BANDEIRA O TEMPO INTEIRO
(Marcos Vinícios Vilaça, Presidente da Academia Brasileira de Letras)

Louvação à Cidade do Rio de Janeiro
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Louvado Deus, louvo o santo
De quem este Rio é filho.
Louvo o santo padroeiro
- Bravo São Sebastião -
Que num dia de janeiro
Lhe deu santa defensão.
Louvo a Cidade nascida
No morro Cara de Cão,
Logo depois transferida
Para o Castelo, e de então
Descendo as faldas do outeiro,
Avultando em arredores,
Subindo a morros maiores
— Grande Rio de Janeiro!
Rio de Janeiro, agora
De quatrocentos janeiros...
Ó Rio de meus primeiros
Sonhos! (A última hora
De minha vida oxalá
Venha sob teus céus serenos,
Porque assim sentirei menos
O meu despejo de cá!)
Cidade de sol e bruma,
Se não és mais capital
Desta nação, não faz mal:
Jamais capital nenhuma,
Rio, empanará teu brilho,
Igualará teu encanto.
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.

Beco que cantei num dístico
Cheio de elipses mentais,
Beco das minhas tristezas,
Das minhas perplexidades
(Mas também dos meus amores,
Dos meus beijos, dos meus sonhos),
Adeus para nunca mais!
Vão demolir esta casa.
Mas meu quarto vai ficar,
Não como forma imperfeita
Neste mundo de aparências:
Vai ficar na eternidade,
Com seus livros, com seus quadros,
Intacto, suspenso no ar!
Beco de sarças de fogo,
De paixões sem amanhãs,
Quanta luz mediterrânea
No esplendor da adolescência
Não recolheu nestas pedras
O orvalho das madrugadas,
A pureza das manhãs!
Beco das minhas tristezas.
Não me envergonhei de ti!
Foste rua de mulheres?
Todas são filhas de Deus!
Dantes foram carmelitas...
E eras só de pobres quando,
Pobre, vim morar aqui.
Lapa - Lapa do Desterro -,
Lapa que tanto pecais!
(Mas quando bate seis horas,
Na primeira voz dos sinos,
Como na voz que anunciava
A conceição de Maria,
Que graças angelicais!)
Nossa Senhora do Carmo,
De lá de cima do altar,
Pede esmolas para os pobres,
Para mulheres tão tristes,
Para mulheres tão negras,
Que vêm nas portas do templo
De noite se agasalhar.
Beco que nasceste à sombra
De paredes conventuais,
És como a vida, que é santa
Pesar de todas as quedas.
Por isso te amei constante
E canto para dizer-te

(Alexei Bueno, curador da exposição "Bandeira o Tempo Inteiro")
Fotos da estátua de Manuel Bandeira defronte à Academia Brasileira de Letras tiradas pelo editor deste blog. Textos sobre Bandeira extraídos do folheto da exposição "Bandeira O Tempo Inteiro".
Marcadores: Alexei Bueno, poesia



3 Comments:
Bom dia Ivo!
Maravilhoso este blog, riquíssimo em conteúdo- Parabéns! Obrigada por compartilhar tantas coisas lindas sobre o Rio de Janeiro com os outros.
Um abraço
Beatriz Kappke-Medianeira-PR
Prezado Ivo!É muito prazeroso visitar o seu blog!
Que maravilha,essa homenagem ao MANUEL BANDEIRA!!!
Sucesso!!!
Siomara de Cássia Miranda
Olá Ivo! Belíssimo enfoque ao nosso grande Poeta.
... A saudade bateu, ao lembra-me do grande homem que,duas ou tres vezes ao dia, fazia sua rotineira caminhada, para vir bater um papo com seu amigo FRED, gerente do escritório, onde,lá pelos meus dezoito anos, trabalhava. Ali, tive a honra de conhecê-lo; sem, no entanto, avaliar, aquela estrela de primeira grandeza!!!
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