19.1.06

TUDO NA VIDA É PASSAGEIRO

Paulo da Mata-Machado Jr.


De todos os feitios, tamanhos e cores. Quando comecei a dar conta do mundo, enfiado em um imenso quintal suburbano do Rio de Janeiro, os velhos daqueles tempos deixavam bem claro que já não havia mais salvação. Bom tinha sido no tempo deles, eu jamais poderia ser feliz, pois os bondes não eram mais o que tinham sido, as diferentes versões para cada ocasião específica tinham sido substituídas pela sem-graça da oferta única do coletivo de dois carros, bancos de madeira e um ou dois estribos.

Eu não tinha coragem de discordar abertamente, mas na certeza decorrente das minhas ponderações e profundas reflexões durante aqueles primeiros três ou quatro anos da minha existência, sabia que não podia ser tão ruim assim. Afinal, velhos tendiam naturalmente ao pessimismo: má-digestão, intestino preso, rugas...

Em todo o caso as histórias me fascinavam. Diziam que bondes os havia para diversas ocasiões e propósitos da vida urbana: engalanavam-se para casamentos, esfumavam-se funéreos para enterros, transportavam mudanças, móveis, objetos e animais domésticos, eram utilizados como ambulâncias do sistema de saúde pública ou em campanhas de vacinação. Sem falar, é claro, do ilustre passageiro que ia, todo pimpão, lindeiro ao belo tipo faceiro...


E apesar da apregoada decadência e do pessimismo dos antigos, ainda passamos bons anos juntos, eu e eles. Foram mais de dez anos, do bondinho vagaroso e amável da Ilha do Governador aos elegantes e algo empelicados "semoventes" (como os imaginava o poeta) das linhas da cidade, que iam das Barcas ou do Tabuleiro da Baiana para a Tijuca, Camerino, Penha, Bonsucesso, São Cristóvão, Méier, Engenho de Dentro, Copacabana, Urca, Ipanema, Leblon, Gávea, Jardim Botânico... tantos locais, uma lógica urbana perfeita e absolutamente funcional.

Mais tarde, já adolescente, passei a considerar Belo Horizonte uma das mais civilizadas cidades do Mundo: os bondes eram vagões fechados, com portas de entrada e saída, corredor central, bancos laterais e cada um com sua janela fechada com vidros!

Depois percebi que nem todos eram assim, veros bondes europeus: a maioria, para dizer a verdade, estava mais para o heróico e ronceiro bondinho da Ilha que para os orgulhosos “ingleses de polainas” do Rio.

Até em São Luís do Maranhão andei de bonde. Em ruas silenciosas, calçadas com paralelepípedos e ladeadas de casinhas amáveis, onde ecoavam as músicas de
Vicente Celestino, cantadas do estribo por um menino, tipo popular da cidade, pouco maior que os meus seis anos daqueles tempos e que dessa maneira ia amealhando alguns tostões.

Soube depois, embora não chegasse a tempo para ser transportado por eles, que existiam bondes em Juiz de Fora, Belém, Campinas, Curitiba, Porto Alegre... e mais um punhado de cidadezinhas amáveis e acolhedoras pelo Brasil afora, daqueles modorrentos anos cinqüenta.

Anos de transição, percebemos quando chegou a década seguinte. Como transitórios todos somos: eu, o cantorzinho, meu pai, os velhos da remota infância. À exceção, claro, da felicidade daqueles tempos, do condutor e do motorneiro...

Fotos de bondes antigos obtidas na Internet. Saiba tudo sobre os bondes visitando o site do Novo Milênio. E pra quem gosta de bondes, uma sugestão: visitar o Museu do Bonde em Santa Teresa (Rua Carlos Brant, 14 - Tel: 2220-1003). Outra dica: o documentário de Jean Manzon sobre os bondes cariocas no YouTube.

13 comentários:

Jôka P. disse...

Tudo bem.
:D
JÔKA P.

Wilton disse...

Olá!
Foi bom passar por este importante espaço em que o Rio de Janeiro, é assunto para o ano inteiro. Quando vi a foto do bonde 77 (Piedade), lembrei de minha infância, dos números dos bondes, sei de vários.Valeu! Um grande abraço.

Irany disse...

