ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

27.4.15

EVOLUÇÃO URBANA DO RIO DE JANEIRO

Fundada na Urca em 1565, com a derrota dos invasores franceses a cidade se transferiu, em 1567, para a posição elevada do Morro do Castelo, onde foi construída a Fortaleza de São Sebastião, a Igreja de São Sebastião (que viria a ser a primeira catedral da cidade), a igreja e colégio dos jesuítas e vários prédios públicos. Do morro a cidade começou a descer para a Várzea (a parte baixa), na época cheia de alagadiços e charcos. Até meados do século XVIII a malha urbana se restringiu ao quadrilátero delimitado pelos morros do Castelo, de Santo Antônio (onde os frades franciscanos se estabeleceram no início do século XVII), de São Bento (onde os frades beneditinos se estabeleceram no final do século XVI) e da Conceição. O primeiro caminho, ligando o Morro do Castelo ao Morro de São Bento, deu origem às duas ruas mais importantes do Rio Colonial: Rua da Misericórdia e Rua Direita (atual Rua Primeiro de Março, dia do fim da Guerra do Paraguai). Quando o Morro do Castelo foi demolido no século XX, o pedacinho inicial da Ladeira da Misericórdia, que subia ao alto do morro, foi preservado — existe até hoje (foto abaixo).



De início a produção de açúcar foi a principal atividade econômica da cidade, em sesmarias recebidas pelos padres jesuítas: Engenho Velho, Engenho Novo, Engenho de Dentro e Santa Cruz, ao norte, e o Engenho D’El Rei, ao sul, nas margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. (Hoje em dia Engenho Novo, Engenho de Dentro e Santa Cruz são bairros cariocas.) Dois caminhos, abertos para dar acesso aos engenhos, delinearam os eixos do futuro crescimento urbano.

A descoberta de ouro nas Minas Gerais trouxe prosperidade ao Rio, e grandes obras foram realizadas: o Aqueduto da Carioca (os Arcos da Lapa), a obra mais monumental do Rio colonial, concluído em 1750; o aterro da Lagoa do Boqueirão para construção do primeiro parque público carioca, o Passeio Público; o Paço.

A partir do século XIX, quando se tornou a sede do governo português e, depois, do Brasil independente, a cidade transpôs os limites da urbe colonial. Chácaras começaram a ser construídas nos arrabaldes da cidade: Glória, Catete, Laranjeiras, Botafogo, São Cristóvão. Na Cidade Velha casas térreas coloniais deram lugar a sobrados. Com o aterramento do mangal de São Diogo surgiu, na área mais além do Campo de Santana, a Cidade Nova (que hoje é o nome de um bairro). Grandes prédios neoclássicos foram erguidos no século XIX:

  • Academia Militar: Projeto de 1811, no Largo de São Francisco, atual Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ onde estudei nos anos de chumbo.
  •  Casa da Moeda: projeto de 1858, na Praça da República, atual Arquivo Nacional.
  • Sede nova da Santa Casa: projetos de 1840 e 1865 (ampliação), na Rua Santa Luzia, 206 — Centro.
  • Campus hospitalar da Beneficência Portuguesa: projeto de 1840, na Rua Santo Amaro, 80/84 — Glória.
  • Hospício de Alienados (onde Policarpo Quaresma passou uma temporada no famoso romance): projeto de 1842, atual Palácio Universitário da UFRJ, na Av. Pasteur, 250 — Urca.
  • Paço de São Cristóvão: atual Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista (foto abaixo).



Consolidada a República, o presidente Rodrigues Alves (1902-1906) incumbiu o prefeito Pereira Passos de tornar a cidade digna da Capital Federal da República do Brasil, uma espécie de "Paris dos trópicos". Na época, a nossa economia se sustentava na exportação do café. Atacaram-se três frentes: 1) um imenso aterro para a construção de um cais do porto moderno; 2) alargamento e abertura de ruas e avenidas, com destaque para a Av. Central (atual Av. Rio Branco), rasgando o centro da cidade e dando acesso ao porto, e a Avenida Beira-Mar, levando à Zona Sul; e 3) uma campanha de saneamento para erradicação de doenças como febre amarela e malária.

Na década de 1920 o desmonte do Morro do Castelo ampliou as fronteiras do Centro, abrindo uma nova área de ocupação (a Esplanada do Castelo) e fornecendo pedras para novos aterramentos do mar.

Já com a abertura da Avenida Central, depois Rio Branco, começa a era da densificação da ocupação dos espaços via verticalização (mais detalhes aqui). Em 1929 ergue-se um impressionante arranha-céu, valendo-se da tecnologia do concreto armado: o Edifício A Noite, com 22 andares, na Praça Mauá, 7. 

