25.1.06

GAMBOA & MACHADO DE ASSIS

A Gamboa é como o caviar da canção do Zeca Pagodinho: a maioria de nós nunca viu, só ouviu falar. Foi onde nasceu Machado de Assis. Aliás, sua obra é plena de referências a ela. Por exemplo, no “Conto de Escola”, lemos: “Não fui à escola, acompanhei os fuzileiros, e depois enfiei pela Saúde, e acabei a manhã na praia da Gamboa.” Em Quincas Borba, Rubião passeia calmamente por lá: “Mas Rubião não distinguia nada; via tudo confusamente. Foi ainda a pé durante largo tempo; passou o Saco do Alferes, passou a Gamboa, parou diante do cemitério dos ingleses, com os seus velhos sepulcros trepados pelo morro, e afinal chegou à Saúde. Viu ruas esguias, outras em ladeira, casas apinhadas ao longe e no alto dos morros, becos, muita casa antiga, algumas do tempo do reis comidas, gretadas, estripadas, o cais encardido e a vida lá dentro. E tudo isso lhe dava uma sensação de nostalgia...”

As fotos a seguir são minhas. Os textos (com pequenas modificações) foram extraídos do livro de Alexei Bueno, Gamboa (Relume Dumará, 2002) .



Foi em homenagem ao aviador precocemente morto que a antiga praia do Valongo, passou, naquele já distante ano de 1922, a se chamar rua Sacadura Cabral.

Entre muitas construções notáveis, como os sobrados que fazem esquina com a ladeira do Livramento, um dos trechos mais fiéis à ambiência de um Rio colonial, destaca-se a antiga estrebaria (hoje uma garagem).

Da fisionomia desse trecho urbano restou, em estado lamentável, o conjunto arquitetônico e paisagístico do jardim e morro do Valongo, tombado pelo Iphan em 1938. [PS. O Jardim Suspenso do Valongo foi revitalizado em 2013 no contexto do projeto Porto Maravilha.]

Foi no morro do Livramento, como todos sabem, que, em 21 de junho de 1839, na chácara da viúva do senador Bento Barroso Pereira, nasceu Joaquim Maria Machado de Assis, no exato local onde hoje se ergue uma antena de telecomunicações.

Mais adiante alcançaremos a antiga praça da Harmonia, atual Coronel Assunção, onde sobrevive um belo conjunto de casas ecléticas, o prédio do Quinto Batalhão da Polícia Militar e...

...o complexo de construções do Moinho Fluminense, talvez o mais impressionante e monumental conjunto de arquitetura industrial do Rio de Janeiro.

Monumental edifício educacional do Império é a antiga Escola Municipal José Bonifácio, atualmente um centro cultural, na rua Pedro Ernesto, 80.

Na Sacadura Cabral, 357, temos o Bar Sulista, voltado para a velha praça da Harmonia e decorado com os famosos painéis de Nilton Bravo, o Miguel Ângelo dos botequins.

16 comentários:

Vinicius Factum disse...

Interessante esse site... Quando puder faça-me uma visita. Abs.

Fátima disse...

Coincidência: Ontem fui no "Trapiche da Gamboa" (Sacadura Cabral, 155, perto aqui da Camerino) com amigos.
É um lugar maneiríssimo. Só tem cerveja Original. (enviado por e-mail)

Haroldo Netto disse...

Ivo,
o único Blog que leio sempre, não só por ser ótimo, como porque V. me lembra de ir lá dar uma olhada na novidade da semana. Legal!
Gosto muito desse viés historico-urbano.
Se me permite, anexo três colaborações, que podem, quem sabe, render frutos - o Pavilhão Mourisco, na praia de Botafogo, a Praia Vermelha ainda fechada por um dos prédios da Exposição de 1908 que depois foi aproveitado para ser a escola Militar da Praia Vermelha( A EMPV saiu dali depois de 1904 por causa da Revolta da Vacina, em 1908 foi construídosobre seus alicerces um prédio especial para a Exposição do centenário da Abertuira dos Portos e mais adiante veio a ser a sede do 3º RI, onde irá se desenrolar a célebre Intentona Comunista em 35, quando a praia é aberta) . e uma visão geral de parte da Exposição de 1908, na Praia vermelha/Urca, com a qual o Barão do rio Branco celebrou o centenário da abertura dos portos. Tudo a ver, porque com as obras e o trabalho insano de Pereira Passos e o saneamento de Oswaldo Cruz, o porto do Rio estava, de certo modo, sendo reaberto.
O assunto é longo e emocionante.

