27.5.07

MORRO DO LIVRAMENTO

NOS PASSOS DE MACHADO

Morro do Livramento visto do Morro da Saúde

Morro do Livramento visto da Rua Sacadura Cabral

Morro do Livramento visto do Morro da Conceição; observe bem à esquerda a Favela da Providência, a mais antiga do Rio

Machado de Assis tem um conto que começa assim: "A escola era na Rua do Costa, um sobradinho de grade de pau. O ano era de 1840. Naquele dia - uma segunda-feira, do mês de maio - deixei-me estar alguns instantes na Rua da Princesa a ver onde iria brincar a manhã."
Mais de 160 anos depois - mais precisamente hoje - refiz o caminho do personagem de Machado, descendo a escadaria da Rua Costa Barros. Não achei a escola, mas, apesar da chuva forte, fiquei encantado em ver como o
Morro do Livramento conserva muito do Rio antigo.

Tenho batido perna por aquelas bandas, na
Zona Portuária da cidade, e me deliciado em encontrar no morro onde nasceu Machado sobrados que parecem saídos do subúrbio. É um Rio formado por igrejinhas, calçamentos pé-de-moleque, granito na soleira das portas, e muitas biroscas. Um Rio pouco conhecido dos cariocas, talvez receosos de subir uma favela.

Se Machado refizesse hoje seus passos pela região da
Gamboa, veria que pouco mudou. Talvez estranhasse ver o estado de sua casa - pelo menos a que me dizem ser sua casa. Está caindo aos pedaços, invadida que foi por uma família. Ao lado, uma antena da Embratel desfigura e enfeia aquela paisagem de resto congelada no tempo.

(Texto de Mauro Ventura publicado originalmente em 14/11/2006 no blog NO FRONT DO RIO)

Ladeira do Livramento (vamos subir?)

Chalés na Rua Rosa Saião

Esquina da Ladeira do Livramento com a Rua Costa Barros (esquerda) e Rua do Monte (direita)

Panorama da Rua do Monte

No alto da Ladeira do Livramento, onde se situava o casarão e a capela da chácara do Barroso, ergue-se uma antena da Embratel

No ano de 1839 [quando nasceu Machado de Assis], a cidade do Rio de Janeiro, atrasada e insalubre, tinha uma população de cerca de 300 mil pessoas, grande parte das quais escravos [...]

Na época, os morros da parte central da cidade, em situações privilegiadas, eram dominados por estabelecimentos militares, como o da Conceição, ou por ordens religiosas, como o de São Bento, o do Castelo, o de Santo Antônio, o de Santa Teresa e, ainda, pela gente rica, que aí construía suas mansões, no centro de chácaras ou quintas. O morro do Livramento, na época, era o domínio de uma grande família de origem portuguesa, cuja figura central era uma verdadeira matriarca, D. Maria José de Mendonça Barroso Pereira. Ela enviuvara, pela segunda vez, ao falecer, a 8 de fevereiro de 1837, o senador do Império Bento Barroso Pereira [...]

Além dos seus numerosos escravos, os proprietários tinham também agregados, e entre estes, Maria Leopoldina Machado da Câmara [mãe de Machado de Assis], nascida a 7 de março de 1812 em Ponta Delgada, cidade da ilha de São Miguel, no arquipélago dos Açores, e que viera menina para o Brasil, para onde emigraram seus pais. Adulta, servia à família rica, ocupando-se de costuras e bordados, além de outras tarefas ancilares, e sabia ler e escrever. Já com 26 para 27 anos, ela se casaria com o operário Francisco José de Assis [pai de Machado], pardo forro, de 32 anos, que exercia a profissão de pintor de casas e dourador. Este, se não era também um agregado da chácara, teria sido chamado para aí executar seus trabalhos profissionais, conhecendo então a ilhoa branca, mas pobríssima, que com ele se dispôs a casar. [...]

A capela e o palacete onde vivia a numerosa família [proprietária da chácara] eram as edificações dominantes do morro do Livramento. Havia ainda outras, destinadas a escravos e agregados.

