26.11.05

VINICIUS: OS AMORES DE UM POETA


"Que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure." Nove esposas teve Vinicius. Os relatos sobre as nove esposas foram extraídos do livro Vinicius de Moraes: o poeta da paixão — uma biografia, de José Castello (Companhia das Letras, 1994). Excelente livro!


1- Tati de Moraes (1938-50):

Vinicius chega à casa de Carlos Leão sempre meio tímido, e se instala num sofá, na companhia daquelas homens mais velhos e mais sábios. E, deixando-se embalar pela conversa, se perde em divagações. Agora se dá conta de que está diante de uma moça esperta chamada Beatriz Azevedo de Mello, a Tati, irmã mais nova de Ruth, a mulher do anfitrião. Tati, que mora em São Paulo, passa uns dias de férias com a irmã. Vinicius se encanta de imediato, mas se mantém discreto. Sabe esperar. [...]

Tati, que está noiva de um rapaz da alta burguesia paulista, tem uma paixão fulminante por Vinicius. [...] A casa de seu pai é freqüentada pela intelectualidade paulista, que a enche de afagos e de presentes. Monteiro Lobato, um dos mais assíduos, é tão encantado por ela que chega a batizar uma personagem de seu As reinações de Narizinho, um doce peixinho vermelho, de Tati. Foi mais longe: inspirou-se em Tati, mais precisamente em seu delicioso narizinho arrebitado — que ela, nos anos 50, destruirá com uma plástica de gosto duvidoso a que se submete nos Estados Unidos —para compor sua Narizinho. [...]

Contra a vontade de sua família, e já siderada pelo charme de Vinicius, ela rompe o noivado. Seus pais vêem o poeta como um rapaz perdido em sonhos improváveis, que trabalha meio vagamente como jornalista, nunca usou seu diploma de direito e tem uma vida sem rumo. Além de tudo, tem essa mania, que só poucos conseguem transformar em vocação: a poesia. (págs. 101-2)

2- Regina Pederneiras (fins de 1945-46)

Apesar de tudo, a vida transcorre serena no Leblon. Até que uma mulher vem fazer o mundo do poeta desabar. Chama-se Regina Pederneiras, é nove anos mais moça que ele — está com 23 anos — e trabalha como arquivista do Itamaraty. Os dois se conhecem em fins de 1945. O casamento com Tati entre em crise. [...]

A carioca Regina Pederneiras é uma mulher de pele muito branca, olhos verdes, pequenina e gordinha, conhecida por sua vivacidade e extroversão. É uma mulher charmosa, mas pouco vaidosa, que não se veste bem. [...]

Quase todo dia, ela e Vinicius encerram o expediente num barzinho em frente ao Itamaraty, onde sorvem seguidos cálices de cachaça de macieira — a bebida preferida da arquivista. Vinicius, por fim — e sem muita convicção — sai de casa. Regina toma o controle da situação. Casam-se no religioso, numa pequena igreja de Petrópolis...

O casamento é uma surpresa mesmo para os parentes mais próximos dos noivos. Seu único irmão, Arnaldo Pederneiras, estuda a essa época num colégio interno em São Paulo. Um dia, é pego de surpresa por um telefonema da mãe, d. Hilda Pederneiras: "Meu filho, tenho uma novidade", ela começa. "Sua irmã se casou com Vinicius de Moraes." Arnaldo é um rapaz desligado: "Ah, é? E quem é ele?", pergunta. A mãe responde: "Vinicius é um funcionário do Itamaraty." Faz uma pausa e comenta: "Ah, e também escreve umas poesias..."O irmão não gosta nada do que ouve. Diz: "Ih, em que fria minha irmã se meteu! Casar logo com um poeta..."