No início da década de 1940 a abertura da monumental Avenida Getúlio Vargas dividiu o Centro em duas “metades” e acabou resultando no abandono e degradação da Zona Portuária (situação que agora se procura reverter com o Projeto Porto Maravilha).

A abertura da Av. Central, a derrubada do Morro do Castelo e a abertura da Av. Presidente Vargas resultaram na destruição de casas e cortiços — o chamado “bota abaixo” — empurrando as populações de menor renda para os morros, bem como para os subúrbios surgidos com a implantação do trem suburbano já na segunda metade do século XIX (quem leu Dom Casmurro do Machado deve lembrar que a história começa no trem da Central: “Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu.”)

No ano do quarto centenário da cidade (1965) Carlos Lacerda inaugurou a enorme área de parque no Aterro do Flamengo. Nessa época foram realizadas grandes obras viárias ligando as zonas sul e norte da cidade: o Túnel Rebouças e Túnel Santa Bárbara.

Nos anos 70, época do “milagre brasileiro” e do “Ninguém segura este país”, surgiram a auto-estrada Lagoa-Barra, facilitando o acesso à Zona Oeste da cidade, a ponte Rio-Niterói e o metrô. Mas até 1982 para pegar a Lagoa-Barra você tinha que enfrentar o engarrafamento da Rua Marquês de São Vicente.

Nos anos 90 surgiram a Linha Vermelha e a Linha Amarela, grandes vias de circulação previstas no Plano Doxiádis dos anos 60.

Agora que comemora 450 anos e às vésperas das Olimpíadas cariocas, o Rio volta a sofrer grandes intervenções: Porto Maravilha, Parque de Madureira, expansão do metrô até a Barra, VLTs interligando o Centro, BRTs interligando a cidade, reforma do bondinho de Santa Teresa, Museu do Amanhã e da Imagem e do Som, sem falar nas obras especificamente voltadas para as modalidades desportivas como as arenas e centros olímpicos.

HISTÓRIA DOS ATERROS DO RIO

A expansão urbana da cidade do Rio de Janeiro exigiu uma série de intervenções para domar o ambiente hostil. Assim foi que se aterraram mangues, drenaram lagoas e mais tarde se derrubaram morros para com suas pedras avançar mar adentro. (Às vezes me flagro pensando com meus botões que, se a máquina do tempo existisse realmente, no Rio de Janeiro seria perigosa pois, conforme o lugar onde você a utilizasse, poderia ir parar em pleno mar cem, duzentos, trezentos anos atrás!) De igrejinhas antes situadas a beira-mar — como de São Cristóvão, Santo Cristo, São Francisco da Prainha, Santa Luzia e da Glória — hoje a gente nem sente o cheiro da maresia!

O aterro do Flamengo foi o ápice de uma sucessão de aterros marítimos que começou no início do século XX:

  • Com o desmonte do Morro do Senado, onde hoje fica a Praça Cruz Vermelha, na virada do século XIX para o XX, aterrou-se a orla da Saúde, Gamboa e Santo Cristo, para a construção do Cais do Porto, e um trecho da orla da Glória para a abertura da Avenida Beira-Mar.
  • Com o desmonte do Morro do Castelo no início da década de 1920, aterrou-se: (i) o trecho do mar onde em 1936 surgiu o Aeroporto Santos Dumont e (ii) a enseada da Glória, onde em 1926 surgiu a Praça Paris. (Para saber mais clique em "Morro do Castelo" no menu da barra vertical direita.)
Morro de Santo Antônio em foto de Augusto Malta, com o convento e as duas igrejas no único trecho do morro preservado

  • Com o desmonte de parte do Morro de Santo Antônio na década de 1950 aterrou-se a área depois ocupada pelo Museu de Arte Moderna (inaugurado em 1958) e Monumento aos Pracinhas (construído de 1957 a 1960 - foto abaixo). Digamos que essa foi a primeira fase do que denominamos Aterro do Flamengo. Mas desde o final da década de 1940 já se projetava o aterramento ao longo de toda a Praia do Flamengo, dada a necessidade de desafogar o tráfego entre o Centro e a Zona Sul.
  • Somente durante o governo Carlos Lacerda, na década de 1960, criou-se um grupo de trabalho para reavaliar o projeto original do Aterro do Flamengo e dar continuidade às obras. Destacaram-se nesse grupo o arquiteto Affonso Eduardo Reidy, responsável pelos projetos urbanísticos e arquitetônicos, e Roberto Burle Marx, autor do magnífico projeto paisagístico.


Em outubro de 1965, ano do Quarto Centenário do Rio de Janeiro, o Aterro do Flamengo foi entregue à população carioca.

