ENSEADA DE BOTAFOGO

ENSEADA DE BOTAFOGO
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA

VISTA DO TERRAÇO ITÁLIA
São Paulo, até 1910 era uma província tocada a burros. Os barões do café tinham seus casarões e o resto era pouco mais que uma grande vila. Em pouco mais de 100 anos passou a ser a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo. É pouco tempo. O século XX, para São Paulo, foi o mais veloz e o mais audaz.” (Jane Darckê Avelar)

1.3.26

GEOGRAFIA DE MACHADO DE ASSIS, de WALDIR RIBEIRO DO VAL

Capítulo 1, "Machado, geógrafo e historiador" do livro GEOGRAFIA DE MACHADO DE ASSIS de Waldir Ribeiro do Val, publicado em 1977 pela Livraria São José


Nos livros que escreveu, Machado de Assis, escritor carioca por excelência, fixou de maneira admirável sua cidade natal. Todos os aspectos do Rio de Janeiro estão visíveis na obra machadiana. O homem e a sociedade, o meio físico e o ambiente. Machado é, assim, sem o querer, um geógrafo e historiador. Pelos seus romances, contos e crônicas pode-se conhecer o que de mais característico havia no Rio de Janeiro de seu tempo. Não escreveu a História dos Subúrbios, prometida no Dom Casmurro, através do personagem narrador. Mas em compensação compôs a história de toda a cidade, as ruas centrais, os bairros próximos, os sítios longínquos.

Fábrica Meuron no Andaraí, óleo sobre tela de Jean Jacques François Coindet, década de 1840, Brasiliana Iconográfica. Informações sobre a fábrica aqui.

O seu Rio de Janeiro tem a Tijuca aprazível, o Andaraí cheio de jardins, Botafogo e Laranjeiras com grandes chácaras, Catete, Flamengo e Glória bastante povoados, o centro da cidade movimentado durante o dia, as ruas centrais muito estreitas e cortadas por pedestres e carros.

Pode-se, muitas vezes, em suas páginas, acompanhar a evolução, o constante progresso, as mudanças por que passou a cidade. Ainda fazendo romance ou conto, não se limitava o escritor a ser um ficcionista; antes de tudo, ou apesar de tudo, falava bem alto nele o cronista que ele fora desde a primeira mocidade, observador minucioso da cidade e sua gente.

É verdade que em Machado de Assis a paisagem não é panorâmica, mas composta de muitas pequenas partes, que se vão juntando umas às outras, encaixando-se como num jogo de armar. A falta de paisagem em sua obra é, portanto, apenas aparente. Fugiu à vulgaridade de aspectos repisados, muito vistos e muito à vista, para fixar-se num trecho de rua, numa praça, num caminho, na praia ou na chácara. Escritor a quem mais interessava o elemento humano, gravava o meio que mais próximo estava do homem.

Amando a cidade, Machado de Assis dificilmente dela se afastava. Quase podia identificar-se com o personagem que, a propósito de uma conversa sobre viagens ao estrangeiro, comenta:
 
"Estimaria poder fazê-lo, se me suprimissem os incômodos da viagem; mas com os meus hábitos sedentários dificilmente me resolveria a isso. Eu participo na natureza da planta; fico onde nasci." E mais adiante: "Olha, os meus dois polos estão nas Laranjeiras e na Tijuca; nunca passei destes dois extremos do meu universo. Confesso que é monótono, mas eu acho felicidade nesta monotonia."  (Ressurreição)

A paisagem urbana do Rio de Janeiro de então apresenta verdadeiro contraste entre a opulência de grande número de residências particulares e o aspecto de abandono ou de escasso cuidado que apresentavam as vias públicas.

Rua do Ouvidor, Marc Ferrez, c. 1890, Brasiliana Fotográfica

Destas, a mais importante e celebrada era a rua do Ouvidor, com sua gente e seu comércio elegante. "A notícia foi referida por ele na rua do Ouvidor, esquina da rua Direita [atual Primeiro de Março]. Daí a dez minutos chegara à rua da Quitanda. Tão depressa correu que um quarto de hora depois era assunto de conversa na esquina da rua dos Ourives [atuais 
Rua Rodrigo Silva + Miguel Couto]. Uma hora bastou para percorrer toda a extensão da nossa principal via pública." (Ressurreição)

