20.6.13

NAS HORAS MORTAS


Durante um período Maurício Limeira ia todos os dias à Biblioteca Nacional onde leu todos os exemplares em microfilme do Correio da Manhã entre 1920 e 1930. O resultado dessa pesquisa, que incluiu também leituras de Costallat, João do Rio, Ribeiro Couto, Lima Barreto e outros, bem como pesquisas na Internet, está no seu  fascinante livro Nas Horas Mortas: A Vida Noturna no Centro do Rio de Janeiro, que você pode adquirir em e-book (baratinho!) ou versão impressa aqui, e do qual lerá alguns trechos a seguir:



Bolinas

Se, ao surgir, os cinematógrafos eram mal vistos pelas questões de higiene e segurança, com o passar do tempo o público se acostumaria a ver o cinema como o espaço de exercício do lúdico, onde se ia vivenciar a experiência de estímulo aos sentidos e à imaginação. Atividade aparentemente inofensiva, mas que incluía encontros amorosos, seduções e a ação daqueles que no escuro aproveitavam-se do contato mais íntimo com desconhecidas, os chamados bolinas. Em texto de 1925, um cronista que assinava apenas como “Luiz” narrava com detalhes a atividade, contando a aventura de um senador cuja maior diversão era entrar nos cinemas, logo que fechava o Senado, para abusar das moças na flor da idade. O texto descreve essa última vítima como uma jovem de dezesseis anos, casta, de olhos amendoados, “grossos pernões”, e acompanhada da mãe. Como numa narrativa de suspense, acompanha o senador sentar ao lado da jovem e, apagadas as luzes, deslizar a perna “como a perna de um polvo em procura do pésinho da pequena”, que, embora reaja a princípio colocando de permeio “a sua sombrinha protectora”, acaba cedendo às investidas, sem que a mãe se dê conta.

            Em outra crônica, verifica-se que alguns donos de cinemas não só estavam a par mas incentivavam a atividade dos bolinas em anúncios que prometiam “a sala mais escura do Rio. Tres toques (prolongados) de campainha, ao fim de cada fita”. Como reflexo da sociedade a que pertencia, o cinema mostrava que, também ele, por trás de fachadas iluminadas e coloridas, guardava num recanto escuro os gestos não permitidos à luz do dia.


A Lapa

            A região que inicia a uma quadra da Praça Floriano e faz fronteira com o bairro da Glória, estendendo-se até o centro velho do Rio que é a Praça Tiradentes, esta região que hoje é concorrido ponto turístico dos amantes da boêmia e coroada com os Arcos por onde trafegam os últimos bondes, já demonstrava na década de 1920 a vocação para a noite. Por suas ruas a movimentação intensa começava às dez horas, nos diversos cafés, restaurantes, clubes e nas casas aonde se ia em busca de ofertas femininas de prazer sexual. A essa hora, as conduções partiam cheias, carregando para suas casas o público saído dos teatros e cinemas, e deixando para trás a parcela da população para quem a noite apenas começava.

            Ribeiro Couto fala numa “alma viciosa da Lapa”. Observa fascinado os cafés regurgitantes de freguesia conversadora, os “vadios costumeiros” examinando as mulheres, os solitários nas janelas dos hotéis, os vultos, o riso, os chamados “longos, cariciosos”, as portas abertas com luzes vermelhas no interior. O movimento nas ruas, a circulação humana que buscava um tipo qualquer de satisfação, durava apenas até por volta de uma hora, quando os botequins fechavam e a praça ladeada pelos Arcos e pela Avenida Mem de Sá esvaziava-se. A noite prosseguia ofegante no interior de clubes como o Congresso dos Tententes, o dos Excêntricos e o Moderno, todos na Avenida Mem de Sá; o dos Zuavos, na Rua Maranguape, e o dos Aliados, no Beco do Mosqueira. Lugares considerados focos de distúrbios, frequentados por assassinos profissionais, gatunos, cafetões e vendedores de drogas: “malandros” em geral, prontos a tungarem (furtarem) às escâncaras os ingênuos e novatos, ou a sacarem do revólver diante da menor ameaça.

  

“A viúva”, “a donzela”, “as primas”, “a enteada”: histórias de bordel

            Figura obrigatória da noite carioca, Benjamin Costallat não poderia deixar de escrever sobre os bordéis do Centro. Escreveu. Numa de suas crônicas, descreve a visita a uma casa na Rua do Riachuelo, na Lapa, de aspecto “quase burguês, perfeitamente honesto”, identificada como uma das mais célebres casas de rendez-vous do Rio de Janeiro, “a casa da Judite”. Administrado por uma mulher amável e “gorda, maciça, redonda, fisionomia de lua” – a tal Judite –, o lugar era considerado o modelo perfeito deste tipo de estabelecimento, com sala de jantar e quartos independentes, mas com comunicações internas, para casos de fugas, e uma saída para um pequeno terreno que fazia a ligação com outra casa, na Rua do Resende. Eram assim, duas entradas, duas saídas, “dous números diferentes em duas ruas diferentes para uma casa daquela ordem”.
           
            Mais do que com o comércio sexual em si, surpreende-se o autor com as fantasias de seus frequentadores, que Judite e suas meninas não se furtam em satisfazer, mantendo o funcionamento daquilo que ele chama de “engrenagem de vícios e de vergonhas”. A um coronel, Judite apresenta duas jovens como sendo primas, moças tímidas de família que saíram para o cinema e que, portanto, precisam voltar cedo para casa. O coronel, olhos brilhando de ansiedade, vai de imediato ao encontro das duas. A outros, informa que conseguiu uma recém-casada – à qual não falta a aliança –, uma viúva, uma donzela. Ribeiro Couto também destaca em crônica essa capacidade das donas de bordéis em atender a cada perversão de seus fregueses, recebendo, os mais abastados, notificações por telefone das novidades no bordel:

“Olhe... tenho agora um tipo que é exatamente o seu gosto: pequena, magra, vibrante... Veio pela primeira vez aqui ontem... Ainda ninguém provou...”
  

Maconha, ópio e amendoim

Praticamente não se falava em maconha. Durante o período abordado o Correio da Manhã não lhe faz qualquer referência, embora esta erva tenha chegado por aqui já no século XVI, trazida pelos escravos e tolerada até 1830, quando pela primeira vez a Câmara Municipal do Rio de Janeiro tornou ilegal a venda e o uso da droga. De acordo com a nova lei, punia-se com multa de vinte mil réis aquele que fosse encontrado vendendo o produto, e com três dias de prisão o que estivesse consumindo o produto vendido. A explicação para o fato de os usuários receberem pena bem mais rigorosa do que os traficantes é social: quem vendia a maconha eram os brancos de classe média, enquanto quem a comprava eram os negros e escravos.

Vem do idioma quimbundo o termo usado para designar a Cannabis sativa, que por aqui também chamou-se fumo-de-angola ou diamba. Seu uso era restrito aos terreiros de candomblé e a algumas regiões do interior, consumida por agricultores após o trabalho nas plantações. Era considerada pejorativamente como “coisa de negro”, “chulé”, “pé-de-chinelo” ou “sandália-de-couro-velha”, e só na década de 1960, durante o movimento hippie, viria a conquistar consumidores junto à classe média.

Fotos de grafites do editor do blog.

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