(Textos transcritos do meu livro Guia da Cidade Maravilhosa, com alguns acréscimos.)

VEJA TAMBÉM NESTE BLOG: HISTÓRIA DO RIO DE JANEIRO E MAPAS ANTIGOS DO RIO DE JANEIRO

19.4.15

PALÁCIO GUANABARA: VISITAÇÃO


Palácio Guanabara de Portas Abertas é o projeto de visitas guiadas, realizado com apoio técnico e parceria do Senac Rio. Os visitantes são recepcionados e conduzidos por alunos dos cursos de Turismo e Hospitalidade, que vivenciam na prática o que aprendem em sala de aula. As visitas se dão aos sábados de manhã (9, 10 e 11 horas), de 15 em 15 dias.



O Palácio Guanabara faz parte do patrimônio histórico e cultural do Rio de Janeiro e do Brasil. O imponente prédio foi sede de diferentes governos e hoje se encontra totalmente restaurado.

Construído em 1853, como resistência familiar, foi vendido para a família imperial em 1864. A residência foi reformada para abrigar a Princesa Isabel e o Conde D’Eu, passando a ser conhecida como Paço Isabel. Durante a reforma, o casal plantou inúmeras espécies vegetais exóticas, além de uma fileira dupla de palmeiras imperiais na Rua Paissandu, que marcava o caminho do Paço até a praia do Flamengo.

Em 1890, o Paço Isabel foi incorporado ao Patrimônio da União e rebatizado como Palácio Guanabara. Depois foi repartição militar, morada de Presidentes da República, abrigou o gabinete do Prefeito do Rio e, em 1960, passou a ser sede do Governo do Estado. (Informações transcritas do folheto do projeto)

Escadaria de acesso ao Salão Nobre

 Salão Nobre  em estilo rococó com mobília Luís XV e XVI. "Desde os tempos da Família Imperial, era um dos centros de reunião do Rio de Janeiro. Encontros políticos misturavam-se à música e à poesia. Hoje, também se destina a encontros de autoridades e importantes eventos do Estado." (Informações entre aspas transcritas do folheto do projeto)

Jardim de Inverno com fonte (desligada para economizar água até que se mude o sistema para reaproveitá-la)

Sala "Pé-de-Moleque". Esse calçamento, utilizado nos casarões do período colonial nas áreas destinadas ao uso dos escravos, foi descoberto durante obras de restauração em 2011 e coberto com vidro resistente para melhor preservação.

Ciranda, óleo sobre tela de Djanira exposto (junto com outros quadros brasileiros) na sala Pé-de-Moleque.

Um momento simpático da visita guiada é o pequeno recital do grupo de violoncelistas e contrabaixistas da Ação Social pela Música patrocinada pela Embratel.  

Jardim do palácio projetado pelo paisagista francês Paul Villon no início do séc. XX em estilo geométrico francês. 

Detalhe do Chafariz de Netuno: criança montada em delfim

Capela Santa Teresinha, em estilo neocolonial, construída em 1946 a pedido de Carmela Dutra, a esposa do então Presidente

6.4.15

DICA DE LIVRO: CONFEITARIA COLOMBO - SABORES DE UMA CIDADE

de RENATO FREIRE e ANTONIO EDMILSON MARTINS RODRIGUES
A Confeitaria Colombo, com seus espelhos enormes, mesas de tampo de mármore, piso de ladrilho hidráulico, cadeiras de palhinha, é uma atração turística da cidade. O livro traça um paralelo entre a evolução da Colombo e da cidade nos últimos cento e tantos anos, além de ensinar o “caminho das pedras”, as receitas das iguarias. A seguir, transcrevemos um curto capítulo, "O ovo da Colombo", da PARTE I do livro, “Colombo — Uma história bem temperada” de autoria de Antonio Edmilson Martins Rodrigues. A PARTE II, de Renato Freire, intitula-se “A Colombo e Sua Gastronomia”, a PARTE III é das Receitas, e no final temos a “English version” do texto. Bom apetite!


O ovo da Colombo

Desde que a Colombo foi inaugurada, em 1894, o Rio de Janeiro mudou, o Brasil se transformou, o mundo quase virou de cabeça para baixo. Em pouco mais de 100 anos duas guerras mundiais aconteceram, o homem foi à lua, nações inteiras nasceram e, de uma hora para outra, também foram para o beleléu. A confeitaria viu aparecer o rádio, o cinema, a televisão, o avião, a penicilina, o filtro solar, o micro-ondas, a internet, o rock, o ar-condicionado e o chiclete de bola.