Oi Ivo,
Tenho visitado seu interessante blog mas sinto falta de seus textos, de seu trabalho.
Bom final de semana para vocês.
Da fã número um.
Irany (enviado por e-mail)

Erik José Steger disse...

Gostaria de ter visto algumas narrativas sobre os bicões, aqueles que queriam endar no bonde, mas pagar a passagem não, podendo evitar. Não me lembro quem contou, se foi minha avó ou minha mãe. Não há nas crônicas registro deste fato pitoresco?

Ivo Korytowski disse...

Caro Erik, antes de mais nada, obrigado por visitar tão assiduamente o blog. Vou tentar satisfazer sua curiosidade através de uma pesquisa de "andar de bonde sem pagar passagem" no Google. Pois bem, na novela Desabrigo do escritor Antônio Fraga, um dos personagens, o valentão Cobrinha, "salta floreado, de costas sem pagar passagem e dá uma banana para o trocador".
Em 1937 apareceu uma marchinha de Carnaval de autoria de J. Cascata e Leonel Azevedo, gravada por Odete Amaral, que dizia:

Não pago o bonde, iaiá
Não pago o bonde, ioiô
Não pago o bonde que eu conheço o condutor.
Quando estou na brincadeira
Não pago o bonde nem que seja por favor.
Não pago o bonde
Porque não posso pagar
O meu é muito pouco
E não chega p’ra gastar
Moro na rua das casas
Daquele lado de lá
Tem uma porta e uma janela
Mande a Light me cobrar...

Em crônica sobre os bondes de Porto Alegre, Milton Ribeiro conta que "Aliás, durante o percurso, os cobradores caminhavam sem parar de um lado a outro do bonde pegando o dinheiro dos passageiros. Em horários de pico, com o bonde cheio, muitos diziam que já tinham pago sua passagem, o que podia gerar curtos e barulhentos bate-bocas. Mas digo por experiência própria que a melhor maneira de não pagar era andar como eu gostava, lá na porta dependurado e sentindo o vento bater no rosto, a uma velocidade máxima de uns 40 ou 50 Km/h, calculo eu. Era o momento de maior emoção, quando podia ficar com um dos braços e uma das pernas no ar."

Marilia Mota disse...

Linda crônica, Ivo.

Jôka P. disse...

Tá no capricho !
Parabéns !!!
:)
Jôka P.

franka disse...

igor, os bondes!
que maravilha de fotos - mas escuta, o que é aquilo recolhido em cima? cortina? toldo?
adorei!

Bruno Chagas Barbosa disse...

Ivo,
Prabéns pelo Blog, realmente, ficou muito bom. Gostaria de deixar registrado que gostie muito de conversar com você. Espero que possamos nos encontrar mais vezes para conversar.
Um Grande Abraço

Ivo Korytowski disse...

Respondendo à pergunta da Franka: Pelas minhas lembranças de infância, acho que aquele negócio recolhido lá em cima do bonde era um toldo, que costumava ser abaixado nos dias de chuva torrencial!

Paulo da Mata-Machado disse...

Ivo,
Que bom! Li e gostei muito dos comentários. Quanto a não pagar a tarifa e descer do bonde de costas, na inocência dos meus doze/treze anos não ligava um fato ao outro. Achava que era prova de agilidade e desafio ao perigo aquela maneira de saltar do bonde andando. E ao toldo, os bondes possuiam uma espécie de cortina de lona, uma para cada fileira de banco. Eram puxadas e desciam presas aos balaustres. O condutor acendia as luzes... mas acho que outros modelos de carros usavam, sim uma lona única que cobria toda a lateral. Não lembro bem.
Espero que continuem escrevendo (o que prova mais uma vez a excelente divulgação do seu blog) e narrem mais coisas pitorescas sobre esse maravilhoso e bem estruturado transporte coletivo.
Grande abraço (enviado por e-mail)

Elaine disse...

Oi Ivo, tudo bem?
Fiz uma chamada desse texto para o seu blog no meu novo site (www.awanene.com)Ficou bacana! Aliais, esse post e o GAMBOA & MACHADO DE ASSIS estão ótimos!
beijos...Elaine Paiva

Anônimo disse...

Maravilhoso escrevendo...analisando...revivendo...sorrindo...que você seja imensamente feliz com seu saudosismo que tanto nos entusiasma.
Tambem revivi momentos felizes ao ler texto maravilhoso como o seu.
Um beijo
Vera