Local de reunião, conversa ou negócio, é na rua do Ouvidor, ou mais precisamente às portas das lojas, que se fazem os encontros dos cariocas: "Três pessoas estavam na Loja Crashley, rua do Ouvidor, um moço, um mocinho e eu." ("A Semana", crônica de 10/11/1895) "Não há muitos dias, estávamos à porta do Laemmert". (Idem) "Esqueceu-me dizer que esta conversação era à porta de uma loja de fazendas e modas, rua do Ouvidor." (Esaú e Jacó) "Eram quatro horas da tarde. Oliveira e Tomás conversavam à porta da casa do Desmarais, rua do Ouvidor, ano de 1868." (Relíquias de Casa Velha)

Na rua que constituía a espinha dorsal do Rio de Janeiro o movimento é contínuo, um ir-e-vir de gente de todas as classes, pessoas que se dirigem às compras, gente que por ali transita só pelo prazer de andar no meio de mulheres elegantes, clientes que vão ao dentista ou ao médico, jornalistas a descer e a subir para as redações, funcionários públicos aposentados ou deputados faltosos a gozar os vencimentos:

"Chegaram à rua do Ouvidor. Era pouco mais de meio-dia.. Muita gente, andando ou parada, o movimento de costume. Mariana sentiu-se um pouco atordoada, como sempre lhe acontecia. A uniformidade e a placidez, que eram o fundo do seu caráter e de sua vida, receberam daquela agitação os repelões do costume. Ela mal podia andar por entre os grupos, menos ainda sabia onde fixasse os olhos tal era a confusão das gentes, tal era a variedade das lojas." (Histórias sem Data, "Capítulo dos Chapéus")

Numa rua onde se encontravam os conhecidos, onde desfilava quase toda a população do Rio de Janeiro, onde ficavam alguns jornais, numa rua assim tinham curso rápido e certo os boatos, as noticias graves ou alegres, as murmurações contra o governo:

"Ora, esta rua é o alçapão dos governos. Pela sua estreiteza, é a murmuração condensada, é o viveiro dos boatos, e mais mal faz um boato que dez artigos de fundo. Os artigos não se leem, principalmente se o contribuinte percebe que tratam de orçamento e de imposto, matérias já de si aborrecíveis. O boato é leve, rápido. transparente, pouco menos que invisível. Eu, se tivesse voz no conselho municipal, antes de cuidar do saneamento da cidade, propunha o alargamento da rua do Ouvidor. Quando esse beco for uma avenida larga em que as pessoas mal se conheçam de um lado para outro, terão cessado mil dificuldades políticas." ("A Semana", 6/12/1896)

O cronista de 1896 fazia humorismo. E vinha contrariar o cronista de 1893, que escrevera: "Vamos à rua do Ouvidor; é um passo. Desta rua ao Diário de Notícias é ainda menos. Ora, foi no Diário de Notícias que eu li uma defesa do alargamento da dita rua do Ouvidor – cousa que eu combateria aqui, se tivesse tempo e espaço. Vós que tendes a cargo o aformoseamento da cidade, alargai outras ruas, todas as ruas, mas deixai a do Ouvidor assim mesmo – uma viela, como lhe chama o Diário, um canudo, como lhe chamava Pedro Luís. Há nela, assim estreitinha, um aspecto e uma sensação de intimidade. É a rua própria do boato. Vá lá correr um boato por avenidas amplas e lavadas de ar. O boato precisa de aconchego, da continuidade, do ouvido à boca para murmurar depressa e baixinho, e saltar de um lado para outro. Na rua do Ouvidor, um homem, que está à porta do Laemmert, aperta a mão do outro que fica à porta do Crashley, sem perder o equilíbrio. Pode-se comer uma sanduíche no Castelões e tomar um cálix de Madeira no Deroche, quase sem sair de casa. O característico desta rua é ser uma espécie de loja única, variada, estreita e comprida." ("A Semana", 13/8/1893)

Correr à rua do Ouvidor, eis a primeira coisa a fazer, ao chegar de um passeio, de um retiro ou de um repouso. Como aconteceu com Bonifácio: "Eram três horas quando ele resolveu deixar o refúgio. Que alegria quando chegou à rua do Ouvidor" (Relíquias de Casa Velha)

A rua alimentava de notícias a cidade: "A rua do Ouvidor é a gazeta viva do Rio de Janeiro, Ali se fazem planos políticos e candidaturas eleitorais; ali correm as notícias; ali se discutem as grandes e as pequenas coisas; o artigo de fundo da o braço à mofina [artigo anônimo e difamatório], o anúncio vive em santa paz com o folhetim. " ("Qual dos Dois", Jornal das Famílias de 8/1872)