No Brasil, a confeitaria acompanhou o sobe e desce na economia do país. Viu nada menos que nove moedas entrarem e saírem de circulação — coincidentemente, o Real era também a moeda da época da inauguração. Durante esse tempo, a Colombo assistiu a pelo menos três golpes de estado e a 33 homens e uma mulher tomarem posse na Presidência da República. Muitos deles — pelo menos uma vez na vida — atravessaram as portas da Gonçalves Dias para tomar um café.

Em todo esse tempo, o Rio de Janeiro - que deixou de ser a capital do país em 1961 — viu morros virem abaixo, ruas serem alargadas, casas demolidas, a orla mudar de lugar, pontes serem erguidas e túneis abertos em todos os cantos. A cidade mudou. Hoje as confeitarias quase não existem mais. O Centro perdeu parte de sua importância, mas o carioca de verdade, quando quer dizer que está indo para lá, ainda diz simplesmente "Vou à cidade".

Com a reestruturação do Rio, o carioca migrou para a Zona Sul e descobriu a praia, o biquíni, o futebol, a minissaia, a bermuda, o chinelo de dedo, o botequim de esquina, o surfe, as chapinhas de cabelo, o samba e as escolas de samba. Muita coisa se modificou, mas, durante esse tempo todo, a Colombo esteve no mesmo lugar: rua Gonçalves Dias, 32.

O interior da casa mudou pouco durante esse século. As cristaleiras, os lustres, a claraboia, o piso e os espelhos belgas permanecem no mesmo lugar. O cardápio — ainda que guarde boa parte dos quitutes que lhe deram fama — soube se renovar para se adequar aos novos tempos. As frutas tropicais se somaram às importadas, a cerveja divide lugar com os uísques, a feijoada tem posição de destaque no buffet. Em 100 anos, a Colombo viu surgir o cajuzinho, o brigadeiro, o bombom de cupuaçu, a caipirinha, o mil-folhas de creme, o suco de acerola e a Coca-Cola. Mas — de um jeito difícil de explicar — parece que nada mudou, que tudo permanece como há 100 anos.

Esse sempre foi o segredo da casa. Desde os tempos de Manuel Lebrão, a Colombo percebeu que devia permanecer em constante mutação para parecer ser sempre a mesma. Um conceito que vale para a arquitetura, para a decoração, para as atitudes dos empregados e para tudo o que consta do cardápio. É o tal truque. Durante esse tempo todo a confeitaria — como o Rio de Janeiro, a cidade que a abrigou — atravessou crises, enfrentou desafios, festejou vitórias e se quebrou muitas vezes para continuar a ser o que sempre foi: Confeitaria Colombo. Quebrada, reformada, renovada, festiva e, misteriosamente, de pé. Mais ou menos como o ovo da história de Colombo.

30.3.15

NOVOS TEMPOS, NOVA ARTE

A arte contemporânea cada vez mais migra para a favela. Se outrora esta nos deu o samba (sim, os grandiosos desfiles, o maior espetáculo da terra) e depois o funk, agora, quem sabe?, nos dará os novos rumos das artes visuais (tendo por suporte a própria arquitetura)?


19.3.15

A MAGIA DAS ESCADARIAS

Texto de J. Carino com fotos de escadarias cariocas do editor do blog.

Escadaria da Igreja da Penha


Escadaria (tombada pelo município) da Rua Costa Barros, Morro do Livramento

Para mim, as escadarias têm uma espécie de magia. Sempre que me aproximo de uma, fico tentando a decifrar essa dimensão mágica, que tem a ver com a dimensão ascensional.

Ascender, subir, elevar-se – palavras que se associam a redenção, sucesso, vitória: ascender aos céus, subir na vida, elevar-se por seus próprios méritos.

Nossas simples escadas domésticas, ou mesmo as escadas utilitárias dos profissionais - como os pedreiros, pintores, ou todos os que se utilizam desses instrumentos de subir - essas não têm a tal magia; não nos escondem nada, não ameaçam nos surpreender de repente com algo inusitado. Cumprem sua missão de nos elevar do chão, e pronto.

Escadas de acesso à parte nordeste do Salgueiro (Tijuca)

Escadaria de acesso ao Morro do Cruz (Andaraí)

Escadinhas no "Arvrão" (Vidigal)

Já as escadarias parecem sempre nos remeter a uma dimensão transcendental, e mágica. Lembremos, por exemplo, das escadarias imensas de templos localizados em morros ou colinas. Quando chegamos ao pé delas, e olhamos para cima, vemos aquela grande quantidade de degraus posicionados à nossa espera, como um desafio. E já sentimos a sensação de que, ao final, existe algo a descobrir, depois que vencermos a dificuldade de ascensão, com nosso coração cansado do esforço e nossa respiração ofegante, na tentativa de recuperar rapidamente o fôlego. Lá, no termo da subida, haverá uma recompensa, a dádiva imaterial dos que subiram mantendo sua fé.

