12.12.14

ALÔ, ALÔ REALENGO (E PADRE MIGUEL), AQUELE ABRAÇO!

E.F.C.B. (Estrada de Ferro Central do Brasil) Realengo 1937

Duas semanas depois de minha aventura em Bangu (postagem anterior), resolvi repetir o teste do trem expresso, agora até as antigas terras realengas, as terras de serventia pública pertencentes à Coroa. Desta vez o trem saiu londrinamente no horário marcado no quadro eletrônico e as viagens (Central-Realengo, Padre Miguel-Central) duraram 41 minutos cada, uma ótima marca. Pontos para a Supervia!

Assim como administrações recentes construíram a Cidade do Samba e a Cidade da Polícia, parece que os primeiros governos republicanos se empenharam em erguer uma espécie de “Cidade do Exército” nos (naquela época) descampados pós-suburbanos a partir de Deodoro. De fato, as instalações militares são um oásis de "capricho", “limpeza”, boa arquitetura, “ordem e progresso” em meio a uma região que, ocupada por populações de média-baixa e baixa renda, sofre certo “desordenamento urbano”. Ao passar de trem por essas instalações militares de “Primeiro Mundo” a gente até entende a “ideologia tenentista” de que o glorioso exército, uma vez ascendendo ao poder, poria ordem na casa brasileira. Não foi bem assim.

Dito isso, seguem as fotos de meu périplo por Realengo/Padre Miguel e trecho do livro de Brasil Gerson, História das ruas do Rio, alusivos aos referidos bairros (pp. 405-6).

Coreto da Praça do Canhão (Campo de Marte). "Com inspiração romântica, tem planta octogonal, assentado sobre balaustrada." (Guia do patrimônio cultural carioca)

Colégio Pedro II de Realengo

Escola Militar do Realengo: Grupamento de Unidades Escola e 9a Brigada de Infantaria Motorizada. A Escola propriamente dita foi transferida para as Resende.

Antigas instalações militares em Realengo do final do século XIX com elementos neoclássicos (as colunas e o desenho simétrico). 

Cine Theatro Realengo, atual Igreja Internacional da Graça de Deus em estilo art déco, de 1938. "Possui composição arquitetônica simples, em linhas retas, com formas geométricas articuladas e ausência de elementos decorativos." Guia do Patrimônio Cultural Carioca 

Não são poucos (e alguns de alta categoria intelectual) os que pretendem ver em Realengo um diminutivo, uma abreviação de Real Engenho. Porem o manuseio dos documentos antigos, dos pedidos de sesmarias, principalmente, nos convencerá de que essa é uma teoria sem fundamento nesse particular, tal a insistência com que neles se fala de terrenos e campos realengos, destinados à serventia pública, e em maior número para a pastagem do gado por parte dos que não possuíam para isso terras próprias, e esses campos eram tanto onde ficaria sendo o Realengo dos nossos dias como perto da igreja de Irajá, onde (como vimos na historia do Recôncavo) já os antepassados do Juca Lobo da Penha e outros criadores haviam protestado por causa de uma sesmaria dada a Manuel da Costa Figueiredo "em terras que não podiam deixar de ser realengas" ...

A Igreja de N. S. da Conceição, de que era vigário Monsenhor Turíbio Villanueva Segura, na verdade nasceu pequenina à beira da Estrada Real de Santa Cruz, e para cuidar dela os seus moradores (criadores, tropeiros, roceiros, lenhadores) fundaram uma Irmandade ainda na segunda metade do Setecentismo, que é também de onde vem, talhada em madeira em Portugal, a imagem da Virgem guardada cuidadosamente num nicho na sua sacristia. Nos seus fundos havia um cemitério e ao lado, no lugar da Escola Nicarágua, uma fonte de pedra e um marco, um pedaço do qual Monsenhor salvou das demolições para colocá-lo à porta da sua casa paroquial como recordação desses seus antanhos.