Para muitos, a rua do Ouvidor era o habitat natural, só ali sentiam-se em casa, era ela o centro do mundo:

"Vivia Daniel na rua do Ouvidor; os seus horizontes não passavam da casa do Bernardo ou da livraria Garnier. Fazia algumas excursões a Andaraí, a Botafogo ou à Tijuca, do mesmo modo que se faz a viagem a Buenos Aires ou a Lisboa; mas o seu país natal era a rua do Ouvidor." (Idem)

Mas deixemos a rua famosa, com casas-de-chá, livrarias, gentes de todas as classes, bufarinheiros "apregoando medalhinhas e vidrilhos" ("A Semana", 18/12/1892), lojas de modas, deixemos essa "via dolorosa dos maridos pobres" (Histórias sem Data, "O Lapso") e percorramos outras partes da cidade, conduzidos pelo cicerone que tudo viu e anotou.

Largo de São Sebastião no Morro do Castelo, fotografia com data e autor desconhecidos, Biblioteca Nacional Digital. Sobre o desmonte do morro ver aqui.

Machado de Assis vivia a vida de sua cidade, previa o seu futuro, não era indiferente às transformações por que passava o Rio de Janeiro. E ia anotando todas as iniciativas, as ideias viáveis ou absurdas:
"Desde que o Brasil é Brasil fala-se em desmoronar a montanha do Castelo" 
– informa em crônica de 1862 ("Preleções de gramática pelo Dr. Semana", Semana Ilustrada, 27/7-28/9/1862), descrente embora de que tal aconteça. 

A propósito do morro do Castelo, recorde-se que o romancista o incluiu no seu Esaú e Jacó, abrindo com ele a história. Por essa página pode-se ter uma ideia do que era o célebre morro ao tempo de Machado, morada de gente humilde, que não deixou vestígios na esplanada, resultante afinal do arrasamento:

"Era a primeira vez que as duas iam ao morro do Castelo. Começaram de subir pelo lado da rua do Carmo, Multa gente há no Rio de Janeiro que nunca lá foi, muita haverá morrido, muita mais nascerá e morrerá sem lá pôr os pés. Nem todos podem dizer que conhecem uma cidade inteira." [...] "O íngreme, o desigual, o mal calçado da ladeira mortificavam os pés às duas pobres damas. Não obstante, continuavam a subir, como se fosse penitência, devagarinho, cara no chão, véu para baixo. A manhã trazia certo movimento; mulheres, homens, crianças que desciam ou subiam, lavadeiras e soldados, algum empregado, algum lojista, algum padre, todos olhavam espantados para elas, que aliás, vestiam com grande simplicidade; mas há um donaire que se não perde, e não era vulgar naquelas alturas. A mesma lentidão do andar, comparada à rapidez das outras pessoas, fazia desconfiar que era a primeira vez que ali iam." (Esaú e Jacó)

Convento de Santo Antônio no morro de mesmo nome, foto de Revert Henry Klumb, c. 1860. Biblioteca Nacional Digital

Outros morros aparecem na obra machadiana. No de Santo Antônio, com a vegetação cerrada e perigosa:

"Estudava nesse momento uma cobra, morta de véspera, no morro de Santo Antônio. " (Histórias sem Data, "O Lapso") Diga-se, a bem da verdade, que a ação desse conto se passa no século XVIII, mas a existência de cobras ali deveria ser um fato comprovado pelo escritor, de ouvir dizer ou de ciência própria, talvez em andanças infantis do pequeno Joaquim Maria. Assim também haviam de estar presentes na sua memória os sítios onde brincara em criança, ao compor o quase autobiográfico "Conto de Escola", onde aparecem o morro de São Diogo e o campo de Sant'Ana.

As ruas, por onde desfilam os personagens machadianos, ou às quais se refere o escritor, são todas as ruas do Rio de Janeiro, quase se pode afirmar –  principalmente aquelas situadas na parte central, ou seja, as ruas da cidade.

Ruas e praças hoje desaparecidas, ou que mudaram de nome, revivem em sua obra, com o aspecto de outrora, sob o poder de evocação que está presente nas páginas de seus livros.