Mas, mesmo as escadarias leigas nos apresentam essa magia. Nas cidades em que há escadarias, parece que existe sempre alguma coisa que nos espera para além delas, algo que jamais conseguiremos atingir, mesmo tendo chegado ao cimo da longa escada.

Reparem que há sempre magia nessas cidades cheias de ruas íngremes e cobertas de escadarias.

Quando as percorremos, aí pelo Brasil, as cidades coloniais nos apresentam suas escadarias, acompanhando, completando ou cruzando as ladeiras. Parecem sentinelas ordenadas, espiando-nos de uma outra dimensão, como a lembrar-nos, a cada passo, dos esforços exigidos de muitos, desde muitos séculos.

Pedra do Sal, encosta do Morro da Conceição

Largo João da Baiana, encosta do Morro da Conceição. A "escadaria" atrás é grafitada.

Quando chegamos ao alto de uma dessas escadarias, seria natural uma sensação de triunfo, uma espécie de orgulho, ou mesmo uma certa arrogância advinda do sucesso. Olhar de cima é uma metáfora geralmente transformada na realidade, nua e crua, da dominação de uns sobre outros, dos poderosos sobre os fracos, dos ricos sobre os pobres, dos que mandam sobre os que devem obedecer.

Eu, curiosamente, quando subo, lentamente, uma dessas escadarias, e chego ao seu término, lá no alto, sinto-me um pouquinho mais humilde, menos pretensioso. É como se o esforço e a dificuldade vencidos purgassem, ainda que minimamente, minhas possíveis pretensões de ser maior, ou melhor, ou mais poderoso.

Já na descida não vejo magia nas escadarias. Tudo se reduz ao ato simples de descer, mesmo quando envolvido numa paisagem cativante. Talvez porque, descendo, podemos reduzir quaisquer pretensões à real condição em que todos vivemos: cá embaixo, no mesmo nível, igualados tanto na possibilidade de subir quanto na inevitável condição de, um dia, ter de descer.

Claro, meu prezado leitor, que não resisto a utilizar as escadarias em sua imagem usual: a de metáforas da vida, no seu sobe e desce constante e inexorável. Mesmo nossa vida orgânica é isto: do nascimento como base da escadaria, passando pelo ponto mais alto, no vigor da juventude e da maturidade, depois descendo, na direção da velhice, até voltar à base, representada pela morte.

Independentemente da magia que vejo nelas, acho as escadarias lindas, e sempre rendo uma homenagem muda a essa maravilhosa invenção, desde que foram escavadas nas rochas ou em troncos, com esses degraus que nos permitem ascender ou descer.

Os degraus de uma escadaria, com sua beleza simples e ordenada, guardam em si marcas indeléveis dos passos que nelas subiram. Num dia calmo, num momento mais silencioso do dia, talvez seja possível até ouvir o ruído de tais passos, que já subiram, desceram e para sempre se perderam nas escadarias do tempo vivido.



Escadaria da Rua Andrés Belo que sobe da Glória a Santa Teresa (cenário do conto "O Morto" do meu livro Édipo)

Escadaria Selaron (Lapa)

Escadaria da Praça Pio XI (bairro Jardim Botânico)

Degraus & calçamento pé-de-moleque (Santa Teresa)

Morro da Providência

Mesma escadaria de acesso ao Morro da Providência agora pintada de rosa e com a letra da canção Aluga-se ("Nós não vamos pagar nada...") de Raul Seixas

Comunidade Santa Marta (Botafogo)

Escadaria de acesso ao Morro dos Cabritos, decorada com ladrilhos pelo rapper americano Don Blanquito (Copacabana)

Escadinha "patriótica" perto da Igreja de São Francisco da Prainha, acesso ao Morro da Conceição

Escadaria com azulejos na lateral da Igreja de Santa Edwiges (São Cristóvão)

Escadinhas no Morro da Vendinha, Barra de Guaratiba

J. CARINO é professor universitário aposentado, consultor e escritor. Está no Facebook. Para ler outras crônicas suas, compre seu livro Olhando a Cidade e Outros Olhares.

13.3.15

QUAL A ORIGEM DA EXPRESSÃO "CIDADE MARAVILHOSA"?