E assim, pequenina, ainda a encontrou o Padre (e depois Monsenhor) Miguel Santa Maria Mochon, vindo da França para ser no Sertão dos cariocas um missionário, um catequizador tão abnegado e persistente que dele se deveria dizer que reviveria entre nós os Anchietas, os Nóbregas dos começos da colonização. Primeiro Vigário do Realengo, sua jurisdição se estendia até Ricardo e a Anchieta e Pavuna no princípio do Novecentismo, e entre as Casas de Deus a cuja construção se dedicou, logo figurou a atual da Conceição do Realengo, por ele toda refeita e ampliada, e é nela, adequadamente, portanto, que descansam seus restos.

É da tradição oral do Realengo que nas suas viagens para Santa Cruz, D. Pedro I e sua comitiva paravam na fonte de pedra da Igreja, para que seus cavalos bebessem água, enquanto ele buscava sofregamente a magnífica pinga do vendeiro que ficava defronte, famosa desde Campinho até Campo Grande...

Já na segunda metade do Oitocentismo, e sob D. Pedro II, o Realengo se foi convertendo em zona militar, nas terras logo chamadas do Governo — e daí nele a Rua do Governo também. Toda a sua área à esquerda da estação seria o Campo de Marte. O Exército instalou nele em 1859 a sua Escola de Tiro, num lugar descrito como o melhor do mundo para esses exercícios, dada a ausência nele de ventos que os prejudicassem. E a Imperial Academia Militar. E a seguir, num edifício que começara a ser erguido no Império para um quartel, instalou-se a Escola Preparatória e de Tática, ao extinguir-se a de tiro em 1897. E o 1o Batalhão de Engenheiros. E em a 1898 a Fábrica de Cartuchos, que outra não era senão o antigo Instituto Pirotécnico até então funcionando no Campinho, nos limites de Cascadura e Jacarepaguá. E neste século, quando a Vila Militar principiava a crescer bem perto, a Escola Militar famosa de outrora na Praia Vermelha, e que tinha sido dissolvida no Governo Rodrigues Alves [...] — a mesma famosa Escola (hoje Academia Militar de Agulhas Negras) que em 1922 de novo se levantaria, e desta vez no Realengo, mas por outros motivos, e sob o comando do Coronel Xavier de Brito, para lutar ao lado dos 18 do Forte, no primeiro dos 5 de Julho que precederam a Revolução de 1930... (Brasil Gerson, História das ruas do Rio, 5a edição, pp. 405-6)

Igreja de Nossa Senhora da Conceição de 1912 com traços neorromânicos (Realengo)

Antiga fonte de pedra da Estrada Real de Santa Cruz. É bem possível que tenha sido usada pelos cavalos da diligência diária que fazia o transporte de passageiros entre a Fazenda de Santa Cruz e o Palácio de São Cristóvão numa viagem de mais de cinco horas! Esta "bica imperial" foi recentemente tombada pela Prefeitura.

Sorria, você está em Padre Miguel!

Fiação

Horrores arquitetônicos

Vista da Estação Padre Miguel com a Paróquia Sagrado Coração de Jesus à direita. Fotos do editor do blog.

3 comentários:

Waldir do Val disse...

Caro Ivo, excelente matéria com belas fotos. Ninguém faz melhor do que você essas reportagens. Pensei em colocar algo nos "comentários", mas sempre acho complicado o sistema.
Uma sugestão para outras "reportagens". Onde morou o escritor/ músico, etc. Exemplo: Cruz e Sousa morou no Encantado, na rua Teixeira Pinto, 48, hoje rua Cruz e Sousa (a casa há muitos anos passara a n° 172 (talvez não exista mais). E assim outros escritores, artistas, compositores etc. (comentário enviado por e-mail e inserido aqui pelo editor do blog)

Francisco Daudt disse...

Belo trabalho, Ivo. Partilhamos o amor por nosso Rio, e adoro ver seu empenho. (enviado por e-mail)

Jurema Ricardo dos Santos disse...

Ivo,
há bastante tempo acompanho o seu blog e inclusive comprei mais de um livro seu. Veio trazer-me aqui em casa, no Flamengo. Não vejo mais a relação dos seguidores do blog. Havia inclusive uma foto minha lá.
Poderia dizer-me algo?
Abs
Jurema Ricardo dos Santos