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Desde 2005, o blog de quem ama o Rio de Janeiro, seus encantos, história, literatura, arquitetura e arte.
"Andar pelo Rio, seja com chuva ou sol abrasador, é sempre um prazer. Observar os recantos quase que escondidos é uma experiência indescritível, principalmente se tratando de uma grande cidade. Conheço várias do Brasil, mas nenhuma tem tanta beleza e tantos segredos a se revelarem a cada esquina com tanta história pra contar através da poesia das ruas!" (Charles Stone)
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28.1.10
25.1.10
CASA DE BANHO DE D. JOÃO VI NO CAJU
(MUSEU DA LIMPEZA URBANA DA COMLURB)
Exibir mapa ampliado
O CAJU
Não me lembro bem dos nossos calções de banho. Mas os maiôs de dona Raquel − e das outras mães − também, eram terríveis.
O Caju se enchia, então, de famílias cobertas de mantas e cobertores discretos, recebendo nas manhãs a ainda mais discreta bênção do iodo, aspirando pelas narinas aquela mistura feita de sargaço, água salgada, areia suja de algas.
Um pouco de história. O Rio de Janeiro do início do século 19 era uma cidade infestada por carrapatos, mosquitos e outros insetos, que não poupavam nem mesmo os integrantes da família real portuguesa. Dom João VI foi um dos que mais sofreram. Uma ferida na perna, fruto da mordida de um carrapato, infeccionou e ele teve que buscar ajuda.
Para tratar a saúde, foram recomendados a Dom João VI banhos de mar. De São Cristóvão − onde ficava a família real portuguesa − até o Caju, havia um caminho fácil de ser percorrido. Aquele mesmo que nós, crianças judias do século 20, percorríamos em busca do milagroso iodo...
O Caju era um balneário, com muitos terrenos à beira de uma Baía da Guanabara ainda limpa. O mar batia na beira de uma casa construída no começo do século 19 e que até hoje está preservada como um símbolo da história do Rio. É a Casa de Banho de Dom João VI.
Dom João era imperador. Por isso, ele não se trocava na frente de qualquer um. Usava a casa como vestiário. Dizem ainda que, com medo de caranguejos e outros bichos do mar, ele tomava banho dentro de um barril em vez de mergulhar.
Hoje, no Caju, não há sinal de praia. A área foi aterrada para a construção do porto e da Ponte Rio-Niterói. A Casa de Banho é o Museu da Comlurb, com a memória da limpeza urbana do Rio, mas guarda um busto de Dom João VI, para que ninguém esqueça que, além da garotada da Praça Onze, a realeza já freqüentou a Praia do Caju. (Crônica publicada originalmente no Boletim ASA de set-out/2007)
Cemitério Comunal Israelita
O bairro do Caju está um tanto degradado, imprensado entre a Avenida Brasil (foto abaixo), Linha Vermelha e acesso à Ponte Rio-Niterói (ver mapa). Mas já foi um bairro aprazível. Lá D. João VI tomava seus banhos de mar. Uma boa parte do bairro passou a ser ocupada (a partir de meados do século XIX) por cemitérios. No Caju também fica, desde o início do século XX, o Arsenal de Guerra do Rio (antes situado onde hoje fica o Museu Histórico Nacional). Aproveitei uma visita aos túmulos dos meus pais no Cemitério Comunal Israelita (foto acima) para dar um rolê até a Casa de Banho de D. João VI, atual Museu da Limpeza da Comlurb. Aqui estão as fotos de minha incursão pelo Caju (a da Avenida Brasil e as duas últimas tiradas de dentro do ônibus expresso Estácio-São Cristóvão-Caju, com ponto final na Estação Estácio do metrô).
Avenida Brasil
"um bairro aprazível"
CASA DE BANHO D. JOÃO VI
MUSEU DA LIMPEZA URBANA
