23.3.13

O IMPREVISTO E O INESPERADO, de Teresa Souza



Frescão é um meio de transporte muito confortável e que adoro.
Dá para colocar a agenda em dia, verificar extratos, acertar a sobrancelha, ler o jornal, cochilar no ar condicionado, etc. etc. etc.
Coisas  simples e que geralmente não conseguimos tempo para fazer ao longo do dia.
Quando eu chegava ao Centro da cidade, um telefonema anunciando um imprevisto cancelou o meu compromisso. 
E agora? Eram 10 horas da manhã e eu só precisava estar em Ipanema às 13. O que fazer?
Descer do ônibus e voltar para o Jardim Botânico? Nada disso.
Resolvi me divertir no Centro do Rio e fazer coisas que normalmente só fazemos em países distantes.

Desci na rua 1º de março e a Igreja do Carmo estava aberta!
Só entrei lá em criança em algum casamento de família.
Como é linda! Enorme!
Pouquíssimas pessoas em um silêncio sepulcral à meia-luz.
Um som bem baixinho onde Roberto Carlos, o rei, cantava uma canção religiosa.
Sentei e me pus a observar: as imagens, a construção, os vitrais, as cúpulas, o altar, o silêncio. O silêncio.
Fiz uma oração e saí feliz continuando o meu caminho.


Seguindo em frente lembrei, graças a Deus e à Igreja do Carmo, da exposição sobre Leonardo Da Vinci na Casa França Brasil a poucos metros dali.
Que homem genial! Que sensibilidade, que arte maravilhosa.
Descobri que Da Vinci é sépio. A exposição é toda cor sépia. 
As imagens, os papéis, os objetos, os códices.
Ele disse: “Quando o espírito não trabalha com a mão, não existe arte.” 

Saí de lá uma pessoa melhor, muito melhor. 
Saí de lá emocionada pela oportunidade de ter visto o que vi.


Quando me dirigia para o metrô percebi que a Igreja da Candelária também estava com as portas abertas. Seria um sinal divino?
Ia ter uma missa meio-dia e meia.  
Vi os desenhos pintados na calçada dos meninos mortos na chacina. 
Vi a cúpula mais bonita de todas.
Ouvi um órgão gregoriano.
Vi o tapete vermelho enrolado em um grande carretel. 
Vi o padre com seu manto branco arrumar o altar.

Me benzi e me retirei.
Abençoada por Deus e Da Vinci.


Texto do livro de crônicas Palavra Carioca reproduzido com autorização da autora. O livro está à venda na livraria da Casa de Cultura Laura Alvim. Visite o blog da autora O Rio Que Eu Piso.

2 comentários:

Vera Dias disse...

Obrigada pela "dica".

Papel de Roça disse...

Gostei!!!!! boa idéia! sempre Rio, mais Rio, mais Rio. Ivo fui conferir o prédio da Casa Daros e adivinha foto de quem encontrei lá ? rsrsrsrs
abraço, sheila castello