O casamento não dá certo e nem um ano depois de se conhecerem Regina Pederneiras decide abandonar Vinicius. O poeta cai em profunda depressão. (págs. 132-33)

3- Lila Esquerdo Boscoli (1951-56)

1951. O cronista Rubem Braga entra, agitado, no Bar Tudo Azul, no posto seis, em Copacabana. [...]

Nessa noite, Rubem Braga chega acompanhado de duas mulheres exuberantes: Lila Esquerdo Boscoli e Danuza Leão. Braga está apaixonado por Danuza, de quem Lila é grande amiga. E se aproveita de Lila para se aproximar de seu amor secreto. Procura disfarçar sua ansiedade invertendo a situação e encenando para lila o papel de Cupido. "Vai chegar um amigo meu daqui a pouco e vai ser muito chato", avisa, encarando Lila, logo que se sentam. "Chato por que se ele é teu amigo?", ela se surpreende. "Chato porque eu sou muito amigo da mulher dele, mas sei que vocês dois vão se apaixonar."

[...] Minutos depois, discreto, pede licença e vai até o balcão telefonar para Vinicius. "Quero que você venha ao Tudo Azul agora mesmo", ordena. "Por que essa pressa?", o poeta quer saber. "Não adianta porque não vou explicar. Faça o que eu estou dizendo." [...] Pouco depois, o poeta, sempre frágil diante das armações do sorumbático Braga, entra no bar. "Não posso acreditar", Lila pensa ao vê-lo. "Então o tal amigo é o Vinicius de Moraes?" Lila Boscoli, uma leitora voraz de poemas, tem há muito tempo um ídolo: Vinicius de Moraes. Agora o ídolo desce do pedestal e se materializa diante dela como candidato ao posto de grande amor.

Rubem Braga não mede as palavras nas apresentações. Levanta-se e diz: "Esta é Lila Boscoli, este é Vinicius de Moraes... e seja o que Deus quiser." (págs. 153-4)

4- Lucia Proença (1957-62)

Lucinha Proença faz uma viagem a Paris. Vai sozinha, de navio, acompanhada apenas do filho pequeno, João Pedro. O marido irá encontrá-la dias mais tarde. Durante a travessia do Atlântico, mergulhada na melancolia de alto-mar, Lucinha se põe a refletir sobre seu casamento. [...] "Meu Deus, eu não tenho mais nada a ver com o Jorge". [...]

Desembarca. Paris a envolve e ela se dedica apenas ao presente. Um dia, está circulando por uma avenida quando uma voz masculina a chama aos gritos. Vem de um carro que diminui a velocidade. Vinicius está ao volante. Os dois se cumprimentam e ele pede seu endereço parisiense. É segunda-feira. O poeta a convida para jantar no dia seguinte. Lucinha, difícil, diz que só pode na sexta. Assim que fala, se corrige: "Mas é Sexta-Feira Santa..." E, algo constrangida, conclui: "Talvez seja melhor ficar para outro dia." Vinicius, senhor de si, não a deixa esmorecer: "Não, Lucinha, não é Sexta-Feira Santa. É Sexta-Feira da Paixão", rebate. Está tudo dito. Jorge chegará na segunda. Lila [esposa do poeta], que também está no Brasil, na terça. Os dois sabem que não têm tempo a perder. (pág. 206)

5- Nelita de Abreu (1962-67)

Nelita, na exuberância de seus vinte anos, [...] é uma moça comum. Estuda pedagogia na PUC do Rio, leva a vida metódica de quem tem um namoro sério e faz planos fantasiosos para o casamento. [...] Estamos em junho quando sua prima, Noelza Guimarães, tentando animá-la, a convida para uma festa em sua casa. Uma mulher exuberante com quem Vinicius de Moraes tivera, então, um rápido flerte. [...]

