15.12.12

FORTALEZA DE SANTA CRUZ

TEXTO EXTRAÍDO DO GUIA MICHELIN DO RIO DE JANEIRO, 1a edição (1990)

Fortaleza de Santa Cruz com o Pão de Açúcar e Corcovado ao fundo

Guarita de acesso à fortaleza

Localizada no bairro de Jurujuba, na boca da barra da Baía de Guanabara, a fortaleza está instalada sobre um promontório, à frente dos Morros do Pico e dos Macacos.

Foi Villegagnon quem primeiro utilizou o local para fins militares, quando, em 1555, improvisou uma fortificação com algumas peças de artilharia que, em 1567, foi ocupada pelos portugueses que, então, a ampliaram, transformando-a no principal ponto de defesa da baía. Nessa ocasião, recebeu o nome de Bateria de Nossa Senhora da Guia.

Seu batismo de fogo ocorreu em 1599, quando impediu que a esquadra flamenga, comandada por Oliver Van Noort, entrasse na baía. Com a ameaça das invasões holandesas no Brasil, no início do século XVII, a bateria foi ampliada, recebendo vinte canhões, passando a chamar-se Fortaleza de Santa Cruz. Em 1710, impediu, juntamente com a Fortaleza de São João, a entrada na barra da esquadra corsária do francês François Duclerc. 


Capela de Santa Bárbara

Nessa mesma época, soube-se que a França organizava uma expedição, ainda mais bem preparada, contra o Rio de Janeiro, sob o comando de René Duguay Trouin, o que levou o rei de Portugal a determinar que uma forte corrente passasse a ligar as Fortalezas de Santa Cruz e de São João. Apesar disso, o governador do Rio de Janeiro relaxou a ordem e ainda determinou o desguarnecimento da fortaleza, que já, então, contava com quarenta e quatro canhões. Assim, não foi difícil a Duguay Trouin, em 1711, tomá-la e invadir o Rio de Janeiro.

De 1730 a 1831, manteve-se a fortaleza completamente armada, com 135 peças de artilharia. Em 1863, iniciou-se a construção da fortaleza como é hoje, em cantaria, com três andares: duas ordens de casamatas, tendo a primeira vinte canhões, a segunda vinte e um e o terceiro andar equipado com canhões de grosso calibre. Localizada em ponto de difícil acesso, a Fortaleza de Santa Cruz sempre serviu de prisão política. Lá estiveram, entre outros, Jose Bonifácio de Andrada e Silva; o caudilho uruguaio, André Artigas; o primeiro presidente do Uruguai, Frutuoso Rivera; o coronel Bento Gonçalves, herói da Guerra dos Farrapos. Na fase revolucionária de 1922 a 1930, foram aprisionados ali o Capitão Eduardo Gomes, Estilac Leal, Alcides Araújo e Juarez Távora. Esses três últimos foram os únicos, até hoje, a conseguir fugir da fortaleza. Este fato valeu ao seu então comandante, Mascarenhas de Moraes, uma transferência punitiva.


Interior da capela


Logo à entrada, na praça fronteira à fortaleza, encontram-se dois modernos canhões de 178 milímetros, instalados em 1942, voltados para o alto-mar. 

Cruzando a guarita de acesso à fortaleza, um pátio, totalmente calçado em pedra de cantaria, conduz à Capela de Santa Bárbara, construída no século XVIII. No interior, a imagem da Padroeira, em tamanho natural (1,43 metros), tem, numa das mãos, um cálice, que representa a virgindade e, em outra, uma espada, o que a torna guerreira, e por isso, a padroeira da Artilharia. Envolvendo a imagem, há uma história, segundo a qual a santa fora trazida para aquele lugar por engano; no entanto, sempre que se tentava removê-la dali, o que, na época, somente poderia ser feito por mar, um fato estranho acontecia: ao colocar a imagem no barco, as águas do mar tornavam-se, subitamente, agitadas, impossibilitando seu transporte. Depois de muitas tentativas, finalmente, a imagem foi deixada na capela, pois era ali, segundo se entendeu, que a santa queria ficar.


Amurada

Seguindo adiante, chega-se ao local chamado “Cova do Onça”, uma sala onde os presos eram torturados, em uma roda de madeira com lâminas cortantes, sendo, então, seus despojos jogados ao mar, através de um poço, localizado no lado oposto à entrada da sala. O nome  “Cova do Onça” provém da explicação da guarnição, ao ser perguntada pelos outros presos sobre a origem dos gritos dos torturados, de que eram os rugidos de uma onça, aprisionada no local.