Casa da família Tavares Guerra, próxima à Quinta do Caju, conhecida como Casa de Banho D. João VI, foi frequentada pelo monarca por volta de 1817, por indicação médica. O prédio (uma casa térrea de arrabalde) é um raro exemplar da arquitetura do final do século XVIII ou início do século XIX. Segundo o Guia da arquitetura colonial, neoclássica e romântica do Rio de Janeiro, "este exemplar de casa de chácara apresenta diversas características do vocabulário formal colonial, como a sua volumetria simples marcada pelo grande telhado de quatro águas e por uma água-furtada à moda trapeira, os vãos de arco abatido e as telhas do tipo capa e canal". Tombada pelo IPHAN em 1938, foi restaurada pela COMLURB em 1996 para abrigar o Museu da Limpeza Urbana. Conta parte da história da cidade, como se desenvolveu e resolveu seus problemas, dando condições de vida a seus habitantes, promove atividades com visitas guiadas e recreação, como também seminários, exposições temporárias e apresentações culturais.
Endereço: Praia do Caju, 385 (pesquise no Google Maps)
Telefone: 3890.6021
Visitação: de terça a sexta, de 10h às 17h;
Sábados e domingos, de 13h às 17h.
PS. Em dezembro de 2012, retornando ao local, constatei que o museu não estava mais aberto à visitação.
PS. Em dezembro de 2012, retornando ao local, constatei que o museu não estava mais aberto à visitação.
Rua Praia do Caju (a praia agora só existe no nome)
Casa de Banho de D. João VI (lateral)
Casa de Banho de D. João VI (entrada)
Busto de D. João VI
Em frente à Casa de Banho. Seria até bucólico, não fosse o elevado de acesso à Ponte Rio-Niterói atrás.
O CAJU
HENRIQUE VELTMAN
[...] Nos anos 1940, como os banhos de mar tinham caráter terapêutico, as pessoas iam para a Praia do Caju ao raiar do dia, às vezes ainda de madrugada. Vestiam geralmente, como trajes de banho, duas peças feitas de um tecido felpudo de lã: calça até os tornozelos, camisa de mangas compridas, franzida e com uma espécie de lapela.
Não me lembro bem dos nossos calções de banho. Mas os maiôs de dona Raquel − e das outras mães − também, eram terríveis.
O Caju se enchia, então, de famílias cobertas de mantas e cobertores discretos, recebendo nas manhãs a ainda mais discreta bênção do iodo, aspirando pelas narinas aquela mistura feita de sargaço, água salgada, areia suja de algas.
[...]
Um pouco de história. O Rio de Janeiro do início do século 19 era uma cidade infestada por carrapatos, mosquitos e outros insetos, que não poupavam nem mesmo os integrantes da família real portuguesa. Dom João VI foi um dos que mais sofreram. Uma ferida na perna, fruto da mordida de um carrapato, infeccionou e ele teve que buscar ajuda.
Para tratar a saúde, foram recomendados a Dom João VI banhos de mar. De São Cristóvão − onde ficava a família real portuguesa − até o Caju, havia um caminho fácil de ser percorrido. Aquele mesmo que nós, crianças judias do século 20, percorríamos em busca do milagroso iodo...
O Caju era um balneário, com muitos terrenos à beira de uma Baía da Guanabara ainda limpa. O mar batia na beira de uma casa construída no começo do século 19 e que até hoje está preservada como um símbolo da história do Rio. É a Casa de Banho de Dom João VI.
Dom João era imperador. Por isso, ele não se trocava na frente de qualquer um. Usava a casa como vestiário. Dizem ainda que, com medo de caranguejos e outros bichos do mar, ele tomava banho dentro de um barril em vez de mergulhar.
Hoje, no Caju, não há sinal de praia. A área foi aterrada para a construção do porto e da Ponte Rio-Niterói. A Casa de Banho é o Museu da Comlurb, com a memória da limpeza urbana do Rio, mas guarda um busto de Dom João VI, para que ninguém esqueça que, além da garotada da Praça Onze, a realeza já freqüentou a Praia do Caju. (Crônica publicada originalmente no Boletim ASA de set-out/2007)
Parque São Sebastião
Ao longe o Corcovado (fotos do editor do blog)
20.1.10
SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO
SABE O PORQUÊ DO NOME SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO? O TRECHO A SEGUIR DA HISTÓRIA DAS RUAS DO RIO, DE BRASIL GERSON, EXPLICA





