27.4.15

EVOLUÇÃO URBANA DO RIO DE JANEIRO

Fundada na Urca em 1565, com a derrota dos invasores franceses a cidade se transferiu, em 1567, para a posição elevada do Morro do Castelo, onde foi construída a Fortaleza de São Sebastião, a Igreja de São Sebastião (que viria a ser a primeira catedral da cidade), a igreja e colégio dos jesuítas e vários prédios públicos. Do morro a cidade começou a descer para a Várzea (a parte baixa), na época cheia de alagadiços e charcos. Até meados do século XVIII a malha urbana se restringiu ao quadrilátero delimitado pelos morros do Castelo, de Santo Antônio (onde os frades franciscanos se estabeleceram no início do século XVII), de São Bento (onde os frades beneditinos se estabeleceram no final do século XVI) e da Conceição. O primeiro caminho, ligando o Morro do Castelo ao Morro de São Bento, deu origem às duas ruas mais importantes do Rio Colonial: Rua da Misericórdia e Rua Direita (atual Rua Primeiro de Março, dia do fim da Guerra do Paraguai). Quando o Morro do Castelo foi demolido no século XX, o pedacinho inicial da Ladeira da Misericórdia, que subia ao alto do morro, foi preservado — existe até hoje (foto abaixo).



De início a produção de açúcar foi a principal atividade econômica da cidade, em sesmarias recebidas pelos padres jesuítas: Engenho Velho, Engenho Novo, Engenho de Dentro e Santa Cruz, ao norte, e o Engenho D’El Rei, ao sul, nas margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. (Hoje em dia Engenho Novo, Engenho de Dentro e Santa Cruz são bairros cariocas.) Dois caminhos, abertos para dar acesso aos engenhos, delinearam os eixos do futuro crescimento urbano.

A descoberta de ouro nas Minas Gerais trouxe prosperidade ao Rio, e grandes obras foram realizadas: o Aqueduto da Carioca (os Arcos da Lapa), a obra mais monumental do Rio colonial, concluído em 1750; o aterro da Lagoa do Boqueirão para construção do primeiro parque público carioca, o Passeio Público; o Paço.

A partir do século XIX, quando se tornou a sede do governo português e, depois, do Brasil independente, a cidade transpôs os limites da urbe colonial. Chácaras começaram a ser construídas nos arrabaldes da cidade: Glória, Catete, Laranjeiras, Botafogo, São Cristóvão. Na Cidade Velha casas térreas coloniais deram lugar a sobrados. Com o aterramento do mangal de São Diogo surgiu, na área mais além do Campo de Santana, a Cidade Nova (que hoje é o nome de um bairro). Grandes prédios neoclássicos foram erguidos no século XIX:

  • Academia Militar: Projeto de 1811, no Largo de São Francisco, atual Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ onde estudei nos anos de chumbo.
  •  Casa da Moeda: projeto de 1858, na Praça da República, atual Arquivo Nacional.
  • Sede nova da Santa Casa: projetos de 1840 e 1865 (ampliação), na Rua Santa Luzia, 206 — Centro.
  • Campus hospitalar da Beneficência Portuguesa: projeto de 1840, na Rua Santo Amaro, 80/84 — Glória.
  • Hospício de Alienados (onde Policarpo Quaresma passou uma temporada no famoso romance): projeto de 1842, atual Palácio Universitário da UFRJ, na Av. Pasteur, 250 — Urca.
  • Paço de São Cristóvão: atual Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista (foto abaixo).



Consolidada a República, o presidente Rodrigues Alves (1902-1906) incumbiu o prefeito Pereira Passos de tornar a cidade digna da Capital Federal da República do Brasil. Na época, a nossa economia se sustentava na exportação do café. Atacaram-se três frentes: 1) um imenso aterro para a construção de um cais do porto moderno; 2) alargamento e abertura de ruas e avenidas, com destaque para a Av. Central (atual Av. Rio Branco), rasgando o centro da cidade e dando acesso ao porto, e a Avenida Beira-Mar, levando à Zona Sul; e 3) uma campanha de saneamento para erradicação de doenças como febre amarela e malária.

Na década de 1920 o desmonte do Morro do Castelo ampliou as fronteiras do Centro, abrindo uma nova área de ocupação (a Esplanada do Castelo) e fornecendo pedras para novos aterramentos do mar.

Em 1929 ergue-se o nosso primeiro arranha-céu, valendo-se da nova tecnologia do concreto armado: o Edifício A Noite, com 22 andares, na Praça Mauá, 7. Começou assim a era da densificação da ocupação dos espaços via verticalização.

No início da década de 1940 a abertura da monumental Avenida Getúlio Vargas dividiu o Centro em duas “metades” e acabou resultando no abandono e degradação da Zona Portuária (situação que agora se procura reverter com o Projeto Porto Maravilha).

