ao Morro do Livramento, meus parabéns! (enviado por e-mail)
Prezado Ivo!
Que passeio legal pelos passos do Machado!!!
Parabéns!
Siomara de Cássia Miranda
Parabéns pela riqueza das imagens e do texto.
Ivo,
Excelente registro dessa região do Rio tão desconhecida de todos nós. Machado de Assis foi o nosso maior escritor e o primeiro presidente da ABL (Academia Brasileira de Letras)e seria importante resgatar sua memória com o registro e conservação de seu local de nascimento.
Teu blog e teus textos são um serviço de utilidade pública e ao mesmo tempo soam como poesia àqueles que amam o Rio de Janeiro.
Um abraço,
Alexandre Core
Boas, nasci perto da ladeira do livramento, mais precisamente na rua rosa saião, nº6, ainda deve existir pois a casa ainda é da minha familai, estou em Portugal ha 36 anos e gostava de ver a minha rua e a minha antiga casa
Olá Ivo. Essa semana estive pelas bandas da Av. Venezuela a procura do númeor 110 (meu futuro emprego) e aproveitei pra conhecer a pedra do sal. Aquela região realmente fala por si. Depois de duas cervejas no morro da conceição sai a procura do movimento e acabei descobrindo por sorte a Ladeira do Livramento. Hoje fiquei sabendo da relação de Machado com o local e espero visitá-lo mais vezes. Valeu pelas fotos e quem sabe qq dia a gente se esbarra por lá.
Ernani
PARABÉNS IVO!!
OBRIGADA POR PERMITIR REPORTAR-ME AO PASSADO, ATRAVÉS DESSAS IMAGENS, E REVIVER MINHA INFÂNCIA, NAQUELAS RUAS...ASSISTI MUITA MISSA E FESTAS NA IGREJA N.SRA.LIVRAMENTO...NÃO CONSEGUIA ENTENDER NA ÉPOCA, O VALOR HISTÓRICO E A IMPORTÂNCIA DA ARQUITETURA, O QUE HOJE, VEJO COM MUITA EMOÇÃO... UM ABRAÇO. DELY.
Ivo, saúde e paz. Sou estudante de História da UFF, e tenho muito interesse na história dos morros na região central da cidade. Na verdade, tenho uma adoração sem explicação. Será que não poderíamos marcar um dia de irmos juntos visitar esses morros? Digo isso porque é tanta coisa que falam sobre ser perigoso etc, que dá até medo de ir sozinha rs. Aguardo resposta para vanessasilvamaia@yahoo.com.br
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