Extraído de R. Magalhães Júnior, Vida e obra de Machado de Assis, Volume 1, "Aprendizado"

Perto da antena da Embratel, este imóvel antigo, que segundo moradores do morro teria sido a "casa de Machado de Assis". Na verdade, Machado, cuja mãe era agregada da chácara, deve ter morado em casa mais modesta, mas talvez este imóvel fizesse parte da chácara.

Casarão visto de perto. Segundo Alexei Bueno, a quem mostrei as fotos, "esse casarão, apesar de muito adulterado, com uma platibanda tardia estragando o beiral, etc., me parece do final do XVIII. É um exemplar precioso de arquitetura civil desse período, do qual tão pouca coisa sobrou no Rio, excetuando os exemplares rurais. Só por isso, para mim, já merecia ser tombado e restaurado. Esse casarão é realmente bem antigo, e me parece uma construção importante, não é uma coisa popular. Ele foi cortado ao meio, desmembrado, seguramente. Aquele edifício colado a ele está sobre uma área onde a construção continuava, dá para ver no corte do beiral. É bem provavel que seja uma parte reminiscente da sede da Chácara do Barroso (que deve ter dado nome à ladeira), que devia ser maior."

Outro casarão antigo na Ladeira do Livramento (segundo Alexei Bueno, de meados do século XIX mas adulterado pela retirada de todas as sobrevergas, embora o telhado pareça estar direito)

Vista do encontro da Ladeira do Livramento com a Ladeira do Barroso.

Fotos do editor do blog. Agradeço ao pintor Dallier, morador do Morro da Conceição e profundo conhecedor da Zona Portuária, que me acompanhou neste passeio, e a Alexei Bueno pelas informações preciosas gentilmente oferecidas.

Em 23 de maio de 2011 retornei ao Morro do Livramento. A seguir as novas fotos ali tiradas:

28 comentários:

Jorge disse...

Meu nome nome é Jorge, sou do Rio, mas moro muito tempo fora do Brasil, atualmente na Holanda há 14 anos. Eu estava olhando o seu site e achei uma coisa impressionante, eu sabia que a nossa cidade era linda maravilhosa, mas nem tanto como eu vi no seu site. [....] Você está de parabéns meu amigo. (enviado por e-mail)

Valter disse...

Muito interessante a visita ao Morro do Livramento, meus parabéns! (enviado por e-mail)

Siomara de Cássia Miranda disse...

Prezado Ivo!
Que passeio legal pelos passos do Machado!!!
Parabéns!
Siomara de Cássia Miranda

luís dallier disse...

Parabéns pela riqueza das imagens e do texto.

Alexandre Core disse...

Ivo,

Excelente registro dessa região do Rio tão desconhecida de todos nós. Machado de Assis foi o nosso maior escritor e o primeiro presidente da ABL (Academia Brasileira de Letras)e seria importante resgatar sua memória com o registro e conservação de seu local de nascimento.

Teu blog e teus textos são um serviço de utilidade pública e ao mesmo tempo soam como poesia àqueles que amam o Rio de Janeiro.

Um abraço,
Alexandre Core

sacripantas disse...

Boas, nasci perto da ladeira do livramento, mais precisamente na rua rosa saião, nº6, ainda deve existir pois a casa ainda é da minha familai, estou em Portugal ha 36 anos e gostava de ver a minha rua e a minha antiga casa

Ernani disse...

Olá Ivo. Essa semana estive pelas bandas da Av. Venezuela a procura do númeor 110 (meu futuro emprego) e aproveitei pra conhecer a pedra do sal. Aquela região realmente fala por si. Depois de duas cervejas no morro da conceição sai a procura do movimento e acabei descobrindo por sorte a Ladeira do Livramento. Hoje fiquei sabendo da relação de Machado com o local e espero visitá-lo mais vezes. Valeu pelas fotos e quem sabe qq dia a gente se esbarra por lá.
Ernani

Dely disse...