Noelza ajuda, agora, a prima a se aproximar de Vinicius. Nelita vai à festa de Noelza, mas parece desligada, perdida em seus pensamentos. Quieta a um canto com o olhar flutuando sobre os convidados. Vinicius, já encantado por ela, aproveita para se aproximar. "O que está havendo contigo, menina?", pergunta numa intromissão repentina nas divagações da moça. Tem que ouvir a resposta que mais desejaria ouvir, mas que menos poderia esperar: "Não sei bem", ela diz, "mas acho que estou apaixonada por você". (págs. 237-8)


6- Cristina Gurjão (1968-69)

Um dia, Lila [ex-mulher de Vinicius] vai a São Paulo fazer compras. Convida a amiga [Cristina Gurjão] para ir junto. Cristina aceita. Vão no trem noturno das onze horas. Na plataforma de embarque, mal chega à estação, Cristina depara com Vinicius...
Cristina está instalada numa dessas apertadas cabines individuais, em que para usar o vaso sanitário é preciso, primeiro, desmontar a cama — que fica sobre ele. Sente-se sufocada. Não consegue se acomodar e vai para o vagão-bar, a essa altura já tomado pelos amigos. Bebem muito. A noite passa. Todos vão dormir, menos Rubem Braga, Cristina e Vinicius. Rubem logo percebe as atenções com que o poeta [ainda casado com Nelita] cerca a amiga. Toma um último uísque e diz: "Vinicius, eu vou dormir. Mas cuide direito da Cristininha". (pág. 280)

7- Gesse Gessy (a partir de 69)

Uma mulher — que os amigos, às vezes, tratam como deusa e os inimigos como bruxa, sempre por força de sua aparência exótica e de seu espírito misterioso — aparece para abalar a já precária união com Cristina Gurjão. Cristina, grávida de Maria, precisa ir a Portugal para receber direitos autorais em nome do marido. Estamos no segundo semestre de 1969. Quando volta, descobre que Vinicius está apaixonado por outra mulher. A rival se chama Gesse Gessy. É baiana, tem ligações com o candomblé...

[Dias depois, Cristina pergunta a Vinicius:] "Olha, poeta, sei que você está namorando uma moça chamada Gesse. Só quero saber uma coisa: ela é mesmo importante para você? . Vinicius não consegue encará-la. A tempestade se arma e tudo depende, agora, apenas de uma resposta. O poeta se enche de coragem e diz: "É." [...]
Cristina Gurjão se transtorna. "Você é um canalha!", grita. "Um grande canalha!" Os dois começam a ficar fora de si. [...] Seus olhos batem, então, em dois enormes castiçais de estanho que decoram a mesa. Não pensa: pega o primeiro castiçal e avança sobre Vinicius. Quebra-lhe o castiçal na cabeça. (págs. 306-7)

8- Marta Rodriguez (1976-77)

Marta Rodriguez Santamaria, a quem Vinicius de Moraes conhece em 1975 e com quem se casa um ano depois, é uma filha exemplar da classe média argentina. A pequena moça parece uma italiana com seus olhos imensos e a pele muito alva, rosto muito mais belo que o corpo. [...] Mora com os pais, estuda direito e escreve contos e poemas. Em 1975, Vinicius tem uma de suas temporadas programadas para Punta del Este, no Uruguai. [...] No fim de um show de Vinicius e Joyce [cantora e violonista] no La Fusa, Martita vai aos camarins e se apresenta ao poeta como "uma fã". Têm uma longa conversa, que se prolonga, depois, por meio de uma série de telefonemas internacionais. O poeta gasta uma fortuna para pagar essas ligações com que tenta, sem sucesso, seduzi-la. Joyce, vendo os dois envolvidos por aquela rede de palavras carinhosas e sabendo que a relação com Gesse Gessy já não anda nada bem, pensa: "Lá vai o Vinicius se apaixonar outra vez". Só não pode imaginar que seja por aquela menina gorducha e encabulada que invadiu o camarim. (pág. 365)

9- Gilda de Queirós Mattoso (de 1978 até a morte do poeta, em 1980)