Estátua de São Sebastião na Glória
A primeira tentativa de desembarque de Estácio, em 1564, fracassou. Reparadas suas forças, em S. Vicente, insistiu de novo em 1565, e então pôde fixar-se numa praia abrigada entre o Morro Cara de Cão e Pão de Açúcar, onde um aldeamento de “choças com feitio misto, aborígine e oriental, choças de toscas ramas e palmas secas algum tanto selvagens” foi construído e logo rodeado de paliçadas protetoras, porque não muito distante os tamoios rondavam, atiçados pelos franceses.

Denise Araripe: São Sebastião do Rio de Janeiro (técnica mista)
Não bastava, porém, o espírito heróico dos colonizadores. Sozinhos, sem maior ajuda, acabariam eles por sucumbir. E eis por que mandou D. Catarina que Mem de Sá, reforçado, retornasse à Guanabara e nela desse maior envergadura à colonização portuguesa.
A batalha que decidiria, de uma vez por todas, da sorte da cidade nova foi travada a 20 de janeiro de 1567 — dia de São Sebastião — e culminou com a derrota dos tamoios e dos franceses nas fortificações que detinham no Flamengo, até a encosta sul do outeiro da Glória, onde Estácio, que era muito moço ainda, caiu atingido por uma flecha para morrer dias após na sua casa do Cara de Cão.
A batalha que decidiria, de uma vez por todas, da sorte da cidade nova foi travada a 20 de janeiro de 1567 — dia de São Sebastião — e culminou com a derrota dos tamoios e dos franceses nas fortificações que detinham no Flamengo, até a encosta sul do outeiro da Glória, onde Estácio, que era muito moço ainda, caiu atingido por uma flecha para morrer dias após na sua casa do Cara de Cão.

Imagem de São Sebastião na Cidade do Samba, Gamboa
Em companhia de Mem de Sá estava o Bispo da Bahia, D. Pedro Leitão. Concordaram ambos em que melhor seria que a cidade ficasse em lugar menos exposto, num monte. E fundaram-na de novo, em proporções maiores, no alto do que, a princípio, teve o nome de do Descanso [mais tarde denominado Morro do Castelo] porque a um descanso realmente semelhava nele ficarem os lutadores, vindos de tão duras vicissitudes na planície praieira. E batizaram-na de S. Sebastião do Rio de Janeiro em homenagem ao santo do dia da vitória recente e também sem dúvida ao seu jovem rei predestinado a viver, em breve, um dos dramas mais pungentes da história de Portugal, o da sua morte heróica em defesa da pátria e da fé em Alcácer Quibir [...]

Estátua de São Sebastião na Glória (fotos do editor do blog, exceto da obra de Denise Araripe, obtida no site do Atellier Villa Olivia)
14.1.10
RIO VISTO DO ALTO III

Bem no início de seu livro Centro (coleção Cantos do Rio da Editora Relume-Dumará), Antônio Torres descreve a vista deslumbrante do alto do edifício Conde Pereira Carneiro (Av. Rio Branco, 110 — 133 metros, 43 andares). Nunca subi ao alto desse prédio, nem sei se me deixariam entrar. Mas outro dia tive a oportunidade de subir ao vigésimo-sétimo andar de um prédio também alto e que não fica muito distante: o antigo prédio do Banerj, na Rua da Ajuda, com 115 metros e 34 andares, hoje ocupado por órgãos do governo do estado. Compartilho com vocês as fotos tiradas pelas janelas e trecho do livro do Antônio Torres.