O inventário seria precioso, mas longo. Vamos andando em passadas rápidas pelas principais vias e praças.

A rua Gonçalves Dias foi rua dos Latoeiros. Passou a ter o nome do poeta depois da morte deste, por indicação do Diário do Rio de Janeiro, onde trabalhou Machado. Deixemo-lo recordar:

"Algumas vezes íamos jantar a um restaurant da rua dos Latoeiros, hoje Gonçalves Dias, nome este que se lhe deu por indicação justamente do Diário do Rio; o poeta morara ali outrora, e foi [Henrique César] Múzio, seu amigo, que pela nossa folha o pediu à Câmara Municipal. " (Páginas Recolhidas, "O Velho Senado")

De muito antes, e publicada no próprio Diário do Rio de Janeiro, é a sua informação ainda a respeito da velha rua dos Latoeiros:

"Os leitores hão de lembrar-se que, por ocasião da morte de Gonçalves Dias, o Diário do Rio indicou uma ideia à câmara municipal: a de dar à rua dos Latoeiros o nome do eminente poeta lírico, que ali morou durante muitos anos. Era uma homenagem à memória do poeta. A câmara municipal atendeu a este conselho. O Sr. Dr. Dias da Cruz, um dos vereadores mais distintos, propôs à câmara a mudança do nome da rua dos Latoeiros e a câmara adotou a proposta sem discussão."

Prossegue a crônica de 21 de fevereiro de 1865:

"Folgamos de ver a municipalidade fluminense tomar a iniciativa de tais reformas; mas desejamos que ela não se detenha nesta. Há outras ruas cujos nomes, tão ridículos e sensaborões como o da rua dos Latoeiros, carecem de reforma igual. As ruas do Sabão, Fogo, Violas, Pescadores e outras muitas podiam trocar os seus nomes por outros que recordassem uma individualidade histórica ou um feito nacional, mesmo independente da circunstância especial que se dá com a ex-rua dos Latoeiros." ("Ao Acaso", 21/2/1865)

Deixaria de pensar desse modo, trinta ou quarenta anos depois, quando se acentuou em sua obra uma espécie de saudosismo pelo Rio antigo, o Rio de Janeiro de sua mocidade. Ainda que não pensasse em fazer desaparecer alguns nomes de tanta força evocativa, desejava que se homenageasse o vulto de Anchieta, escrevendo em 1896:

"Justo seria que alguma cousa lembrasse aqui, entre nós, o nome de Anchieta, – uma rua, se não há mais. A nossa intendência municipal acaba de decretar que não se deem nomes de gente viva às ruas, salvo 'quando as pessoas se recomendarem ao reconhecimento e admiração pública por serviços relevantes prestados à pátria ou ao município, na paz ou na guerra'. Anchieta está morto e bem morto; é caso de se lhe dar a homenagem que tão facilmente se distribui a homens que nem sequer estão doentes, e mal se podem dizer maduros." ("A Semana", 4/10/1896)

Em sua obra, voltava sempre às velhas ruas, usando algumas vezes a nomenclatura antiga:

"De fato, separamo-nos com prazo dado para o dia seguinte, na loja de Paula Brito, que era na antiga praça da Constituição [Praça Tiradentes], lado do teatro de S. Pedro, a meio caminho das ruas do Cano [Rua Sete de Setembro] e dos Ciganos [Rua da Constituição]. Relevai esta nomenclatura morta; é vício de memória velha." (Páginas Recolhidas, "O Velho Senado")

Vista de São Cristóvão a partir do palácio imperial, foto de Revert Henry Klumb, 1878, Brasiliana Fotográfica

Do centro da cidade a
São Cristóvão, podemos acompanhar "um erradio", aquele que ia a todas as partes, a qualquer hora. "Ainda o apanhei na rua dos Ciganos, ia devagar, com a bengala debaixo do braço, e as mãos ora atrás, ora nas algibeiras das calças. Atravessou o Campo da Aclamação [Campo de Santana], enfiou pela rua de S. Pedro [
uma das quatro ruas que deram origem à Avenida Presidente Vargas] e meteu-se pelo Aterrado [Caminho do Aterrado, depois Rua Senador Eusébio, uma das quatro ruas que deram origem à Avenida Presidente Vargas] acima." [...] "Chegamos assim à ponte do Aterrado [atual Viaduto dos Marinheiros], enfiamos por ela, desembocamos na rua de S. Cristóvão. Ele algumas vezes parava, ou para acender um charuto, ou para nada. Tudo deserto, uma ou outra patrulha, algum tílburi raro, a passo cochilado, tudo deserto e longo. Assim chegamos ao cais da Igrejinha [Igreja de São Cristóvão, então a beira-mar]. Junto ao cais dormiam os botes que, durante o dia, conduziam gente para o Saco do Alferes [uma das enseadas que, com a construção do moderno cais do porto, desapareceram]." (Páginas Recolhidas, "Um Erradio")