UMA VERSÃO AMPLIADA DESTE ESTUDO FOI PUBLICADA EM 2022 PELA REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO (NÚMERO 488, PÁG. 265) QUE VOCÊ PODE ACESSAR CLICANDO AQUI
 

O primeiro registro na imprensa carioca do epíteto Cidade Maravilhosa aplicado ao Rio de Janeiro está na página 2 do jornal O Paiz de terça-feira, 16 de fevereiro de 1904, pleno Carnaval. Lemos ali que os foliões de um carro alegórico que criticava as carrocinhas que tolhiam “a canina estirpe de viver e gozar da plena liberdade das ruas desta capital [...] não contentes com os protestos feitos de viva voz, ainda distribuíam estes versos em avulso:

MATRICULADOS E NÃO MATRICULADOS

Esta gaiola bonita
Que ahi vai sem embaraços
É a invenção mais catita
Do genial Dr. Passos

As ruas de ponta a ponta
Subindo e descendo morros
Por onde passa da conta,
Dos vagabundos cachorros.

Agarra! Cerca! Segura!
— Grita a matilha dos guardas —
Correndo como em loucura
Com um rumor de cem bombardas.

Terra sempre em polvorosa
Sem igual no mundo inteiro,
Cidade maravilhosa!
Salve, Rio de Janeiro!

A partir daí, vemos referências esparsas à cidade do Rio como “maravilhosa”, por exemplo:

·       Na pág. 1 de O Paiz de 4/5/1904, em matéria intitulada “Uma Obra Politica”, lemos: “A população comprehendeu bem a grandeza do serviço que o governo lhe vai prestar, negando-se a crear embaraços á sua acção, como queriam agitadores profissionais, antes, facilitando todo os accôrdos e sujeitando-se a todas as prescripções legaes, no bom intento de ver transformada, embellezada e saneada esta cidade maravilhosa, de cuja fama e de cuja força depende o equilíbrio da seiva econômica em todos os órgãos do paiz.”

·       Na pág. 3 de A Notícia de 22-23/5/1907, em matéria intitulada “No Palacio Monroe”, lemos (transcrito na ortografia da época): “Está ainda na lembrança de todos os habitantes desta cidade maravilhosa a rapidez com que o general [...] concluio o Palacio Monroe, para o qual aproveitou o mesmo plano e grande parte de elementos que serviram na architectura do pavilhão brasileiro da Exposição Universal de S. Luiz”.

·     Na pág. 2 de A Notícia de 6-7/7/1909, em matéria intitulada “Dez Annos Atrás”, lemos: “ [...] passeando esta cidade de tão lindas ruas novas, percorrendo as avenidas, respirando um ar que não é o das antigas vielas infectas, habitando uma nova cidade maravilhosa e salubre [...]”.

Em 1908 montou-se na Urca a Exposição Nacional comemorativa do centenário da abertura dos portos, na época uma espécie de "cidade artificial" asséptica & deslumbrante, como hoje, digamos, uma Disneyworld. Nesse período torna-se comum na imprensa designar essa exposição de “cidade maravilha” ou “cidade maravilhosa”

Nesse contexto, Coelho Neto vem a publicar, na página 3 da edição de 29-30 de outubro de 1908 de A Notícia (e não em 28/10 como afirmam quase todas as fontes), a crônica “Os Sertanejos”, à qual se atribui falsamente a “criação” do termo Cidade Maravilhosa para designar o Rio de Janeiro. Nada mais longe da verdade. 


Crônica "Os Sertanejos" de Coelho Neto na edição de 29-30 de outubro de 1908 de A Notícia. Acervo da Fundação Biblioteca Nacional - Brasil.

A crônica narra a história de um grupo de sertanejos “contratados para cantar e dansar no recinto da Exposição”. Após conhecerem a cidade em si, “a cidade formidável, a cidade devoradora d’homens, com as avenidas largas, margeadas de palácios colossaes, com o mover incessante de uma multidão apressada, com o reboliço vertiginoso dos vehiculos, com a zoeira dos automoveis, com o troar dos pregões, com todo esse confuso movimento que é a vida, desde o passo subtil, despercebido de um mendigo andrajoso que se esgueira ao longo dos muros, resmungando lamúrias, até a estropeada heroica de um regimento com a bandeira desfraldada ao vento, as armas lampejando ao sol e os clarins resoando em notas marciaes”, ao adentrarem a Exposição, “na avenida dos palácios brancos”, são tomados pelo assombro:

— Assumpta, Clodina: não parece que a gente tá vendo uma cidade encantada como aquellas das história [sic][...]

Era ao cahir da tarde, uma tarde elegíaca, violácea, quieta, sem o silvo de uma cigarra. Os penhascos pareciam de lápis lazuli e os palacios, ainda mais brancos sobre o fundo escuro das rochas portentosas, alvejavam marmóreos. Longe, nos estábulos, o gado tino mugia, nostálgico, pondo no silêncio enlevado a tristeza bucólica das várzeas, em contraste com o requinte da cidade maravilhosa [a saber, a Exposição; para ler a crônica de Coelho Neto completa clique aqui].

