9.6.08

PARQUE DA CATACUMBA


Você conhece o Parque da Catacumba, na Lagoa? Pois é, o Rio tem tantos lugares bonitos que alguns (que em outras cidades seriam grandes atrações turísticas) até passam despercebidos. O Parque da Catacumba fica no local da antiga Favela da Catacumba, removida por Lacerda — na Lagoa, perto do Corte do Cantagalo (tem uma passarela e um posto de gasolina na altura do parque). Além de seguro (policiado pela guarda municipal) e muito bem cuidado (as fotos que tirei lá não me deixam mentir), abriga uma exposição permanente de esculturas ao ar livre e um espaço cultural com exposições de arte. E ainda por cima uma trilha conduz ao alto do morro, de onde se descortina uma linda vista (foto acima).




Caminhando num domingo de sol belíssimo pelo Parque da Catacumba com um casal de amigos, acabei soltando um "graaaande Lacerda!". O Parque da Catacumba, na Lagoa, só existe porque, nos anos 60, o então governador Carlos Lacerda despejou os moradores da favela do mesmo nome que ocupava o local e os distribuiu entre Vila Kennedy, Cidade de Deus e Guaporé-Quitungo. No lugar dos barracos foram plantadas as árvores que hoje verdejam a paisagem. Em 1979, o parque foi aberto para visitação.

Ando com a estranha impressão de estar me tornando reacionária com a idade. Meu amigo citou Churchill, dizendo que o destino do homem é ser revolucionário aos 20 e conservador aos 40. Nós nos perguntamos se, algum dia, acabaríamos fundando o Partido Reacionário Burguês (PRB). Sem o repressivo programa de remoção de Lacerda, o Parque da Catacumba provavelmente teria se transformado numa segunda Rocinha. É difícil para alguém que recebeu uma educação libertária defender políticas violentas como as de Carlos Lacerda. Por outro lado, o crescimento desmedido das favelas e a falta de controle do estado fazem o "Ah... saudoso Lacerda..." vir à mente vez por outra.

(Trecho da crônica de Fernanda Torres "A catacumba", publicada na Veja Rio de 11/6/08. Leia a crônica completa clicando aqui. A frase atribuída a Churchill na verdade foi de Willy Brandt: "Quem aos 20 anos não é comunista, não tem coração; e quem assim permanece aos 40 anos, não tem inteligência." Aliás, atribui-se a Juraci Magalhães frase mais vulgar, mas que no fundo diz a mesma coisa: "Quem não foi comunista quando jovem não viveu; quem continuou comunista depois de se tornar maduro é um bobo." )





Quem passa de carro pelas pistas da Lagoa costuma notar as esculturas que enfeitam o Parque da Catacumba: são 32 obras de artistas como Franz Weissman e Bruno Giorgi. Menos gente sabe que o parque guarda uma trilha bem sinalizada, curta mas íngreme, que premia aqueles com fôlego de encarar uma subida de 350 metros com vista deslumbrante da Lagoa. Com 31 hectares um tanto acidentados, a unidade de conservação vai ganhar equipamentos para esportes como arborismo, rapel e tirolesa, além de lanchonete e loja de suvenires. "Trata-se de um circuito de ecoturismo", descreve o subsecretário municipal de Meio Ambiente, David Lessa. "É muito cara a manutenção desse parque para ter apenas algumas pessoas no gramado olhando esculturas." A secretaria calcula que passem por ali 7.200 visitantes por ano. "Com novos investimentos, poderemos criar outras atrações para a cidade", diz Rubem Medina, secretário especial de Turismo.

(Trecho da matéria de Livia de Almeida "Verão Radical", publicada na Veja Rio de 20/8/08. Leia a matéria completa clicando aqui.)






Fotos do Parque da Catacumba tiradas pelo editor do blog.

2 comentários:

Nelly disse...

Fico encantada com vc. Adora esse nosso Rio de Janeiro que está se acabando, mas ainda o escritor maravilhoso consegue descobrir coisas tão lindas esquecida por todos nós. (enviado por e-mail)

Pat disse...

Além de abrigar flora da mata atlântica possui uma vista singular da praia de Ipanema e da Lagoa. Com a obra os saguís foram embora. Diz o poder público que a manutenção é muito cara para mantê-lo apenas como opção de lazer junto a natureza para os moradores e visitantes da cidade. Os impostos por nós pagos também são. Então, foi aberto para exploração comercial sem qualquer consulta pública, prevalecendo o interesse privado, diga-se, do grupo selecionado. Mas uma vez a sociedade não se mobiliza,salvo pequeno grupo, nem para fiscalizar a regularidade da obra. É notório o seu desinterese social, é comum a busca exclusiviva pelos interesses particulares. Fica a impressão de que a sociedade carioca é uma só....