Saindo da casa da viúva Camargo, na rua do Areal, Pestana "caminhou depressa, com medo que o chamassem; só afrouxou depois que dobrou a esquina da rua Formosa." [Rua General Caldwell + Rua Alfredo Dolabela Portela, do lado de lá da Pres. Vargas, atrás da Central] "Pestana parou alguns instantes, pensou em arrepiar caminho, mas dispôs-se a andar, estugou o passo, atravessou a rua, e seguiu pelo lado oposto ao da casa do baile. As notas foram-se perdendo ao longe, e o nosso homem entrou na rua do Aterrado, onde morava. " (Várias Histórias, "Um Homem Célebre") 

Olhemos as placas. Aqui, a rua da Alfândega, com seu comércio variado: "é minha última vontade que o caixão em que o meu corpo houver de ser enterrado, seja fabricado em casa de Joaquim Soares, à rua da Alfândega." (Papéis Avulsos, "Verba Testamentária")

Após 1890, com a multidão resultante do encilhamento. "Ontem, querendo ir pela rua da Candelária, entre as da Alfândega e Sabão (velho estilo), não me foi possível passar, tal era a multidão de gente. Cuidei que havia briga, e eu gosto de ver brigas: mas não era." [...] "Este é o célebre encilhamento." ("A Semana", 18/12/1892) "Qual é a primeira das liberdades, depois de respirar? É a circulação, suponho. Pois para que a tenhamos no meio da rua da Candelária, e no princípio da rua da Alfândega, vulgo Encilhamento, é preciso que andem ali a defendê-la duas praças de cavalaria. Desde 1890 estabeleceu-se naquele lugar uma massa compacta de cidadãos que não deixava passar ninguém. Não digo que o motivo fosse expressamente restringir a liberdade alheia; pode ser que o intuito da reunião fosse tão-somente formar um istmo, que de algum modo imitasse o de Panamá. Um Panamá que se desfazia todas as tardes, à mesma hora em que as antigas quitandeiras da rua Direita levantavam as suas tendas. " ("A Semana", 9/4/1893)

A rua da Misericórdia: "Ernesto dirigiu-se para casa com o desespero no coração. Morava na rua da Misericórdia." (Histórias da Meia-Noite, "Ernesto de Tal") "Eram onze horas da manhã, mais ou menos, ia atravessando a rua da Misericórdia, quando ouvi tocar uma valsa a dois tempos." ("A Semana", 1/3/1896)

A rua dos Ourives: "Foi arrastando a escrava pela rua dos Ourives, em direção à da Alfândega, onde residia o senhor." (Relíquias de Casa Velha, "Pai contra Mãe")

A rua do Cano, ou Sete de Setembro: "Em menino, conheci de vista o major Valadares; morava na rua Sete de Setembro, que ainda não tinha este título mas o vulgar nome de rua do Cano." ("A Semana", 14/5/1893)

A rua da Constituição: "Achavam-se os dois no corredor da casa de Luís Alves, à rua da Constituição, – que então se chamava dos Ciganos. " (A Mão e a Luva)

A rua do Senado: "Chegaram à casa na rua do Senado; o pai foi dormir; a filha não se deitou logo, deixou-se estar em uma cadeirinha, ao pé da cômoda, onde tinha uma imagem da Virgem. " (Quincas Borba) "Vivia tranquilo, naquela casa assobradada da rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios." (Páginas Recolhidas, "Missa do Galo")

Rua de Matacavalos (Riachuelo): "Fui, cheguei aos Arcos, entrei na rua de Matacavalos. A casa não era logo ali, mas muito além da dos Inválidos, perto da do Senado." (Dom Casmurro) "José Leandro era menino quando João da Cruz apareceu em casa dele, na rua de Matacavalos." ("Pobre Cardeal", Gazeta de Notícias de 6/7/1886, incluído nas Relíquias de Casa Velha das edições Jackson)  "Clemência morava com o velho pai, e um irmão empregado no comércio; relacionei-me com ambos, e comecei a frequentar a casa, em Matacavalos." (Histórias sem Data, "A Segunda Vida")

