1.3.17

O MORCEGO, de LIMA BARRETO (com fotos do Carnaval carioca de 2017)


Todo ano faço aqui neste blog uma crônica do Carnaval, para recordar quando ficar velhinho (aos 65 anos estou longe disso). O Carnaval da Sapucaí vocês devem ter visto na televisão. O maior espetáculo da Terra, feito por gente humilde, do morro. O paradoxo brasileiro. Mas em época de crise sai mais em conta o Carnaval de rua. Ano após ano o Carnaval nos logradouros cariocas se agiganta. A cidade vira um enorme parque de divertimento. Com a nova orla no Centro, o VLT e a Rio Branco repaginada o Centro ganhou vida nova, e no Carnaval isso ficou ainda mais patente. As ruas são do povo como o céu é do condor. Este ano, com o Carnaval caindo no final de fevereiro, quando o auge do calor já havia passado, deu para curtir a folia diurna (sem o "sol inclemente" da crônica abaixo). Chegou até a chover um pouquinho no domingo. Engraçado ver o Centro, por onde geralmente circulam pessoas sérias em seus afazeres diários (ou turistas), tomado de assalto por foliões fantasiados. As fotos contam o resto. E vai de quebra texto de Lima Barreto sobre o Carnaval, publicado originalmente no Correio da Noite no início de 1915 e que O Globo reproduziu quatro dias atrás junto com mais quatro textos de grandes escritores sobre os festejos de Momo. Para acessar clique aqui.

Filhos de Gandhi na Zona Portuária

O MORCEGO, de LIMA BARRETO

O carnaval é a expressão da nossa alegria. O ruído, o barulho, o tantã espancam a tristeza que há nas nossas almas, atordoam-nos e nos enche de prazer.

Todos nós vivemos para o carnaval. Criadas, patroas, doutores, soldados, todos pensamos o ano inteiro na folia carnavalesca.

O zabumba é que nos tira do espírito as graves preocupações da nossa árdua vida.

O pensamento do Sol inclemente só é afastado pelo regougar de um qualquer Iaiá me deixe.

Segunda-feira: roda de samba na Pedra do Sal 

Segunda-feira: concurso de turmas de fantasia  na Cinelândia

Há para esse culto do carnaval sacerdotes abnegados.

O mais espontâneo, o mais desinteressado, o mais lídimo é certamente o Morcego.

Durante o ano todo, Morcego é um grave oficial da Diretoria dos Correios, mas, ao aproximar-se o carnaval, Morcego sai de sua gravidade burocrática, atira a máscara fora e sai para a rua.

A fantasia é exuberante e vária, e manifesta-se na modinha, no vestuário, nas bengalas, nos sapatos e nos cintos.

E então ele esquece tudo: a pátria, a família, a humanidade. Delicioso esquecimento!... Esquece e vende, dá, prodigaliza alegria durante dias seguidos.

Nas festas da passagem do ano, o herói foi o Morcego.

Passou dois dias dizendo pilhérias aqui, pagando ali; cantando acolá, sempre inédito, sempre novo, sem que as suas dependências com o Estado se manifestassem de qualquer forma.

Ele então não era mais a disciplina, a correção, a lei, o regulamento; era o coribante1 inebriado pela alegria de viver. Evoé, Bacelar!

Jovens foliões

Jovem folião

Essa nossa triste vida, em país tão triste, precisa desses videntes de satisfação e de prazer; e a irreverência da sua alegria, a energia e atividade que põem em realizá-la, fazem vibrar as massas panurgianas2 dos respeitadores dos preconceitos.

Morcego é uma figura e uma instituição que protesta contra o formalismo, a convenção e as atitudes graves.

Eu o bendisse, amei-o, lembrando-me das sentenças falsamente proféticas do sanguinário positivismo do senhor Teixeira Mendes3.

A vida não se acabará na caserna positivista enquanto os “morcegos” tiverem alegria...

Correio da Noite, Rio, 2-1-1915.

1 Sacerdote da deusa romana Cibele, que dançava ao som de flautas, címbalos e tamborins.
2 Aquele que segue cegamente um chefe.
3 Raimundo Teixeira Mendes (1855-1927), pensador brasileiro, líder do Apostolado Positivista.

Saxofonista do Favela Brass Project em canja na Heineken Jazz Fest na Rua do Lavradio

Terça-feira: Concurso de turmas de bate bola na Cinelândia

A praça é do povo...

Mascarada

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