A abertura da Av. Central, a derrubada do Morro do Castelo e a abertura da Av. Presidente Vargas resultaram na destruição de casas e cortiços — o chamado “bota abaixo” — empurrando as populações de menor renda para os morros, bem como para os subúrbios surgidos com a implantação do trem suburbano já na segunda metade do século XIX (quem leu Dom Casmurro do Machado deve lembrar que a história começa no trem da Central: “Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu.”)

No ano do quarto centenário da cidade (1965) Carlos Lacerda inaugurou a enorme área de parque no Aterro do Flamengo. Nessa época foram realizadas grandes obras viárias ligando as zonas sul e norte da cidade: o Túnel Rebouças e Túnel Santa Bárbara.

Nos anos 70, época do “milagre brasileiro” e do “Ninguém segura este país”, surgiram a auto-estrada Lagoa-Barra, facilitando o acesso à Zona Oeste da cidade, a ponte Rio-Niterói e o metrô. Mas até 1982 para pegar a Lagoa-Barra você tinha que enfrentar o engarrafamento da Rua Marquês de São Vicente.

Nos anos 90 surgiram a Linha Vermelha e a Linha Amarela, grandes vias de circulação previstas no Plano Doxiádis dos anos 60.

Agora que comemora 450 anos e às vésperas das Olimpíadas cariocas, o Rio volta a sofrer grandes intervenções: Porto Maravilha, Parque de Madureira, expansão do metrô até a Barra, VLTs interligando o Centro, BRTs interligando a cidade, reforma do bondinho de Santa Teresa, Museu do Amanhã e da Imagem e do Som, sem falar nas obras especificamente voltadas para as modalidades desportivas como as arenas e centros olímpicos.

HISTÓRIA DOS ATERROS DO RIO

A expansão urbana da cidade do Rio de Janeiro exigiu uma série de intervenções para domar o ambiente hostil. Assim foi que se aterraram mangues, drenaram lagoas e mais tarde se derrubaram morros para com suas pedras avançar mar adentro. (Às vezes me flagro pensando com meus botões que, se a máquina do tempo existisse realmente, no Rio de Janeiro seria perigosa pois, conforme o lugar onde você a utilizasse, poderia ir parar em pleno mar cem, duzentos, trezentos anos atrás!) De igrejinhas antes situadas a beira-mar — como de São Cristóvão, Santo Cristo, São Francisco da Prainha, Santa Luzia e da Glória — hoje a gente nem sente o cheiro da maresia!

O aterro do Flamengo foi o ápice de uma sucessão de aterros marítimos que começou no início do século XX:

  • Com o desmonte do Morro do Senado, onde hoje fica a Praça Cruz Vermelha, na virada do século XIX para o XX, aterrou-se a orla da Saúde, Gamboa e Santo Cristo, para a construção do Cais do Porto, e um trecho da orla da Glória para a abertura da Avenida Beira-Mar.
  • Com o desmonte do Morro do Castelo no início da década de 1920, aterrou-se: (i) o trecho do mar onde em 1936 surgiu o Aeroporto Santos Dumont e (ii) a enseada da Glória, onde em 1926 surgiu a Praça Paris.
  • Com o desmonte de parte do Morro de Santo Antônio na década de 1950 aterrou-se a área depois ocupada pelo Museu de Arte Moderna (inaugurado em 1958) e Monumento aos Pracinhas (construído de 1957 a 1960 - foto abaixo). Digamos que essa foi a primeira fase do que denominamos Aterro do Flamengo. Mas desde o final da década de 1940 já se projetava o aterramento ao longo de toda a Praia do Flamengo, dada a necessidade de desafogar o tráfego entre o Centro e a Zona Sul.
  • Somente durante o governo Carlos Lacerda, na década de 1960, criou-se um grupo de trabalho para reavaliar o projeto original do Aterro do Flamengo e dar continuidade às obras. Destacaram-se nesse grupo o arquiteto Affonso Eduardo Reidy, responsável pelos projetos urbanísticos e arquitetônicos, e Roberto Burle Marx, autor do magnífico projeto paisagístico.


Em outubro de 1965, ano do Quarto Centenário do Rio de Janeiro, o Aterro do Flamengo foi entregue à população carioca.

(Textos transcritos do meu livro Guia da Cidade Maravilhosa, com alguns acréscimos.)

VEJA TAMBÉM NESTE BLOG: HISTÓRIA DO RIO DE JANEIRO E MAPAS ANTIGOS DO RIO DE JANEIRO

2 comentários:

Charles Lewis Stone disse...

O Rio de Janeiro é a maravilhosa cidade do Brasil. Está um pouco largada de mão pelas autoridade, é verdade, mas merece o respeito, admiração e cuidado de todos que nela residem,bem como dos que a visitam.

Ivo Korytowski disse...

Charles, a cidade não está propriamente largada, o Prefeito se esforça e toca alguns projetos que vão fazer a diferença (Porto, Parque de Madureira e expansão, transportes coletivos, grandes museus) mas é uma cidade muito ampla, e são muitos os problemas que se acumularam, e o quadro político anda turbulento, etc.