Rua dos Barbonos: "Quanto mais andava aquela rua dos Barbonos, mais me aterrava a idéia de chegar a casa, de entrar, de ouvir os prantos, de ver um corpo defunto... " (Dom Casmurro) "Ia casar, disse-me com quem, com uma moça da rua dos Barbonos. " (idem) "A casa do encontro era na antiga rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita." (Várias Histórias, "A Cartomante") "Eu ainda mamava quando apareceu um médico que 'restituía a vista a quem a houvesse perdido'. Chamava-se o autor Antônio Gomes, que o vendia em sua própria casa, rua dos Barbonos nº 26. A rua dos Barbonos era a que hoje se chama do Evaristo da Veiga. " ("A Semana", 19/11/1893)

Rua da Carioca: "Na véspera de entrar o processo do João da Cruz, estive com um tal capitão José Leandro, que morava na rua da Carioca" ("Pobre Cardeal", Gazeta de Notícias de 6/7/1886, incluído nas Relíquias de Casa Velha das edições Jackson); "Foi assim que duas velhas ruas, a da Carioca e a do Rio Comprido, cansadas de trazer um nome que as prendia demasiadamente à história da cidade, pelo que padeciam de enxaquecas, foram crismadas pela ilustre corporação: uma passou a chamar-se São Francisco de Assis [em 1878 a Rua da Carioca recebeu este nome, que não pegou], outra Malvino Reis [Rua do Rio Comprido, depois Rua Malvino Reis, atual Rua Aristides Lobo]." ("Balas de Estalo", 15/8/1883)

Rua Uruguaiana vista do Largo da Carioca, fotografia de Luís Musso, 1908, Biblioteca Nacional Digital

Rua da Vala, ou
Uruguaiana: "Quis ainda saber se haveria modo de fugir para a rua da Vala, ou se era melhor falar a algum vizinho que fizesse o favor de o receber." (Páginas Recolhidas, "O Caso da Vara")

Rua do Hospício [atual Rua Buenos Aires]: "Vagando uma casa fronteira à nossa, meu futuro cunhado quis alugá-la, e foi ter com o dono, um negociante da rua do Hospício." ("Uma Noite", Revista Brasileira de 15/12/1895, incluído nas Páginas Recolhidas das Edições Jackson)

Rua da Guarda Velha [atual Avenida Treze de Maio]: "Ao entrar na rua da Guarda Velha, Cândido Neves começou a afrouxar o passo." (Relíquias de Casa Velha, "Pai contra Mãe") "Quase no fim da rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar; a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra."  (Várias Histórias, "A Cartomante")

Rua das Mangueiras [atual Rua Visconde de Maranguape]: "Esta desceu pela rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartoman1e." (idem) "Ouviu-o descer; foi à janela vê-lo sair e só se recolheu quando ele se perdeu ao longe, no caminho da rua das Mangueiras. " (Várias Histórias, "Uns Braços")

Por muitas outras ruas andaram os personagens de Machado de Assis. Mudanças de nomes houve, alterações do aspecto físico, abertura de avenidas, fazendo desaparecerem ruas e praças antigas. Não nos cabe aqui, certamente, o estudo minucioso de todas essas mudanças, mas apenas o roteiro da geografia machadiana.

Na confluência das ruas estavam as praças e largos, onde estacionavam as carruagens, onde paravam os bondes puxados a burro, onde geralmente ficavam as igrejas, os chafarizes ou os monumentos públicos.

Monumento a D. Pedro I no Largo do Rocio, Marc Ferrez, c. 1885, Brasiliana Fotográfica

O
largo do Rocio [atual 
Praça Tiradentes], por exemplo: "Não lhe ofereço abrigo até casa porque moro na Prainha [Praça Mauá], que é justamente do lado oposto; mas posso cobri-lo até ao Rocio, onde encontraremos um tílburi." ("Almas Agradecidas", Jornal das Famílias de março/abril de 1871) "Estávamos no Tesouro, aonde fomos por negócios, e saímos dali a pé, caminho do Rocio, a pegar um bonde, mas não pegamos nada. A conversação foi o melhor veículo; é desses que têm as rodas surdas e rápidas, e fazem andar sem solavancos." (Memorial de Aires)

Em 1862, dia 1º de janeiro, realizou-se "o lançamento da pedra fundamental no baseamento da estátua do primeiro imperador. O Rocio nesse dia esteve de gala. A cerimônia correu como estava no programa." ("Comentários da Semana", 7/1/1862)  De passagem, alude o cronista aos "frades de pedra do Rocio e a Estátua equestre", a estátua do Imperador Pedro I, que ainda ali exibe a Constituição do Império.