PARABÉNS IVO!!
OBRIGADA POR PERMITIR REPORTAR-ME AO PASSADO, ATRAVÉS DESSAS IMAGENS, E REVIVER MINHA INFÂNCIA, NAQUELAS RUAS...ASSISTI MUITA MISSA E FESTAS NA IGREJA N.SRA.LIVRAMENTO...NÃO CONSEGUIA ENTENDER NA ÉPOCA, O VALOR HISTÓRICO E A IMPORTÂNCIA DA ARQUITETURA, O QUE HOJE, VEJO COM MUITA EMOÇÃO... UM ABRAÇO. DELY.

Eu disse...

Ivo, saúde e paz. Sou estudante de História da UFF, e tenho muito interesse na história dos morros na região central da cidade. Na verdade, tenho uma adoração sem explicação. Será que não poderíamos marcar um dia de irmos juntos visitar esses morros? Digo isso porque é tanta coisa que falam sobre ser perigoso etc, que dá até medo de ir sozinha rs. Aguardo resposta para vanessasilvamaia@yahoo.com.br

Cristina disse...

Oi !Me chamo Cristina e sou romana, gostei muito do passeio pelo Livramento, foi ai..faz tempo.. mas so no pe' da ladeira, parece nao seja seguro subir..por enquanto muito obrigada pra mostrar-me tambem o alto do morro..:)

A VIDA NUMA GOA disse...

Agora, estou confuso. Afinal, Morro do Livramento e Morro da Providência são a mesma coisa???

Grato.

Meu blog:

avidanumagoa.blogspot

Ivo Korytowski disse...

Fisicamente o morro é um só, mas a parte mais perto da Central onde fica a Favela da Providência é conhecida como Morro da Providência enquanto a parte que resultou do loteamento da antiga chácara é conhecida como Morro do Livramento. Tanto é que existe ligação entre a favela e a parte não favelizada que é a Ladeira do Barroso. Veja no Google Maps.

pcunha31 disse...

Nasci na Ladeira do Barroso em 1942. Morei nesse lugar até os 16 anos. Alfabetizei-me na escola particular de Dona Dionísia. Fiz as 3a. e 4a, séries na Escola Padre Francisco da Motta e a 5a. série na Escola Vicente Licínio Cardoso. Grandes recordações de minha infância, de meus amigos, do Bloco do Barroso no Carnaval, das Ladainhas na Igreja Nossa Senhora do Livramento, dos Corsos que nos acordavam ãs 5 horas da manhã de Sábado de Carnaval e muito mais.
Ainda tenho uma tia que mora nessa Ladeira.
Parabéns

Venilton Matos disse...

Ivo meu amigo, fiquei emocionado com suas fotos, pude imaginar Machado quando menino correndo e se admirando naquelas ladeiras, vendo o sol nascer e se por, então entendi porque ele era tão inspirado que aos 16 anos publicou sua primeira poesia no marmota chamado A Palmeira. Se Deus quiser este ano visito essa cidade linda e a terra do meu mestre Machado. Obrigado pelas fotos.

franciska disse...

meu nome e francisca tb nasci ai na ladeira do Barroso nº 33,adoro este lugar tão maravilhosamente lindo mas sem conservação, a sua visão mostra como nós não damos valor as nossas raizes , parabéns por esta maravilhosa demonstração de amor e carinho pelo nosso barroso, conheci a casa onde machado de assis nasceu, foi uma grande perda, pois foi quase destruida, o centro da cidade guarda muito do passado e deveria ser respeitado. mas parabéns, mais uma vez

franciska disse...

pcunha nasci em 1948, tambem estudei com dona dionisia, nasceste qual nº do barroso

orion oliveira disse...

parabéns pela pesquisa, desejo todo sucesso em novas empreitadas, se vc quiser, no facebook, acesso o perfil guarantiga, tb um ótimo material de pesquisas, como fotos e fatos históricos agregados!!!!! abraçoooo

Papel de Roça disse...

Ivo,

obrigada por mais este passeio pela história.
sheila castello

Willy disse...

Boa noite Ivo!!

