12.10.05

PROGRAMAS DE BIBLIÓFILO


Três programas pra bibliófilo nenhum botar defeito, carioca ou em visita ao Rio. Primeiro, conhecer a Academia Brasileira de Letras. Pode ser uma visita virtual ao Petit Trianon (o prédio antigo da Academia, cópia de uma construção existente em Versalhes, doado pelo governo francês em 1923). Mas também é possível fazer uma visita guiada gratuita, nos meses de abril, maio, junho, agosto, setembro e outubro, às segundas ou quartas, às 14 ou 16 horas. Reservas devem ser feitas com Therezinha pelo telefone 3974.2526 ou pelo e-mail visita.guiada@academia.org.br. A Academia fica à Avenida Presidente Wilson, 203 - Centro.


Programa número 2: a Folha Seca, na rua do Ouvidor, 37 (perto da Praça XV), uma simpática livraria especializada em MPB, futebol e Rio de Janeiro. Lá você encontrará maravilhas como A alma encantada das ruas, de João do Rio (ver trecho abaixo), História das ruas do Rio, de Brasil Gerson ou Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro, de Joaquim Manuel de Macedo (autor de A Moreninha). Lá tem até o Édipo, meu livro de contos premiado pela União Brasileira de Escritores.



Terceiro programa: Real Gabinete Português de Leitura, à Rua Luís de Camões, 3 (entre o Largo de São Francisco e a Praça Tiradentes - foto acima). A maior biblioteca de autores portugueses fora de Portugal, em prédio no estilo manuelino que lembra o Mosteiro dos Jerônimos de Lisboa, existe desde os tempos de Machado de Assis. Aliás, Machado a freqüentou, e algumas das primeiras reuniões da Academia (ainda sem sede própria) realizaram-se ali. É inacreditável, é ver pra crer. Parece uma daquelas bibliotecas saídas da imaginação de um Borges.


A RUA
João do Rio

Eu amo a rua. (...) Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua. (...) A rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma! (...)

Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes – a arte de flanar. (...)

Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças os ajuntamentos defronte das lanternas mágicas, conversar com os cantores de modinha das alfurjas da Saúde...

É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas.

Do livro A alma encantadora das ruas (Companhia das Letras, 1997). Também é possível fazer download do livro no site
Domínio Público.

Fotos de Ivo & Mi: Estátua de Machado de Assis na Academia Brasileira de Letras; Livraria Folha Seca; Real Gabinete Português de Leitura; clarabóia do Real Gabinete.

6 comentários:

Antonio Jr disse...

Claro, eu me esqueci que o nome do blog é 'Literatura & Rio de Janeiro'... Bom, eu tenho vontade de conhecer o Rio, mas nunca tinha imaginado ir a esses lugares que tu descreveste... Obrigado pela dica. Quanto ao texto, eu nao me atraio por essas culturas cariocas... haha...


Jr.

Jôka P. disse...

IVO !!!
Post bacana !
Você sempre capricha, né rapá !
E as dicas legais, lindamente ilustradas com suas fotos perfeitas.
Tava bom passear no S.J.Batista, moço ?
Eu que não vou lá mas nem morto...
Digo...
Só morto, né !
réré!
:)
Abçs,
JÔKA P.

Ivo Korytowski disse...

Jôka, acho que nem morto você conseguirá ir pra lá, os túmulos no São João Batista custam caríssimo! Mas vale a pena apreciar a arte funerária enquanto ainda estamos vivos!
Aproveito pra recomendar seu blog maravilhoso, o Avenida Copacabana, aos meus amigos! Pra chegar lá cliquem no nome do Jôka no comentário anterior.

Waldir Ribeiro do Val disse...

Cada vez admiro mais seus pequenos textos sobre o Rio, suas belas fotos. Parabéns, parabéns. Ando sem tempo para a internet, mas não pude deixar de expressar-lhe minha admiração.

(Nota do editor do blog: enviado por e-mail - clique no nome do Waldir lá em cima para conhecer a editora dele)

Paulo da Mata-Machado disse...

Caro Ivo, na Livraria Folha Seca tem até o meu livro, "Ossos do Ofício", poesias e andanças por esse mundo sem porteira... PMMJ

(enviado por e-mail)

Ivo Korytowski disse...

Fiz hoje a visita guiada à Academia, que além do Petit Trianon, inclui também o Espaço Machado de Assis, no Centro Cultural, ao lado. Pra quem é fã do Machado, imperdível! É emocionante ver, entre outras coisas, a escrivaninha em que o "bruxo" escreveu suas obras-primas. Mas depois de outubro, só em abril do ano que vem! Portanto, corram pra lá!