Quanto à sua boa matéria da Gamboa, veja um complemento em:

www.rio.rj.gov.br/ipp/download/
perfil_porto.pdf

(enviado por e-mail - clique no nome do Haroldo acima para acessar esta matéria citada)

Ellysjordan disse...

Ivo adorei o seu blog, é interessantíssimo,é acabar uma história e passar para outra e outra, e com comentários ilustres de grandes escritores presentes como no breve contexto sobre Juscelino, não conhecia mesmo muito sobre a Gamboa; obrigado por ajudar a amadurecer mais tal idéia, vou procurar mais textos na Biblioteca Nacional, forte abraço (recado deixado no Orkut)

Bruno Chagas Barbosa disse...

Ficou muito bom tanto o texto quanto as fotos. Eu Já estive em Gamboa e não sabia, já fui na Rua Sacadura Cabral.
Um Grande Abraço

Vinicius Factum disse...

Olá! Adicionei um link para o seu Blog...

Marilia Mota disse...

Lindo, Ivo. E você, um cronista do Rio, cada vez melhor!
Seria bom que virasse livro. Mas para sair com as fotos todas seria preciso um bom patrocínio. Um livro como esse seria um presente de natal ideal de uma grande empresa - bancos...Você não conhece ninguém do depto de marketing dos Bradescos, Itaús e cia da vida?E sendo tradutor, poderia escrever logo em mais de um idioma. Só idéias para se ir pensando. Bjs

Bruno Ribeiro disse...

É sempre prazeroso encontrar quem devota da mesma paixão pelos livros. (Um dos Radicais)

Ivo Korytowski disse...

Uma informação: o início da Sacadura Cabral, onde está a igreja de São Francisco da Prainha e a Pedra do Sal ainda não é Gamboa. Aquela é a Saúde. A Gamboa começa um pouco mais adiante, acho que lá na antiga Praça da Harmonia, onde está o Moinho Fluminense. Os limites entre Saúde, Gamboa e Santo Cristo não são muito claros. Alexei Bueno, no seu livro Gamboa, diz que "falaremos aqui de toda essa região como uma só, com o seu eterno nome de Gamboa e a sua unidade só artificialmente rompível".

Jôka P. disse...

Sou fã dos painéis de padaria e boteco.
Os do Nilton Bravo são the best !
As fotos estão todas muito legais !
BRAVO !
digo...
Nilton...
digo...
ah, deixa pra lá.
Abç!
Jôka P.

Vinicius Factum disse...

Que viagem! Bom início de semana!

fabio pereira leal disse...

Você sabia que na gamboa (Saúde)teve resistência contra a revolta da vacina por volta de 1904 quando Rodrigues Alves era presidente mandou vacinar todos moradores naquele bairro chegaram a fazer barricadas contra as tropas do exército durou alguns dias e teve um lider chamado José Horácio da Silva (O Prata Preta)

carlos bedrossian disse...

Ivo,
Obrigado compatriota! Brasileiro, vivendo em Oak Park (terra de Ernest Hemingway, Edgar Rice Burroughs e Frank Lloyd Wright) enveredei a ler Machado de Assis, Aluisio Azevedo e Jose de Alencar. Aih busquei Gamboa, Cemiterio dos Ingleses, Cosme Velho e vim encontra-los no seu site, um dos melhores sobre o Rio antigo. Desculpe-me o Ze Pagodinho, mas eh possivel provar caviar!

LUIZ DELTA BLUES disse...

Oi Ivo, achei teu site pesquisando Machado d Assis. Moro em Angra mas nascí em 1943 na Rua da Gamboa,145.
Dicas: No final da Rua Pedro Alves indo para a Leopoldina ainda existe o posto de troca de burros do tempo do bonde de burros, hoje uma garagem mas o pórtico é original. Ah e no sábado de carnaval ao meio-dia saia de dentro do Moinho Fluminense um bloco dos funcionários. A concentração era lá dentro e o bloco era enorme. Abçs e parabéns pelo blog

Rosana César disse...

Nossa! Viajei no tempo agora,morei nessa área do centro que engloba Gamboa Saúde e Santo Cristo, da infância até a vida inicial adulta, e sabendo que Machado de Assis morou lá em todas as rua que passava imaginava como ele enxergava cada ângulo. As ruas guardam muitas histórias. Muito fascinante

Rosana César disse...

Nossa! Viajei no tempo agora,morei nessa área do centro que engloba Gamboa Saúde e Santo Cristo, da infância até a vida inicial adulta, e sabendo que Machado de Assis morou lá em todas as rua que passava imaginava como ele enxergava cada ângulo. As ruas guardam muitas histórias. Muito fascinante