Esplanada do Castelo (primeiro plano) e Baía da Guanabara. Observe (da esquerda para a direita) a ponte Rio-Niterói, Ilha das Cobras, Ilha Fiscal, um catamarã vindo de Niterói e o Albamar.

Edifício Cândido Mendes (o prédio grandão e pretão, com 154m), Igreja de N.S. do Carmo (à esquerda do prédio grandão, só se veem as duas torres) e a Ilha das Cobras atrás. No fundo dá para ver a Serra do Mar.
Trecho do livro Centro de Antônio Torres:
É aqui, da sacada do último andar, que o personagem desta história vai dar uma olhada na cidade, antes de partir para a sua caminhada até o Santos Dumont. O panorama visto de cima é apavorantemente fascinante. Entrecortado por arranha-céus tentaculares — entre os quais se destaca o megalômano Centro Cândido Mendes — , ao primeiro olhar já dá uma boa medida dos embates travados entre a construção civil e a natureza, desde que a cidade, fundada por Estácio de Sá no sopé do Pão de Açúcar no dia 1o de março de 1565, foi transferida por seu tio Mem de Sá para o morro do Castelo, em 1567. Tudo começa aí. E com 200 habitantes urbanos. Nas batalhas pela sua posse e ocupação, nem só os donos da terra — tamoios, tupinambás e tupiniquins — foram varridos do mapa. Mas também morros, lagoas, charcos, mangais, pântanos e pedaços do mar.
Cá estamos: com a respiração em suspenso e uma incontrolável tremedeira nas pernas. A contemplar, sobre telhados de amianto e antenas parabólicas, uma paisagem paradisíaca. A baía de todos os tráficos, porta de entrada de piratas, corsários, mercadores de escravos e tudo o mais que possamos imaginar. Barcos partindo e chegando, aviões descendo, carros passando sobre a maior ponte urbana do mundo. Aqui de cima há muito o que se mirar.
É aqui, da sacada do último andar, que o personagem desta história vai dar uma olhada na cidade, antes de partir para a sua caminhada até o Santos Dumont. O panorama visto de cima é apavorantemente fascinante. Entrecortado por arranha-céus tentaculares — entre os quais se destaca o megalômano Centro Cândido Mendes — , ao primeiro olhar já dá uma boa medida dos embates travados entre a construção civil e a natureza, desde que a cidade, fundada por Estácio de Sá no sopé do Pão de Açúcar no dia 1o de março de 1565, foi transferida por seu tio Mem de Sá para o morro do Castelo, em 1567. Tudo começa aí. E com 200 habitantes urbanos. Nas batalhas pela sua posse e ocupação, nem só os donos da terra — tamoios, tupinambás e tupiniquins — foram varridos do mapa. Mas também morros, lagoas, charcos, mangais, pântanos e pedaços do mar.
Cá estamos: com a respiração em suspenso e uma incontrolável tremedeira nas pernas. A contemplar, sobre telhados de amianto e antenas parabólicas, uma paisagem paradisíaca. A baía de todos os tráficos, porta de entrada de piratas, corsários, mercadores de escravos e tudo o mais que possamos imaginar. Barcos partindo e chegando, aviões descendo, carros passando sobre a maior ponte urbana do mundo. Aqui de cima há muito o que se mirar.

Praça Melvin Jones.

Avenida Rio Branco (só o traçado, a avenida propriamente dita não se vê).

Largo da Carioca, Convento e Igreja de Santo Antônio, Igreja de São Francisco da Penitência, Rua da Carioca (com a Praça Tiradentes no final) e Edifício De Paoli (à direita).

Está vendo a torre da Central do Brasil? À direita o edifício De Paoli.

Observe o aeroporto Santos Dumont.

Selva de Pedra (fotos do editor do blog; para ver outras postagens do Rio visto do alto, clique no marcador abaixo).
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