19.10.05

RIO DE JANEIRO A DEZEMBRO

Vilma Duarte (a cronista de Araxá)



Ser brasileiro é ter certidão de Estados da graça.
Qualquer um, tem o seu charme de seduzir.
Mas o cortejo do Rio... cativação para sempre.
Quem pode resistir?

Inspirar beleza e expirar poesia, função vital de coração de poeta.

Desvendar a alma do Rio... ousadia de quase morrer lindamente, de emoção.

Deixar as praias, os "points" da moda, os shoppings, todos os lugares-comuns e mergulhar de cabeça nas origens da terra de São Sebastião.

Aninhar-me no centro da cidade maravilhosa, fazer amor com a história e acordar redimida e saciada com as badaladas musicais dos sinos da Candelária.

Cansar as pernas e refrescar a alma no entra e sai das Igrejas Majestosas do Rio, sentir verde Brasil no peito benzendo-me no Largo São Francisco, posando faceira no Largo da Carioca, senhora da paz na ternura da rua tombada como patrimônio da cultura e da sensatez.

Resfriar o calor do corpo com o chope do Bar Luiz, inaugurado em 1887 na rua da Assembleia, e desde 1927 na Rua da Carioca, para desfrute da boemia famosa como Bezerra da Silva, Ziraldo, Chico Caruso, Jaguar, João Bosco e simples e sedentos mortais como nós.

Sentir as batidas da brasilidade no coração com a restauração caprichosa do Centro Administrativo da Colônia, no Paço Imperial, amar cada detalhe, e gritar que a Praça Quinze, é uma das mais belas alegorias da Escola-Anais do Rio de Janeiro.

Comover-me literal e literariamente com o Real Gabinete Português de Leitura e deixar escondido, no meio das estantes de preciosidades, lágrimas de pesar pelo pó enegrecido que destrói sem piedade as palavras dos imortais das letras.

Embrenhar-me nas ruelas encantadoras, onde o tempo cunhou a poesia e suspirar com a dicotomia do homem: A Bolsa de Valores capitalista, vizinha de grito do despojamento da casa da "Pequena Notável".

Enfeitar os sentimentos de ufanismo na rua Gonçalves Dias, e regalar-me com o Festin de Rois no segundo piso da coquete e chique, Confeitaria Colombo.

Aprender ao vivo nos centros históricos, subir Santa Teresa no último bonde de ofício regular desse país variado, cumpliciar aquele jeitão de interior do bairro comportado nas barbas da metrópole, arquivar sua beleza doce na alma, ver a Baía de Guanabara de longe...lá de cima...e pedir desculpas ao mar por traí-lo seduzida pela magia do Rio colonial.

Caminhar pela orla marítima em Copacabana, depois de conhecer-lhe ângulos nunca dantes nem sonhados. O estilo dos prédios quarentistas, o lugar dourado do começo da bossa-nova, tudo debaixo de chuva, essa coisa divina de escritor, rezando com a mesma fé no breviário do guia-nativo, conhecedor do seu hábitat, gentil e generoso, nada mais nada menos que Ivo Korytowski, o escritor, carioca da gema e querido das multidões.

No arremate da semana da cinderela deslumbrada na carruagem da história do Rio, café com glamour literário na "Letras e Expressão" em Ipanema, rodeada de livros e cobrões das letras, oferecendo a amizade de primeira com laços de fita vermelha, como presente de Natal.

Já nem sei quantas vezes fui ao Rio, mas esta, teve gosto e cheiro de primeira vez.

Convidada pela Academia Brasileira de Letras, Global Editora, Ministério da Cultura e Fundação Biblioteca Nacional para o lançamento da Enciclopédia de Literatura Brasileira, com carona de biografia modesta no maior inventário da literatura já publicado no Brasil, como não ir e amar?

Vi os notáveis, os amigos dos notáveis e mesmo pequenina, senti a energia tribal acalorar-me as emoções.

Vi muitas pessoas, vestidas com o fardão da simplicidade com motivos de sobra da gente amar para sempre.

Vi e arquivei um outro Rio, que a sensibilidade à flor da pele, com bronzeado na alma pede licença para repetir:
" O Rio de Janeiro continua lindo..."


Vilma Duarte, a "cronista de Araxá", publica crônica semanal no Correio de Araxá e em O Planalto.



Algumas informações para quem quiser seguir o roteiro da Vilma:

As "igrejas majestosas", barrocas, estão no Centro da cidade. As principais: Igreja e convento de Santo Antônio, no Largo da Carioca, Igreja da Candelária, na Praça Pio X, Igreja e mosteiro de São Bento, na Rua Dom Gerardo 68. Mas há outras, muitas outras.
A "rua tombada como patrimônio da cultura e da sensatez" é a Rua da Carioca.
O centenário Bar Luiz, onde se bebe o melhor chope do Rio, fica na Rua da Carioca, 39.
O Paço Imperial fica na Praça XV de Novembro (onde saem as barcas para Paquetá e Niterói) e funciona como centro cultural.
O Real Gabinete Português de Leitura foi abordado na postagem "Programas de Bibliófilo".
As "ruelas encantadoras" podem ser acessadas penetrando-se no Arco do Teles, verdadeiro "túnel do tempo", na Praça XV. A casa da pequena notável fica lá.
A Confeitaria Colombo, de atmosfera art nouveau irresistível, fica na Gonçalves Dias, 32.
Santa Teresa já foi objeto de várias postagens neste blog.
Os "prédios quarentistas" em estilo art déco ficam nas imediações da Praça do Lido. E "o lugar dourado do começo da bossa-nova" hoje abriga boates de garotas de programa e fica na Rua Duvivier, entre a Avenida Atlântica e a Nossa Senhora de Copacabana.
A charmosa Livraria Letras e Expressões fica na Visconde de Pirajá, quase esquina com Vinicius de Morais.
A Academia Brasileira de Letras foi abordada na postagem "Programas de Bibliófilo".


Fotos do Bar Luiz, Paço Imperial, casario colonial e Confeitaria Colombo tiradas pelo editor do blog.

5 comentários:

Jôka P. disse...

"Ser brasileiro é ter certidão de Estados da graça.
Qualquer um, tem o seu charme de seduzir.
Mas o cortejo do Rio... cativação para sempre.
Quem pode resistir?"
Eu não resisto, IVO !!!
E como sempre arrasando com fotos bacanézimas !
Você e Mi tão botando pra quebrar, hein !!!
Sebastião Salgado que se cuide...
Réré !
ABÇS !
:)
JÔKA P.

Francisco disse...

Leio sempre com muito interesse o seu blog.
É muito bom.
Será que vou ter que lhe dar sempre "parabéns" ou um abraço é suficiente?
Francisco (enviado por e-mail)

Carlos disse...

Não conhecia a cronista de Araxá, terra da minha amiga dramaturga Consuelo de Castro, linda pessoa e mulher que marcou presença com peças como Caminhos de Volta e outras, e me abriu caminhos na publicidade em 1974 (...)
Gostei da Vilma. Obrigado.

(enviado por e-mail)

Anônimo disse...

Oi meu caro amigo escritor!

Tenho acompanhado seu blog e nem é necessário dizer que os textos são ótimos.
Ainda não terminou seu romance? Tenho sentido falta de seus textos.
Felicidades.
Da fã número um.

Luar de prata disse...

Ivo querido,

Estou em falta com você, mas saiba que amo seu blog.
Você é delicioso de se ler...
Como cariocas buscando nossa história.

Beijos

Moira