Largo de São Francisco de Paula, Georges Leuzinger, c. 1865, Brasiliana Fotográfica


No
largo de São Francisco ficavam as carruagens, em grande número. "No largo de S. Francisco estava um carro dela, perto da igreja. Íamos da rua do Ouvidor, a dez passos de distância ou pouco mais. Parei na esquina, vi-a caminhar, parar, falar ao cocheiro, entrar no carro, que partiu logo pela travessa, naturalmente para os lados de Botafogo." (Memorial de Aires)

Era tão grande o número de veículos, cavalos, cocheiros, que o trânsito de pedestres era perturbado, justamente num ponto em que havia uma igreja muito frequentada, uma escola (Politécnica) e a comunicação direta com a rua do Ouvidor, para onde convergia a multidão que ia às compras ou a passeio. "O largo de S. Francisco é o salão de baile dos tílburis, que atrapalham a quem passa" ironiza o cronista de 1862. ("Preleções de gramática pelo Dr. Semana", Semana Ilustrada, 27/7-28/9/1862)

A praça da Aclamação, ou campo da Aclamação [Campo de Santana], [parcialmente] desaparecida pela abertura da avenida Presidente Vargas, nos nossos dias, era há um século um vasto campo abandonado, transformado mais tarde em bem cuidada praça: "Descíamos juntos aquela praça da Aclamação, que não era então o parque de hoje, mas um vasto espaço inculto e vazio como o campo de São Cristóvão." (Páginas Recolhidas, "O Velho Senado") Foi esse campo da Aclamação o paraíso das lavadeiras, escravas ou libertas, responsáveis pelos alvos punhos e engomados colarinhos das camisas impecáveis dos senhores ou dos patrões.

Vinham depois a praça da Constituição, o largo da Carioca, o largo da Lapa, o largo do Paço, o largo do Valdetaro [área que deu origem ao jardim do Palácio do Catete], o largo do Machado e tantos mais.

Chafariz Monumental do Largo da Carioca, com 35 bicas, projetado por Grandjean de Montigny e demolido na década de 1920, Biblioteca Nacional Digital

O largo da Carioca ostentava o seu chafariz,
"o nosso chafariz da Carioca, o velho monumento que tem o mesmo nome que nós outros, filhos da cidade, o nosso xará, com as suas bicas, sujas e quebradas." ("A Semana", 1/5/1892) Alguns anos depois dessa crônica, Machado recordará mais uma vez aquela fonte pública: "O atual chafariz da Carioca tem lavado muito par de pernas, muito peito, muita cabeça, muito ventre; na menor das hipóteses, muito par de narizes. " 
("A Semana", 10/1/1897)

A imundície da cidade foi um dos temas frequentes das crônicas de Machado de Assis, em certa época. A cidade estava praticamente abandonada à sua própria sorte. A quem cabia a culpa? Evidentemente à Câmara Municipal, que não cuidava dos interesses do Rio de Janeiro.

Assim é que o cronista repete, quase como num refrão: "As ruas do Rio de Janeiro andam imundas"  "Que cidade do Rio de Janeiro imunda!"  "A Câmara Municipal é acusada de deixar que as ruas continuem como estão." – "A Câmara Municipal confia na indolência do povo para não trazer a cidade limpa e asseada." "A falta de asseio das ruas é danosa para a salubridade pública" – "A imundície em que está a cidade do Rio de Janeiro." "A porcaria em que está a cidade de S. Sebastião procede da incúria de muita gente."("Preleções de gramática pelo Dr. Semana", Semana Ilustrada, 27/7-28/9/1862)

Uma das causas da sujeira da cidade  e que infelizmente de certo modo perdura ainda hoje – era a deficiência do escoamento das águas, pelo entupimento das valas. E volta o cronista a bater na tecla da imundície do Rio: "As chuvas alagam a cidade, porque as valas estão sempre entupidas"; ou: "Não há quem mande ajuntar a lama quando chove"; ou ainda: "A lama nas ruas do Rio de Janeiro dura até secar pelos raios do sol. " ("Preleções de gramática pelo Dr. Semana", Semana Ilustrada, 27/7-28/9/1862)