A fortaleza possui três baterias de artilharia, dispostas em níveis diferentes. A mais moderna é a Bateria de Santa Teresa, ou Bateria do Imperador, composta por quatro peças de fabricação inglesa, sendo duas de 150 milímetros, datadas de 1867, e duas de 120 milímetros, de 1872. São canhões, com a boca em seção hexagonal, onde se colocavam os projéteis, carregados com pólvora na culatra. No local, um mastro de pau-brasil, com cerca de 18 metros de comprimento, serve ao hasteamento da Bandeira Nacional. A segunda bateria a ser construída foi a Dois de Dezembro, no nível inferior, composta de vinte e uma casamatas, dispostas em semicírculo. O comandante dessa bateria colocava-se na décima primeira casamata, de onde tinha uma visão perfeita de todas as outras, que eram equipadas com canhões ingleses de 120 milímetros, fabricados entre 1862 e 1865, e cujos disparos tinham um alcance entre 5 e 8 Km. A terceira bateria, e também a mais antiga, situada no nível mais baixo da fortaleza, é a Vinte e Cinco de Março, composta por vinte casamatas. Os canhões dessas duas últimas baterias eram imóveis, o que fazia com que a mira fosse obtida através de duas pequenas vigias, instaladas uma de cada lado da abertura onde ficava a boca do canhão. Um soldado ficava em cada vigia, e quando o navio inimigo era avistado pelos dois, ao mesmo tempo, o canhão era, então, disparado.


Farolete

Próximo à Bateria Vinte e Cinco de Marco, ficava, no passado, o paredão de fuzilamento: um muro de rocha, junto a uma fonte natural, que era utilizada para limpar o local de execução. Ainda são visíveis as marcas de balas nesse paredão.

Na outra extremidade dessa bateria, encontra-se uma pequena abertura, que serviria de fuga aos oficiais, em caso de perigo para a fortaleza, conduzindo ao mar, através de uma escadaria. Foi por este local que ocorreu a única fuga de presos registrada na história da fortaleza.

Algumas celas ainda são encontradas. Há uma, totalmente escura, por onde o ar e a c1aridade entram através de uma abertura mínima. É impossível ter ideia da dimensão da cela, mas sabe-se que abrigava dezenas de presos. Outras, denominadas "prisões no passado", tem uma característica curiosa: são cinco celas com alturas diferentes, o que permitia que, em três delas, os presos ficassem em pé; a quarta cela permitia apenas ficar sentado, e a última, somente deitado. Eram fechadas por grades, voltadas para um pequeno pátio, onde havia uma forca. Conta-se que o preso que não pudesse ser colocado nessas celas, devido à superlotação, era, então, enforcado.


Canhão, Pão de Açúcar e Corcovado

Acima da forca, há uma cisterna, construída em 1738, com capacidade para cerca de duzentos mil litros. Como a fortaleza não dispunha de água potável, esta era trazida por navios e transportada em tonéis, pelos presos, ate ali. 

A fortaleza, em seu conjunto, é uma construção sólida, com grossas paredes de cerca de um metro de espessura; possui casamatas, corredores e masmorras em pedra de cantaria, que se constituem em notáveis trabalhos de arquitetura militar. Um dos pontos de interesse da Fortaleza é a belíssima vista que oferece do Rio de Janeiro, especialmente do Pão de Açúcar, cujas vertentes oceânicas dificilmente podem ser apreciadas. Por ser região sob controle militar, o quadro natural está preservado, revelando a mesma beleza que ofereceu aos primeiros navegadores que cruzaram a barra da Baía de Guanabara.


Casamatas

Janela

Descendo às casamatas

Canhão imóvel

"No reinado de D. Pedro II, sendo ministro o Senador do Império J.J. de O. Junqueira, foi feito este quartel sob a direção da Comissão de Melhoramento do Material do Exército. Plano do major B.R. Gamboa. Execução do mestre D.J. Marques."

Cisterna de 1738

Prisão do séc. XVII

Velho canhão. Fotos do editor do blog.
Como chegar vindo do Rio: você pode pegar a barca para Niterói, lá aportando pegar um táxi à fortaleza (gastando em torno de 30 reais), depois da visita caminhar até Jurujuba (30 minutos andando calmamente), lá comer num dos excelentes restaurantes de peixes, camarões e outros frutos do mar e enfim pegar o ônibus que faz ponto final em Jurujuba até as barcas e de lá retornar ao Rio. A ironia disso tudo é que da Fortaleza de Santa Cruz até a de São João na Urca a distância pelo mar é de menos de 2 quilômetros - mas não há como transpô-la, você tem que dar a volta!

4 comentários:

Charles Lewis Stone disse...

Eu tenho esse guia Michelin, desde o meu tempo de guia de turismo Embratur

Roger de Sena disse...

A Fortaleza de Santa Cruz é mesmo um passeio belíssimo! E, claro que por sua excelente localização, proporciona lindas fotos, como as que o editor nos brinda nesta postagem; e com o prêmio de ter feito a visita num dia de ótimo tempo: que céu espetacular!
Parabéns, Ivo! Mais uma grande postagem!

Cecília Alves disse...

Que ótima coincidência! Estive lá na quarta-feira passada e adorei o passeio. Fui de carro diretamente, mas ainda assim me impressionou a quase inacessibilidade do lugar. É lindo mesmo, a partir de qualquer ângulo, e a vista para o Rio é deslumbrante. Ontem estive no Forte de Copabacana, outro lindo lugar de grande importância histórica para o nosso Rio de Janeiro. O complexo dos fortes é mesmo uma preciosidade. Parabéns pelo post!

Ivo Korytowski disse...

Cecília, já que você gostou de visitar esses dois fortes, não esqueça de ver também o Forte do Leme (vale a pena fazer a subida ao alto do morro a pé) e a Fortaleza da Conceição no morro de mesmo nome.