15.11.13

CHÁCARA DO CÉU


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Chácara do Céu vista do Parque Dois Irmãos
Domingo desses, visitando o Parque Dois Irmãos (ver postagem anterior), por curiosidade enveredei por uma trilha (foto abaixo) para ver onde ia dar — suspeitei que daria na Comunidade Chácara do Céu. Depois de passar por um campo de futebol fui dar num velho muro com uma passagem para umas “construções” atrás (uma casa? conjunto de casas?). Uma senhora (a Dona Vera) que conversava com uma idosa simpaticamente me abordou, cumprimentou e orgulhosa apresentou à Chácara do Céu. Pequena e simpática comunidade (favelinha) onde as pessoas,  ao passaram umas pelas outras, se cumprimentam, como se costuma fazer pelos caminhos do interior (na cidade grande esse hábito se perdeu, também pudera, é tanta gente). A Dona Vera, que mora na comunidade desde criança, contou a história de um grileiro que se apossou das terras do atual parque e pretendia erguer um enorme hotel por lá — foi para impedir a construção desse hotel que a Prefeitura no início dos anos 90 transformou a área em parque municipal. Um turista pós-adolescente hospedado num hostel do Vidigal perambulando por lá e uma família inteira que viera ao encontro de um pessoal para um piquenique são testemunhos dos novos tempos de livre circulação pós-UPPs (antes até o parque era perigoso). Gente boa da comunidade, acolhedora, conversadora, tem até terrenos e casas pra vender, vinte, trinta mil, alguém se habilita?

 Trilha que liga o Parque Dois Irmãos à Chácara do Céu
Num texto em PDF disponível na Internet (para ler clique aqui) mas sem indicação de autor, encontro dados interessantes sobre a história das favelas na Zona Sul, incluindo a Chácara do Céu:

"A presença de favelas na Zona Sul da cidade remonta ao início do século XX, coincidindo com o período da ocupação dos bairros da Zona Sul. Concomitantemente com o desenvolvimento urbano da área e a implantação dos equipamentos urbanos necessários a ocupação pelas classes abastadas, a população pobre se dirigiu para lá a fim de ocupar áreas não aproveitadas pelo capital imobiliário. [...] É o caso também da favela Chácara do Céu, que teve sua formação a partir de 1920, com a instalação de trabalhadores nos terrenos pertencente à companhia Miranda Jordão, que pretendia instalar no Morro Dois irmãos uma linha férrea. Os trabalhadores da companhia fixaram residência e deram inicio às obras, mas a linha férrea nunca foi implantada, com o caminho aberto pelos trabalhadores vindo a se tornar a atual continuação da Avenida Niemeyer. A favela Chácara do Céu, conforme relato de uma moradora presente na favela desde sua formação, 'cresceu junto com o bairro do Leblon, e eles (o bairro), não se incomodavam com a gente, porque todo mundo trabalhava por aqui, não havia tanta bandidagem'."

Vista da trilha
No Acervo Digital de O Globo procurei antigas notícias sobre essa comunidade. Matéria de primeira página de 30 de janeiro de 1933, denunciando uma ameaça de despejo que pairava sobre os moradores (por parte da Empresa Industrial da Gávea numa época em que existiam várias fábricas na Zona Sul), informava que “entre os moradores, conforme assignalámos [mantivemos a grafia original], ha alguns que nasceram lá. Outros residem no referido morro agora disputado com energia, ha 12, 15 e mais annos e nunca ninguem os incommodou. É uma montanha íngreme, de subida penosa para o que foram aproveitadas as suas escarpas. Ha logares por onde se transita sobre a rocha viva. Só os realmente necessitados podem escolher morada em logar nas condições do morro do Ipanema [Morro Dois Irmãos]. Foi ali que os párias se acoitaram e vão vivendo humildemente com a esposa e os filhos, aguardando melhores dias. Com a crise, as moradas cresceram e só na corôa da pittoresca montanha contam-se cerca de 300 barracões, todos elles cheios de mulheres e creanças. Despejados que sejam esses moradores necessitados, para onde irão elles, nas condições em que se encontram em maioria, sem emprego, sem dinheiro, sem recursos, emfim?”

Casa com vista para o mar
Nos anos 50, antes do advento dos motéis, casais que subiam de carro a Rua Aperana em busca de um “lugar afastado” para seus “colóquios amorosos ilícitos”, como se dizia na época, eram prato feito para ladrões escondidos nas copas das árvores, onde tinham “um estratégico posto de observação”. “Momentos depois de estacionarem os autos os casais são surpreendidos pelos assaltantes que pulam das árvores, não possibilitando nenhuma reação”, informa O Globo de 27 de agosto de 1957. A edição matutina de 4 de janeiro daquele mesmo ano já noticiara à página 3: “A ‘Chácara do Céu’, também conhecida por ‘Zigue-Zague’, é um local além da Rua Aperama, atrás do Hotel Leblon, e para atingi-lo é necessário dar muitas voltas. É lugar procurado para colóquios [encontros amorosos], por ser aparentemente tranqüilo. Ali muitos casais já foram assaltados ou postos a correr por meliantes. Não faz muito tempo, uma môça perseguida por um ladrão, que já pusera em fuga o seu namorado, embrenhou-se no mato, e, não conhecendo a região, caiu de alta pedreira, na Avenida Niemeyer, tendo morte horrível. Muitas vezes a ‘Chácara do Céu’ já ocupou o noticiário dos jornais, sempre de permeio com histórias de roubos, sangue e adultério.”

Panorama da Chácara do Céu
A Chácara do Céu já foi rota de fuga de traficantes do Vidigal mas com a pacificação se tornou uma comunidade bucólica, espremida entre o paredão do Dois Irmãos e o Parque, com belos panoramas para o oceano e moradores simpáticos e acolhedores, como tive a oportunidade de constatar. Um senão: uma moradora exprimiu sua revolta com a política da administração do parque de substituir árvores frutíferas consideradas exóticas, como jaqueiras (com que a comunidade se habituou a conviver), por espécies nativas.
 
Varal

Simpáticos cãezinhos

Rocha acima

A laje dos seus sonhos. As lajes são uma solução inventiva da arquitetura informal/popular favelada, terraços construídos sobre os telhados onde se pode tomar banho de sol ou promover um animado churrasco (às vezes desfrutando bela vista), ao contrário das varandas dos prédios de classe média, geralmente vazias, subutilizadas.

Um comentário:

Maria Jussara disse...

Vejo sempre coisas linda do Rio que você posta! Soube que a casa onde foi filmado o Sítio do Pica Pau Amarelo (1977-1982) é ai no Rio descubra alguma coisa e poste aqui!!