Pela mesma crônica, tomamos conhecimento com uma das vias menos limpas do Rio, o beco das Cancelas: "Beco das Cancelas para quem tiver bebido cerveja ou mate"; "O beco das Cancelas continua imundo." (idem)

Passeio Público, gravura de Alfred Martinet de 1847, Biblioteca Nacional Digital

Um dos logradouros mais agradáveis do Rio de Janeiro, ao tempo de Machado, era o Passeio Público. Nas alamedas do jardim passeavam e conversavam os personagens do romancista. Um dos capítulos do Dom Casmurro, o XXV, chama-se "No Passeio Público" e assim se inicia:

"Entramos no Passeio Público. Algumas caras velhas, outras doentes ou só vadias espalhavam-se melancolicamente no caminho que vai da porta ao terraço. Seguimos para o terraço. Andando, para me dar ânimo, falei do jardim:

– Há muito tempo que não venho aqui, talvez um ano. "

Laranjeiras, gravura de Eugène Ciceri de 1852, Biblioteca Nacional Digital

Vamos, agora, a um giro rápido pelos bairros. Poderemos ir ao Engenho Velho, no trem da Central em que viaja o "Dom Casmurro"; ou ao Rio Comprido, à casa de Camargo (Helena), ou ao Engenho Velho, casa de Maria Cora (
Relíquias de Casa Velha"Maria Cora") ou de Genoveva ("Um Sonho e Outro Sonho", A Estação, 31/5/1892); às Laranjeiras, à chácara e residência de Félix (Ressurreição) ou da família Guimarães (Memorial de Aires); ou à Tijuca (Iaiá Garcia), ao Jardim Botânico ("A Semana", 5 de maio de 1895 e "Só", Gazeta de Notícias, 4/1/1885)), a Santa Teresa (Iaiá Garcia; Quincas Borba; "A Semana"; "Histórias de Quinze Dias", 15/3/1877, sobre a inauguração da linha de bondes) ao Catete, a Copacabana ("A Semana"), à Prainha ("Almas Agradecidas", Jornal das Famílias, março de 1871), até mesmo ao subúrbio do Rocha ("Jogo do Bicho", Almanaque Brasileiro Garnier, 1904).

Ou ficamos em Andaraí, bairro sobre o qual escrevia Helena a Estácio: "O melhor de tudo é este meio-termo de Andaraí; nem estamos fora do mundo nem no meio dele. O ruído externo pode ter os efeitos de que você fala, mas ele é às vezes preciso para aturdir e distrair o espírito. Também a solidão tem suas dores, e fundas, também ela abala o coração. Nem um extremo nem outro." (Helena)

Praia do Russell, Juan Gutierrez, 189?, Brasiliana Fotográfica 

Ou poderemos passear pelas praias, a do Flamengo (Memorial de Aires; Quincas Borba; Páginas Recolhidas, "Eterno!"), a dos Lázaros (Quincas Borba), a de São Cristóvão (idem), a da Glória (
Páginas Recolhidas, "Eterno!"), a do Russel (idem), a de Santa Luzia (idem), a Formosa (Histórias sem Data, "Noite de Almirante).

Por toda a parte encontraremos o mesmo ambiente carioca, a mesma paisagem fluminense, olhando o Corcovado, indo à Lagoa da Sentinela, ("Pobre Cardeal", A Gazeta de Notícias, 6/7/1886) ou a qualquer outro lugar.

Ligado ao passado da cidade, vivendo e fixando o Rio de Janeiro de sua época, profetizava o futuro da urbs. E, pela palavra do conselheiro Aires, previa o que aconteceria por exemplo à enseada do Botafogo: 

"Talvez os homens venham, algum dia, a atulhá-la de terra e pedras para levantar casas em cima, um bairro novo, com um grande circo destinado a corridas de cavalos. Tudo é possível debaixo do sol e da lua. A nossa felicidade, barão, é que morremos antes. " (Esaú e Jacó)

Morto Machado de Assis, transformado o Rio de Janeiro por sucessivas reformas, permanece entretanto imutável, na obra do romancista, a velha cidade de São Sebastião, por onde circulam e vivem os personagens que ele criou e fez viver.

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