Em agosto de 1978, Vinicius retorna a Paris. Já não é mais o mesmo homem. A relação com Martita azedou; vem sozinho. Gilda trabalha como cicerone, há alguns dias, para Tom Jobim e sua mulher, Ana. O destino move, mais uma vez, seus peões. Aninha é amiga íntima de Ruth Washington. O triângulo se fecha: ela e Gilda logo se tornam também muito próximas. Quando Gilda Mattoso depara com Vinicius na sala de desembarque, acompanhada da filha Georgiana — que trabalha agora nos shows do pai como percussionista —, logo percebe mudanças. Para pior. O poeta trata de se explicar: sua saúde não vai nada bem. O diabetes complicou e ele é obrigado a se auto-aplicar, diariamente, doses regulares de insulina. [...]
No ônibus que os conduz ao hotel, o poeta faz questão de sentar ao lado de Gilda — e logo os dois estão de mãos dadas. Georgiana, rápida, sussurra ao ouvido da moça, fazendo-se de vítima: "Estou doida para que papai arranje logo uma namorada para não me alugar mais." A senha, finalmente, está dada. (pág. 399)



Ilustrações: Cartaz do filme Vinicius (obtido na Internet), capa do livro Vinicius de Moraes: o poeta da paixão — uma biografia, de José Castello, capa do disco Vinicius de Moraes da coleção Música Popular Brasileira da Abril Cultural, detalhe da parte de trás da capa desse disco (capas fotografadas pelo editor do blog).

10 comentários:

Marilia Mota disse...

Esse viveu!

Anônimo disse...

E se viveu!!!! Viveu como niguém!!!!
claudia villela de andrade

Jôka P. disse...

BACANÉRRIMO !!!
:D
HO HO HO !!!
Abçs!
Jôka P.

Fã número um disse...

Meu caro amigo escritor.
O poetinha, sem dúvida alguma, foi uma sumidade e deixou saudades, principalmente no mulheril: o próprio Don Juan carioca.
Tenho acompanhado seu blog nota dez. Felicidades!

Anônimo disse...

Foram nove vezes "imortal enquanto dure".

Ana Peluso disse...

Antes de tudo: eu acredito nele. Sei que ninguém perguntou por isso, mas é infinitamente mais verdadeiro se apaixonar de vez em vez, do que para sempre e por um(a) só. Ao menos, ele não mantinha a primeira junto à segunda, para que quando a terceira chegasse, aquilo tudo não virasse uma suruba. Tem gente que é, indevidamente, chamada de volúvel. Mentira! São pessoas como ele e como outras tantas, que se apaixonam de verdade, e se dão o direito de viverem essas paixões! Coisa mais chata é manter um relacionamento com a mesma pessoa apenas para acompanhar um estilo de vida incorporado à burguesia. Vivas para o Vina! Vivas por sua coragem de tentar ser feliz!

Anônimo disse...

Nem todo e cor de rosa. Eu conheço parte da historia do Vinicius. A vivi de muito perto. Ele sofria muito e algumas das mulheres delle se aproveitaram da sua generosidade material e da fama. Muitas veces Vinicius arrumava uma nova mulher quando sabia que ia ser abandonado pela anterior.
Ao respeito dos casamentos, se casamento namorar alguem e morar durante um tempo com essa pessoa... quantas veces casou voce?

Anônimo disse...

credo!!
nove esposas é demais e as histórias delas então em!
eu fiquei surpreendido com tudo o que aconteceu aqui!

Sandilla Oliviera disse...

Eu já li essa biografia dele a algum tempo. Foi bom relembrar dos amores de Vinícius no teu Blog.
Concordo c a Ana, ele foi sincero nos seus amores.

Beijo.

Aline disse...

Sou uma grande fã do poetinha e tenho certeza de que o que o movia era o amor.Ele realmente teve muitos relacionamentos, mas com certeza viveu todos com intensidade.


obs: maravilhoso o blog!