6.4.15

DICA DE LIVRO: CONFEITARIA COLOMBO - SABORES DE UMA CIDADE

de RENATO FREIRE e ANTONIO EDMILSON MARTINS RODRIGUES
A Confeitaria Colombo, com seus espelhos enormes, mesas de tampo de mármore, piso de ladrilho hidráulico, cadeiras de palhinha, é uma atração turística da cidade. O livro traça um paralelo entre a evolução da Colombo e da cidade nos últimos cento e tantos anos, além de ensinar o “caminho das pedras”, as receitas das iguarias. A seguir, transcrevemos um curto capítulo, "O ovo da Colombo", da PARTE I do livro, “Colombo — Uma história bem temperada” de autoria de Antonio Edmilson Martins Rodrigues. A PARTE II, de Renato Freire, intitula-se “A Colombo e Sua Gastronomia”, a PARTE III é das Receitas, e no final temos a “English version” do texto. Bom apetite!


O ovo da Colombo

Desde que a Colombo foi inaugurada, em 1894, o Rio de Janeiro mudou, o Brasil se transformou, o mundo quase virou de cabeça para baixo. Em pouco mais de 100 anos duas guerras mundiais aconteceram, o homem foi à lua, nações inteiras nasceram e, de uma hora para outra, também foram para o beleléu. A confeitaria viu aparecer o rádio, o cinema, a televisão, o avião, a penicilina, o filtro solar, o micro-ondas, a internet, o rock, o ar-condicionado e o chiclete de bola.

No Brasil, a confeitaria acompanhou o sobe e desce na economia do país. Viu nada menos que nove moedas entrarem e saírem de circulação — coincidentemente, o Real era também a moeda da época da inauguração. Durante esse tempo, a Colombo assistiu a pelo menos três golpes de estado e a 33 homens e uma mulher tomarem posse na Presidência da República. Muitos deles — pelo menos uma vez na vida — atravessaram as portas da Gonçalves Dias para tomar um café.

Em todo esse tempo, o Rio de Janeiro - que deixou de ser a capital do país em 1961 — viu morros virem abaixo, ruas serem alargadas, casas demolidas, a orla mudar de lugar, pontes serem erguidas e túneis abertos em todos os cantos. A cidade mudou. Hoje as confeitarias quase não existem mais. O Centro perdeu parte de sua importância, mas o carioca de verdade, quando quer dizer que está indo para lá, ainda diz simplesmente "Vou à cidade".

Com a reestruturação do Rio, o carioca migrou para a Zona Sul e descobriu a praia, o biquíni, o futebol, a minissaia, a bermuda, o chinelo de dedo, o botequim de esquina, o surfe, as chapinhas de cabelo, o samba e as escolas de samba. Muita coisa se modificou, mas, durante esse tempo todo, a Colombo esteve no mesmo lugar: rua Gonçalves Dias, 32.

O interior da casa mudou pouco durante esse século. As cristaleiras, os lustres, a claraboia, o piso e os espelhos belgas permanecem no mesmo lugar. O cardápio — ainda que guarde boa parte dos quitutes que lhe deram fama — soube se renovar para se adequar aos novos tempos. As frutas tropicais se somaram às importadas, a cerveja divide lugar com os uísques, a feijoada tem posição de destaque no buffet. Em 100 anos, a Colombo viu surgir o cajuzinho, o brigadeiro, o bombom de cupuaçu, a caipirinha, o mil-folhas de creme, o suco de acerola e a Coca-Cola. Mas — de um jeito difícil de explicar — parece que nada mudou, que tudo permanece como há 100 anos.

Esse sempre foi o segredo da casa. Desde os tempos de Manuel Lebrão, a Colombo percebeu que devia permanecer em constante mutação para parecer ser sempre a mesma. Um conceito que vale para a arquitetura, para a decoração, para as atitudes dos empregados e para tudo o que consta do cardápio. É o tal truque. Durante esse tempo todo a confeitaria — como o Rio de Janeiro, a cidade que a abrigou — atravessou crises, enfrentou desafios, festejou vitórias e se quebrou muitas vezes para continuar a ser o que sempre foi: Confeitaria Colombo. Quebrada, reformada, renovada, festiva e, misteriosamente, de pé. Mais ou menos como o ovo da história de Colombo.

Um comentário:

Joaossara disse...

De parabéns pela matéria sobre a Confeitaria Colombo. Era um dos meus sonho conhecê-la estive lá quando da visita do Papa Francisco JMJ 2013. É uma maravilha fiquei encantada quero voltar outras vezes! Sou pernambucana.