Deparei-me com seu blog através de uma pesquisa que fiz em torno do romance "Senhora" de José de Alencar, fui buscando cenários em que foi retratado tal romance, e ao mesmo tempo em que me conduzia a descoberta efêmera, reduzida a profundo amargor por ter informações de que tão precioso escritor possui nos dias de hoje tal descaso. A julgar pela foto de seu enterro imagina-se quão valioso foi, mas, infelizmente esta classe não detêm o mínimo de respeito que lhe valem. Lastimável!!!

Willy disse...

Boa noite Ivo!!

Deparei-me com seu blog através de uma pesquisa que fiz em torno do romance "Senhora" de José de Alencar, fui buscando cenários em que foi retratado tal romance, e ao mesmo tempo em que me conduzia a descoberta efêmera, reduzida a profundo amargor por ter informações de que tão precioso escritor possui nos dias de hoje tal descaso. A julgar pela foto de seu enterro imagina-se quão valioso foi, mas, infelizmente esta classe não detêm o mínimo de respeito que lhe valem. Lastimável!!!

Willy disse...

Boa noite Ivo!!

Deparei-me com seu blog através de uma pesquisa que fiz em torno do romance "Senhora" de José de Alencar, fui buscando cenários em que foi retratado tal romance, e ao mesmo tempo em que me conduzia a descoberta efêmera, reduzida a profundo amargor por ter informações de que tão precioso escritor possui nos dias de hoje tal descaso. A julgar pela foto de seu enterro imagina-se quão valioso foi, mas, infelizmente esta classe não detêm o mínimo de respeito que lhe valem. Lastimável!!!

Anônimo disse...

Que bom existirem pesquisadores como vc, só assim tomamos conhecimento da vida e dos tempo q viveu Machado de Assis, um passeio e tanto navegar por aqui, obrigada.Ivonete.

franciska disse...

Nasci 33 casa 2 mãe Elvira pai Adriano irmão Carlos já falecido

Wander Garcia disse...

Lindo lugar, acompanho as obras do Porto Maravilha e torço para que estes locais sejam todos restaurados e torne-se o novo ponto turístico da Cidade. A zona Portuária tem tudo pra crescer e ficar pra sempre em nossos registros. Viva Machado de Assis.
Wanderley Sobreira Garcia ( Wander Garcia) Paulistano que ama o Rio de Janeiro.

Moradora do Morro do Livramento disse...

Prezado Ivo,
Muito importante e lindo seus registros destes lugares, um pouco esquecidos.
Sou moradora do lugar e me interesso bastante pela história dele.
Em uma das fotos feita houve um equívoco na informação da localização; as casas fotografadas não são da rua Major Saião e sim da Rua Rosa Saião.
Parabéns belíssimo trabalho.

Ivo Korytowski disse...

Moradora do Morro do Livramento, obrigado por visitar o blog e pelo comentário simpático. Já corrigi a falha.

Ivaldo Vasconcelos disse...

Parabéns, caro Ivo, pelas postagens e fotos sobre este grande e maravilhoso escritor. Muito emocionado fiquei! Tive a oportunidade de visitar o lugar onde nasceu Machado, no Cosme Velho, que hoje tem apenas uma placa indicando que ele viveu ali até a morte. Hoje é uma Garrafaria e tenta de uma forma ou de outra lembrar o Machado. Infelizmente a casa onde ele morou foi destruída em 1976 e hoje é essa Garrafaria. Estive com a minha filha, Beatriz, e a minha esposa, Daniele, nesse lugar e muito me emocionei lembrando o Machado de Assis. De passagem par ao Rio, nessa mesma viagem, também visitamos o Espaço Machado de Assis, num anexo à ABL. Nesse espaço estão expostos vários móveis de Machado e da sua esposa Carolina. Vale a pena fazer uma visita lá. Fica a dica para os apaixonados por Machado, que inclusive aqui, observei que há muitos.

Mauricio Fernandes disse...

Amei conhecer um pouco mais sobre a minha cidade querida e maravilhosa. Mas tão maltratada por ações politicas equivocadas.