Vemos portanto que constitui um erro atribuir a Coelho Neto a designação de Cidade Maravilhosa para o Rio. E ainda que, em sua crônica, a "cidade maravilhosa" se referisse ao Rio como um todo, ele não teria sido pioneiro nessa designação, como vimos.

De setembro a dezembro de 1911, a poetisa francesa Jane Catulle Mendès, viúva do escritor e poeta Catulle Mendès, visitou o Rio de Janeiro, encontrando uma cidade recém-emergida de um “banho de loja” que foi a reforma urbanística de Pereira Passos. Encantada com a cidade, sobretudo pela flora e belezas naturais, escreveu uma série de poemas de “amor ao Rio” publicados em Paris em 1913 em volume intitulado La Ville Merveilleuse (A Cidade Maravilhosa).

Já no primeiro poema descrevendo a chegada (de navio, na época) na Baía da Guanabara, escreve a poetisa: Jamais tant de splendeurs n’ont ébloui les yeux! C’est ici le pays de toute la lumière (Jamais tantos esplendores deslumbraram os olhos ! Aqui é a terra de todas as luzes) e no poema final, "Adieu" ("Adeus"), escreve: Rio douce et fougueuse au visage doré (Rio doce e briosa de semblante dourado”). E no poema “Dans Longtemps” (Daqui a muito tempo) a autora não poupa declarações de amor à cidade: Cité voluptueuse et tendre (Cidade voluptuosa e meiga) Cité d’or (Cidade de ouro) Rio radieuse, ô Ville des étoiles (Rio radiante, ó Cidade das estrelas) Merveilleuse Rio, Ville de la Beauté (Rio Maravilhoso, Cidade da Beleza). (Saiba mais sobre Jane Catulle Mendès e seu livro de poemas clicando aqui.)

Crônica "A CIDADE MARAVILHOSA" publicada na coluna "Contos de Hoje" de Eugenio de Lemos na edição de 20-21/3/1913 de A NotíciaAcervo da Fundação Biblioteca Nacional - Brasil. 

Na edição de 20-21/3/1913 (pág. 3), A Notícia publica uma crônica, na coluna "Contos de Hoje" de Eugenio de Lemos, sobre como ficou bonita a cidade após as reformas urbanísticas, intitulada A CIDADE MARAVILHOSA (em maiúsculas e negrito). É a primeira vez que o título de uma matéria jornalística refere-se nestes termos ao Rio. A certa altura da crônica, lemos: Cidade Maravilhosa! É a exclamação de todos que nos visitam.” Mais adiante deparamos com este trecho profético: "A cidade progride e avança; toma o mar e toma as montanhas, e estende-se para as costas, varando as rochas. Ainda não temos os caminhos subterrâneos, mas para lá caminhamos acceleradamente. E quando a cidade tiver tudo isso, quando ella não construir os seus palacios apenas na planicie, mas os levar para as montanhas, quando ella habitar tambem os [sic] ilhas encantadoras de sua refulgente bahia e o mar se encher de elegantes yachts, como hoje as avenidas se enchem de automoveis, então ella poderá desafiar as que mais bellas o forem. Ella já é a cidade maravilhosa."

Em 1922 Olegário Mariano publica pela editora Pimenta de Mello (com uma segunda edição em 1930 da Companhia Editora Nacional) um livro de poesias intitulado Cidade Maravilhosa O poema inicial que dá nome ao livro é uma louvação ao Rio de Janeiro, a "Cidade do Amor e da Loucura", “Cidade do Êxtase e da Melancolia”, “Flor das Cidades”, em suma, “Cidade Maravilhosa!”. (O poema completo pode ser lido na postagem Poemas de Amor ao Rio.)

A edição de 10 de novembro de 1927 do Jornal do Brasil (que você pode consultar na Hemeroteca Digital) publica uma nova versão da já citada crônica de Coelho Neto, agora denominada simplesmente "Sertanejos", bastante modificada, onde a Exposição Nacional dá lugar a um cinema e, agora sim, a cidade maravilhosa alude ao Rio.

