15.8.12

DICA DE LIVRO: DICIONÁRIO DA HINTERLÂNDIA CARIOCA de Nei Lopes

TEXTOS EXTRAÍDOS DO DICIONÁRIO DA HINTERLÂNDIA CARIOCA, COM FOTOS DO EDITOR DO BLOG (que adorou e recomenda esse delicioso e informativo dicionário sobre o "outro lado do Rio" do grande compositor, cantor e escritor Nei Lopes)




HINTERLÂNDIA, segundo os dicionários, é toda região que fica distante de uma área urbana ou um centro metropolitano. A palavra vem do alemão hinterland e pode ser traduzida pelo nosso popular interior. Pensando em uma cidade moderna, a hinterlândia seria o interior em relação ao seu núcleo principal, dentro dos limites da sua área de influência administrativa — distrito ou município.


Considerado um dos mais representativos escritores brasileiros da crítica social urbana, [Lima Barreto] retratou em seus romances, contos e crônicas a sociedade da época, denunciando o racismo e as injustiças sociais e captando com ironia e amargura, mas sempre magistralmente, a vida carioca. (Trecho do verbete  LIMA BARRETO do Dicionário da Hinterlândia Carioca)

Na nomenclatura antiga, o atual Município do Rio de Janeiro era dividido em três Zonas: a Urbana, que incluía o atual Centro da cidade, a Zona SuI e a região da Tijuca e arredores; a Suburbana, que incluía os bairros reunidos na chamada Zona Norte; e a Rural, depois denominada Zona Oeste, abrangendo toda a metade ocidental do município.


O nome [Inhaúma], que foi dado também a outros lugares e acidentes geográficos em diversos estados brasileiros, é de origem indígena, provindo, segundo Teodoro Sampaio do tupi nhae-um, barro de olaria (de fazer panelas de barro), característica física observada no solo da região. (Verbete INHAÚMA)


Nei Lopes reuniu sob o termo hinterlândia as antigas Zonas Suburbana e Rural, incluindo uma parte do Centro da cidade, que tem antigas e estreitas conexões com a Zona Norte, e excluindo os bairros de Barra de Guaratiba, Barra da Tijuca, Grumari e Recreio dos Bandeirantes, pertencentes à Zona Oeste, mas que, na leitura do autor, têm características diferenciadas em relação aos demais bairros da região.


No ambiente focalizado neste Dicionário, "soltar pipa" é divertimento largamente apreciado por crianças e adultos, que o praticam em ambientes, abertos, inclusive em lajes de construções inacabadas, como nas FAVELAS. (Verbete PIPA)

Fica-se com uma região que abrange 66% da área total do município. Que inclui 63% dos bairros da cidade, nos quais vivem 72,5% da sua população, com uma densidade populacional média de 4.837,27 habitantes por km2, contra 6.270,29 dos restantes 24% da área do município.


Já nas primeiras décadas do século XX, eram famosos os pagodes da região da PIEDADE, como relatados, em 1936, por Alexandre Gonçalves Pinto no livro O choro. Ao longo da obra, o autor repertoria grandes pagodes em casa de músicos e aficcionados, como o pandeirista Luiz Caixeirinho, morador da Piedade. (Verbete PAGODE)

Na linguagem popular, toda a região aqui tratada tende a ser chamada de "subúrbio". Mas esse termo, significando a periferia de uma cidade, tem uma conotação pejorativa em nosso país. Área de moradia acessível a trabalhadores, subempregados e desempregados, historicamente mal servida em termos de serviços e opções de consumo (por ser frente de ocupação de território), o subúrbio é visto como sinônimo de pobreza e, portanto — numa ótica discriminatória —, de inferioridade, atraso (principalmente quanto às modas) e vulgaridade de hábitos. Seus costumes são encarados pelas elites desta forma, e não como o estilo de vida e o saber de outra classe ou outro segmento populacional, com outros valores, raízes e prioridades.


Para este Dicionário, o subúrbio [...] é, na atualidade, apenas um espaço que, pela dificuldade de transportes públicos e pela não conservação das vias, torna-se distante do grande centro econômico e do circuito cultural. E que, por isso, e por também não contar com infraestrutura de serviços públicos eficientes, é desprezada, como opção residencial, pelos mais abastados, e abandonada pelos que ascendem socialmente. (Verbete SUBÚRBIO)

Como é usual em dinâmicas de desigualdade social, então, esses dois terços da área e três quartos da população do município se tornam quase invisíveis, são tratados como um pequeno detalhe incômodo, uma pequena sobrevivência do atraso que pode ser ignorada e, de preferência, eliminada, conforme a cidade se torne mais moderna e cosmopolita.

No final do século XIX, chegam à região os trilhos da ESTRADA DE FERRO DOM PEDRO II, e, no início da centúria seguinte, os da Estrada de Ferro Melhoramentos do Brasil, também conhecida como LINHA AUXILIAR. No início da implantação, os trens a vapor, com vagões de madeira, da E.F. Dom Pedro II, ao chegarem a CASCADURA, tomavam um pequeno desvio, até a chamada "PARADA DO CUNHA", daí retornando. Em 1896, por força do progresso local, a parada foi elevada à condição de estação, recebendo o nome do "Madureira". (Verbete MADUREIRA)

É com esse preconceito que Nei Lopes se recusa a compactuar ao rejeitar o nome "subúrbio" para a área de abrangência deste Dicionário. Fiel à sua postura de luta constante pela valorização da herança dos grupos que formaram a grande massa da população do país, ele busca um termo que podemos considerar virgem de distorções ideológicas em nossa terra. E com ele delimita esse grande caldeirão onde se criam e cunham linguagens, estratégias de sobrevivência, estéticas, sabores e prazeres que se enraízam e crescem, não só nesta cidade, mas em todo o Brasil.

(Texto das orelhas do Dicionário da Hinterlândia Carioca.)


O "Mercadão" [de Madureira] fora destruído inteiramente por dois incêndios sucessivos de grandes proporções. Então, reconstruído e modernizado, foi reinaugurado com o aspecto de um SHOPPING CENTER, com instalações mais confortáveis, conservando, entretanto, as características com que granjeou fama e atratividade, mantendo, por exemplo, a grande concentração de estabelecimentos comerciais criados para atender à demanda dos fiéis da UMBANDA e do CANDOMBLÉ. (Verbete MERCADÃO DE MADUREIRA)

A palavra "botequim" [...] designa o estabelecimento comercial popular onde se servem bebidas, petiscos, tira-gostos e, às vezes, pratos de refeições simples. [...] Fonte de estudos sociológicos e afins, o botequim é, no Rio de Janeiro, notadamente na região focalizada neste livro, uma verdadeira instituição. (Verbete BOTEQUINS)
O Guia da Hinterlândia Carioca pode ser adquirido na simpática Livraria Folha Seca, situada no centro histórico do Rio (Rua do Ouvidor, 37), no site da Livraria da Travessa e em outras livrarias (pesquise no Buscapé para saber onde está mais barato).

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