Em 1928 Coelho Neto publica seu livro de contos A Cidade Maravilhosa, mas ao contrário do que se pensa, a "cidade maravilhosa" que dá nome ao conto inicial não é o Rio, é uma "cidade de sonho", imaginária, evocada à noite por uma queimada. "

Aqui a tem, a sua cidade maravilhosa. Viu-a de longe, era linda. Veja agora. Ilusões, fanciulla [criancice]. Adriana olhava estarrecida. Mas não era a destruição das árvores, não eram aquelas cinzas pardacentas, ainda mornas, não eram aqueles troncos denegridos, aqueles ramos que rechinavam [=queimavam] amojados de seiva que a comoviam, mas a lembrança da cena da estrada, a sedução do homem sinistro a mostrar-lhe, ao longe, no fogaréu rutilante, a cidade maravilhosa, cidade do sonho, cidade do amor." (Para ler o conto inteiro clique aqui.)
Em 1o de setembro de 1933, o locutor César Ladeira estreou na Rádio Mayrink Veiga, lendo as “Crônicas da cidade gozada”, de Genolino Amado, mas depois de receber cartas e telefonemas criticando o título, mudou-o para “Crônicas da Cidade Ma-ra-vi-lho-sa”, conforme lemos em Henrique Foréis Domingues, No Tempo de Noel Rosa: O Nascimento do Samba e a Era de Ouro da Música”.

Em 1935 o mesmo César Ladeira escreve uma revista, que inclui três canções de Ary Barroso (Garota colossal, parceria com Nássara, Grau dez, parceria com Lamartine Babo e o samba Foi ela”), intitulada "Cidade Maravilhosa, apresentada no Teatro Recreio.

No Carnaval de 1935, a marcha Cidade Maravilhosa de André Filho, gravada por Aurora Miranda, enfim consagra o termo pelo qual hoje todos conhecemos o Rio de Janeiro, Patrimônio Cultural da Humanidade, com muito orgulho, com muito amor...


Foto do Mirante do Pasmado tiradas pelo editor do blog. Pesquisas em periódicos antigos realizadas pelo editor do blog na Hemeroteca Nacional e Biblioteca Nacional.

ADENDO EM 20/12/2015: TEXTO DE ALEXEI BUENO SOBRE A ORIGEM DO EPÍTETO "CIDADE MARAVILHOSA":

Jane Catulle Mendès chegou ao Rio de Janeiro com o prestígio, no momento mais francófilo da história do Brasil, de ser a viúva de Catulle Mendès, um dos poetas mais conhecidos da França na segunda metade do século XIX, e fundador, com Jean-Xavier de Ricard, do famoso Le Parnasse Contemporain, publicação da qual surgiu a escola parnasiana, verdadeiro estilo literário oficial entre nós na época. Encarecia-lhe ainda mais o prestigio a aura da tragédia, pois dois anos antes, em 1909, Catulle Mendès morrera de forma estúpida, em Saint-Germain-en-Laye, ao cair e ser esmagado pelo trem em que viajava, pensando já haver chegado à estação.

No período em que esteve no Rio de Janeiro, entre 20 de setembro e 6 de dezembro de 1911, Jane Catulle Mendès foi a convidada de honra das mais importantes figuras da elite da Capital Federal, visitou os mais elegantes salões que entre nós existiam, foi recebida pelo presidente da República e deu três conferências com grande sucesso, uma delas no Theatro Municipal, intitulada "Les femmes de lettres françaises". Se imaginarmos quão bem ela foi recebida, e a época realmente gloriosa para a cidade em que isso se passou — o pouco mais de decênio e meio entre o fim da gestão de Pereira Passos e a destruição do morro do Castelo e inicio da verticalização da cidade — fica claro o motivo do encantamento que a inspirou a escrever e publicar, em 1913, em Paris, o livro de poemas intitulado La Ville Merveilleuse, Rio de Janeiro, poèmes. Extasiada com a beleza da cidade, os poemas, muitos deles dedicados a ilustres figuras da época — o presidente Hermes da Fonseca, o senador Pinheiro Machado, a mecenas e grande dama da sociedade Laurinda Santos Lobo — faziam a apologia em regra da cidade e, graças ao título do livro, nascia o seu epíteto plenamente consagrado. É óbvio que em textos anteriores, especialmente na imprensa, tal expressão ja fora usada, como bem pesquisou Ivo Korytowski, o que deve ter acontecido com todas as cidades notáveis do mundo. Na obra-prima de Jean Vigo, L'Atalante, de 1934, apenas como exemplo, o personagem Père Jules, interpretado por Michel Simon, interpreta uma canção cujo primeiro verso é: “Paris, Paris, ville infâme et merveilleuse”. Apesar do infâme pelo meio, nela encontramos a exata expressão ville merveilleuse, que nunca substitui, no entanto, o de Ville Lumière para Paris. Parece-nos, portanto, que a hoje totalmente esquecida Jane Catulle Mendes foi, senão a criadora, a oficializadora do epíteto do Rio de Janeiro.

(Texto de Alexei Bueno extraído de Rio Belle Époque: Álbum de imagens, Bem-Te-Vi, 2015)